Christovam Colombo e D. João II

Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, que estivera na

Islandia e na Guiné, que estivera nos Açores, e que, casando com a filha

de Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia no Porto-Santo

e na Madeira, combinou tudo o que lhe diziam os pilotos portuguezes,

tudo o que os seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com o

que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus livros predilectos, os

geographos antigos e a _Imago Mundi_ de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu

espirito, de um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente

possivel chegar á Asia partindo dos Açores, e communicou essa idéa ao rei

de Portugal.

Actuou por acaso, de algum modo, no espirito de Colombo a viagem que elle

fez á Islandia, e onde poude ter conhecimento das viagens dos navegantes

escandinavos do seculo XII, que chegaram á Groenlandia e até á America do

Norte, que elles denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham que vêr

esses paizes do Norte com o seu sonho da Asia encontrada pelo occidente?

Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e mais terras, não era

caso de espanto. Hoje que conhecemos toda a terra sabemos a importancia

que isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma se lhe ligara

no seculo XII. As descobertas não têem importancia pelo que hoje se

reconhece que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião em que se

fizeram. O problema era, como dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano

Atlantico em toda a sua largura. Passar da Islandia á Groenlandia e da

Groenlandia ao Vinland era façanha muito menos importante do que a que

praticaram os Portuguezes descobrindo os Açores.[98]

Seriam por outro lado as instancias de Colombo ao governo portuguez que

levaram el-rei D. Affonso V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha

que se podesse chegar á India caminhando-se pelo occidente? É possivel

que não. Como sabemos, esse problema já atormentava as imaginações

dos que se preoccupavam com as questões geographicas, e era assumpto

de vivos debates. A concessão feita em 1473 por D. Affonso V a Ruy

Gonçalves da Camara e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que o

fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão despida de auxilio

governamental sem ter instado com o rei para obter um subsidio ou um

apoio mais efficaz do que a concessão platonica das pelles de urso, que

Ruy Gonçalves obteria se matasse os ursos. Logo veremos que havia esses

pedidos, e que D. João II em occasião importante lhes prestou ouvido mais

attento. Foi, decerto, então que el-rei perguntou a Toscanelli o que

pensava a este respeito, e que recebeu de Toscanelli a resposta de que

Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião do sabio geographo, não

deixou de ter conhecimento, porque o proprio Toscanelli lh’a communicou.

Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a gloria de Colombo, como

pretendeu demolir a dos navegadores portuguezes! Se ha carta que possa

mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de Colombo é a carta

de Toscanelli. O grande geographo italiano conhece o caminho como

conheceria o caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a Asia, os

archipelagos que o navegador ha de encontrar no caminho, e tudo isso vae

para o mappa como se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos

lá estavam effectivamente como os Açores, como a Madeira, como as ilhas

que se descobriram e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o que

acontece ás prophecias. Com um pouco de boa vontade sempre ha algumas

que, mais ou menos, parece que saem certas.

Nós porém é que não vemos as coisas com os olhos da parcialidade,

e applicamos a todos o são preceito de Humboldt que elle tão pouco

respeita. As cartas da edade média são excellente elemento de estudo

quando se analysam com criterio, quando se não perde de vista o

pensamento de que ellas encerram o que realmente se descobriu e o que

os sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. Os navegadores

d’esse tempo é que não sabiam as maravilhas que praticavam, e a sua

aspiração não era encontrar terras desconhecidas, era encontrar as terras

adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem em mappas anteriores,

os Portuguezes exclamariam com enthusiasmo: São estas mesmas! O maior

prazer d’esses navegantes, quando chegassem á Antilha ou á ilha de S.

Brandão, seria bradarem com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de

S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão Telles ía pelos mares fóra

com a esperança de encontrar a ilha das Sete Cidades. Este é que era o

criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta das costas africanas.

Todo o seu desejo era confirmarem o periplo de Hannon e as theorias da

antiguidade. Foi para elles um desapontamento reconhecerem que um rio que

descobriram era o Senegal, completamente ignorado pelos antigos, em vez

de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia antiguidade affirmava,

e que os Portuguezes só aspiravam a confirmar.

Que impressão produziria a opinião de Toscanelli não no animo de D.

Affonso V, que tinha outros pensamentos e outras ambições, mas no de D.

