LUPE

(Segunda edição corrigida e com um prefacio novo)

[Illustration]

PERNAMBUCO

HUGO & C.—Editores

79, Rua do Imperador, 79

1895

A

_URBANO DUARTE_

E

_CORRÊA DE MENEZES_,

Amigos nos bons e nos máos tempos.

[Illustration]

Dos ensaios litterarios que ultimamente tenho dado a lume, foi _Lupe_ o

que suscitou mais vivas e contradictorias apreciações.

Criticos houve, tão exaggeradamente benevolos, que de primorosa

qualificaram a singela narrativa, chegando ao extremo de emparelhal-a com

_Cinco Minutos_ de José de Alencar e _Graziella_ de Lamartine.

Outros, em compensação, a acoimaram de romancete fraco e ephemero, onde

a acção se arrasta enfadonhamente, com defeitos notaveis de forma e

escandalosos erros de observação.

E, conforme os habitos da terra, depois de malsinar o livro, atiraram-se

desapiedados contra o autor, chamando-lhe vaidoso, ignorante, humilhador

da patria lingua e quejandas amenidades.

Em consciencia, reputo-me autorisado a repetir os versos da tragedia

raciniana:

_.... Je n’ai mérité_

_Ni cet excès d’honneur, ni cette indignité!_

_Lupe_ não passa de modesto episodio de viagem, despreoccupadamente

contado, sem pretenção de especie alguma.

Achei prazer em escrevel-o, e, simplesmente por isso, o escrevi.

Publiquei-o com a inoffensiva esperança de transmittir a outros uma parte

d’esse prazer.

E parece que não me illudi de todo nos meus intuitos, pois duas tiragens

de _Lupe_,—mil exemplares cada uma,—a despeito da epocha turbada em que

se expuzeram á venda, dentro de breves dias se esgotaram.

Entre os senões apontados pelos censores, confesso que varios se me

afiguraram justos. Corrigi-os na presente edição e me esforçarei por não

reincidir.

A alguns, porém, peço venia para offerecer ligeira contestação.

—Desagrada em vossas producções,—accusaram-me,—o tom intensamente pessoal

que n’ellas impéra. Falais em demasia de vós mesmo. D’ahi a pécha de

vaidoso que vos assacaram.

Como o orador romano, podem n’este ponto bradar os profligadores:

_habemus confitentem reum_.

Sim; todo o meu empenho consiste exactamente em imprimir, nos meus

trabalhos litterarios a mais funda feição individual possivel.

Segundo o meu ideial,—falso talvez, mas sincero,—tanto maior se revela o

artista quanto mais singular a sua obra, isto é, quanto mais se destaca

da dos outros, affirmando nitidamente, por meio de suas peculiaridades, o

_eu_ de quem a criou.

Ignoro o que seja arte impessoal.

Ponderou muito bem um amigo que accorreu em minha defesa: “n’um trabalho

d’arte tudo trae a mão que o fez, o cerebro que o pensou, o coração que

o sentio; o cunho do temperamento individual é condição essencialissima

para sua vitalidade.”

De facto, mesmo os objectivistas e impassiveis, sem embargo de quaesquer

artificios, assignala-os e distingue-os essa propria impassibilidade ou

objectivismo.

Quando menos, eil-os particularisados no estylo, onde cada qual, máo

grado seu, estampa o seu sello original.

Até na arte photographica, que se limita á reproducção automatica das

apparencias, patenteia-se a personalidade do artista na distribuição dos

grupos, na selecção das posições e dos objectos photographados, em mil

traços, em summa, inconscientes e caracteristicos.

—Mas,—insistirão,—escolheis assumptos excessivamente intimos. Vossos

escriptos são auto-biographias. A egomania vos domina.

Retorquirei, recorrendo á autoridade suprema de Victor Hugo.

Quanto á opção das materias, doutrinou elle, (cito de memoria) no

prefacio das _Orientaes_:

“Não reconheço á critica o direito de interpellar o poéta acerca da sua

phantasia e de o increpar porque adoptou um assumpto de preferencia

a outro, utilisou-se de tal tinta, colheu n’aquella arvore, bebeu em

determinada fonte. É bôa ou má a obra? Eis o dominio da critica. Não

ha em poesia bons ou máos assumptos, mas bons ou máos poetas. Tudo é

assumpto. O dominio da arte abrange tudo. Não pesquizeis o motivo que me

levou a eleger tal argumento. Examinai o como trabalhei, e não o sobre

que e o porque.”

