(_Áparte._) Estou morta por saber do que se trata.
D. LEONOR
Vocês fazem-me perder o juizo! Aqui andam bruxas, de certo. Periantho
de um lado, bromelias de outro; uma lingua de gentios, avessa á gente
christã. Que quer dizer tudo isso?
D. CECILIA
Quer dizer que a sciencia é uma grande cousa, e que não ha remedio
senão adorar a botanica.
D. LEONOR
Que mais?
D. CECILIA
Que mais? Quer dizer que a noite de hoje ha de estar deliciosa,
e podemos ir ao theatro lyrico. Vamos, sim? Amanhã é o baile do
conselheiro, e sabbado o casamento da Julia Marcondes. Tres dias de
festas! Prometto divertir-me muito, muito, muito. Estou tão contente!
Ria-se, titia; ria-se e dê-me um beijo!
D. LEONOR
Não dou, não, senhora. Minha opinião é contra a botanica, e isto mesmo
vou escrever ao Barão.
D. HELENA
Reflicta primeiro; basta amanhã!
D. LEONOR
Ha de ser hoje mesmo! Esta casa está ficando muito sueca; voltemos a
ser brasileiras. Vou escrever ao urso. Acompanha-me, Cecilia; has de
contar-me o que ha. (_Saem._)
SCENA XIII
D. HELENA, BARÃO
D. HELENA
Cecilia deitou tudo a perder... Não se póde fazer nada com creanças...
Tanto peior para ella. (_Pausa_) Quem sabe se tanto melhor para mim?
Póde ser. Aquelle professor não é assaz velho, como convinha. Além
disso, ha nelle um ar de diamante bruto, uma alma apenas coberta pela
crosta scientifica, mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou
cegar... (_Levanta os hombros_) Que idéa! Não passa de um urso, como
titia lhe chama, um urso com patas de rosas.
BARÃO, _approximando-se_.
Perdão, minha senhora. Ao atravessar a chacara, ia pensando no nosso
accordo, e, sinto dizel-o, mudei de resolução.
D. HELENA
Mudou?
BARÃO, _approximando-se_
Mudei.
D. HELENA
Póde saber-se o motivo?
BARÃO
São tres. O primeiro é o meu pouco saber... Ri-se?
D. HELENA
De incredulidade. O segundo motivo...
BARÃO
O segundo motivo é o meu genio aspero e despotico.
D. HELENA
Vejamos o terceiro.
BARÃO
O terceiro é a sua edade. Vinte e um annos, não?
D. HELENA
Vinte e dous.
BARÃO
Solteira?
D. HELENA
Viuva.
BARÃO
Perpetuamente viuva?
D. HELENA
Talvez.
BARÃO
Nesse caso, quarto motivo: a sua viuvez perpetua.
D. HELENA
Conclusão: todo o nosso accordo está desfeito.
BARÃO
Não digo que esteja; só por mim não o posso romper. V. Ex. porém
avaliará as razões que lhe dou, e decidirá se elle deve ser mantido.
D. HELENA
Supponha que respondo affirmativamente.
BARÃO
Paciencia! obedecerei.
D. HELENA
De má vontade?
BARÃO
Não; mas com grande desconsolação.
D. HELENA
Pois, Sr. Barão, não desejo violental-o; está livre.
BARÃO
Livre, e não menos desconsolado.
D. HELENA
Tanto melhor!
BARÃO
Como assim?
D. HELENA
Nada mais simples: vejo que é caprichoso e incoherente.
BARÃO
Incoherente, é verdade.
D. HELENA
Irei procurar outro mestre.
BARÃO
Outro mestre! Não faça isso.
D. HELENA
Porque?
BARÃO
Porque... (_Pausa_) V. Ex. é intelligente bastante para dispensar
mestres.
D. HELENA
Quem lh'o disse?
BARÃO
Adivinha-se.
D. HELENA
Bem; irei queimar os olhos nos livros.
BARÃO
Oh! seria estragar as mais bellas flores do mundo!
D. HELENA, _sorrindo_
Mas então nem mestres nem livros?
BARÃO
Livros, mas applicação moderada. A sciencia não se colhe de afogadilho;
é preciso penetral-a com segurança e cautella.
