Qual era o ponto de vista do infante, quando começou a dirigir para o
sul as expedições? Era simples: Eratosthenes déra á Africa a fórma de
um trapezio, sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, o
oriental pelo Nilo, o meridional pelo mar desconhecido, o occidental pelo
Atlantico. Este lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de
Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se com a costa oriental.
Era esta a doutrina geralmente admittida, e assim se representa a Africa
na maior parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam a doutrina de
Ptolomeu que prolongou a Africa, alargando-a na base: e então imaginavam
uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa Oriental e a
Occidental, mas parando em todo o caso para aquem do Equador, porque a
zona torrida era sempre considerada inhabitavel, e para além da zona
torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra antichthona.
Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso mappa trazido pelo
infante D. Pedro de Veneza, e em que estava traçado o cabo da Boa
Esperança, e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! A confusão é
curiosa. O mappa que deu logar a essa lenda é um mappa já posterior aos
primeiros descobrimentos dos Portuguezes, representa a Africa terminando
n’uma ponta a que dá o nome de cabo de Diab, mas esse cabo está separado
do continente africano por um estreito, onde havia, dizia a legenda,
a treva absoluta. Parecia que era esse canal a ultima reliquia, que
procurava sobreviver ainda, do mar Tenebroso.
Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, e, da mesma fórma
que muitos confundiram a terra antichthona com a America, para lá lhe
passaram o imaginario canal do sul da Africa.
Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode redundar em nosso
desfavor, ao passo que regeita tudo o que possa redundar em desfavor
de Colombo, Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que chegou
Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes descobriram depois, apesar
de acautellar os seus leitores contra os erros que podem resultar da
confusão de nomes identicos que se davam a regiões muito diversas,
tambem d’esta vez, reconhecendo que os mappas de Toscanelli, onde todos
dirão que se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, são mappas
perfeitamente conjecturaes, não hesita em acceitar o mappa conjectural de
fra Mauro, em que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em conhecimentos
positivos.[55]
E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham o seu mappa, feito
em 1454, é o primeiro a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a
declarar que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe tinham servido para a
elaboração do seu.
«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero escreveram que este
mar (o _Atlantico_) não pode ser _torneado_, nem navegado, nem ter
habitantes nas suas praias como a nossa zona temperada e habitada; _mas
é agora de toda a evidencia que se pode sustentar uma opinião contraria,
principalmente porque os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a bordo
das suas caravellas para verificarem este facto, referiram, depois de
se terem certificado elles mesmos, que tinham explorado esse continente
pelo espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste do estreito de
Gibraltar_, que em toda a parte os recifes da costa não são perigosos,
que as sondas são boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades
mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas d’estas regiões e deram
nomes aos rios, bahias, cabos e portos. Possúo um grande numero de
borrões ou esboços d’essas cartas».[56]
Accrescenta elle, porém, _que nenhuma d’essas cartas resolvia a grande
questão de se saber-se se podia fazer a circumnavegação da Africa_!
É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que prova, segundo Humboldt
imagina, que o cabo da Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos
antes de Bartholomeu Dias o dobrar!
Não se vê porém que a emenda conjectural nos mappas antigos é aqui
evidente? Já estão os Portuguezes a duas mil milhas do estreito de
Gibraltar, e a costa africana não volta bruscamente para leste. Não é
bem natural suppor a probabilidade de terminar a Africa em ponta, visto
que a occidental se dirige para SE, como a oriental se dirige para SO?
Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois dos descobrimentos
os cartographos não se limitavam a inseril-os, mas accrescentavam ás
regiões descobertas os seus complementos conjecturaes. E tanto assim
é que, ao lado do cabo em que a sua phantasia roçou pela verdade, poz
um estreito que não existia, que, depois de ter imaginado a Africa
torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá tornear, e que,
ao passo que fundamenta nas descobertas portuguezas a sua descripção da
Africa Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem podido
esclarecel-o ácerca da fórma que podia dar á Africa meridional!