No tocante ao pretenso abuso do pronome pessoal, apadrinhar-me-hei ainda

com o grande mestre, que, no proemio das _Contemplações_, ensinou:

“Ninguem tem a honra de possuir uma vida que seja exclusivamente sua. A

minha vida é a vossa; a vossa vida é a minha; vós viveis o que eu vivo;

o destino é um só. Tomai este espelho e mirai-vos n’elle. Queixosos ha

dos escriptores que dizem—eu. Falai de nós,—bradam esses. Por Deus!

Quando falo de mim, falo de vós. Como não o sentis!? Ah! quão insensato

és se julgas que eu não sou tu. Este livro contem tanto a individualidade

do autor como á do leitor. _Homo sum._”

Não careço explicar que entre esta concepção da identidade humana e a do

personalismo na arte nenhuma antinomia existe.

Somos todos fundamentalmente irmãos, com faculdades equivalentes,

sujeitos em perfeita igualdade á acção de inflexiveis leis physicas e

moraes. Mas, dentro da orbita da unidade generica, as individuações se

manifestam, as aptidões variam.

Artista é o que sabe concretisar estethicamente os fructos da sua superna

aptidão criadora.

Assim, em que peze aos meus illustres aristarchos, persistirei em

guardar completa independencia com relação a themas e a pronomes, embora

sobre mim attraia esse proposito abominaveis epithetos. Tomei, de ha

muito, Job como meu mentor, em meio dos successos de nosso caro Brazil.

O meu estylo soffreu tambem duros reparos.

Arguiram-n’o de truncado, telegraphico, desigual, inçado de orações

ellipticas.

Que fazer? Infelizmente, não se me depara por emquanto outro melhor.

Apezar de todas as suas mazellas, consigo com esse estylo externar o meu

pensamento, tornando-me entendido da maioria dos leitores. Isso me basta.

Valha-me a intenção de buscar maxima clareza e concisão seguindo a regra

estylistica formulada por Spencer:—poupai o tempo e a attenção de quem

vos lê.

N’esta quadra de palavriado torrencial, deve-se indulgencia aos que

ambicionam furtar-se ao _words! words!_ do principe dinamarquez.

_Iriel_, o finissimo chronista parisiense do _Jornal do Commercio_,

occupando-se de _Lupe_ com inexcedivel gentileza, que me penhorou e

desvaneceu, observa, entretanto, que a protogonista se exprime n’uma

linguagem emphatica e declamatoria.

—Ella não conversa, discursa,—diz o meu eminente confrade,—o que

constitue nota discordante e desagradavel.

Mas na maneira empolada de se expressar residia um dos _tics_, naturaes

ou affectados, da joven mexicana.

Muito de industria, mantive simelhante diapasão por parte d’ella nos

dialogos relatados, para dar ideia fiel da minha heroina.

Concluindo este pequeno cavaco, cumpro o dever de manifestar varios

agradecimentos.

Agradeço, em primeiro logar, ao publico fluminense a nimia generosidade

com que tem acolhido os meus escriptos. Continuarei a trabalhar com

crescente esmero e escrupulo, a fim de me mostrar digno de tamanho favor.

Agradeço á imprensa as noticias publicadas sobre esses escriptos.

Sou reconhecido ainda ás menos favoraveis, comtanto que haja bôa fé e

polidez. Prefiro juizos severos, que emendam e estimulam, ao silencio

calculado da má vontade, o qual, com offender, desanima.

Agradeço finalmente ao meu bom editor e amigo, Sr. Domingos de Magalhães,

o verdadeiro carinho que dispensa a meus livros, julgando-os merecedores

de luxuosos requintes typographicos.

As primeiras tiragens de _Lupe_, feitas em typo _mingon_ na afamada casa

Leuzinger, foram um mimo.

Não lhes fica somenos a actual, confiada á Typographia Aldina.

E, consoante velha usança:

—_Vale_, amigo leitor!

Alto da Serra, (Petropolis) 1 de Agosto de 1894.

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