Quando em março de 1493 Christovam Colombo entrou triumphalmente em
Lisboa, e apresentou a D. João II os indigenas que trazia de Guanahani
e lhe disse que voltava das terras de Cipango, o despeito de D. João
II foi extraordinario. Tão pouco o soube esconder que houve fidalgos
que lhe propozeram punir com a morte a jactancia do Genovez.[107] D.
João II regeitou a offerta, e esmerou-se em dar a Christovam Colombo
todos os testemunhos do seu apreço, mas a dôr era profunda e o desejo
de desforço imperioso. Sustentando desde logo que as ilhas descobertas
por Colombo estavam nos mares adjacentes á Guiné, tratou de mandar uma
esquadra a esses paizes do occidente. A Hespanha protestou logo, e D.
João II percebeu que tinha de desistir do intento, mas a sua diplomacia
não descançou um instante, e o tratado de Tordesillas foi para essa
diplomacia um verdadeiro triumpho.
Tanto se empenhavam os reis de Hespanha em tomar conta das terras
que Christovam Colombo descobrira, que a toda pressa se pediram
para Roma as bullas necessarias, e com tanta rapidez se andou na
negociação, facilitada, pelo facto de ser o Papa Alexandre VI—Rodrigo
Borgia—hespanhol de nascimento e creatura dos soberanos hespanhoes,
que, tendo chegado Christovam Colombo no dia 15 de março de 1493, e só
tendo sido recebido por Fernando e Isabel em abril, logo a 3 de maio
do mesmo anno se concediam á Hespanha essas ilhas e terras descobertas
por Christovam Colombo; mas n’essa noite, ao que parece, pensou-se que
seria bom, para evitar disputas com os Portuguezes, que se marcasse uma
divisão entre estes, a quem os papas anteriores tinham concedido os
mares adjacentes á costa africana do cabo Não e Bojador para deante, e
os Hespanhoes, e no dia 4 de maio é que se promulgou a bulla definitiva,
em que se traçou a linha divisoria do polo arctico «ad polum antarcticum
quæ linea distet a qualibet insularum quæ vulgariter nuncupantur de los
Azores et Cabo Verde centum leucis versus occidentem et meridiem».[108]
Claramente se vê por este _qualibet_ que a segunda bulla foi redigida á
pressa e á noite, não estando presente nenhum cosmographo, que podesse
dizer aos negociadores qual era a mais occidental das ilhas dos Açores
e de Cabo Verde, porque, como sensatamente observa Humboldt, é singular
esta expressão applicada a dois archipelagos que ambos occupam uma
grande extensão em longitude. Mas não havia tempo para demoras porque
era necessario que apparecesse o facto consummado antes que o rei de
Portugal tivesse tempo de saber de que é que se tratava. Depois do Papa
ter julgado, suppunha-se que um rei catholico não ousaria protestar.
Enganaram-se; já se não estava em plena edade média, nem D. João II
era homem que deixasse o Papa interferir nos seus negocios temporaes.
Protestou immediatamente e tanto que a bulla de Alexandre VI caducou, e
a linha divisoria, que passava a cem leguas de qualquer das ilhas dos
Açores e de Cabo Verde, transformou-se n’uma linha que passava a 370
leguas do archipelago de Cabo-Verde.
As negociações levaram tempo, e não foi sem reluctancia que Fernando e
Izabel cederam ao seu impertinente visinho; mas nem Portugal n’esse
tempo era paiz cuja inimizade fosse indifferente, nem os reis catholicos
tinham ainda consciencia bem nitida da importancia das descobertas
feitas; demais havia intimas relações de familia entre as duas casas
reinantes.[109] O que é certo é que Portugal triumphou e o tratado
assignado em Tordesillas em 7 de junho de 1494 substituiu para todos os
effeitos a bulla de 4 de maio do anno anterior.
Pois tão superficialmente se estuda a historia d’estes grandes
acontecimentos da vida da humanidade que ainda hoje passa em julgado
que foi a bulla de Alexandre VI que marcou a linha divisoria entre
as descobertas portuguezas e as descobertas hespanholas, e o proprio
Humboldt, eruditissimo como é, tanto parece ignorar o texto do tratado
de Tordesillas que, suppondo que foi Christovam Colombo que indicou a
linha das cem leguas por consideral-a a linha em que não tinha variação
a agulha magnetica,[110] imaginando que a adaptação d’essa demarcação
physica á demarcação politica tinha immensa importancia para Colombo,
nem levemente allude ao desapontamento que a Colombo a mudança da linha
divisoria devia ter causado.