Nada ha mais estranho do que o que succede com os Portuguezes n’esta
questão dos descobrimentos. Quando elles os fazem, toda a Europa os
applaude, affluem a Portugal aventureiros que querem tomar parte nas
nossas expedições, e navegar nas nossas caravelas. Ninguem se lembra de
dizer que já sulcaram esses mares, ou que já foram a essas terras. Os
Normandos, longe de fallarem em pretenções suas, aconselham a quem queira
fazer expedições para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque
aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. Os papas concedem-nos o
dominio d’essas terras baseado nos direitos de primeiro occupante, os
reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas pretenções, reconhecem
esse direito sem a minima objecção e até castigam os seus subditos que
tentam violal-o, os navegadores de toda a Europa, _os taes que nos tinham
precedido_, o que fazem é tentar surrateiramente seguir-nos e apanhar aos
nossos pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos da derrota, os
cosmographos e os cartographos com os nossos viajantes mantêem relações
seguidas, e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam para traçar o
que já está descoberto e para conjecturar o que não está; tão corrente é
na Europa a historia das navegações portuguezas que, estando ainda bem
fresca a memoria d’essas primeiras aventuras do mar, e tendo Colombo
residido nas ilhas descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na sua
primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, que foi assim que
os Portuguezes descobriram as suas ilhas,[57] e D. Henrique chama para
Sagres o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo os seus escudeiros
ufanam-se de terem descoberto o Rio do Oiro, e com elles se regosija o
infante e se regosija o cartographo, sem que este se lembre de allegar
que já por um seu patricio, ou por um seu parente, ou por elle mesmo,
talvez, como chega a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio
fôra descoberto![58] E seculos depois é que apparecem as estultas
pretensões de se querer demolir essa gloria toda em proveito de um
desconhecido, mas baseadas em tão frivolos argumentos que bastou que o
visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia da meia edade,
ás suas chronicas, aos seus documentos, aos seus tratados e aos seus
livros de sciencia, para que a inanidade de semelhantes affirmações se
apresentasse com uma evidencia esmagadora!
Vão pois os navegadores portuguezes caminho da India que é desde o
principio o alvo dos seus esforços. Contam que, antes de chegar ao
Equador, voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse momento D.
Henrique duvida, é que o mar das Indias seja um mar mediterraneo. Se o
acreditasse, como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, porém,
de se aventurarem para além do cabo Bojador, encontram Gonçalves Zarco e
Tristão Teixeira Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral os Açores.
Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam ter encontrado algumas
d’essas ilhas, e possivel era tambem que os nossos navios commandados
pelos pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, tivessem
arribado a esses archipelagos. Eu mesmo já acceitei um pouco essas
doutrinas sustentadas por Major, e a que dava certa apparencia de verdade
o modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, porém, antes de ter
estudado mais profundamente a cartographia da meia edade, antes de ter
visto como esses cartographos conheciam os phantasticos archipelagos do
Oceano Atlantico, e fixavam nos seus mappas as ilhas de S. Brandão, da
Antilia, das Almas, do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica dos
povos occidentaes da Europa. Não navegaram os Portuguezes n’um Oceano que
imaginavam deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. Quando
a alguma chegavam, não suppunham tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente
encontrado. Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram a
procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira se suppõe que a ilha das Sete
Cidades se tem conservado escondida, longe das estradas maritimas, por
traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano.
Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois para os seus detractores,
manifesta-se tambem na exploração das costas africanas. Nenhum navegador
suppõe que chega a terra desconhecida. Todos imaginam que não fazem senão
encontrar terras cuja existencia não era ignorada pela sapientissima
antiguidade. Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de Eratosthenes, de
Plinio, de Pomponio Mela e de Solino continuam a ser nomes oraculares
para aquelles que estão demolindo o castello de cartas da sua vã e
ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem um dos seus idolos.
