Ermida e forte de S. Vicente

A ermida de S. Vicente fica a norte de Torres Vedras; cousa de tres

kilometros do centro da villa ao alto da collina. Chega-se á varzea

arborisada do Amial, passa-se o rio Sizandro, a ermida de Nossa Senhora

do Amial, e do adro d’esta ermida parte uma vereda que vae trepando

pela vertente, e dando volta, de modo que offerece vistas variadas da

villa, que tem bonito aspecto, do seu vetusto castello, conjuncto de

paredões, muralhas e cubellos ennegrecidos pelo tempo, e da multidão

de collinas, quasi todas vestidas de vinhedos viçosos, salpicadas

de casaes. O cume de S. Vicente está bastante superior ao castello,

e ás collinas proximas, dominando largo terreno. Depois do corpo de

S. Vicente entrar na sé de Lisboa houve milagres varios, e um dos

devotos favorecidos foi um homem de Torres Vedras que lhe edificou uma

ermidinha em agradecimento. É certo que no começo do seculo XIII já

alli estava uma ermida; tão certo como não estar lá, á vista, um unico

lavor ou lettreiro, nem do seculo XVII. Mas ha documentos; e bocados de

pergaminho bem guardados duram mais que alvenarias expostas a pilhagens

e bombardeamentos.

Na ermida venerava-se uma imagem de S. Vicente, agora na pequena egreja

do Amial, e ha tradição de grandes festas que o povo torreense ahi

celebrava. Arruinou-se, reconstruiu-se, e voltou o abandono; agora

dormem alli pastores e cabras; se lá estão ainda algumas cantarias é

pela difficuldade do transporte.

Termina a vereda n’uma passagem empedrada sobre um fosso, vê-se ainda

bem o relevo da trincheira entre arbustos e silvados, depois a ermida

toda em ruina e esburacada; a capella redonda tem uma pequena cupula

de ar mourisco; junto da ermida havia casebres, casa do ermitão e

albergue de romeiros; telhados cahidos, montões de entulho; silvados

e carrasqueiros bravios; depois da ermida um planalto talvez de 60

metros de diametro, ahi dois moinhos de vento antigos, em ruina; em

volta quatro grandes espaldares erguidos, de 2 metros de altura, por

10 de comprimento; na borda do planalto as baterias, os reductos; as

canhoneiras ainda com o pavimento lageado, os perfis em alvenaria

solida; reconstitue-se ainda perfeitamente a celebre fortificação.

Todos teem ouvido fallar das famosas linhas de Torres Vedras que

defenderam Lisboa contra a invasão franceza do commando de Massena. A

primeira linha fortificada dividia-se em tres districtos: 1.ᵒ Torres

Vedras, 2.ᵒ Sobral de Monte Agraço, 3.ᵒ Alhandra.

Dois pontos estavam especialmente fortes, eram os _fortes grandes_, S.

Vicente, e o da Serra do Arneiro.

O de S. Vicente tinha 39 canhoneiras, e estava artilhado com 23 peças

de calibre 6, 9 e 12, e mais 3 obuzes. Podia abrigar 4:000 homens. Além

dos reductos vejo uns vallados afastados para norte que me parecem

pequenas trincheiras para abrigo de atiradores. O ponto era, e é ainda,

importantissimo porque descobre os caminhos em grande extensão.

Outros fortes menores se agrupavam a este, formando um conjuncto

respeitavel; nas grandes collinas de Olheiros, Outeiro da Forca, Sarges

(outros dizem Ságes) e Ordasqueira havia reductos; formavam um campo

fortificado.

Em dezembro de 1846 encontraram-se em Torres Vedras, tropas do Bomfim

com as de Saldanha, houve combate sanguinolento, com episodios

terriveis, no dia 22; Saldanha tomou o forte de S. Vicente: Bomfim

encurralou-se no castello, e começou a atirar para lá com a sua peça e

o seu obuz; e esburacou a ermida. Na varzea do Amial houve encontro de

cavallaria, e a de Saldanha, muito superior em numero, acutilou ahi,

mesmo no adro da ermida, a da Junta do Porto.

Ahi n’esse adro do Amial, estão enterrados setenta e tantos cadaveres

dos fallecidos em combate, na lucta brava da cavallaria, e no ataque de

S. Vicente.

Depois da batalha, a ermida ficou em ruina, a villa soffreu immenso, e

ninguem pensou mais em concertar o templosinho.

Trouxeram a imagem de S. Vicente, que escapou á batalha e ao

bombardeamento para a ermida do Amial. E lá está, muito tristinha e

abandonada, n’aquelle interessante templosinho, ao pé de outra imagem

historica, a da Senhora de Rocamador. Merecia a pena dar alguma

attenção ao Amial, e tornar mais facil a vereda para S. Vicente; é um

dos melhores passeios nos arredores de Torres Vedras, a vista é linda,

e é um d’estes sitios raros onde se allia a bellezas naturaes o encanto

de recordações da historia patria.

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 49 / 72 题