Em rapida visita que fiz, ha pouco, a Torres Vedras, chamaram-me a
attenção os quadros em madeira, antiga pintura, que vi em differentes
egrejas.
Torres Vedras foi villa das rainhas, alli viveram familias nobres,
houve paços reaes e casas religiosas importantes.
Já no seculo XIII as egrejas de Santa Maria do Castello, de S. Pedro,
de S. Miguel e de S. Thiago existiam, como se vê das inquirições de
Affonso III. Isto mostra que a villa era importante já na edade média,
e explica um tanto a existencia de um numero relativamente consideravel
de pinturas antigas. Só mencionarei as que me despertaram mais a
attenção.
Ha alli pinturas de varios pinceis e épocas, umas anteriores á
renascença, algumas do inicio d’essa época, outras do meiado do seculo
XVI.
Na egreja de Nossa Senhora do Amial vi quatro quadros grandes,
representando S. Paulo, S. Pedro, S. Lourenço e S. Sebastião.
Na sacristia de S. Pedro estão tres quadros em madeira; um d’elles, a
Annunciação, muito lindo e em bom estado.
Na egreja, sobre o arco do cruzeiro, está um painel grande,
representando S. Pedro, retocado modernamente.
Na egreja da Graça, na segunda capella á direita, seis quadros
pequenos, um tanto sujos mas não arruinados; muito interessantes.
Ha um pouco de renascença nas construcções, voltas redondas nas
arcadas, apenas.
Figuras principaes sem ornatos, mas as secundarias vestidas á época,
grandes e plebeus, damas da côrte, mulheres humildes, com os seus
trajos proprios, muito minuciosa e galantemente indicados.
Representam: o Presepe, Adoração dos Reis, Annunciação, a Virgem e
Santa Isabel, S. José e Nossa Senhora, o Transito de Nossa Senhora.
Os rostos, muito finamente tocados, parecem retratos, nos vestuarios
não ha phantasias, o pintor reproduziu o que tinha á vista; mesmo
o agrupamento, a composição dos quadros, agrada. Tem um lindo tom;
limpando um pouco, com o lenço humedecido, um cantinho de uma d’estas
pinturas appareceu logo o tom de esmalte que, infelizmente, tantos
outros perderam.
Esses seis quadrinhos são bem notaveis.
Na capella-mór da egreja do Varatojo vi quatro grandes paineis, bem
conservados: Annunciação, Jesus resuscitado, Adoração dos Reis e
Adoração dos pastores. Devem ser parte de uma série. Não lhes vejo
relação com as séries do Museu de Bellas-Artes.
Na ante-sacristia, o Presepe, quadro pequeno; na sacristia, um Milagre
de Santo Antonio e a Descida do Espirito Santo, paineis de grandes
dimensões e em bom estado.
Em Santa Maria do Castello ha pinturas antigas em madeira, no corpo da
egreja e na sacristia; estes ultimos são quadros menores, representando
os episodios classicos da paixão; soffreram retoques pouco felizes; o
que nelles mais padeceu foi o colorido.
O desenho das figuras; o aspecto, merece nota; tem um tom archaico;
lembraram-me muito umas pinturas que existem no Museu das Janellas
Verdes, em que os bigodes apparecem meio-rapados e as barbas com um
córte especial.
Todos estes paineis, que vi em Torres Vedras, me parecem de origem
portugueza, com ligeiras, attenuadas reminiscencias de influencia
flamenga, e com pequena parte, ou nenhuma, do renascimento; por isto os
achei importantes para a historia da pintura portugueza.