Chegando ao Senegal julgam ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão
ainda convencidos da verdade da velha doutrina, que separa o Nilo em
dois grandes braços, um dos quaes se dirige para o Atlantico e o outro
para o Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo os exalta é o não
encontrarem monstros, as ondas tenebrosas, os montes ardentes, toda a
guarda avançada da implacavel zona torrida. Para que primeiro arcassem
com esses receios foi necessaria toda a energia do infante D. Henrique,
mas a pouco e pouco foram-se familiarisando com esses mares que tão
terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles que davam a fra Mauro
as informações tranquillisadoras que elle insere nas annotações ao seu
planispherio.
No ponto de vista em que nós nos collocamos, e que suppomos ser
absolutamente verdadeiro, quer dizer desde o momento que sustentamos que
o serviço immorredouro que Portugal prestou á civilisação e á sciencia
foi o ter demolido a noção consagrada da zona torrida inhabitavel, e
que a prova de sobre-humana audacia que os Portuguezes déram foi a de
transpor sem hesitação os limites d’essa zona torrida, percebe-se que
nos seria completamente indifferente que se provasse que navegadores
estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares que ficam para além
do Bojador. Isso não faria senão levar um pouco mais adeante o ponto de
partida das expedições portuguezas indubitavelmente gloriosissimas, e
cuja honra Humboldt confessa que nos cabe sem contestação, as expedições
á região equatorial.[59] Mas a verdade irrefragavel é que esse limite,
que os Portuguezes transpozeram, foi sem duvida alguma o cabo Bojador.
Como Humboldt nota, com perfeita razão, o horizonte geographico vae-se
alargando a pouco e pouco, e a verdade é que, uma vez ampliado, não se
estreita de novo. Para o lado do occidente os primeiros limites foram
os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, depois o das columnas
de Hercules, depois para o norte o extremo meridiano da Europa, para o
sul o da costa africana.[60] Vemos que a mansão da felicidade suprema
acompanhou a ampliação d’esse horizonte, primeiro no Oasis do Egypto,
depois na Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia das
columnas de Hercules, depois nas Canarias. Não ha saltos n’este progresso
forçosamente methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo a
navegação prosegue.
Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite, depois o Bojador.
Transpoz-se esse limite em 1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros
curiosos d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de se assegurar
da posse das terras que vae descobrir. Depois da expedição de Antão
Gonçalves e de Nuno Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao papa
Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, e já com Antão Gonçalves na
viagem immediata vae o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador
Frederico III correr estas novas aventuras.[61] E comtudo desde 1415 se
empenhava o infante em explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa
quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se interessassem por essas
tentativas infructiferas. Tudo muda de 1433 por deante. Porque? porque se
rompera evidentemente mais uma das barreiras que tinham successivamente
detido a marcha da humanidade, porque se tinham transposto mais algumas
das columnas que formavam o portico do mundo sobre o desconhecido,
columnas de Briareu primeiro, columnas de Hercules depois, estatuas das
ilhas Khalidat dos Arabes, emfim.
Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao Rio do Ouro, ou o que elle
suppunha que era um rio, e que não era afinal senão um braço de mar,
e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma vez com o respeito pela
tradição antiga, que affirmava que para o lado das ilhas Afortunadas,
como dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam ouro entravam
no Oceano.[62] Assim os Arabes davam o nome de rio do Ouro a muitos,
situados muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães chamavam rio
do Ouro a um rio que encontravam para além do cabo Não e proximo das
Canarias, tanto que no proprio mappa em que se affirma que Jayme
Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa não vae além do
cabo Bojador.[63] Podia haver mais evidente prova de que o Rio do Ouro
catalão não é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer em que o Rio
do Ouro de Jayme Ferrer é, como o descreve o manuscripto de Genova, com
que se pretende dar authenticidade ao facto,[64] um rio largo em que
podem fundear náus potentes, emquanto o Rio do Ouro de Affonso Gonçalves
Baldaya nem rio é sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin
que o estudou hydrographicamente, só canôas podem entrar.[65] Basta
vermos que os mappas em que se baseia a pretenção, param no Bojador, como
no Bojador pararam os navegantes a quem depois se quiz attribuir a gloria
de o ter transposto.
Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, em 1443 os ilheus de
Arguim, em 1445 acabava-se de descobrir a costa do Sahará e entrava-se
na costa da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em Portugal com
abundancia os escravos africanos.
Nodoa é esta com que se pretende manchar a gloria dos nossos
descobrimentos, como se n’essa epocha em que os proprios brancos ainda
tinham, pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que lh’os
algemára a servidão da gleba, n’essa epocha em que tinham escravos os
proprios mosteiros e as egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do
homem as idéas largas que, só uns poucos de seculos depois, e a muito
custo, se implantaram na legislação dos paizes mais cultos. E é curioso
que sabios escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel pela
escravatura negra, como se não fosse tão facil ás virtuosas nações, cujo
credito elles defendem, eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se ao
Papa, que representava a suprema lei moral da sociedade de então, não
coubesse o dever de conceder as terras, mas de prohibir os escravos!
como se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer nação que nos
precedesse, e que o facto de não apparecerem escravos pretos na Normandia
no seculo XIV é mais uma prova contra as suas pretenções! E comtudo
a prioridade na escravisação das populações africanas essa é que os
Normandos podem reclamar sem contestação, porque, bastantes annos antes
de se venderem nas praças de Lagos os escravos da costa africana, já o
normando João de Bethencourt, rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha
os seus subditos.[66]
Mas o que dominava sobretudo no espirito de D. Henrique era a anciedade
da investigação scientifica e o ardor pela conquista dos grandes ideaes
religiosos da meia edade, e é isso o que faz com que o espirito do
infante só encontre depois na historia dos descobrimentos outro que
com elle se irmane—o de Christovam Colombo. Essa allucinação em que
ambos vivem é que os torna proprios para emprezas, que só com grande
perseverança se podem realizar, e essa perseverança só a encontra quem
tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. Quaes são as instrucções que
levam sempre os capitães dos navios de D. Henrique? Procurar identificar
os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, que a geographia systematica
dos antigos considerava como um braço do grande rio egypcio que vinha
desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o ao ter chegado ao Senegal
como depois o imaginam ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E
tão absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes no seu respeito
cego pelo saber da antiguidade, que ainda foi um piloto portuguez no
seculo XVI que procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, sendo
o seu commentario na Italia de todos o mais apreciado.[67] No proprio
momento em que podiam justamente ufanar-se de sulcar mares nunca d’antes
navegados, ainda se escondiam modestamente por traz da sombra de Hannon,
o legendario navegador, que, tendo chegado a algumas leguas do estreito
de Gibraltar, imaginou logo ter percorrido um immenso espaço de agua![68]
O outro desejo ardente do infante D. Henrique era encontrar as terras do
Prestes João, esse mytho medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas
mais variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade prosaica,
appareceu transformado n’aquelle pobre _negus_ da Abyssinia, symbolo
curioso da dissolução dos mythos, que no periodo poetico da humanidade se
revestem dos mais extraordinarios esplendores, e que nos frios annos da
prosa se reduzem ás mais chatas personalidades.
O Prestes João fôra a prolongação pela edade média da lenda da primitiva
Egreja Oriental, que déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao
evangelista mais querido da imaginação popular, a perpetuidade da
existencia. Não acceitou a Egreja a lenda, mas ella permaneceu no
Oriente, modificada, fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu
protoganista, no apostolo e no presbytero.[69] Talvez porque n’uma das
epistolas, conhecidas pelo nome de João, o apostolo, por esse nome se
designa este _presbytero João_, que toma em parte o caracter do apostolo,
em parte o caracter de um discipulo do apostolo, torna-se, por assim
dizer, a gloria e o tormento da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa
Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado que herdou do
venerado Mestre o amor e a predilecção do céu; o tormento, porque esse
personagem é vago, confuso, indefinido, mal visto pela Egreja em geral, e
fonte de possiveis heresias.
