Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America

Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente para o sul no caminho

da zona torrida o que se fazia para o Occidente? Era possivel, era

natural, que a descoberta do Porto Santo, da Madeira e dos Açores

satisfizesse completamente a curiosidade portugueza? Os que defendem as

duas versões ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem

uns e outros um erro capital; uns suppondo que os Portuguezes não

os encontraram senão porque antes d’elles lá tinham aportado outros

navegadores, de cujas informações os nossos se aproveitaram, os outros

imaginando que antes das descobertas portuguezas se considerava como

completamente vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico. Descobertas

positivas não as podia ter havido, porque ás terras que podessem ter-se

descoberto aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo foram

cubiçadas e disputadas. O que havia era o sonho celtico das ilhas

mysteriosas no seio do Atlantico, e em busca d’esse sonho quantos navios

teriam corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás costas européas

nem sequer o cadaver do cão da frota legendaria de Brékan. Mas essas

ilhas phantásticas estavam profundamente radicadas no animo dos homens

da edade média, e a ilha de S. Brandam tinha para elles existencia tão

real como o reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse,

quem arribasse a uma ilha qualquer no meio da vastidão dos mares, como

voltaria contente e triumphante do seu achado, doido de alegria por ter

conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano alguma d’essas ilhas que

fluctuavam no mar da lenda, filhas da miragem do mar como da miragem do

sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma da lenda hollandeza, que

todos suppunham avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura do

horizonte o fino perfil das suas arvores, ou a ondulosa curva das suas

montanhas!

Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo contrario, de muito mais

ilhas do que as que se encontraram! E quando o infante D. Henrique mandou

os seus navegantes procural-as, é porque tinha a convicção profunda de

que existiam, e os seus audazes marinheiros o que julgavam era seguir o

sulco espumoso do barco do santo irlandez, como quando seguiam, segundo

a phrase de Colombo, o vôo das aves que os conduziam a terra, cuidavam

seguir talvez, alados mensageiros celestes que os conduziam ás ilhas de

promissão, ou pelo contrario demonios encarnados em passaros, que os

arrastavam ás ilhas infernaes.

Os que trazem com ufania, como uma conquista para a historia, a lenda da

ilha da Madeira descoberta antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho

Cabral, partem da errada supposição de que esses ignotos descobridores

deram grande novidade aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no

Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a questão era encontral-as.

Feliz o paiz que as descobrisse! Não as largava facilmente! A posse

tranquilla e indisputada da Madeira e dos Açores prova bem que ninguem

punha em duvida o direito de prioridade que os Portuguezes se arrogavam.

O que faziam porém os colonos d’essas novas ilhas, tudo gente marinheira

e aventurosa, que não ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que

se achava confinada? N’elles se condensava, pela sua posição especial,

pelo espirito mais aventuroso que a essas ilhas os levou, a tendencia

emigrante dos Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda hoje

domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram sempre os Madeirenses e

os Açorianos os que predominaram na colonisação portugueza? Não foram

elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? Não são os Açorianos

quasi exclusivamente os Portuguezes que vamos encontrar na America do

Norte, em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho ainda, á

beira da rede dos lagos que separam os Estados Unidos do Canadá, sendo

tão numerosa a colonia portugueza de Erié, que alli se publica um jornal

portuguez, chamado o _Erié_ tambem? Não são os Madeirenses que nós

vamos encontrar em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando,

em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto de Mossamedes? E se isto

acontece hoje, no nosso periodo de decadencia, de repouso, quando esse

instincto emigrante é perfeitamente atavico—não era bem natural que

acontecesse de um modo muito mais independente n’esse periodo de vigor e

de febre descobridora, e quando os que habitavam a Madeira e os Açores

não eram os que lá tinham nascido, mas sim os proprios que as tinham

descoberto, ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham colonisado?

Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. Entre os

mais audaciosos descobridores conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de

João Gonçalves Zarco, e com elle o seu companheiro de seu tio no

descobrimento do archipelago, Tristão Vaz Teixeira.[80]

E acabemos por uma vez com a accusação que se nos fez de que nos

limitámos a uma navegação costeira, e de que receiavamos sair para o mar

alto! Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros descobrimentos

exactamente no mar alto é que se fazem, cujos _coups d’essai_ são as

viagens em que encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados de um

mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje considerado como o de mais aspera

educação para o marinheiro, e que estão mais avançados para o occidente

do que a propria Islandia, essa _ultima Thule_, onde parou por tanto

tempo amedrontada a navegação antiga?

Mas, percebe-se bem que, desde o momento que o fito das viagens

portuguezas era chegar á India torneando a Africa, desde o momento que a

geographia systematica dos antigos lhes dizia que logo abaixo de Marrocos

principiava a Ethiopia, e que a costa logo fazia uma inflexão para léste;

era essa volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar, e

decerto não a encontravam abandonando a costa. E, comtudo, quantas vezes,

fatigados d’essa investigação inutil, soltavam os nossos navegadores

as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um vôo um grande espaço,

chegando a um ponto muito adiantado da Africa e tendo depois de voltar

atraz para explorar miudamente o trato de costa que tinham deixado em

branco![81]

Navegadores do seculo XV não podiam positivamente achar-se confinados nos

estreitos limites de umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a

tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso, sobretudo quando a

lenda confirmada pela sciencia conjectural d’esse tempo lhes fallava de

ilhas maravilhosas a que não tinham chegado ainda, e quando as vagas do

Oceano lhes traziam a cada instante a prova evidentissima de que para

além d’esse horizonte branqueado pela espuma das vagas distantes, havia

terras, terras habitadas, terras cobertas de vegetação. Sobretudo nos

Açores os documentos multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes. As

ilhas não se apinhavam n’um só grupo como Madeira e Porto Santo. Havia

ilhas destacadas como as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação

europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se não fizessem, se

não se houvesse chegado á ilha das Flores e á ilha do Corvo. Podia-se

comprehender então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que tinham

encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou a fertilissima Terceira, se

tivessem deixado ficar n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco

natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo. Mas a descoberta do

Corvo e da ilha das Flores mostram claramente que se não acalmára a sua

irrequieta actividade, e que o Oceano continuava a ser sondado por esses

audazes marinheiros, que são hoje accusados de não ousarem arriscar-se ás

aventuras do alto mar!

«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt, são os pontos de

paragem que mais importante papel representaram na historia d’estas

descobertas e da civilisação, quer dizer na série dos meios que os povos

do Occidente empregaram para estender a esphera da sua actividade e

para entrar em relação com as partes do mundo que lhes tinham ficado

desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt: «Ha da extremidade

septentrional da Escocia á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia

á extremidade sudoeste da Groenlandia 240 leguas; d’esta extremidade

ás costas do Lavrador 140 leguas; á embocadura do S. Lourenço 260;

da Islandia directamente ao Lavrador 380 leguas. _Ha de Portugal

(embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel) 247 leguas_; dos Açores

(Corvo) á Nova Escocia 412 leguas!»[82] É isto o que explica de um

modo bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros da Islandia

poderam encontrar a America, e não a poderam encontrar os não menos

intrépidos marinheiros dos Açores. É isto o que responde, de um modo

bem cathegorico, tambem, aos que dizem que os Portuguezes não largavam

as costas. Um povo que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas

maritimas para encontrar um ponto perdido no meio do Oceano, e que

o fixava, e que n’essas ilhas ou proximas ou distantes estabelecia

colonias regulares e em constante communicação com a metropole, era

um povo que se encontrava bem mais apto do que outro qualquer para as

grandes navegações maritimas, era um povo que os pavores do Oceano não

obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah! se a Providencia,

em vez de ter agrupado os Açores n’um só ponto, destacando apenas como

sentinellas avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse disseminado por