D. HELENA
Obrigada. (_Estendendo-lhe a mão_) E visto que me recusa as suas
licções, adeus.
BARÃO
Já!
D. HELENA
Pensei que queria retirar-se.
BARÃO
Queria e custa-me. Em todo o caso, não desejava sair sem que V. Ex. me
dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?
D. HELENA
Bem e mal.
BARÃO
Pensa então...
D. HELENA
Penso que é intelligente e bom, mas caprichoso e egoista.
BARÃO
Egoista!
D. HELENA
Em toda a força da expressão. (_Senta-se_) Por egoismo,--scientifico,
é verdade,--oppõe-se ás affeições de seu sobrinho; por egoismo,
recusa-me as suas licções. Creio que o Sr. Barão nasceu para mirar-se
no vasto espelho da natureza, a sós comsigo, longe do mundo e seus
enfados. Aposto que, desculpe a indiscreção da pergunta,--aposto que
nunca amou?
BARÃO
Nunca.
D. HELENA
De maneira que nunca uma flor teve a seus olhos outra applicação, além
do estudo?
BARÃO
Engana-se.
D. HELENA
Sim?
BARÃO
Depositei algumas coroas de goivos no tumulo de minha mãe.
D. HELENA
Ah!
BARÃO
Ha em mim alguma cousa mais do que eu mesmo. Ha a poesia das affeições
por baixo da prova scientifica. Não a ostento, é verdade; mas sabe
V. Ex. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que
havia mais caro: a familia. Desposei a sciencia, que me tem servido
de alegrias, consolações e esperanças. Deixemos, porém, tão tristes
memorias...
D. HELENA
Memorias de homem; até aqui eu só via o sabio.
BARÃO
Mas o sabio reapparece e enterra o homem. Volto á vida vegetativa...
se me é licito arriscar um trocadilho em portuguez, que eu não sei bem
se o é. Póde ser que não passe de apparencia. Todo eu sou apparencias,
minha senhora, apparencias de homem, de linguagem e até de sciencia...
D. HELENA
Quer que o elogie?
BARÃO
Não; desejo que me perdôe.
D. HELENA
Perdoar-lhe o que?
BARÃO
A incoherencia de que me accusava ha pouco.
D. HELENA
Tanto perdôo que o imito. Mudo egualmente de resolução, e dou de mão ao
estudo.
BARÃO
Não faça isso!
D. HELENA
Não lerei uma só linha de botanica, que é a mais aborrecivel sciencia
do mundo.
BARÃO
Mas o seu talento...
D. HELENA
Não tenho talento; tinha curiosidade.
BARÃO
É a chave do saber.
D. HELENA
Que monta isso? A porta fica tão longe!
BARÃO
É certo, mas o caminho é de flores.
D. HELENA
Com espinhos.
BARÃO
Eu lhe quebrarei os espinhos.
D. HELENA
De que modo?
BARÃO
Serei seu mestre.
D. HELENA, _levanta-se_
Não! Respeito os seus escrupulos. Subsistem, penso eu, os motivos que
allegou. Deixe-me ficar na minha ignorancia.
BARÃO
É a ultima palavra de V. Ex.
D. HELENA
Ultima.
BARÃO, _com ar de despedida_
Nesse caso... aguardo as suas ordens.
D. HELENA
Que se não esqueça de nós.
BARÃO
Crê possivel que me esquecesse?
D. HELENA
Naturalmente: um conhecimento de vinte minutos.
BARÃO
O tempo importa pouco ao caso. Não me esquecerei nunca mais destes
vinte minutos, os melhores da minha vida, os primeiros que hei
realmente vivido. A sciencia não é tudo, minha senhora. Ha alguma cousa
mais, além do espirito, alguma cousa essencial ao homem, e...
D. HELENA
Repare, Sr. Barão, que está falando á sua ex-discipula.
BARÃO
A minha ex-discipula tem coração, e sabe que o mundo intellectual
é estreito para conter o homem todo; sabe que a vida moral é uma
necessidade do ser pensante.