N’esse tratado, comtudo, ha um artigo transitorio que bem claramente
mostra o absurdo da supposta descoberta de João Vaz Côrte Real. «E porque
pode ser, diz o artigo, que os navios d’El-Rei e Rainha de Castella e
Aragão tenham descoberto até vinte do corrente mez de junho algumas
ilhas ou terras firmes dentro da sobredita linha que se ha de lançar de
polo a polo a trezentas e setenta leguas das ilhas de Cabo Verde para o
Poente, assentaram as Altas Partes Contractantes por seus Procuradores,
que, para se evitarem duvidas, todas quantas tivessem sido achadas ou
descobertas até os vinte de junho, bem que o fossem por navios e gente
de Castella, sendo dentro das primeiras duzentas e cincoenta leguas das
sobreditas trezentas e setenta a partir das ilhas de Cabo-Verde para o
Poente, ficariam para El-Rei de Portugal, _e as que tivessem sido achadas
dentro do dito prazo nas outras cento e vinte leguas restantes em que
deve findar a dita linha pertenceriam a El-Rei e Rainha de Castella, bem
que as cento e vinte leguas façam parte das trezentas e setenta leguas
que ficam para El-Rei de Portugal_. E se dentro dos ditos vinte de Junho
não fôr descoberto nada pelos navios d’El-Rei e Rainha de Castella dentro
das ditas cento e vinte leguas, o que dentro d’ellas _d’ahi em diante
se descobrir_ ficará pertencendo a El-Rei de Portugal, como acima fica
dito.[111]
Lá se ía a Terra Nova, se ella já estivesse descoberta, _porque só o que
d’ahi em diante se descobrisse_ n’essas ultimas cento e vinte leguas de
zona portugueza poderia ficar pertencendo a El-Rei de Portugal.
Ora não era de certo platonicamente que D. João II reclamava para si 370
leguas de mar para o occidente, mas em aproveital-as tinha o governo
portuguez de ser prudentissimo para não despertar as justas reclamações
do governo de Hespanha. Era necessario que se mostrasse sempre empenhado
em proseguir as suas descobertas para o oriente, deixando a Hespanha á
vontade para o occidente. As 370 leguas deviam servir-lhe para poder
navegar com os braços livres para o sul. Tambem no primeiro momento não
teria o nosso governo outro intuito. A expedição da India absorvia-lhe
todo o pensamento.
Vasco da Gama foi e attingiu a meta, e a gloria immensa que d’ahi proveio
e os proventos palpaveis e immediatos que d’ahi resultavam escureceram
por um momento a gloria de Colombo. Comtudo era incontestavel que
a viagem pelo Cabo da Boa Esperança durava immenso tempo, e tinha
difficuldades e perigos sem numero, e a Asia, que Colombo encontrára,
estava tão perto! Note-se bem que não havia a esse respeito a minima
duvida. Colombo chegára á Asia, chegára ás Indias, não á India riquissima
a que aportára Vasco da Gama, não ao Cathay e ao Cipango fabulosamente
opulentos de Marco Polo, mas a terras selvagens que não podiam ser senão
as sentinellas avançadas do continente maravilhoso e dos archipelagos
opulentos. Era ainda para o occidente que se encontrava Cipango, era para
o sul? A opinião dos sabios tendia para esta ultima solução, e Pedro
Martyr d’Anghiera, o celebre amigo de Colombo, exclamava indignado com
uma expedição hespanhola á Florida:
«Para o sul! para o sul! Para que precisamos nós de producções
semelhantes ás producções vulgares do Meio-Dia da Europa?»[112]
O que deduzimos d’aqui? Deduzimos que, tendo louvavelmente D. Manuel
seguido á risca a politica de D. João II, a descoberta do Brazil por
Pedro Alvares Cabral foi resultado não do acaso, mas do intento firme e
propositado de procurar nos mares occidentaes o que Colombo ainda não
encontrára claramente—outro caminho para a India.
Allega-se contra isso o silencio absoluto do governo a esse respeito.