João II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar sériamente nos

descobrimentos? Não muita, e de certo contribuiria para isso, bastante,

o proprio movimento maritimo dos Açores. É bem natural que os mareantes

que voltavam d’essas expedições de tentativa exaggerasem o espaço de mar

que tinham percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais as idéas

geographicas dos antigos ainda dominavam muito os espiritos. O systema

geographico de Ptolomeu e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de

uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de pé o que se não demolia

directamente. Ora uma das idéas favoritas da geographia antiga era a

grande extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a terra só a septima

parte estava fóra das aguas. Colombo sustentava a opinião contraria, dava

razões de equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar o preconceito.

Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar que os Portuguezes se

achavam no caminho verdadeiro da India. Qual era a opinião antiga? que

a costa africana occidental, _antes de se chegar ao equador_, voltava

para o oriente e ia ou á Africa Oriental ou á Asia. Se as viagens

portuguezas tivessem mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo

tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas todas as

esperanças, mas as viagens portuguezas tinham demonstrado exactamente

que não havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir com afoiteza,

que mais longe ou mais perto havia de se chegar ao fim do continente

africano e havia de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se

entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era natural, passava-se

de extremo a extremo. Desde que se descobrira que a zona torrida não

era inhabitavel, conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, e que se

poderiam atravessar as zonas glaciaes como se estava atravessando a zona

torrida.[99]

E note-se que a idéa de que teria de se dobrar um cabo quando se chegasse

ao fim da peninsula africana, estava tambem em todos os espiritos, e

era a conjectura natural da geographia. As peninsulas, sabia-se bem,

terminam geralmente em promontorios. Portanto o empenho de D. João II

estava todo concentrado no proseguimento das descobertas africanas. Não

podia elle, diz-se, se tinha confiança, como sabemos que tinha, não

no projecto do Genovez, mas no seu talento, e nos seus conhecimentos

maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque isso era completamente

contrario ao seu systema de exploração. As tentativas dos Açorianos e dos

Madeirenses, protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas concessões

nas terras que descobrissem, mas não as subsidiava, nem consentia tambem

que elles interferissem nas descobertas reservadas para si. As terras

concedidas eram-n’o com a condição de não serem nos mares da Guiné.

Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas á sua custa, ou

conseguisse que um capitalista o _commanditasse_, com que facilidade

elle obteria de D. João II todas as concessões que desejasse! Foi uma

felicidade para o mundo que Colombo não tivesse dinheiro para a empreza,

nem socios capitalistas. Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão

de mar sem encontrar terra, quando visse a perspectiva de perder

completamente o seu dinheiro ou o dos seus socios, talvez não ousasse

proseguir, e decerto lh’o não consentiriam os que representavam a bordo

os interesses dos armadores. Para se levar a effeito essa obra grandiosa

era necessario que estivesse empenhada no triumpho a honra de uma nação!

Como é que aquelle grande espirito de Christovam Colombo não inflammou no

seu enthusiasmo o espirito, que passa tambem por ter sido grande, de D.

João II? Enganou-se a historia no seu juizo? Era, afinal, o rei D. João

II um espirito vulgar, ou pelo menos um espirito absolutamente pratico

e forte em todas as questões da vida positiva e real, mas desdenhoso

de tudo o que excede os limites do seu horizonte? ou por acaso não

tinha elle pelas coisas geographicas o interesse real que manifestava,

ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? Não, não,

nada d’isso. D. João II foi realmente um dos grandes principes do seu

tempo, um dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender os

grandes projectos dos descobrimentos. O proprio Colombo o diz a cada

instante, Toscanelli farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o

soberano que melhor entendia de coisas geographicas, o nosso grande

rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo Colombo não conseguiu captival-o.

É quasi incomprehensivel esse facto, mas talvez se explique um pouco se

analysarmos os caracteres de um e de outro.

Ha, naturalmente, duas especies de organismos entre os homens da mais

alta esphera: os desequilibrados e os equilibrados. Á primeira pertencia

Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II era um d’estes

fortes espiritos, perfeitamente assentes n’uma base segura, que têem a

perspicacia, a energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas,

espiritos capazes de formarem um plano e de o desenvolverem serenamente,

completamente desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as innovações,

mas não sem as sujeitarem ao criterio do seu lucido juizo. Homens assim,

n’este jogo da existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas,

nunca se entregam aos irreflectidos caprichos do azar. O perigo não os

assusta, e affrontam-n’o quando é necessario, mas não o procuram por uma

vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, ninguem o foi como D.

