(1898)
Março de 1898.
Por tristissimo incidente na minha vida tendo de passar uma temporada
em Carnide, onde a amabilidade de uma familia excellente nos quiz
espairecer da fatalidade brutal que nos feriu, eu, seguindo a velha
tendencia do meu animo, comecei de indagar historias, e dar passeios
pelas azinhagas solitarias; os largos passeios pelos campos que são a
melhor fórma de isolamento doloroso.
Muito naturalmente, para esclarecimento, consultei alguns livros; o
primeiro que abri causou-me admiração; foi o _Diccionario Popular_
publicado sob a direcção de Pinheiro Chagas.
--É sitio procurado no verão por alguns habitantes da cidade, que ali
vão convidados pela sua amenidade. Gosa o logar egualmente de reputação
de bons ares e abundancia de aguas, bem como alegre posição. Manda
a verdade que se diga que o logar é detestavel, formado por algumas
duzias de casas insalubres, dispostas em arruamentos sujissimos, para
os quaes se fazem todos os despejos, e não tem passeios, nem jardins,
nem quintas, nem arvoredos, nem bons pontos de vista. As aguas são
extremamente escassas e os ares, por muito bons que podessem ser,
resentem-se das más qualidades do sitio. Ainda assim o logar grangeou
fama immerecida, e varias familias de Lisboa o procuram para terem dois
mezes de campo! São gostos!--
Ora a verdade é que o sitio de Carnide me impressionou agradavelmente
com as suas largas vistas, brilhantes, matizadas de verdes, as suas
graciosas quintas, as suas azinhagas quietas entre vallados de
madresilvas, caniços, heras, roseiras, pilriteiros e congossas nas
juvenis florescencias do começo de primavera.
E abri outro livro.
Foi a _Corografia Portugueza_ do bom padre Antonio Carvalho da Costa
(Lisboa, 1712), que no seu tomo 3.ᵒ trata de Carnide, mui brevemente.
Menciona a egreja parochial de S. Lourenço. Diz que o seu cura era
apresentado pelos priores do convento de Nossa Senhora da Luz e que o
logar tem oitenta visinhos com nobreza, duas ermidas, e muitas quintas
com uma fresca alameda: e relaciona os conventos.
A alameda fresca é sem duvida a do largo da Luz.
Recorri logo ao Pinho Leal, no seu _Portugal antigo e moderno_, enorme
trabalho com algum joio, é verdade, mas onde o corajoso colleccionador
archivou muita noticia de valia.
--Carnide, freguezia no districto de Lisboa, concelho de Belem (hoje é
freguezia de Lisboa), a seis kilometros a NNO. de Lisboa.
Tem 260 fogos.
Em 1757 tinha 250 fogos.
É freguezia muito antiga, pois já existia em 1394.
A maior parte é situada em fertil e saudavel campina, com lindas
vistas. Orago, S. Lourenço.
O cura era da apresentação do prior da Luz, da Ordem de Christo, depois
passou a ser vigario collado perpetuo, com 80$000 réis de renda.
A egreja de Nossa Senhora da Luz foi fundada por 1540, pela infanta D.
Maria, filha d’el-rei D. Manuel e de sua terceira mulher D. Leonor. A
fundadora está sepultada na capella-mór.
O terremoto de 1755 damnificou muito esta egreja; existe apenas (agora
em bom estado, depois da obra recente que ali se fez) a capella-mór e o
cruzeiro.
Continúo a seguir o Pinho Leal.
Convento de freiras carmelitas descalças de Santa Thereza: é antigo,
foi reedificado pela infanta D. Maria, filha natural de D. João IV, por
1680.
Frades carmelitas descalços, de S. João da Cruz, fundado pela princeza
Michaela Margarida, filha de Rodolpho II, imperador de Allemanha, por
1642, que n’elle está sepultada (nem o imperador se chamava Rodolpho; e
a pobre princeza está sepultada no convento de Santa Thereza, como logo
contaremos). A infanta D. Maria, filha de D. João IV, viveu aqui (no
convento de Santa Thereza) de 1649 até 1693. Foi mestra da infanta D.
Luiza, filha bastarda de el-rei D. Pedro II.
Esta D. Luiza foi reconhecida por D. João V, que a casou com D. Luiz
Alvares Pereira de Mello, duque de Cadaval; por morte d’este casou
com D. Jayme, seu cunhado, que ficou sendo duque de Cadaval, porque o
primogenito morreu sem geração.
A infanta D. Maria, filha natural de D. João IV, veiu para aqui de
tenra idade. Reedificou a egreja e o mosteiro, ampliando muito o
edificio. Viveu recolhida sem professar. O reconhecimento como filha
do rei foi feito solemnemente na presença da familia real e da côrte,
no mosteiro. Esta senhora era muito estimada; as rainhas D. Luiza de
Gusmão, mulher de D. João IV, D. Maria Francisca Isabel de Saboya e
D. Maria Sophia de Neubourg a visitavam muito. O irmão, D. Pedro II,
encarregou-a da educação da filha, D. Luiza, que depois foi duqueza de
Cadaval.
* * * * *
A procissão dos Passos de Carnide faz-se na 5.ᵃ dominga de quaresma
(este anno, 1898, foi em 27 de março).
A conhecida feira da Luz, com arraial e festa, é nos dias 7 e 8 de
setembro.
O cirio do Cabo visitou Carnide pela primeira vez em 1437.
Carnide está na 7.ᵃ ordem do giro. Em 1795 houve festa ruidosa porque
tomaram parte no cirio o principe D. João (depois D. João VI) e sua
mulher D. Carlota Joaquina.
A Senhora do Cabo tem capella propria na egreja da Luz, na capella-mór,
á esquerda; ainda ahi existe um formoso frontal, com o brazão da
infanta D. Maria.