Devemo-nos lembrar, porém, que Pedro Alvares Cabral não podia levar
instrucções patentes e abertas que denunciassem intentos contrarios aos
interesses da Hespanha. Lembremo-nos de que os reis catholicos tinham
protestado abertamente contra o projecto de uma expedição portugueza para
o occidente tentada por D. João II. Lembremo-nos de que, se a Hespanha
prohibia com penas severas as expedições particulares e clandestinas
para o lado que o governo estava explorando, não podia consentir que
expedições identicas fossem tentadas por um governo estrangeiro. O
governo portuguez tinha de se mostrar exclusivamente preoccupado com
a navegação do Oriente pela Africa; se as suas esquadras aproveitavam
as 370 leguas para se chegarem para o occidente era para evitarem as
calmarias da Guiné, e nunca no intento de interferirem com as descobertas
hespanholas, tanto assim que, apenas D. Manuel participa ao rei de
Hespanha o descobrimento do Brasil, apressa-se a dizer-lhe que é terra
muito boa e muito commoda para a navegação da India. Effectivamente o
rei de Hespanha obtivera promessa positiva do rei de Portugal de que
não tentaria navegar para o occidente, e tão positiva ella era que em
cartas a Christovam Colombo declara el-rei D. Fernando, que era aliás
bem desconfiado, que não havia motivo para desconfiar das intenções
do rei de Portugal. Apesar de tudo estavam sempre prestes caravelas
para poderem seguir no encalço das nossas, caso algumas saíssem com
intenções suspeitas.[113] Não admira portanto que se falasse bem alto na
necessidade de se evitar as calmas da Guiné, que nunca mais preoccuparam
os navegadores portuguezes depois do Brasil se ter descoberto, que D.
Manuel quizesse convencer bem o rei de Hespanha de que a nova terra não
era para elle senão um porto de escala para a navegação do oriente.
Além d’isso, sabe-se pela leitura do famoso livro de Duarte Pacheco,
_Esmeraldo de situ orbis_, que, apesar de todas as precauções
hespanholas, já em 1498 Duarte Pacheco recebera ordens para ir sondar
os mares do occidente. De um periodo da sua declaração, confusamente
redigido, se quer deduzir que Duarte Pacheco houvesse então descoberto
o Brasil, e que Pedro Alvares Cabral não fosse senão tomar posse, mas
a descripção de Duarte Pacheco é absolutamente inexacta, o que prova
que não vira a terra de que fala, e além d’isto não era natural que
Duarte Pacheco, depois de ter descoberto secretamente o Brasil, não
fosse na esquadra que era exactamente encarregada de o descobrir
officialmente.[114]
O que prova porém esta declaração é que o governo portuguez não
descançava em proseguir na navegação occidental, que, apesar das
precauções dos hespanhoes, lá iam navios nossos perscrutar o occidente, e
que bem provavel é que Pedro Alvares Cabral, cujas instrucções—por acaso
ou de proposito?—só nos chegaram truncadas, fosse encarregado de ver se,
mais feliz do que Colombo, encontrava, de caminho para a India, as terras
maravilhosas cujo sonho continuava a perseguir a imaginação dos Europeus.
Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse uma esquadra tão
numerosa, se fosse no intento de fazer descobertas, que se faziam
habitualmente com tres ou quatro caravelas? Em primeiro logar era
indispensavel esconder ao rei de Hespanha esses intentos descobridores,
em segundo logar, se effectivamente se fosse ter ás terras governadas
pelos potentados de que Marco Polo dera noticia, o exemplo do que
succedera a Vasco da Gama bem mostrava quanto era necessario que se
não apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos do Oriente,
em terceiro logar o fim principal da viagem era ir á India. Se
effectivamente se topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro
Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada se encontrasse, ou se se
encontrasse terra como a que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o
velho caminho de Calicut.
Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a descoberta de que ia
incumbido, não voltou a Lisboa a dar a gloriosa noticia de tão importante
feito? Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem na côrte lh’a
reconheciam. O que dava cuidado ao governo portuguez não era que Colombo
tivesse descoberto umas ilhas selvagens, era que elle tivesse encontrado
um novo caminho para a India, assim como o que desconsolava os reis
catholicos, e fazia perder a Colombo o seu valimento e auctoridade, era
que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes e civilisados,
encontrára ilhas selvagens.