D. HELENA
Não passemos da botanica á philosophia, nem tanto á terra, nem tanto ao
ceu. O que o sr. Barão quer dizer, em boa e mediana prosa, é que estes
vinte minutos de palestra não o enfadaram de todo. Eu digo a mesma
cousa. Pena é que fossem só vinte minutos, e que o Sr. Barão volte ás
suas amadas plantas; mas é força ir ter com ellas, não quero tolher-lhe
os passos. Adeus! (_Inclinando-se como a despedir-se_)
BARÃO _comprimentando_
Minha senhora! (_Caminha até á porta e pára._) Não transporei mais esta
porta?
D. HELENA
Já a fechou por suas proprias mãos.
BARÃO
A chave está nas suas.
D. HELENA, _olhando para as mãos_
Nas minhas?
BARÃO _approximando-se_
De certo.
D. HELENA
Não a vejo.
BARÃO
É a esperança. Dê-me a esperança de que...
D. HELENA _depois de uma pausa_
A esperança de que...
BARÃO
A esperança de que... a esperança de...
D. HELENA, _que tem tirado uma flor de um vaso_
Creio que lhe será mais facil definir esta flor.
BARÃO
Talvez.
D. HELENA
Mas não é preciso dizer mais: adivinhei-o.
BARÃO, _alvoraçado_
Adivinhou?
D. HELENA
Adivinhei que quer a todo o trance ser meu mestre.
BARÃO, _friamente_
É isso.
D. HELENA
Acceito.
BARÃO
Obrigado.
D. HELENA
Parece-me que ficou triste?...
BARÃO
Fiquei, pois que só adivinhou metade do meu pensamento. Não adivinhou
que eu... porque o não direi? dil-o-hei francamente... Não adivinhou
que...
D. HELENA
Que...
BARÃO, _depois de alguns esforços para falar_.
Nada... nada...
D. LEONOR, _dentro_
Não admitto!
SCENA XIV
D. HELENA, BARÃO, D. LEONOR, D. CECILIA
D. CECILIA, _entrando pelo fundo com D. Leonor_
Mas, titia...
D. LEONOR
Não admitto, já disse! Não te faltam casamentos. (_Vendo o Barão._)
Ainda aqui!
BARÃO
Ainda e sempre, minha senhora.
D. LEONOR
Nova originalidade.
BARÃO
Oh! não! A cousa mais vulgar do mundo. Reflecti, minha senhora, e venho
pedir para meu sobrinho a mão de sua encantadora sobrinha. (_Gesto de
Cecilia_)
D. LEONOR
A mão de Cecilia!
D. CECILIA
Que ouço!
BARÃO
O que eu lhe pedia ha pouco era uma extravagancia, um acto de egoismo
e violencia, além de descortezia que era, e que V. Ex. me perdôou,
attendendo á singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora...
D. LEONOR
Não me opponho ao casamento, se fôr do agrado de Cecilia.
D. CECILIA, _baixo a D. Helena_.
Obrigada! Foste tu...
D. LEONOR
Vejo que o Sr. Barão reflectiu.
BARÃO
Não foi só reflexão, foi tambem resolução.
D. LEONOR
Resolução?
BARÃO, _gravemente_
Minha senhora, atrevo-me a fazer outro pedido.
D. LEONOR
Ensinar botanica a Helena? Já me deu vinte e quatro horas para
responder.
BARÃO
Peço-lhe mais do que isso; V. Ex. que é, por assim dizer, irmã mais
velha de sua sobrinha, póde intervir junto della para... (_Pausa_)
D. LEONOR
Para...
D. HELENA
Acabo eu. O que o Sr. Barão deseja é a minha mão.
BARÃO
Justamente!
D. LEONOR, _espantada_
Mas... Não comprehendo nada.
BARÃO
Não é preciso comprehender; basta pedir.
D. HELENA
Não basta pedir; é preciso alcançar.
BARÃO
Não alcançarei?
D. HELENA
Dê-me tres mezes de reflexão.
BARÃO
Tres mezes é a eternidade.
D. HELENA
Uma eternidade de noventa dias.
BARÃO
Depois della, a felicidade ou o desespero?
D. HELENA, _estendendo-lhe a mão_
Está nas suas mãos a escolha. (_A D. Leonor_) Não se admire tanto,
titia; tudo isto é botanica applicada.
Notas
Os erros óbvios do editora foram corrigidos.
O Indice foi realocado ao inicio para facilitar a navegaçäõ.