toda a extensão do Atlantico, fazendo de todas ellas os marcos milliarios

d’esse vasto percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé, a

Islandia e a Groenlandia para o continente norte-americano, seria talvez

Colombo, mas Colombo em navios portuguezes, que teria realizado a

empreza que de tão justa gloria rodeiou o seu nome. Mas razão tem de

sobra o nosso illustre patricio, o eminente escriptor Ernesto do Canto,

quando diz: «Foi certamente com a pratica da navegação para os Açores

que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram nos processos de observar os

astros para d’essas observações deduzirem a sua posição nas solidões do

Oceano ou das terras que demandavam. Sem esta escola todo o progresso

seria lento. A existencia e o achado do archipelago açoriano foi pois a

causa determinante das posteriores e importantes descobertas do seculo

XV.»[83] E razão tem ainda quando encima o capitulo IV da sua obra com

esta affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto avançado para

a descoberta da America e um fóco de irradiação para as explorações

maritimas.»[84]

Como podiam os açorianos pois desprender a sua attenção d’essas terras do

occidente se ellas a cada instante se faziam lembradas, arrojando-lhes

troncos de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas e até cadaveres de

homens de estranha physionomia?[85] Era o que succedia tambem na Irlanda,

e o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas mysteriosas

terras. Note-se, porém, que as circumstancias eram um pouco differentes.

O genio aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os levar, e

levava-os effectivamente, a navegar para os lados occidentaes; em todo o

caso os Irlandezes estavam na sua patria e na sua casa, viviam na terra

em que tinham nascido, prendiam-se ao solo por estas mil raizes tenues e

poderosissimas que reagem insensivelmente contra o espirito de aventura,

emquanto que esses primeiros colonos dos Açores, transplantados do solo

natal, arrastados alli pelo desejo de tentar fortuna, achavam-se já

elles proprios em plena aventura, estavam fundeados no meio do Oceano,

e emquanto esse navio, porque até as agitações vulcanicas das ilhas

faziam com que o solo lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de uma

embarcação, se não tornava para elles uma nova patria, estavam promptos

sempre a saltar para as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia um

pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses, mais proximos da Africa,

menos mettidos pelo Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva

preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a attenção e os esforços.

Os Açorianos, destacados perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra

da corrente das navegações methodicas que o infante D. Henrique dirigia,

para o occidente e só para o occidente deixaram voar as suas aspirações.

É a prova d’isso que nós encontramos no proprio Herrera quando dá

conta das revelações que incitaram Colombo a intentar a sua empreza.

Foi a narrativa do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando a

450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou boiando nas aguas um

pedaço de madeira lavrada; foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal,

correram 150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram a ilha

das Flores. E, como n’um escripto publicado ultimamente na _Illustracion

española y americana_ se tratava com desdem este facto, alcunhado

até de phantastico, paremos um instante para mostrar a sua perfeita

authenticidade.

Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado Diogo de Tiene

(_Teive_), cuyo piloto Diego Velasques vezino de Palos, afirmó a Don

Christoval Colon, en el monasterio de Santa Maria de la Rabida, que se

perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron cento y cincuenta leguas

por el viento Leveche, que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron

la isla de las Flores, guiandose por muchas aves que vian boiar házia

allá, las quales conocieron que non eran marinas.»[86]

Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam Colombo, no seu

_Itinerario_, quando diz os motivos porque mudou em certa altura o rumo

da sua viagem, refere que o principal foi o exemplo dos Portuguezes, que,

seguindo o vôo das aves, tinham descoberto as suas ilhas.