Vamos ouvir o Padre Luiz Cardoso, no seu _Diccionario Chorographico,_
que infelizmente ficou incompleto. Este escreve em 1751:
--Na egreja de S. Lourenço ha cinco altares, o maior, o de N. S.ᵃ do
Rosario, o de Christo crucificado, o de S. Miguel, e o de Jesus Maria
José. Havia então tres irmandades: a do Senhor, a de N. S.ᵃ do Rosario,
e a das Almas.
Tem (tinha) a freguezia mais as ermidas do Espirito Santo, a de S.
Sebastião e a de N. S.ᵃ da Assumpção na quinta de José Falcão de
Gamboa, hoje o casal do Falcão.
A fonte de N. S.ᵃ da Luz, antigamente da Machada, divide-se em duas, a
fonte de dentro e a de fóra.
A de dentro está sob o altar-mór, a agua no sabor é grossa e salobra
mas mui sádia, e principalmente contra a pedra tem especial virtude,
e não consta que filho algum da terra padecesse semelhante achaque ou
outra qualquer pessoa que d’ella usasse.--
* * * * *
O _Santuario Mariano_ de fr. Agostinho de Santa Maria é repositorio
de muitas informações, porque este extraordinario devoto de Nossa
Senhora a proposito das imagens que descreve, dá noticias das egrejas e
localidades onde se veneram.
No tomo I, pag. 98, escreve da imagem de Nossa Senhora da Luz em
Carnide: e conta de como antes de 1463 foi captivo em Africa Pedro
Martins, natural de Carnide; este homem teve sonhos milagrosos, fez
promessas, e conseguindo livrar-se do captiveiro mourisco voltou á sua
patria, onde já existia a fonte do Machado, e edificou a ermida. A
fundação foi solemne, porque a ella assistiu D. Affonso V. É provavel
que este Pedro Martins fosse algum antigo companheiro d’armas d’el-rei
D. Affonso V, que a historia denominou o Africano, por causa das suas
arrojadas emprezas e valentes brigas no Algarve d’além-mar. Pedro
Martins collocou na ermida, em agradecimento, os grilhões do captiveiro.
A infanta D. Maria, filha de D. Manuel, fez a nova egreja em 1575.
A pag. 411 do mesmo tomo o padre Cardoso refere-se á imagem de Nossa
Senhora da Conceição, do côro do convento da Conceição no sitio de
Carnide (depois em Arroyos), sem dar noticia importante.
Fr. José de Jesus Maria, na _Chronica de Carmelitas descalços da
Provincia de Portugal,_ tomo III, pag. 147, acha o logar de Carnide
situado em campo alegre e de ares puros, e cercado de muitas e curiosas
quintas que servem igualmente para o lucro e ao recreio.
Compõe-se o logar de 264 visinhos (elle escreve em 1753).
Falla do convento da Conceição que na sua quinta fundou Nuno Barreto
Fuzeiro.
Do convento de Santa Thereza, nobilissimo seminario de infantas e
senhoras... onde tantas vezes chegou a pobreza, a ponto de ás vezes não
terem de comer.
Mas as freiras tinham grande repugnancia em pedir; esperavam até á
ultima; nada havendo, nem a esperança, tocavam uma sineta, a sineta da
fome, pedindo soccorro. O mesmo succedia com as freiras do Calvario
em Evora; tinham tambem o toque da fome. Quando nada havia, nem se
esperava, iam para o côro, entoavam as suas rezas ao som do triste
signal. Por vezes, no convento de Carnide, houve coincidencias que
pareceram milagres. Uma vez ia a pobre soror, meio desfallecida,
começar o signal da fome, quando bateram estrondosamente á portaria.
Era um presente de atum assado que mandava a duqueza de Aveiro.
Outra vez appareceram uns navegantes, salvos de grande tormenta no
mar, com uma esmola de 20$000 réis.
Em 1646 se dispôz a madre priora Michaela Margarida de Sant’Anna a
lançar a primeira pedra do convento novo. Foi o duque de Aveiro quem
lançou a pedra e d’isto se lavrou a inscripção==O duque de Aveiro, D.
Raymundo de Lancastre botou a primeira pedra deste convento a 2 de
junho de 1646.==
Nova obra começou em 15 de outubro de 1662, commemorada em outra lapide
(hoje no cunhal da frontaria da egreja):==Maria Joannis Lusitaniae
Regis Filia hoc opus struxit anno Domini 1662.==
A dedicação do templo de Santa Thereza foi em 15 de outubro de 1668.
A capella-mór é de Santa Thereza.
A do Evangelho é de S. João da Cruz.
A da Epistola é da Senhora da Conceição.
Defronte da grade do côro de baixo está a capella do Senhor dos Passos,
com procissão na 5.ᵃ dominga de quaresma.
No côro alto ha muitas reliquias (é um grande relicario entalhado e
dourado, que se vê da capella-mór).
A infanta D. Maria, filha de D. João IV, mandou fazer os retabulos.
* * * * *
Podemos affirmar, pois, que a egreja de Carnide era já parochial no
seculo XIV. Que no seculo XVI era logar de certa importancia, pois a
insigne infanta D. Maria, filha de D. Manuel, aqui veiu fundar egreja
e hospital. Depois os differentes conventos e obras particulares; as
grandes quintas com magnificas moradias, etc.
Em 1712 tinha 80 visinhos com nobreza, o que é extraordinario; verdade
é que não sabemos bem onde chegaria então a freguezia de Carnide; que
no termo de Carnide se encontram bastantes casas, que podemos chamar
pequenas, com seus brazões em porticos e cunhaes, é verdade.
Em 1753 tinha 264 fogos.