Quando estive na interessante villa de Torres Vedras lembrei-me de
visitar archivos, que é onde se encontram reunidos mais documentos
authenticos da vida local.
Para alguma cousa ha de servir isto de ler lettras antigas, a
paleographia; porque vêr archivos e cartorios sem os entender é inutil.
Manuel Agostinho Madeira Torres na--_Descripção historica e economica
da villa e termo de Torres Vedras_--, falla de antigos documentos, e
na 2.ᵃ edição da sua obra os editores deixaram muitas notas em que se
referem a velhos pergaminhos e papeis dos cartorios da villa.
A vida antiga, as phases sociaes, as instituições, a evolução
historica, tudo apparece nos archivos a quem tiver paciencia de
manusear com attenção codices e avulsos arrumados, quantas vezes
esquecidos, desprezados, tristes, poeirentos, nos seus armarios.
Agora que tanto se falla de sociologia esses archivos teem ainda
maior importancia; antes os estudiosos procuravam especialmente os
grandes acontecimentos e as vidas dos grandes vultos, attende-se
presentemente tambem á evolução das instituições, ao viver dos povos,
ás manifestações moraes das classes menos brilhantes. Divaguei,
pois, algumas horas pelos archivos de Torres Vedras, e vou escrever,
condensando muito, do que vi.
Comecei pelo archivo da Camara Municipal, que está installado em
armarios, n’uma casa ampla com muita luz.
Vi lá uma peça de primeira ordem, o Foral da villa, dado por D. Manuel.
O primeiro foral foi concedido por D. Affonso III em 1250, e
conserva-se na Torre do Tombo.
Do foral de D. Manuel está o original em Torres, e bem conservado,
lindamente escripto em pergaminho.
Percorri tambem alguns livros de actas da camara, bella série que
começa em tempo d’el-rei D. Sebastião. Estes codices são importantes,
porque não se contentaram em lavrar actas, mas incluiram o registo de
documentos de maior significação. Ora o municipio e comarca de Torres
foram de grande importancia em tempos volvidos, com a especialidade
proveniente da preponderancia da Casa das Rainhas. Assim encontrei alli
noticias de Santarem, Alemquer, etc., que não esperava achar; assim,
por exemplo, foi o corregedor de Torres que em 1640 teve o encargo
de regular a segurança e a administração em Cascaes, Alemquer, etc.,
terminado o dominio hespanhol.
Do tempo dos Filippes estão registados muitos documentos sem duvida
valiosos.
Como se vê, o archivo municipal de Torres contém dados de valor para a
historia do municipio e para a politica geral do paiz.
E mais, é claro, os que importam á vida municipal, os
economico-administrativos, os que se referem a obras publicas, viação,
preços de generos, etc.
Visitei tambem o archivo da Santa Casa da Misericordia.
Se entro sempre com respeito n’um archivo municipal, que é onde está o
documento do homem, rico ou pobre, nobre ou plebeu, entro com veneração
e amor n’um cartorio de Casa de Misericordia: alli está a vida do
pobre, do enfermo, do engeitado, do encarcerado; alli está a meu vêr
a instituição mais gloriosa que tem o povo portuguez. A beneficencia
moderna nas suas multiplas manifestações não attinge a perfeição d’esse
maravilhoso instituto que corresponde perfeitamente ás necessidades
sociaes.
O livro mais antigo que vi data de 1608. Vi livros de tombos, accordos,
receita e despeza, compromissos, e de enterros. Ha um Tombo grande,
que é um formidavel infolio, do tempo de D. João V. Tem medições de
propriedades urbanas e ruraes que o tornam precioso. N’este volume está
a descripção minuciosa da egreja e Casa da Misericordia, feita em 1730.
No termo de Torres havia hospitaes e albergarias na idade média, no
Amial, Carvoeira, Turcifal, S. Gião, Ribaldeira, Azueira, S. Mamede e
Dois Portos.
É extraordinario o que se fez em Portugal no ramo de beneficencia
publica, nos primeiros seculos da monarchia. Creio que foi no seculo
XVI, principalmente, que se realisou a concentração nas Misericordias
de todas essas pequenas instituições, albergarias, gafarias, etc. De
todas vi noticias no archivo da Misericordia.
Finalmente fui vêr, na amavel companhia do Prior, o archivo de Santa
Maria do Castello. Esta notavel egreja, antiga capella real, conserva
ainda o seu archivo! é caso raro em Portugal. Porque os archivos
parochiaes, quasi todos, foram concentrados pelos prelados, e jazem
ignorados nos Seminarios, alguns sem a minima organisação. Este lá
está nas suas arcas velhinhas, conservado e limpinho, amado pelo digno
parocho. Vi lá pergaminhos do seculo XIV, do bom rei D. Diniz, de 1307
um d’elles, e muitos dos seculos XV e XVI. É bem singular um archivo
parochial com os seus velhos livros, amarellecidos pelo tempo, dos que
nascem, dos que se casam, dos que morrem; dos que passaram n’este mundo
de esperanças, de alegrias, de soffrimentos.