De subito, soaram a meu lado estas palavras proferidas em inglez por
alguem, cuja approximação o ruido da helice tornara despercebida:
—Não ha, nem póde haver no mundo paizagem maritima mais arrebatadora...
Voltei-me. A dois passos de mim, bonita rapariga, morena e elegantissima,
trajando rigoroso lucto, fitava com um binoculo os planos longinquos da
agua e do céu. Alta, nervosa, esbelta, graciosamente petulante. Mas das
linhas de seu rosto algo de desconforto resumbrava. Na commissura dos
labios lobrigava-se-lhe o vinco das decepções.
Ao cabo de minutos, como eu não respondesse, repetiu em hespanhol,
dirigindo-se directamente a mim:
—Não acha, cavalheiro, ser impossivel na natureza perspectiva superior a
esta?!
—Perdão, repliquei. Julgo com effeito admiravel o espectaculo que
presenciamos. A bahia do Rio de Janeiro, porém, excede incomparavelmente
em bellezas a de S. Francisco.
—Que bahia?!... indagou ella, qual se não houvesse apprehendido o nome.
—A do Rio de Janeiro, capital do Brazil.
—Ah!... Pertence porventura o cavalheiro a semelhante terra?... murmurou
com surpreza satyrica, depois de ligeira pausa.
Á minha affirmativa, a desconhecida guardou lentamente o binoculo no
estojo pendente a tiracollo, e saccou do bolso uma d’essas lunetas
encaixilhadas em tartaruga, que tem longo cabo perpendicular aos vidros.
Limpou com o lenço devagarinho esses vidros e, em seguida, assestou-os
sobre mim, mirando-me da cabeça aos pés, como se eu fôra um animal raro.
Supportei imperturbavel o impertinente exame, fixando a pesquizadora sem
pestanejar.
Ao fim, soltando uma risada:
—Pois ninguem acreditaria,—declarou,—que o cavalheiro nascesse no Brazil.
Está bem certo d’isso?...
—Como assim?!...
—Eu suppunha que o Brazil só produzisse negros e selvagens.
—Enganou-se, como vê. Em geral, ignoram a minha patria no estrangeiro, ou
não tributam a devida justiça á sua civilisação.
—Eu conheço perfeitamente o Brazil,—interrompeu ella. É uma zona
extensissima, cheia de florestas, na qual o vomito preto dizima
os indigenas, onde perdura a barbaria da escravidão e governa
patriarchalmente ha 50 annos um velho rei, muito sabio e bom...
—Illude-se ainda,—retorqui friamente. O Brazil é um paiz civilisado, o
mais civilisado e prospero da America Latina.
Ella desfechou uma grande gargalhada insolente, mostrando soberbos dentes
agudos e alvissimos.
—Lá, pelo menos,—terminei, a voz um tanto acre,—as mulheres costumam ser
discretas e os homens sabem ser polidos.
Com a arrogante luneta, novamente a desconhecida submetteu-me a demorada
investigação.
Curvou-se, depois, n’uma mesura ironica, exclamando:
—Cavalheiro, humilde servidora de _usted_...
E afastou-se, erecta e airosa, n’um passo de rainha.
Fiquei só, e, sem saber porque, furioso commigo mesmo.
Certo, eu acabava de conversar com a celebre Lupe, de quem fallara Mister
Randolph.
Ao envez do que este annunciara, não se antolhavam propicias as nossas
relações.
[Illustration]