Mas temos mais, temos o documento authentico que mostra que foi

effectivamente esse Diogo de Teive que descobriu a ilha das Flores. É a

carta de doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por D. Affonso

V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475, e onde diz:

«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão Telles tenha e haja e

assim seus successores as ilhas que chamam das Flores _que pouco ha que

achára Diogo de Teive e João de Teive seu filho_, e elle dito Fernão

Telles ora houve por um contracto que fez com o dito João de Teive, filho

do dito Diogo de Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella

forma com aquellas condições e maneira que as elle houve do dito João

de Teive e que ficaram por morte do dito seu pai e no dito contracto é

contheúdo.»[87]

Mas os documentos não faltam para provar a actividade febril com que os

Açorianos se arrojavam ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se

vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou dos emprezarios d’essas

explorações:

«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando seus navios ou homens

nas partes do mar Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá, lhe

fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para todo o sempre, como logo

de feito fazemos, de quaesquer ilhas que elle achar ou aquelles a que as

elle mandar buscar novamente e escolher para as haver de mandar povoar,

não sendo pois as taes ilhas nas partes de Guiné.»[88]

Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto do Canto lançam

vivissima luz n’este periodo preparatorio do descobrimento da America,

e explicam com uma clareza perfeita as questões relativas a Colombo e a

Portugal. Assim vemos primeiramente que os Açorianos e os Madeirenses

não deixam de procurar terras para o occidente, e que tratam de obter

do governo as concessões necessarias para que das suas conquistas e

descobertas tirem a utilidade que desejam; segundo que os reis se

mostram prodigos em fazer a esses exploradores todas as concessões

desejadas, comtanto que do real thesouro não tenham de gastar nem mealha,

e que esses exploradores por conta propria não vão entender com os

descobrimentos para o lado da Guiné, que esses reservam-n’os para si ou

para a ordem de Christo os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava

no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens occidentaes que, ainda

depois de descoberta a America, o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem

em que descobriu a Terra-Nova completamente á sua custa.

Vejamos então a fórmula das concessões dos reis:

Temos em primeiro logar a concessão feita a 21 de junho de 1473 a Ruy

Gonçalves da Camara, filho segundo de João Gonçalves Zarco, o qual manda

dizer a el-rei, segundo na carta se diz, «como o seu desejo e voomtade

era buscar nas partes do mar ouciano huumas ylhas para as aver de povorar

e aproveytar». E o rei declara-lhe que «de huma ilha que elle perssy ou

seos navyos achar, com outorga e prazer do principe meu sobre todos muyto

prezado e amado filho, pura e yrrevogavell doaçom valledoyra amtre vivos,

jure erdatore pera elle e todos seus erdeyros que delle decemderem assy e

tam compridamente como ella a noos perteemce e de dereyto pertemcer deva

e esto com todollos foros dereytos e trebutos em ella em qualquer tempo

a nos poderiam perteemcer despoys que povoada seja sem acerqua de nos

ficar cousa algua. E como sse começar a povoar logo lhe fazemos mercee

de toda a jurdiçom civell e crime mero misto ymperoi em todallas pesoas

que em ella morarem e a povoarem ressalvando somente pera nos alçada

de morte ou talhamento de membros nos feitos crimes porquanto queremos

e nos praz que em todo o all assy civel como crime elle aja todo sem

superioridade algua. E per os homens teerem mays rezom de a hyrem povoar

a nos praz que todollos vezinhos e moradores em a dita ylha ajam todollos

privillegios liberdades e framquezas que per nos e nossos antecessores

sam dados e concedidos e outorgados aos vezinhos e moradores da ylha

da Madeira que ora he do dito duque meu muyto prezado e amado sobrinho

dos quaes queremos que gouvam os vizinhos e moradores em ella fazendo

certo dos privilegios da dyta ylha da Madeyra e pruvica escriptura. E

per esta presemte damos licença e logar ao dito Ruy Gonçalvez a que assy

fazemos mercee da dita ylha que possa dar forall aos que a ella forem

morar e a povoarem. O qual forall que lhe elle assy der queremos que seja

firme e valha como sse per nos lhe fosse dado e outorgado e per elle

sejam obrigados todos aos juizes, e justiças, officiaes e pessoas fazer

comstranger os moradores e povoadores della como os comstramgeriamos per

lex e ordenações nossas que per assi teer pera ello nossa autoridade, nom

menos vigor deve a teer aver como se per nos fosse fecto».[89]

