Biographia da infanta D. Maria

A Infanta D. Maria tão illustre pelo dote da formosura, como pelo

engenho, erudição, graça, e todo o genero de heroicas virtudes, que a

constituiram uma das mais recommendaveis princezas do seu seculo, foi

filha d’El-Rei D. Manoel, e da Rainha D. Leonor de Austria sua 3.ᵃ

mulher. Seu nascimento foi na cidade de Lisboa, em sabbado 8 de junho

de 1521 nos paços da Ribeira; e a 17 do mesmo mez foi baptizada pelo

Arcebispo de Lisboa, D. Martinho Vaz da Costa, escolhendo El-Rei seu

pai para padrinho em nome de Carlos III, Duque de Saboia, o Barão de

S. Germano, Senhor de Balaison, enviado então por Embaixador a este

Reino para solicitar o cazamento da Infanta D. Brites com o dito Duque;

e madrinhas a mesma Infanta D. Brites e D. Isabel suas meias irmãs.

Com a morte d’El-Rei seu pai no mesmo anno de 1521, e por se auzentar

para Castella a Rainha sua mãi deixando-a ainda no berço, foi entregue

para ser educada em idade competente á direcção da Rainha D. Catharina

sua tia, tanto que chegou a este Reino, de cuja escola saiu eminente.

Como era dotada de estranha viveza, memoria, e grande juizo aprendeu

com facilidade as linguas especialmente a Grega, e a Latina que soube

com perfeição, e escreveu com tanta propriedade como se lhe fôra

natural e materna. Teve por mestres a insigne Dama Toledana Luiza Segéa

exquizitamente douta em muitas linguas, e raro prodigio de sciencia,

que mereceu ser celebrada dos maiores letrados d’aquella idade; e a Fr.

João Soares de Urró da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, depois

Bispo de Coimbra, que tambem o foi dos Principes D. Filippe, e D. João

seus sobrinhos.

Ao contar dezaseis annos El-Rei D. João III seu irmão lhe deu caza

propria, e separada do paço Real, composta das principaes pessoas do

Reino: a qual com riquissimo dote, que seu pai lhe deixou, foi de

tão grande renda e estado, que para ser igual á das maiores Rainhas

da Europa não lhe faltou mais, que haver o nome de uma d’ellas. Foi

Senhora de Vizeu, e de Torres Vedras de juro, e teve por El-Rei D.

João III seu irmão muitas mercês, e privilegios, e consta por alguns

Documentos que se guardam no Real Archivo, como são: uma carta em data

de 26 de janeiro de 1545, em que se lhe concedem de padrão de juro

e herdade cinco contos de réis, em virtude do contracto feito com o

mesmo Rei D. João III que se acha inserto; e duas cartas expedidas á

mesma Senhora Infante de privilegios, e jurisdição de suas terras, e

sobre as fintas, e provimentos dos officios d’ellas em data de 2 de

novembro do mesmo anno: o primeiro no Livro da Chancellaria do dito

Rei a fol. 25, e os segundos no Livro 43 fol. 9, vers. e 14 verso.

Creou n’este paço particular uma verdadeira Universidade de mulheres

illustres em todo o genero de Sciencias e Artes, de que foi especial

protectora; pois não só se encontrava quem se désse á lição dos Livros,

e tocasse déstramente differentes instrumentos, mas quem com o pincel,

e com a agulha procurasse nos primores da Pintura, e lavôr virtuosa

emulação e seguisse os outros louvaveis exercicios: aos quaes ajuntava

com tal reverencia, e edificação a pratica dos actos de piedade em

todo o genero de virtudes, pela direcção de Fr. Francisco Foreiro,

lustre da Ordem Dominicana, que parecia menos Paço Real, que Mosteiro

reformado, que podia ser a Religiosas espelho, e doutrina de bem

viver. Pela fama de tão Reaes qualidades foi pretendida para Espoza

dos maiores Principes da Europa, como foram: o Delfim de França, filho

de Francisco I; o Duque de Orleans, irmão do mesmo Delfim, a quem o

Imperador Carlos V promettera a investidura do Ducado de Milão, ou do

Condado de Flandres; e não se effeituando nenhum d’estes cazamentos,

por morrerem ante tempo ambos estes Principes, El-Rei D. Fernando

de Ungria, Rei dos Romanos, e depois Imperador enviou Embaixador a

Portugal pedindo-a por mulher de Maximiliano seu filho; e ultimamente

Filippe II de Hespanha, logo que enviuvou da Rainha D. Maria de

Inglaterra. Permaneceu todavia até á morte no estado de Donzella, que

havia consagrado a Deos com generoza rezolução, preferindo mais o amor

da quietação de seu espirito, que a cobiça de reinar. No anno de 1558,

sendo ja fallecido El-Rei D. João III, por comprazer aos dezejos da

Rainha D. Leonor sua mãi que procurava anciozamente vê-la, se foi por

Elvas a Badajoz com luzido acompanhamento; e demorando-se ahi com ella

por espaço de vinte dias, e com a Rainha D. Maria de Ungria e Bohemia

sua tia, que a receberam com muitas festas de prazer, se tornou para o

Reino. Determinada a não sair de Portugal, e a não admittir propostas

de despozorios continuou em religiozos exercicios praticando obras de

muito louvor, como foram: a edificação do Convento magnifico de N.

