A estatua do satyro conserva-se na situação em que fr. Luis de Sousa a
conheceu.
Entrando no claustro d’aquelle extraordinario convento de S. Domingos
de Bemfica, toma-se a porta, ao canto, que diz para a fonte e horta.
Desce-se uma breve escada, entra-se n’um pequeno recinto, com assentos
de pedra; ao fundo a fonte rasteira; lá está o satyro e uns pedaços de
marmore com um verso latino. O muro que separa a horta do recinto da
fonte é mais recente.
Felizmente eu tirei o desenho do satyro ha tempos; modernamente houve
obras no edificio, e um alvanéo mais gracioso divertiu-se a lançar cal
sobre a pobre estatua.
Eu estou convencido que este satyro é romano. Fr. Luis de Sousa já o
conheceu assim, n’aquella posição; ora em tal posição a estatua não
podia estragar-se da maneira que se vê; a superficie está desigual;
ha pontos em que se conserva o primitivo estado, na parte superior
do peito, nas madeixas das coxas; em outros sitios a superficie está
gasta, frusta, ou por longo attrito ou por inhumação prolongada.
As mãos foram arruinadas por causa da adaptação de torneiras, obra
provavel dos frades; porque primitivamente a agua não sahia de taça ou
urna que o satyro tivesse nas mãos; sahia do outro sitio; a estatua é
pagan e bem pagan.
Apesar de frusta ainda a physionomia é notavel, e é bem propria a
phrase de fr. Luis de Sousa, _simplicidade montanheza_; ha estatuas de
Pan com aquella attitude e expressão.
Trabalho da renascença não me parece, nem estaria assim estragado
em tempo do celebre chronista; gothico, romanico, impossivel; nunca
trabalharam assim em taes tempos. Porque a estatua tem expressão, ha
observação anatomica nos musculos, nos hombros, as claviculas bem
marcadas, as madeixas elegantes.
É por isso que me convenço que a estatua é romana.
Ha mais antiguidades romanas alli pelos sitios, e o nome Monsanto chama
logo a attenção.
Naturalmente os dominicanos encontraram, por acaso, a estatua e
aproveitaram-n’a para a sua fonte; e assim a salvaram.
Que interessante e mimosa a descripção que fr. Luis de Sousa escreveu
da fonte do satyro! Vem na Historia de S. Domingos (2.ᵃ parte, livro
2.ᵒ, cap. 1.ᵒ--Do principio e fundação do real convento de Bemfica).
Diz assim:
* * * * *
==Passado o claustro, quem busca a horta do convento, dá poucos passos
em uma praça empedrada, que ficando na parte mais alta, e como a meia
ladeira da cerca, descobre grande parte do vale.
Aqui sahem os religiosos a gosar o fresco da tarde em o verão, e o
soalheiro de inverno, depois que deixam o refeitorio. Porque além da
vista desabafada, e larga para fóra, tem na mesma praça de uma parte
uma graciosa fonte, e da outra um espaçoso tanque, que cada cousa per
si alegra e deleita os olhos.
A fonte se faz em um arco, que formado de brutescos varios e vistosos,
arremeda uma gruta natural. Dentro parece assentado um grande e bem
proporcionado satyro, imitando com propriedade os que finge a poesia.
Em toda sua figura mostra em rosto risonho e alegre uma simplicidade
montanheza, com que está convidando a beber de uma concha natural, que
tem apertada com o braço e mão esquerda, da qual sae um formoso torno
de agua: e juntamente com a direita acode como arrependido a cobril-a;
e faz geito de a querer retirar, dando com uma e negando com outra.
A agua é quanto póde ser excellente, e de uma qualidade propria das que
nascem nas serras, fria e desnevada na maior força do sol do estio;
temperada no inverno, como um banho.
Acompanham a gruta de um e outro lado em igual distancia dois grossos e
altos pilastrões, que sendo feitos de boa cantaria para estribo de uma
abobada a que se arrimam, foi a natureza cobril-os de uma hera muito
espessa e viçosa, que subindo por elles até a mór altura, assim esconde
e senhoreia a pedraria, que faz parecer foram fundados, mais para honra
da fonte, que segurança do edificio: assim ajuda a natureza a arte, e
o accidental ao bem cuidado.
E porque entre gente que professa letras é bem que nem nos satyros se
ache rudeza, faz lembrança este nosso a quem folga de o ver, com um
verso latino entalhado em pedaços de marmore negro, que correm a vida e
os annos sem parar, nem tornar atraz, ao modo d’aquelle licor, que lhe
sae das mãos. Advertencia de sabio não de rustico: que agoas e annos se
se não aproveitam com bons empregos, perdidos são, e pouco de estimar.
Cae a agoa, por não pejar a praça, em um pequeno tanque, deixando-o
cheio some-se n’elle, e vae por baixo da terra, fazer outra fonte na
boca de um leão.
É de ver aquelle rosto fero coberto de guedelhas crespas, e medonhas,
que ameaçam sangue e morte, feito ministro de mansas agoas. Verdadeiro
poder e symbolo da religião que amansa leões e faz Satyros doutos==.
Publiquei este artigo no _Boletim da Real Associação dos Architectos
Civis e Archeologos Portuguezes_ (T. VII. 1894. pag. 7), acompanhado de
gravura. Então era facil visitar a fonte do satyro: agora está vedada
ao publico, não sei porquê. Naquella parte do edificio installou-se
uma succursal do collegio de Campolide, com aulas de theologia, ao que
ouvi dizer. Não deixavam entrar no claustro. Ha tempos saíram dalli
os padres; mas o edificio continúa fechado; não se sabe onde pára a
chave. Não se póde visitar a fonte tão finamente descripta por fr.
Luis de Sousa, nem a capella dos Castros, cuja entrada é tambem pelo
claustro.