João II: em Arzilla escureceu a fama dos mais denodados cavalleiros, em

Toro a ala que elle commandava internou-se no mais denso das fileiras

dos castelhanos e destroçou-as, emquanto a ala commandada por seu pae

era desbaratada pelo inimigo, mas depois de subir ao throno nunca mais

teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. As guerras de Portugal tinham

de ser com o Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. É

um organisador e não um aventureiro, o que o não impede de querer a

grande aventura da India, mas prepara-a, organisa todos os elementos de

successo, antes de jogar a cartada decisiva.

A razão é a faculdade que domina o seu espirito, a imaginação é a escrava

obediente. É inaccessivel aos vagos terrores que tão facilmente assaltam

os nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois d’elle ter cercado

de cadaveres o seu throno, no cumprimento implacavel da sua missão

centralisadora, sente baterem de noite mysteriosamente á porta do quarto

onde dormia com sua esposa. Levanta-se e vai ver quem é. Ninguem, mas ao

longe uns passos mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. Jaz

em silencio e na escuridão da meia-noite o palacio todo. Vive-se n’uma

epocha de crenças e de superstições. É algum dos espectros das suas

victimas que o vem chamar para a expiação? D. João II sorri-se com este

pensamento, vai, segue o passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua

obstinada procura, só, com a sua espada e uma luz, e quando os servos,

acordados pelos clamores da rainha, correm em sua busca, vão encontral-o

n’um desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, impassivel e sereno

como quem não comprehende sequer os pavores da superstição.

De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha pelas tendencias

nobres do seu espirito é o infante D. Pedro, mas este possuia uma

qualidade que arredondava todos os angulos do seu caracter, que amaciava

todas as durezas do seu pensamento: a bondade feminil, que elle herdara

de sua mãe, D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao seu

lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, para attenuar as

asperezas da indole do matador do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre

e intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia sobre o seu

terrivel marido, porque não era amada. Mas a alta razão, a comprehensão

de todos os grandes emprehendimentos, a cultura que o punha a par do

seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, que eram a sombra

povoada de visões, quando elle sonhava uma sociedade radiante de luz e

de sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. João II. D. João

II era a Renascença que principiava com os ideaes de Platão e o culto

da sciencia antiga seriamente estudada e seriamente comprehendida, e

Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir para a Renascença, era

comtudo pelas tendencias do seu espirito o ultimo representante d’essa

meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se sumir para sempre,

legava ao mundo que nascia a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco.

Imagine-se agora Colombo tratando com D. João II, que o ouve, que o

attende, que percebe que não tem deante de si um homem vulgar, mas que

desconfia, que hesita deante d’aquelles projectos meio mysticos, meio

scientificos, deante d’aquella exuberancia de palavras e de pensamentos

que não quadra ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um italiano,

com aquella prodigalidade de palavras e de formulas obsequiosas,

caracteristicas da raça. O que era elle? um sabio ou um charlatão? Se do

sublime ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão dizia, de um homem

de genio que traz uma idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir

tambem a distancia não é grande. Colombo, profundamente convencido,

era prodigo de promessas e não menos de exigencias. Os thesoiros que

elle encontrasse no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista do

Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo Sepulcro era, sem desfazer

nos sentimentos christãos de D. João II, _le cadet de ses soucis_.

Christovam Colombo enganara-se na porta. Essas declarações eram optimas

para D. Affonso V, detestaveis para D. João II. Tudo quanto cheirasse a

cavallaria andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava em D.

João II um antagonismo ferrenho. E percebe-se que assim fosse, desde o

momento que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando Portugal, que

fôra tudo isso que fizera a desgraça de D. Affonso V e que era a esses

bellos sonhos que D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer,

por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino.

Ainda havia um facto que não podia produzir boa impressão em D. João II.

Arrastado pelo ardor das suas convicções, como acontecia com Toscanelli,

Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que ficava Cipango de

Portugal. Ora D. João II era um espirito bastante positivo para perceber

o que havia de absurdo em semelhante calculo, e a segurança manifestada

por Colombo mais ainda o punha em guarda contra os seus projectos.

