Um nome de grande dama portuguesa se liga á residencia Fronteira; aqui
viveu por algum tempo _Alcipe_, nome arcadico de D. Leonor de Almeida
Portugal Lorena e Lencastre, condessa de Oyenhausen e marqueza de
Alorna (n. 1750--m. 1839).
Mas por poucos annos. Ella esteve, menina e moça, reclusa no mosteiro
de Chellas, viveu em Vienna, em Paris, em Londres, por esse mundo fóra,
sempre superior dama portuguesa, de altaneira mente; depois em Portugal
ora na sua quinta de Almeirim, ora na de Almada; por muitos annos na
hospitaleira e fidalga casa a Santa Izabel.
Pousou em Bemfica, é verdade, em annos de aspera lucta pelo nome de
sua casa; e, verdade é tambem, lá vi, na galeria envidraçada que olha
para o jardim, memorias, retratos, lembranças familiares, d’essa
extraordinaria senhora.
Que existencia tão rodeada de surprezas tragicas, cheia de duradouras
inquietações, a d’esta nobilissima dama portuguesa, que soube responder
á sorte rude com santas idéas, corajosos trabalhos, e composições de
serena poesia. Parece que n’esses poucos annos que passou na vivenda
de Bemfica foi que ella conheceu um moço de aspecto um tanto agreste,
de firme vontade, espirito altivo, intelligencia clara, que se chamou
Alexandre Herculano; muitos annos volvidos, a marqueza teve vida longa,
viu ella com ineffavel prazer, o moço estudioso e attento desenvolvido
no collossal escriptor.
É adoravel o que Herculano escreveu a respeito da marqueza, poucos
annos depois da morte d’ella.
Vou apresentar alguns extractos d’esse notavel artigo publicado no
_Panorama_, de 1844.
==Por grande que deva ser a gratidão que se associa ás recordações
d’aquelles que nos geraram, por funda que vá a saudade inseparavel da
memoria paterna, no coração do bom filho, ha um affecto não menos puro,
e não menos indestructivel, para o homem cujo espirito allumiado pela
cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus
destinos no mundo são mais elevados e nobres que os d’esses tantos
que nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois
morrerem sem deixarem vestigio. Este affecto é uma especie de amor
filial para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia,
que nos regeneraram pelo baptismo das lettras; que nos disseram:
«caminha!» e nos apontaram para a senda do estudo e da illustração,
caminho tão povoado de espinhos como de flores, e em cujo primeiro
marco milliario muitos se teem assentado, não para repousarem e
seguirem ávante, mas para retrocederem desalentados, quando sósinhos
não sentem mão amiga apertar a sua e conduzi-los apoz si. Tirae á
paternidade os exemplos de um proceder honesto, as inspirações da
dignidade humana, a severidade para com os erros dos filhos, os
cuidados da sua educação, e dizei-nos o que fica? Fica um certo
instincto, ficam os laços do habito, e para impedir que tão frageis
prisões se partam, fica o preceito de cima que nos ordena acatemos e
amemos os que nos geraram, ainda que a elles não nos prenda senão a
dadiva da existencia, esse tão contestavel beneficio. Pelo contrario
aquelles que foram nossos mestres, que nos attrahiram com a persuasão
e com o proprio exemplo para o bom e para o bello, que nos abriram as
portas da vida interior, que nos iniciaram nos contentamentos supremos
que ella encerra, para esses não é preciso que a lei de agradecimento e
de amor esteja escripta por Deus; a rasão e a consciencia estamparam-na
no coração: cada gôso intellectual do poeta, do erudito, do sabio lha
recorda, e quando elles se comparam com o vulgo das intelligencias
reconhecem plenamente a justiça do sentimento de gratidão que os domina.
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Áquella mulher extraordinaria a quem só faltou outra patria que não
fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais
brilhantes provas contra as vans pertenções de superioridade excessiva
do nosso sexo, é que eu devi incitamentos e protecção litteraria,
quando ainda no verdor dos annos dava os primeiros passos na estrada
das lettras.
Apraz-me confessa-lo aqui, como outros muitos o fariam se a occasião
se lhes offerecesse; porque o menor vislumbre d’engenho, a menor
tentativa d’arte ou de sciencia achavam n’ella tal favor, que ainda
os mais apoucados e timidos se alentavam; e d’isso eu proprio sou bem
claro argumento. A critica da senhora marqueza d’Alorna não affectava
já mais o tom pedagogico e quasi insolente de certos litteratos que
ás vezes nem sequer entendem o que condemnam, e que tomam a brancura
das proprias cans por titulo de sciencia, de gosto, e de tudo. A sua
critica era modesta, e tinha não sei o que de natural e affectuoso que
se recebia com tão bom animo como os louvores, de que não se mostrava
escaça quando merecidos.
Uma virtude, rara nos homens de lettras, mais rara talvez entre as
mulheres que se teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não
alardearem escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora
marqueza em grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era
ao mesmo tempo facil e amena.
E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão bem, não dizemos
a litteratura grega e romana, em que igualava os melhores, mas a
moderna de quasi todas as nações da Europa, no que nenhum dos nossos
portugueses porventura a igualou?
* * * * *
Ahi verá como em todas as phases da sua larga e não pouco tempestuosa
carreira ella soube dar perenne testemunho do seu nobre caracter
de independencia e generosidade; verá que em quanto na terra natal
primeiro a tyrannia, e depois a ignorancia e a inveja a perseguiam,
ella ia encontrar entre estranhos a justa estimação de principes, e de
illustres personagens da republica das lettras. Ahi verá como nascida
no seculo do materialismo, vivendo largos annos no fóco das idéas
anti-religiosas, acostumada a ouvir todos as dias repetir essas idéas
por homens de incontestavel talento, ella soube conservar pura a crença
da sua infancia, e expirar no seio do christianismo. Ahi finalmente
verá como as ausencias, por vezes involuntarias, da sua terra natal,
não poderam fazer-lhe esquecer o amor que devemos a esta, ainda no meio
das injustiças e violencias de todo o genero. ==(_Panorama_, pag. 403 e
404 do vol. de 1844, artigo assignado por A. Herculano).