Mas entretanto corria a edade média com a sua louca anciedade
pelo advento de um mundo melhor. Não se cumpriam as promessas do
christianismo. Não chegára o reinado da justiça. Na terra atormentada
por mil flagellos arrastava o homem uma existencia atribulada, calcado
aos pés pelos poderosos, faminto, presa a cada instante da peste e da
guerra implacavel e atroz. Não chegára a era millenaria, a era sublime
em que Jesus voltaria, e em que, rodeiado dos seus martyres, como de
uma legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a terra até que ella
desapparecesse subvertida no cataclysmo final.
O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora ao anno Mil,
annunciado como o anno em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação
suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno Mil passou sem trazer comsigo
o cataclysmo esperado. Seria afinal verdadeira a promessa do reino
millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse de João annunciou?
E a idéa d’aquelle Presbytero João, que vive a sua longa existencia nos
páramos do Oriente, testemunha millenaria do grande acto da Paixão,
fluctúa no animo dos povos. Não será em torno d’elle que se agruparão
os bons, os martyres, os fieis, e não será nas suas terras que estará
irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, suave, toda misericordia e
paz, emquanto cá pelo Occidente parece que o sol se afoga todos os dias
n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente em braza, entre os
clamores dos miserandos que teem sêde de justiça e o tinir das espadas
gottejantes de sangue, o crepitar das chammas dos incendios e o rugido
dos mares e as gargalhadas da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o
Paraizo, começa-se a devanear tambem a existencia de outro Paraizo mais
accessivel ao homem, se é que se não confundem n’um só Paraizo aquelle
de que o homem foi expulso, e o outro em que o homem ha de entrar, quando
lhe franquear a entrada o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo
amado.
Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, concretisou-se n’uma
d’essas obras anonymas em que o sentimento popular se manifesta, em que
os devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos e ordenados por
um trovador ignorado, por um narrador mysterioso, que é afinal de contas
quem produz verdadeiramente a obra popular, que depois muitas vezes um
grande poeta aproveita para uma obra immortal. Assim se formou a lenda do
Prestes João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, a do dr.
Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil outros, que não tiveram outro
berço senão a redacção humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado,
que desapparece entre o povo, a quem se attribue a gloria da concepção,
e a obra do grande poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria
que a tornou immortal. O modo como esta lenda se formulou foi na redacção
de uma carta dirigida pelo Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de
França e em que lhes contava as maravilhas do seu reino, onde os homens
viviam annos quasi infinitos, onde havia maravilhosas riquezas, onde os
animaes e as plantas tinham um tamanho descommunal, e onde reinava a
paz e a justiça.[70] O que deu origem talvez á carta, ou o que chamou
para esse vago personagem do _Presbyter Johannes_ ou _Prestre Jean_ ou
_Prestes João_ a attenção dos povos occidentaes, foi a vinda a Roma[71]
de um estranho personagem, que se dizia patriarcha das Indias, que da
Asia vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia n’essas
remotas partes, ou na verdadeira India, ou na propria Tartaria, de
christãos convertidos por S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente
christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos syriacos, sacudidos
da Egreja Catholica, mas possuindo aquella tenacidade de resistencia,
que faz com que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, tenham
na India os seus prelados e mantenham os seus ritos estes christãos
primitivos.[72]
Assim parece effectivamente que devia ser: porque na carta do Prestes
João diz-se que «cada anno, _quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no
seu reino_, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta Daniel,
com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros e duzentos elephantes,
que levam, não torres, mas castellos, para exorcismarem e combaterem os
dragões que espreitam a caravana na passagem».[73] A lenda do Prestes
João localisou-se por conseguinte na India, não, como seria natural, na
India verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo Oriente
da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, a India que ficava para
além dos limites das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe
toma tambem um aspecto legendario, como se lhe bastasse tocar n’uma
região nevoenta para que o seu proprio vulto em nevoas se envolvesse.