Depois do que temos dito, não extranham de certo os leitores e encontra
acceitavel explicação o facto de D. Manuel não ter dito aos reis
catholicos, nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta do
Brasil. Vejamos agora se os motivos até hoje allegados teem razão de ser.
Foi uma tempestade que arrojou os navios em direcção ao occidente?
Extranha tempestade, que, em vez de dispersar os navios, os leva de
conserva ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra, que fez
a relação que Ramusio publicou nem Pero Vaz Caminha e o physico João
nas suas celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu aos
reis catholicos dizem uma palavra a respeito de semelhante tempestade.
Foi muito depois que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito
decorativo, a tempestade legendaria das descobertas á narrativa do
descobrimento do Brasil, que lhe parecera provavelmente desenfeitada
demais na sua abstenção de episodios.
Note-se além d’isto que, segundo as informações dos roteiros colligidas
n’uma preciosa memoria do illustre official da marinha portugueza o sr.
Arthur Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na região percorrida
pelas esquadras de Pedro Alvares, e na quadra em que elle a percorreu são
de noroeste e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios para a
costa do Brasil pelo contrario os afastariam.[115]
Mas foram as correntes que levaram os navios, diz Gonçalves Dias na
memoria em que procura refutar os argumentos de Joaquim Norberto,
e a grande corrente equatorial arrastou os navios para a costa do
Brasil.[116] Se Pedro Alvares Cabral tivesse chegado ao Pará, a sua ida
teria uma explicação, porque a corrente segue de leste a oeste ao longo
do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, segue uma direcção
tal, combinada com os ventos geraes, que uma esquadra, diz o almirante
Monchez ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se cada vez mais da
costa, quando quer dobrar o cabo da Boa Esperança, visto que de um lado
os ventos permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se para
oeste».[117] Se se appella para as correntes da costa, vemos, segundo
o testemunho do mesmo almirante Monchez, «que durante a monção de SO
levam para o norte»;[118] ora a monção de SO dura de abril a setembro,
exactamente quando Pedro Alvares Cabral era, segundo se diz, arrastado
pelas correntes para o sul.
Estes factos pareceram tão singulares ao almirante Monchez que não
podendo explicar por elles a descoberta do Brasil, e não conhecendo
os elementos politicos da questão, deduz o seguinte: «É pois quasi
impossivel dar outro motivo plausivel da chegada de Cabral á vista de
terra pelos 16° de latitude, a não ser um erro de caminho por esse
navegador.»[119]
Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, e seria singular que só
se désse quando trazia em resultado a descoberta do Brasil, ao passo que
antes d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, pelas Canarias e por
Cabo Verde, e depois d’isso foram direitos ao cabo da Boa Esperança.
Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova authentica de que em
1498, do anno immediato áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal,
foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras a sudoeste, que o
governo hespanhol tanto desconfia dos intentos de Portugal que espreita
as nossas costas e tem navios promptos para seguir qualquer expedição
portugueza que para o occidente se dirija, que D. Manuel, para desfazer
suspeitas, trata logo de declarar que a terra descoberta a utilidade que
tem é servir de porto de escala para a navegação da India, que trata
tambem de disfarçar a distancia a que o Brasil fica de Cabo Verde,
porque, tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta que a nova
terra ficava a 660 ou 670 leguas da ilha de S. Nicolau no archipelago
de Cabo Verde, para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas
não da ilha mas do Cabo Verde que bem se pode suppor que seja o da costa
africana,[120] de fórma que ficava assim o Brasil dentro da demarcação
do tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma evidencia absoluta
que a descoberta do Brasil estava nos planos do governo portuguez, não
porque soubesse a terra que ia encontrar mas porque não queria deixar aos
seus rivaes o proveito de um caminho para a Asia mais curto do que o que
Vasco da Gama acabava de descobrir.
Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante na refutação das lendas
relativas a suppostos descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro
Alvares Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe que, não só antes de
Pedro Alvares ter aportado a terras de Santa Cruz, mas ainda antes de
Colombo ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, chegára a
terras brasileiras. Baseia-se essa lenda n’um supposto testamento feito
por esse João Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros colonos do
Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia entre selvagens, quasi
tão selvagem como elles, testamento feito por elle em 1580, e em que
declara que havia noventa annos que estava no Brasil, aonde chegára, por
conseguinte, em 1490. Era portanto macrobio este venerando descobridor
que não podia ter menos de 20 annos quando chegou ao Brazil, e, ainda
quando o fosse, era singular o testamento de um homem, que, aos 110
annos, tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta precisão
chronologica dizia que estava no Brasil não ha oitenta ou noventa annos,
como seria natural que o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta,
mas rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento não ha noticia
senão a que dá um d’esses chronistas fradescos do seculo XVII, que tão
facilmente, como é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos.
Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado por um eminente
escriptor brasileiro, o sr. Candido Mendes de Almeida, que depois de
mostrar o absurdo da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse,
publicou uma carta de um jesuita que, estando em 1559 na terra em que
João Ramalho habitava, e dando conta aos seus superiores dos progressos
da conversão dos indigenas, lhes fallava n’um Indio que lhe pediu que lhe
dissesse quaes os dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber
desde _a morte de João Ramalho_, que era quem em vida lh’o dizia.[121]
O que é, porém, estranho é que ainda encontremos com relação ao Brazil
a questão dos mappas. Porque mestre João diz a D. Manuel que, para
saber o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo que tem Pero Vaz
Bisagudo, d’ahi se conclue que o Brasil já fôra descoberto, tanto que
já o inseriam n’um mappa. É a eterna historia dos mappas conjecturaes,
dos mappas em que appareciam ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou
a vêr, e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita austral, a
terra antichthona ou o _alter orbis_. Pois não se vê realmente que as
cartas muitas vezes acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor era
possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem desconhecidos, o que
era impossivel era que a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de
fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas os resultados, e que
apesar d’isso ficassem desconhecidos dos escriptores, dos sabios e dos
governos!
Cem vezes o repetiremos: os descobridores do seculo XV, cheios de
respeito tradicional pela sabedoria antiga, não aspiravam senão a
encontrar o que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, e
por isso faziam esforços para adaptar o que descobriam e que encontravam
aos mappas conjecturaes. Como veremos, o que procuravam agora era a terra
antichthona, a que já se podia chegar desde o momento que se passára a
zona torrida, mas que estava separada da nossa pela extensão dos mares.
A essa terra antichthona suppunham chegar agora encontrando o Brasil,
e era ao Brasil até que chamavam o _novo mundo_. Que Pedro Alvares
Cabral julgára ter chegado á terra separada pelo mar do hemispherio
septentrional é incontestavel, e por isso facilmente se convenceu, pelo
que julgou deprehender dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, a
que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de ilha de Vera Cruz.[122]
Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento se liga intimamente
com o de Colombo, é a sua consequencia, como era tambem, ao mesmo
tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte Real. As descobertas portuguezas
conjugadas com as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. Os dois
grandes problemas geographicos estavam resolvidos: a zona torrida não era
inultrapassavel, e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas
de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha o Equador, entrava
em plena zona torrida e ía tranquillamente ao hemispherio meridional.
A extensão do mar oceano não era infinita, tinha o Atlantico outra
margem, e Pedro Alvares Cabral ía com plena confiança procural-a. Sem
os descobrimentos portuguezes nada faria Colombo, porque os Açores eram
um ponto capital de partida para as expedições occidentaes, e porque os
terrores da zona torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam
seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento de Colombo nada faria
Pedro Alvares Cabral, porque não ousaria ir tão longe para o occidente. A
Hespanha e a Portugal devia o mundo essa transformação da sua geographia.
Completal-a-hia a circum-navegação do globo e o encontro do caminho pelo
occidente para a Asia, e, como se a Providencia quizesse d’essa forma
sellar de um modo indestructivel a collaboração dos dois povos na obra
mais importante da historia da humanidade, foi um capitão portuguez
commandando navios hespanhoes que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto
das suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou dirigiu e iniciou
a expedição, foi Sebastião d’El-Cano que a completou e concluiu, e para
que n’essa consagração ultima e solemne da conquista definitiva da Terra
pelo homem, não faltasse tambem a patria gloriosa de Colombo, a audaz,
a pensadora e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que narrou,
para que assim os tres povos latinos, que eram egualmente benemeritos da
civilisação e da sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra os
seus representantes. Essa epopéa ultima que ía pôr o fecho ao trabalho
épico de um seculo para sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi
um Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a completou, foi um
Italiano que a escreveu.
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