A pouca distancia, uns tres kilometros, a poente de Torres Vedras
fica o convento do Varatojo; é um bonito passeio a pé, atravessando
a varzea, e subindo lentamente a vereda, descobrindo successivamente
aquella região de serras e cabeços, em grande parte vestida de
vinhedos, agora n’este mez d’agosto, mui viçosos.
Em trem, o caminho é mais longo, por causa de grande rodeio, seguindo
pelo campo do Amial, onde ha uma ermida muito antiga e interessante,
cortando depois os campos do Paul, e subindo a encosta por estrada
um tanto ingrata; a estrada nova cheia de covas e poeira, a antiga
coalhada de calhaus.
No convento vi a porta ogival da egreja, tendo aos lados as armas de
Portugal, e o _rodizio_ emblema adoptado por Affonso V; o claustro,
bem conservado; os portaes da casa chamada dos retratos que são do
tempo de D. Manuel; a torre dos sinos de ventanas ogivaes, assim como o
portal de um pateo interior; vi pinturas em madeira, um frontal de seda
bordada de origem italiana, me pareceu, e, n’uma pequena dependencia da
sacristia, entre variados objectos, uma cadeira extraordinaria!
É tradição antiga ter esta cadeira servido a D. Affonso V, quando
visitava aquella casa. Como me disseram que ninguem a desenhara eu
tirei um rapido esboço. Póde ser de Affonso V, e até anterior; é em
carvalho, e está menos mal conservada; algum caruncho, mas mostra-se
ainda nitido o relevo decorativo; lembra logo o estylo da Batalha. É
uma cadeira do seculo XV, uma joia do mobiliario portuguez. No _Havard_
[2] vem o desenho de um exemplar quasi egual; cadeira de armario ou
cofre, de braços, espaldar direito, ornamentação ogival, exactamente
como no esplendido movel do Varatojo. Lá se tem conservado a veneravel
reliquia e está lá muito bem, ligada pela tradição historica, mas seria
bom fazer uma reproducção para o Museu das Bellas-Artes, onde abundam
os exemplares de mobiliario portuguez, formando séries importantes; mas
falta aquella cadeira--avó, unica, segundo creio, em Portugal.
[2] _Dictionnaire de l’ameublement et de la décoration._