Alexandre, já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, um
ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado posthumamente, meio
feiticeiro e meio conquistador. É elle, como dissemos tambem, que encerra
os povos de Gog e de Magog por traz da famosa muralha, é elle que na sua
carta a sua mãe Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do que a
do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore do sol e a arvore da
lua, e que lhes ouviu os oraculos.[74] É para além do Ganges tambem que
os geographos da meia edade imaginaram povos que se sustentam só com o
aroma das flores, lenda que vamos ainda encontrar em Camões. É no extremo
Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se bem, o antro em
que S. Macario se escondeu para viver immerso em prece, depois de ter
tentado debalde penetrar na morada dos nossos primeiros avós, e foi ahi
que o encontraram _um seculo depois_, e sempre orando, tres monges gregos
que tinham ido a essas longinquas partes do mundo para tentarem tambem
ver o Paraizo de perto.[75] Avisados pelo exemplo de S. Macario, voltaram
os tres monges para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando,
absorto na prece, os seculos sem fim.
Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam ainda nos seus
arredores umas fragrancias divinas. Parecia que da eternidade promettida
a Adão e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do Paraizo se
approximassem; era para alli portanto que a imaginação popular levaria o
reino paradisiaco do Prestes João.
Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma nova physionomia ao mytho
do Prestes João, approximando-o da realidade, tornando-o um personagem
curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio anterior. Ou
porque effectivamente, como sustenta o grande sinologo Pauthier, elle
encontrasse christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a que Marco
Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica com a provincia chineza de
Ta-Thung, e esse facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos
persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito conversões, e onde
effectivamente o soberano chinez lhes permittiu que erigissem um templo,
ou porque, como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo tambem
notavel, Marco Polo tivesse confundido com christãos os budhistas que
nas regiões que elle atravessava tinham uma das mais importantes sédes
da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama o imaginasse um
padre-rei christão, e o Prestes João por conseguinte, é certo que elle
declara ter encontrado christãos regidos por um padre, que descendia em
linha recta do Prestes João, que era o seu sexto descendente e que se
chamava Jorge.[76] D’elle diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o
converteu á fé catholica, e Rubruquis tambem declara que na Tartaria
encontrou nestorianos que viviam debaixo das leis do Prestes João.
Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco Polo estivesse envolvido
nos véos do maravilhoso, é certo que esta semi-realisação do _Presbyter
Johannes_ estava longe de corresponder ao ideal que d’elle se formára.
O personagem legendario não encontrava positivamente n’um descendente
chamado Jorge, subdito do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu
nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou portanto a fluctuar
por todo o Oriente, e, como de certo havia noticia vaga da existencia de
um povo christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado que se
transferiu a localisação da lenda, pois que a India, na edade média, como
dissemos, abrangia, pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e a
indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se bem com a
denominação que se lhe dava de Prestes João _das Indias_.
Não se imagine portanto que é simplesmente um rei christão perdido no
meio da onda musulmana e do paganismo que se procura, o que se procura
é o reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra estranha onde
tudo floresce com extraordinario viço, onde o oiro, a prata e as pedras
preciosas fulguram por todos os lados, onde se vive como que n’um
antecipado Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao pé de Marrocos,[77]
e não havia n’isso contradicção com o nome que se lhe conservava de
Prestes João das Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica,
podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com a Asia, e que já n’essas
terras ainda proximas de Marrocos principiasse o reino maravilhoso do
Prestes João.
É essa anciosa curiosidade que domina no espirito dos Portuguezes, é ella
que os arroja aos grandes feitos, ás pertinazes investigações. Como das
investigações astrologicas com as quaes se procurava ler nas conjuncções
dos astros o segredo dos destinos humanos saía a astronomia, como nas
locubrações dos alchimistas se foram desvendando os segredos da chimica,
assim na procura ardente do reino do Prestes João se foi desvendando,
por tantos seculos escondido, o segredo da geographia africana, o da
sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. Logo n’uma das primeiras
viagens um audacioso portuguez, João Fernandes, se internou no sertão
africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo com os indigenas,
aprendendo a sua lingua, estudando os seus costumes.[78] Devia-lhe ter
corrido um calafrio nas veias quando abandonou os seus companheiros para
se immergir no desconhecido. Ia encontrar talvez os povos monstruosos da
tradição scientifica, os troglodytas, os himantopodas, os virgocosgigs,
e ao lado d’elles os dragões de terrivel aspecto e o basilisco de halito
pestifero, passeiando pelos mattos meio inflammados a sua estranha
corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente um cavalleiro andante
que se arrojava a um mundo encantado, como esses heroes de novellas de
cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis façanhas.