Vimos que a carta de doação a Fernão Telles tambem lhe confere a posse

das ilhas que descobrir, mas logo em seguida a essa carta vem outra de

10 de novembro de 1475, em que se dão umas explicações bem proprias

para esclarecer as navegações d’esse tempo, e destruir completamente

as mesquinhas duvidas postas ácerca da prioridade dos descobrimentos

portuguezes no Atlantico por extrangeiros que só muito superficialmente

estudaram a historia portugueza. Na carta de 28 de janeiro não se falava

senão em ilhas que Fernão Telles mandasse povoar, e então o rei explica:

«E poderia ser que em elle as assi mandamdo buscar _seus navios ou jente

achariam as sete cidades ou alguuas outras ilhas poboadas que ao presemte

nom som navegadas, nem achadas, nem trautadas per meus naturaaes_ e se

poderia dizer que a mercee que lhe assi tenho fecto nom se deve a ellas

estender per assi serem poboadas.»[90]

E declara então que a mercê tambem a essas se estende e que dá a Fernão

Telles sobre os habitantes d’essas ilhas os mesmos direitos que lhe

concede sobre os povoadores que elle mandar para as ilhas desertas.

O que se vê d’aqui? Vê-se que os Portuguezes procuravam muito

ingenuamente no Oceano as ilhas que a phantasia dos cartographos

estampava nos mappas, que tinham viva crença na existencia verdadeira da

ilha das Sete Cidades e na ilha de S. Brandão, e da Mayda e da Mão de

Satanaz, da Antilha e da ilha do Brazil, e em todas as que nos mappas

appareciam, filhas das conjecturas da geographia medieval ou antiga,

e, se effectivamente as encontrassem, longe de quererem fazer suppor

ao mundo que tinham encontrado terras cuja existencia era de todos

desconhecida, se ufanariam de ter achado o que no mappa se designava, e

a descoberta das ilhas desertas e vulcanicas dos Açores, e da propria

ilha da Madeira toda coberta de bosques não era para elles senão um

desapontamento, porque as ilhas que elles cubiçavam, as ilhas celebres,

as ilhas dos mappas, essas fugiam-lhes constantemente das mãos.

Que espanto seria o d’esses navegadores, e dos seus contemporaneos se

podessem ter conhecimento das duvidas modernas! Como achariam extranho

que se lhes dissesse que só encontraram os Açores, porque a posição dos

Açores estava indicada nos mappas, quando elles levaram annos a passar de

umas para as outras ilhas que teriam n’uma só viagem encontrado se fosse

pelos taes mappas que se guiassem![91] e como o infante D. Henrique

ficaria surprehendido ao ver Humboldt encontrar a prova do conhecimento

anterior dos Açores no facto d’elle ter dito a Gonçalo Velho Cabral,

depois da descoberta das Formigas, que voltasse porque havia de encontrar

nas suas proximidades uma ilha! muitas ilhas era o que deveria dizer-lhe,

visto que o mappa lhe dava um archipelago. Como se espantaria de que um

homem de sciencia como Humboldt não percebesse que o descobrimento de uns

recifes como as Formigas com muita probabilidade indicava a proximidade

de terra! Mas o grande espirito do sabio allemão estava evidentemente

coberto com a nuvem do preconceito.

Assim vemos que o sonho das terras para o occidente e o sonho das

ilhas do mar Oceano provocou a mente dos açorianos e dos madeirenses

a arrojar-se ás perigosas aventuras. O rei facultava aos aventureiros

tudo o que elles podiam desejar, menos dinheiro. A Guiné e o caminho

para a India por esse lado eram a preoccupação constante do governo

portuguez, que em todas as cartas estabelece bem o principio de que

elle faz todas essas concessões, comtanto que as ilhas descobertas não

fiquem nos mares da Guiné. Basta a leitura d’estas cartas para que se

veja a impossibilidade do legendario descobrimento da Terra Nova por João

Vaz Côrte Real, com que se tem procurado attenuar a gloria de Colombo.