Senhora da Luz da Ordem de Christo, que dotou riquissimamente, com a

grande obra do Hospital que lhe ficava fronteiro; o Mosteiro de Santa

Helena do Calvario em Evora; o Convento de N. Senhora dos Anjos (mais

conhecido hoje pelo convento do Barro), de Capuchos Arrabidos, junto

da Villa de Torres Vedras, na qual teve ella seu palacio; e o Mosteiro

de S. Bento na Villa de Santarem; e deixou em seu Testamento, com que

se edificasse Mosteiro para as Commendadeiras de S. Bento de Aviz, que

se fez em Lisboa com a invocação, como ella ordenára, de N. Senhora

da Encarnação. Fundou mais a Igreja Parochial de Santa Engracia de

Lisboa, alem de outras muitas obras de piedade em outras Igrejas, como

no Convento da Graça da Ordem de Santo Agostinho, em que assistia

muitas vezes com sua prezença e esmollas, quando vivia no Palacio

do Castello, a Imagem da Senhora, cujo corpo mandou cobrir de prata

primorosamente lavrada, e lhe mandou fazer Capella; e no Real Mosteiro

de S. Bento, que então se fabricava, mandou fazer a Imagem grande

deste Santo, que se vê no altar mór, e adornar sua Capella, e a de

outros altares; e por via do Embaixador de Portugal na Côrte de Roma

obteve uma Reliquia do mesmo Santo, que he uma parte da que estava no

Mosteiro de S. Paulo daquella Cidade, para enobrecer este Mosteiro, e o

de Santarem. Foi a Senhora D. Maria, como universal herdeira da Rainha

D. Leonor sua mãi, Senhora Soberana de juro do Senescallado de Agenois

em Gascunha, e dos opulentos Dominios de Verdum, e Rieux na Provincia

de Languedoc; e alem de muitas baixellas de ouro, prata, joias de

grande valor, de cem mil escudos que lhe pagavam os Reis de França, e

Castella. Sua morte foi no anno de 1577 a 10 de outubro em idade de 56

annos, nos seus paços da Cidade de Lisboa extramuros junto do Mosteiro

de Santos, deixando de si unico exemplo a todas as altas Princezas de

virtude e honestidade. Tinha disposto de sua ultima vontade, como se

podia esperar de sua muita sciencia, e Christandade, por Testamento de

17 de Julho do mesmo anno de 1577, e Condicillo de 31 de Agosto que

fez approvar a 8 de Setembro, o que mais convinha a sua consciencia,

determinando muitas obras de piedade por todo o Reino com grandes

soccorros para pobres, viuvas, donzellas, orfãos, enfermos, e cativos

com tamanha profusão que não houve quazi genero de pessoa, que não

experimentasse a caridade, e mizericordia desta Princeza, sem faltar em

nada á familia de seus criados, e a todos a quem por qualquer via era

devedora de serviços passados, que a todos satisfez larguissimamente:

e emquanto a seu enterro foi a primeira clauzula, que se acabasse sua

vida, primeiro que estivesse concluida a Capella de N. Senhora da

Luz no Convento dos Padres de Christo, que ella havia destinado, e

mandára edificar para seu jazigo, a depozitassem, emquanto se acabava,

no Mosteiro da Madre de Deos de Lisboa. Seu corpo foi depozitado no

Capitulo do dito Mosteiro da Madre de Deos, junto da Rainha D. Leonor,

mulher do Senhor Rei D. João II, e celebraram-se-lhe exequias com

grande pompa, como convinha á grandeza de sua pessoa, com assistencia

d’El-Rei D. Sebastião oito mezes antes de partir para Africa, do

Cardial D. Henrique, e de todos os grandes do Reino. Sendo passados

quazi vinte annos, por determinação de Filippe I foi trasladada para a

sobredita Capella de N. Senhora da Luz a 30 de Junho de 1597. Jaz em o

pavimento da Capella mór, em sepultura pouco levantada no meio della,

e sem nenhuma letra, ou diviza, symbolizando-se por este signal de

humildade a muita que esta Princeza guardou em seu coração por toda a

vida. No meio do Cruzeiro ao lado do Evangelho se lê em pouca altura

na parede uma Inscripção, gravada de letras pretas romanas em uma pedra

de marmore branco de tres palmos de alto, e cinco de largo, a qual diz

assim:

* * * * *

--A Capella moor deste Mosteiro de N. Senhora da Luz e este Cruzeiro

são da sepultura da Serenissima Infanta Dona Maria que Deos tem filha

d’El-Rei Dom Manoel, e da Rainha Dona Lianor sua mulher na qual Capella

e Cruzeiro se não dará sepultura a pessoa alguma de qualquer calidade

que seja nem em tempo algum se fara nhum Deposito nem nhum litereiro

por assi estar asentado por Sua Magestade e por contrato solene e

celebrado que se fez co o Padre Prior e Padres desta Casa confirmado

pelo Padre Dom Prior e mais Padres do seu Convento de Tomar cujo

trelado esta na Torre do Tombo e nesta Caza de Nossa Senhora. Faleceo a

dez Doutubro de 1577.--

Esta biographia vem na obra--_Retratos e elogios dos varões e donas,

que illustraram a nação portugueza._ (Lisboa, 1817).

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 40 / 72 题