Mas tudo elle ousava para conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas
em que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, depois de longos
mezes, não trazia noticias nem de monstros horrendos, nem de reinos
maravilhosos, mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento
exacto da Africa interior, a revelação para a sciencia de um mundo
ignorado, de arvores soberbas, que não eram a phantastica _mandragora_,
mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia a flora sobrenatural,
mas ampliava os dominios da flora verdadeira; acabava com a fauna
phantastica, mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente
scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, ao procurarem nas
suas longas vigilias a pedra philosophal, encontravam o segredo das
combinações chimicas, assim estes audazes alchimistas do Oceano, ao
procurarem o Prestes João, que era a pedra philosophal dos sonhos
geographicos da meia idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu mais
para a riqueza scientifica e para a opulencia do commercio do que todos
os reinos fabulosos banhados por phantasticos Pactolos e scintillantes de
oiro e de pedraria.
Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes tinham conhecido
o cabo Branco e o cabo Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo
tomaram o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o Casamansa. Os terrores
da zona torrida tinham desapparecido, posto que se não tivesse chegado
ainda ao Equador, mas era evidente já que o mundo não alterava o seu
aspecto com a approximação da equinoxial, e que os monstros não existiam
senão na imaginação dos geographos, que se não encontrava senão a
variante negra da raça humana, e que os novos passaros que appareciam,
depois classificados pelos zoologos como _remora_, _phenicoptero_,
_bucerus_ _africano_ ou _pristis_, enriqueciam as collecções
ornithologicas, mas não a teratologia. E estas conquistas positivas
deviam-se ao enthusiasmo e á sede do ideal. Nada se faz grande no mundo
sem esse grão de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos grandes
poetas e dos grandes descobridores. A pedra philosophal transmuda deveras
o cobre vil em oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes
phantasticos, que faz da quebradiça argila de que se formou o homem o
bronze em que se fundem os ousados pensamentos, que transforma no oiro
das grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares.
E era exactamente o que havia de estranho e de louco nas expedições
portuguezas que chamou para aqui os aventureiros e os ousados. Os
Venezianos como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, vem aqui
buscar simplesmente emprego para a sua actividade de marinheiros; os
Malhorquinos como Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade
scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo do Norte, das remotas
regiões da Suecia, vem em demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que
traz no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez das suas neves,
vem procurar a estas regiões de aventura a barca dos cysnes dos Eddas
que o ha de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos sonhos. Para
esses e para muitos outros Portuguezes, como o velho Soeiro da Costa,
como esse Alvaro de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de perto
o Paraizo terreal,[79] é um romance de cavallaria que se está pondo em
acção na patria de _Amadis de Gaula_. São os Templarios resuscitados
que investem com o mar como os Templarios antigos com as ondas dos
sarracenos, e o manto branco da ordem de Christo que fluctua ao sopro do
vento, e a bandeira com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas
com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos d’esse idealismo da
idade média cavalheiresca que vae dissolver-se na epocha burgueza que
já apparece no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, ascetico,
tenaz, que do alto do promontorio de Sagres lança os seus legionarios á
conquista do desconhecido, ao cair prostrado pela morte, sem ter ainda
encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, desapparece da scena
do mundo, deixando resolvido um dos grandes problemas da existencia
humana na terra, no mesmo momento em que outro cavalleiro andante, esse
deveras o ultimo, Christovão Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e
pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando esse rumor de gloria e
de aventura que vem do Occidente, e revolvendo na imaginação juvenil a
solução de outro problema geographico, que ainda ficava em aberto, e que
ia dar ao homem emfim a Terra inteira por dominio.