Encantadora manhan! O _Colima_ deslisava pelo mar compacto e liso, com a
macieza de um patinador sobre camadas de gelo azul.
Ermo de nuvens o espaço. Os floccos do vapor quedavam indecisos, como
receiosos de partir para fluctuar sósinhos, no firmamento fulguroso e
vasio. Á mais tenue aragem, se dissolviam em diaphaneidades opalinas.
Passageiros e tripolantes passeiavam no tombadilho, leves e bem
dispostos. Lupe balouçava-se indolente n’uma cadeira de balanço, os olhos
semi-fechados, na deliciosa morbideza que insinuam calmarias no alto mar.
Mas Salomon, o viajante judeu, trouxe do seu camarote pesado involucro.
Abrio-o com precauções meticulosas. Era um cofre portatil, armado de
complexas fechaduras. Amontoavam-se dentro pequenos estojos multicôres de
velludo e setim.
Collocou-os Salomon enfileirados n’um banco e os foi descerrando
carinhosamente, como se guardassem sagradas reliquias. Continham as
joias em que elle negociava. Talvez, mesmo a bordo, effectuasse feliz
transacção. Quando menos, lisongear-lhe-hia o amor proprio estadear as
suas riquezas. Ou movia-o simplesmente a volupia argentaria de mirar as
faiscações do sol na pedraria rara. D’ahi a exhibição.
Accorreram todos, tocados da hypnotisação que exercem sobre os
transeuntes vitrinas de ourivesaria. Lupe exultava, enthusiasmada. Com
suspiros de prazer e exclamações de jubilosa surpreza, examinava os
preciosos artefactos, finamente burilados.
—Que bonito! Que mimo! reparem n’esta cinzeladura! Calculem o valor deste
brilhante!...—murmurava em extasis.
O judeu sorria ufano. Esplendido na realidade o seu sortimento!
E nos olhos da mexicana lucilavam fremitos de cubiça, saudades do tempo
em que possuira primores iguaes, despeitos de já lhe não ser dado, em
troca de miseraveis cedulas bancarias, adquirir n’um momento, para
lhe sublinhar a belleza, os mais deslumbradores d’aquelles magnificos
adornos...
Dir-se-hia que as suas pupillas e o esmalte de seus dentes trocavam com
as gemmas scintillações fraternaes.
De repente, a impetuosa moça não se poude mais refreiar. Com um movimento
rapidissimo, arrecadou no vestido, regaçado como uma bolsa, os escrinios
expostos, e, carregando o valioso volume, desappareceu a correr.
Profunda estupefacção dos assistentes! Salomon, as feições decompostas,
precipitou-se atraz d’ella.
—Nada receie,—gritei-lhe. Não ha onde fugir a bordo, nem se pódem dar
extravios.
Minutos depois Lupe voltava. Puzéra, com incrivel presteza, um antigo
vestido de baile, lembrança da extincta opulencia, ordenara os cabellos
em festivo penteiado, e collocara em si todos os braceletes, anneis,
collares, broches e diademas do judeu.
Que linda e singular estava,—princeza encantada de legendas arabicas,
constellação viva, formoso ser phantastico, recamado de luz!...
Circumdava-a um halo de ouro. Da cabeça aos pés resplandecia. E
os rubins, esmeraldas, diamantes, amethystas, topazios, saphiras,
profusamente fixados em seu corpo, desferiam incisivos relampagos azues,
crystalinos, verdes, roxos, roseos, rubros, no meio dos quaes languidas
as perolas soltavam claridades pallidas de luar.
Idolo extranho; flôr de sonho, crivada de pyrilampos divinos!
Lupe deixou que a admirassemos á vontade n’aquella apotheóse. Aprumava
soberba o porte, donosa e feliz. Depois debruçou-se da amurada, bradando:
—Eis-me em trajo proprio para visitar nymphas. E se me atirasse agora ao
fundo d’agoa?!... Teria, ao menos, mortalha e sepulchro dignos de mim...
E inclinou-se mais no parapeito, como se tencionasse realmente effectuar
a ameaça. Da sua imagem, pendida sobre as ondas, brotavam reflexos
fugazes e tremeluzentes de fabulosa apparição.
Mas o judeu impacientissimo julgou que o gracejo se prolongava demasiado.
Correu para ella, as mãos estendidas, exclamando, entre irritado e
supplice:
—Miss Hedges... Senorita Lupe... Senorita Lupe...
A mexicana fitou-o com intraduzivel desdem. Em seguida, um a um,
lentamente, restituiu-lhe os adereços, desprendendo-os de si com visivel
pezar.
Salomon submettia cada joia a severo exame, para verificar se nada lhe
faltava.
E no despojar de Lupe havia qualquer cousa de tragico,—a solemnidade
triste dos irreparaveis sacrificios. O seu vestido de luxo appareceu, por
fim, roto, manchado, lamentavel resto de outr’ora.
Ella cahio então n’uma cadeira, escondendo o rosto nas mãos.
—Envergonhada da brincadeira,—interpretou-se em roda.
Só eu percebi quanto desespero alanceava a alma da pobre moça.
Pela primeira vez—quem sabe?—acabava de ter, á rutilação d’aquellas
joias, inacessiveis para ella, como estrellas, a visão nitida da sua
miseria, a amarga consciencia da sua ruina.
[Illustration]