Percebe-se logo que o governo portuguez não podia dar a capitania da ilha

Terceira em recompensa a quem descobrisse a Terra Nova, quando o que elle

promettia aos descobridores era simplesmente a capitania das terras que

descobrissem como fizera com a ilha da Madeira. E seria singular tambem

que o descobridor de uma nova ilha, em vez de receber a capitania d’essa

ilha e de a povoar e aproveitar, a abandonasse completamente e recebesse

como premio d’esse descobrimento inutil a capitania de uma ilha já

povoada e aproveitada, isto quando em 1473 o rei D. Affonso V, deferindo

o requerimento de Ruy Gonçalves da Camara, dizia: «E visto per nos sseu

requerimento e por que a nos perteemce primcipalmente as cousas desertas

e nom aproveytadas fazer povoar e aproveytar pelo carrego que per deos

nos he dado emquamto per sua graça tinhamos o regimento destes rregnos e

senhorios que teemos».

Veremos no capitulo immediato como era absurdo que o rei fizesse a

Toscanelli perguntas ácerca do problema do occidente no mesmo anno em

que João Vaz Côrte Real lh’o resolvia quasi, e como é mais absurdo ainda

que D. João II, rei habilissimo e zeloso do seu dominio, estabelecesse

no tratado de Tordesillas um artigo transitorio que sacrificava, sem

uma palavra de cedencia ao menos, terra descoberta por Portuguezes;

agora mostraremos apenas que tudo é falso no que se allega com relação

ao descobrimento de João Vaz Côrte Real. A falta de seriedade historica

do auctor da _Historia Insulana_, Antonio Cordeiro, não deixára de

impressionar os que mais se interessavam por essa reinvidicação

portugueza, mas reanimava-os um pouco o verem que a noticia já Antonio

Cordeiro a encontrára em Gaspar Fructuoso, auctor das _Saudades da

terra_; mas Gaspar Fructuoso pertence tambem ao grupo d’aquelles

historiadores que entendem que são licitas as mentiras quando d’ellas

pode resultar a glorificação de um paiz, principio leviano contra o qual

protestamos quando Villaut de Bellefond o aproveita contra nós e em

beneficio da Normandia, mas que nos parece bem quando redunda em nosso

favor. Gaspar Fructuoso, apesar de ter um merito superior ao do seu

desastrado copista que outra coisa não é Antonio Cordeiro, não deixa de

ser um auctor que acceita todas as lendas quando as reputa honrosas para

os seus heroes.[92]

Ora Antonio Cordeiro diz que em 1464 foram dadas as capitanias da ilha

Terceira a Alvaro Martins Homem e João Vaz Côrte Real como recompensa da

descoberta da Terra do Bacalhau que por ordem regia tinham effectuado.

Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias dos Açores que

pertenciam ao donatario seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação

da capitania de Angra é feita pela _infanta D. Beatriz, viuva de D.

Fernando_, a 2 de abril de 1474, nem ella a podia ter feito em 1464,

porque então ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta o que

recompensa são «os serviços que João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa

do dito senhor meu filho, fez a seu padre que Deus haja, depois a mim

e a elle»;[93] em quarto logar Alvaro Martins já tinha uma capitania

da ilha Terceira muito antes de João Vaz, tanto que a carta de doação a

Alvaro Martins, em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo:

«Considerando eu como entre Jacome Bruges e Alvaro Martins, _capitão da

sua ilha Terceira de Jesus Christo_, sempre houve alguns debates por a

terra da dita ilha não se ter de todo partida...»[94]

Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um capitulo inçado de erros

historicos evidentissimos, recheado de lendas, e em que parece até que

ignora a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que, «vindo João Vaz

Côrte Real do descobrimento da Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado

de el-rei foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da Ilha Terceira e

da Ilha de S. Jorge.»[95]

Sem nos alongarmos em considerações basta que citemos os seguintes

documentos: a carta de doação de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel

concede a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir, _per sy e a sua

custa... por ho asy querer fazer com tanto trabalho e perigo_,[96] e a

carta de doação de 17 de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes

Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto e lembramça como o

_dito Gaspar Corte Real seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas

teras_.»[97]

O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar Fructuoso é que João Vaz

Côrte Real era nos Açores um heroe legendario, um forte e um intrepido.

Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia de navegadores,

foi de certo navegador elle mesmo. Como tantos outros dos seus patricios,

procurou tambem talvez, como elles, desvendar os segredos do occidente,

mas voltou sem ter encontrado novas ilhas e novas terras. Teria ido

talvez mais longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e cincoenta

leguas ao occidente do Fayal, mas, se o fez, desanimou tambem e voltou

sem encontrar a cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz

porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos, e se nova prova

fosse necessaria basta lembrarmo-nos que Martim de Behaim, o famoso

geographo, que acariciou ardentemente o mesmo ideal de Colombo, que tudo

queria saber do que se passava para o occidente, que viveu nos Açores em

alta situação, que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus trabalhos

geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg, em 1492, n’elle não inseriu

a Terra Nova dos Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as ilhas

phantasiadas.

É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, devorados da

curiosidade do Oceano, que não pensam senão nas suas secretas maravilhas,

que não sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por todas as

miragens do mar e por todas as miragens da phantasia, por todas as

confidencias mysteriosas que as correntes pelagicas lhes trazem de

remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que não ignoram o que

dizem os livros, mas que sabem sobretudo o que diz o livro immenso do

mar, que apparece de subito a figura pensativa e ardente de Christovam

Colombo. N’essas torres de atalaya, como que erguidas pela natureza

no seio dos mares, debruça-se a mirar sofregamente o Oceano o rosto

ardente do Genovez. Era o homem providencial, um d’estes homens em que

se incarna fatalmente a idéa que fluctúa sobre uma geração revolvida

pela ancia do desconhecido no mundo physico ou no mundo moral. Se o

problema do Occidente preoccupa já todos os espiritos na Europa, nos

Açores e na Madeira apresenta-se com dobrada intensidade. Não volta

um navio do occidente que não se trate logo de saber se traz comsigo a

noticia de um novo descobrimento. Por uma coincidencia singular quasi ao

mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente e sabio, Martim

de Behaim, que se sente tambem arrastado pela invencivel convicção de

que ha terras para o lado do occidente, e que é por alli o verdadeiro

caminho da India. Esse homem tem na sua vida singulares relações com a de

Colombo. Este casou com a filha do donatario de Porto-Santo, aquelle com

a do donatario do Fayal; um foi á Guiné nos navios portuguezes, o outro

foi em navios portuguezes até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata,

um burguez, um discipulo correcto e regular de um dos maiores sabios da

Europa, Regiomontanus; o outro é um italiano, um sonhador, um irregular,

um estudante incompleto. O primeiro encontra facil accesso junto aos

principes e nas universidades, o outro não acha muitas vezes nos altos

logares senão repulsas e desdens; mas este é um perseverante, um ardente,

um allucinado, o seu convencimento é uma paixão que o absorve, que o

devora. O que actua n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma

do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou de Sagres para o

Porto-Santo o vulto do asceta. Secularisou-se apenas; já não é o monge

militar, é o cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado pelo

seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma paixão pelos ideaes da fé

e da sciencia. E como sempre são estes inspirados os que attraem por um

magnetismo indizivel as idéas audaciosas que fluctuam no ar, como em D.

Henrique se incarnaram todas as aspirações de um mundo que anceia por

quebrar as grades do carcere em que a tradição o encerra, foi tambem em

Colombo que se incarnaram todas essas idéas que pairavam na atmosphera

do seculo XV, e muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense.

Triumphou mais uma vez o sonho sobre a razão, a dilatação da phantasia

inflammada sobre o trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional

expansivo e apaixonado sobre o septentrional fleugmatico e frio, e foi

Christovam Colombo e não Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos

grandes problemas geographicos.

Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica · 第 13 / 21 题