Hoje que os factos mostram como Colombo tinha razão, todos imaginam que

só o espirito de rotina podia fazer com que elles fossem regeitados. E

comtudo, examinando-os bem comprehende-se que espiritos positivos não

acceitassem. Colombo suppunha por exemplo que a relação entre a terra e

o mar era de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação é de 1 para

2,7, ou mais exactamente de 29 para 82.[100] Quaes eram as razões em

que elle se baseava para suppor que a Asia estava proxima da Europa?

Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia antiga. Segundo

Ctésias a India formava metade da Asia, Plinio suppunha que era só por si

o terço da superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios

quatro mezes de caminho para se chegar á extremidade oriental da India,

e Strabão que até esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um

exercito. O geographo a que Colombo se encostava para avaliar a distancia

que tinha a percorrer não era Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu

sustentava que a terra habitada entre o meridiano das ilhas Afortunadas

e o meridiano de Sera, quer dizer da China, era de 177°¼, portanto o

espaço de mar a percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem 360°.

Marino de Tyro sustentava que a porção de terra habitada era de 225°,

portanto o espaço de mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo

fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. Effectivamente dizia

elle que Marino não chegára á extremidade oriental da Asia em 15 horas

(calculando-se as longitudes em tempo, e correspondendo cada hora a 15°)

porque a extremidade oriental da Asia ficava muito além do ponto marcado

por Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade oriental da

Asia e as ilhas de Cabo Verde era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de

8 horas ou de menos de 120°.

Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira os calculos de Marino de

Tyro, e que a opinião de Colombo tinha portanto contra si a do geographo

mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo aferra-se á sua opinião,

e quando está na America julgando estar na Asia, persiste, e até se

apoia nas opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E agora que os

Portuguezes navegam tanto, acham que Marino foi exacto.»[101]

E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em 56 milhas e ⅔, baseando-se

nos calculos do geographo arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha

italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que o grau ficava tendo

apenas pouco mais de 14 leguas. Toscanelli, na sua famosa carta de

1474, avaliava o espaço a percorrer de um modo differentissimo. D.

João II ver-se-hia de certo embaraçado para avaliar quem tinha razão,

e regeitaria então sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse que

de todos os geographos da antiguidade o que menos se enganára fôra

Eratostenes que calculára a distancia entre o promontorio Sacro, quer

dizer o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, em 240 grau. A

distancia verdadeira é 230.[102]

Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho scientifico, que a

manifestava não só porque todas as corporações sabias têem uma tendencia

innata para repellir as idéas novas apresentadas por quem não pertence ao

seu gremio scientifico, mas tambem porque as propostas de Colombo tinham,

como acabamos de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam parte do conselho

dois judeus, Rodrigo e Josef, que de certo conheciam bem o arabe, e aos

quaes talvez não escapasse o erro da interpretação do geographo arabe

Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição da proposta de Colombo era

portanto inevitavel.

E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação apaixonada do infante

D. Henrique, que se deixaria de certo seduzir pelo enthusiasmo do

italiano, tinha o espirito bastante elevado para reconhecer que não era

Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu do nosso paiz, teve um

baque no coração, e, passando por cima de tudo e da opinião dos seus

conselheiros, e das tendencias naturaes do seu espirito, escreveu-lhe

a famosa carta em que o chamava.[103] Porque não veiu Colombo? Porque

saíra bastante irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do conselho

scientifico do rei, ou porque os seus amores com D. Beatriz Enriquez, a

mãe de Fernando Colombo, o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil

a primeira hypothese. O resentimento de Colombo era tão profundo que

não duvidou accusar D. João II de uma acção que elle bem sabia que era

absurda em primeiro logar, que seria indigna de um homem cujo caracter

elle não podia deixar de respeitar.

E comtudo a historia tem repetido essa accusação, injusta, mesquinha e

disparatada! Colombo accusou D. João II de o ter repellido, mas de ter

aproveitado ao mesmo tempo as suas indicações para mandar dois navios

em busca da Asia pelo occidente, e que esses navios, açoitados por uma

tempestade, tinham sido obrigados a voltar para Lisboa.

Em primeiro logar era evidente que a viagem de descoberta não podia

começar senão em Cabo Verde ou nos Açores. Se uma tempestade occasional

os tivesse feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem d’aqui

saído, não era caso para descoroçoar. Só passado o meridiano dos Açores é

que principiava a expedição.

Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos navegadores portuguezes

tinham sondado os mares do occidente, não com o fito de demandarem a

Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas? Era a transformação

do intuito que representava o abuso de confiança? Era a escolha do

parallelo a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta de Toscanelli que

preconisava tambem a escolha do parallelo que a Cipango conduzisse?

Não vemos nós claramente que a unica difficuldade de D. João II estava

em fazer por sua conta a expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa,

não receberia do rei de Portugal senão todas as animações. E, recusando

isso a Colombo, que elle considerava e estimava, ia fazel-o com outros

pilotos, que, ainda que não tivessem menos habilidade nautica, não teriam

de certo estudado a questão com a perseverança e o enthusiasmo de Colombo?

Mas não continuemos, podemos hoje felizmente mostrar de um modo

evidentissimo qual foi o facto verdadeiro que, mal interpretado, mal

comprehendido, adulterado por alguma informação calumniosa, mais ainda

pelo resentimento de Colombo, serviu de base á sua accusação.

Temos mostrado como o governo portuguez fazia as concessões aos

navegadores ilheus que queriam demandar terras novas: dava-lhes n’essas

terras todos os privilegios possiveis, o direito de administrar a

justiça, reservando sempre para a corôa os casos de pena de morte ou

de talhamento de membros. Accentuava bem que esses privilegios não se

limitavam ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse, mas que,

se encontrassem terra habitada, como a famosa ilha das Sete Cidades,

por exemplo, tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com as mesmas

restricções, e esses moradores tambem os mesmos privilegios. Ora em 1486,

pouco depois de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão d’Ulmo

a pedir uma concessão semelhante. El-rei fez-lh’a nas condições das

anteriores, com umas modificações que são eloquentes:

Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira _pera buscar nas

partes do mar ouciano huumas ylhas_, Fernão Telles obtem a concessão

de _quaesquer ilhas que elle achar_, e depois diz-se-lhe que a mesma

concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas. Fernão Dulmo pede que

El-rei «lhe faça mercê e reall doação da dita hylha ou hylhas OU TERRA

FIRME povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede.

Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça _com alçada de poder

enforcar, matar e de toda outra pena criminall._

Prevê o caso de que as ilhas ou _terra firme_ sejam povoadas e offereçam

resistencia a Fernão Dulmo, que vae á sua custa, é claro, e com a gente

que poder levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo caso que sse

não queiram sujeitar _as ditas hylhas e terra firme a nos, mandaremos com

o dito Fernam Dulmo gente e armadas de navios com noso poder pera sogigar

as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam Dulmo hyrá sempre por capitam

moor das ditas armadas_.»

O que mostra isto? Mostra que a insistencia de Christovam Colombo fez

impressão em El-rei. Não vai nem por sombras intentar uma expedição á

sua custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições para o

occidente. Admitte a possibilidade de se encontrar terra firme, não põe

as minimas restricções ao poder do descobridor, e, se a terra firme ou as

ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem a Asia, é o que isto quer

dizer, Fernão Dulmo pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu

poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido nas armadas que

se expedirem.

O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro esta carta de doação na

integra, estranha o facto que acabamos de notar, e escreve:

«A jurisdicção concedida por esta carta é muito mais extensa do que

a dos documentos analogos e anteriores, _o que admira da parte de D.

João II, que tanto luctou para estabelecer a centralisação do poder

real_.»[104]

É positivamente a impressão produzida na alma do rei pelas propostas

de Colombo. A visão do occidente começa a assenhorear-se da sua alma e

atormenta-o. Querem outra prova ainda? Esta carta régia foi apresentada

ao tabellião, e entre Fernão Dulmo e João Affonso celebra-se um contracto

em que ha a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam que em

companhia deles hadir que ele alemam escolha dir em qualquer caravella

que quiser e do dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.»

Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente nos Açores e que

parte com a expedição escolhendo a caravela que quizer? É claramente

Martim de Behaim, que acaba de voltar da viagem que fez ao Zaire com

Diogo Cão, Martim de Behaim, que tambem sonha com o encontro da Asia

pelo occidente, que muita vez trocou idéas com Christovam Colombo a esse

respeito, que se resolve a fazer uma tentativa, tentativa que parece não

ter ido por deante, ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou

sem elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha trabalhando

no seu famoso globo, e voltando de Nuremberg a Lisboa com o intuito de

realisar emfim a sua expedição, munido de recommendações do imperador

para o rei de Portugal e de animações de sabios. No intervallo Colombo

antecipára-se-lhe. A America estava descoberta. Demais entre a saída de

Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento da America dera-se um

grande acontecimento que robustecera a confiança de D. João II no methodo

que seguira e que dissipára as suas apprehensões de um curto caminho para

a Asia pelo occidente. A costa africana occidental fôra completamente

descoberta, transpozera-se o Equador, percorrera-se toda a zona torrida,

encontrára-se o termo do continente africano, e dobrára-se o cabo em cujo

nome _Boa Esperança_ D. João II condensára o immenso jubilo da sua alma.

O primeiro dos grandes problemas geographicos, que nem a antiguidade

nem a edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o os Portuguezes

resolvido. A preoccupação, que evidentemente tinham deixado no espirito

do rei as propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na alegria

d’este triumpho.

Mas vê-se bem agora como o conhecimento da nova tentativa açoriana,

semelhante aliás a tantas outras que Colombo bem conhecia, devia

ter irritado o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e

despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos tambem a noticia

das concessões excepcionaes feitas pelo rei, e até da designação especial

de terra firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse roubado,

como se Colombo tivesse outra coisa que se lhe roubasse que não fossem

as suas qualidades pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu

conhecimento da nautica e da astronomia. Tudo isso o levára elle comsigo.

Demais, as concessões de D. João II, por mais amplas que fossem, não

chegavam ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo, recusava-o

tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias, mantinha-se nos seus

principios; de que podia então queixar-se Colombo?

Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou Colombo, n’um momento

de colera, injusto com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra onde

nascera seu filho, fôra sempre a terra dos seus amores. Com este povo de

marinheiros se creára, pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram

devéras na sua alma as suas grandes aspirações, foi com o trato dos

nossos pilotos que se instruiu praticamente, que aprendeu, por assim

nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o esqueceu nunca, nem

quando pensava que era pelo vôo das aves que os Portuguezes tinham

descoberto as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma das suas

affirmações, os Portuguezes que tinham navegado tanto. Como Portuguez

até se considerava, e fazia-lh’o sentir Toscanelli.[105] Com os nossos

descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar de tudo, vê-se-lhe não

sei que funda pena de não ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos

navios da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle n’uma carta escripta

a Fernando o Catholico pouco tempo antes da sua morte, _que entendia

mais do que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos_,

de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo que, durante quatorze annos,

não pôde comprehender o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe parece esse

caso que o toma á conta de milagre, e diz que _Nuestro señor le atajó la

vista, el oido y todos los sentidos_.[106]

Não! a verdade era que a empreza de Colombo era a empreza de um

allucinado de genio, de um homem em quem a imaginação predomina, de

um visionario que tem visões lucidas, de um inspirado, de um louco, e

homens assim não podem dirigir-se, sem ser repellidos, áquelles que

teem o forte equilibrio de todas as faculdades, aos que se deixam

guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão biblica, nem pelas

scintillações dos sonhos, mas pelo clarão firme, sereno, da razão e do

raciocinio. Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique um

homem que o comprehendesse, porque era um allucinado tambem; na epocha

em que apparecia só o podia comprehender uma alma feminina, vibratil

a todos os enthusiasmos, apaixonada pelas visões mysticas, accessivel

á influencia magnetica de uma eloquencia aquecida pela sinceridade de

uma convicção ardente, de uma mulher, emfim, que se chamava Isabel a

Catholica, a mais radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha, aquella

que nos apparece nos longes da historia como a estatua da Poesia do

Romancero, cavalheiresca e meiga, varonil na intrepidez e feminil na

suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar no momento

mais proprio para a levar para as grandes conquistas ideaes, dentro dos

muros da conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha a ultima

tribu arabe e o ultimo soberano oriental, tendo feito tremular sobre

o crescente prostrado a bandeira da cruz, e anciando tambem por abrir

novos mundos á energia hespanhola, novas conquistas ao seu pensamento,

enamorando-se facilmente da idéa de transpôr os limites do Oceano, de

tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a gloriosa cruzada dos

mares, e de ir arrancar emfim aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o

oiro do resgate para o tumulo de Christo.

Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica · 第 15 / 21 题