A religião e a lenda

Se eram estas as idéas scientificas predominantes no principio do seculo

XV, é importante saber-se se a religião as acceitava. Era tão poderoso o

dogma nos espiritos medievaes que a condemnação de uns certos principios

pela auctoridade ecclesiastica bastava para que a grande maioria os

suppozesse completamente falsos. Espiritos independentes como os tem

havido sempre protestavam contra a condemnação da sciencia pela fé; mas

protestavam timidamente, e nós veremos que nos pontos mais capitaes a

fé estava completamente de accordo com a sciencia, de fórma que uma e

outra fechavam deante das tentativas dos navegadores o mar mysterioso,

que a audacia portugueza conseguiu devassar. O principio assente era

a impossibilidade de se franquear a zona torrida, mas poucos homens de

sciencia punham em duvida que para além da zona torrida existisse outra

zona temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel a vida da

raça humana. Contra este ponto é que o dogma protestava.

Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham podido franquear os

discipulos de Christo, portanto a palavra divina de redempção promettida

a todos os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que Deus

esquecera, o que era completamente absurdo.[36] Se a humanidade toda

descendia de Adão, como é que viera ao mundo essa raça humana? Tivera

outro Adão como alguns sustentaram que tinha outro sol e outras

estrellas?[37] Tudo isso era incompativel com a verdade suprema expressa

na Biblia. E demais, se Deus dividira a terra depois do diluvio entre os

tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a Japhet a Europa, e a Cham a

Africa, qual fôra o desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia

a terra antichthona?[38]

Encontrára-se em parte uma solução para essa dificuldade. Reconhecia-se

a existencia da terra antichthona, mas suppunha-se que fôra a habitação

da raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo, e alli vagueando

em torno da deliciosa habitação para sempre defeza vivera a humanidade

criminosa os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se uma fraca

reliquia d’essa gente condemnada. A arca boiara sobre as aguas e viera

poisar emfim no monte Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua

antiga patria[39].

Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto de trevas, porque o sol só

illuminava a terra, e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar

Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para além d’esse immenso mar a

terra antichthona, e n’ella o Paraizo[40].

Outros, porém, não se podiam resignar a estar para sempre separados do

Paraizo, e collocavam-n’o no extremo Oriente, no sitio onde, ao que

diziam, principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do Genesis, que

diz que «Deus plantou no Oriente um jardim delicioso». Para além da

India, dizia Santo Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o

homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por S. Basilio, Psellus,

Philostorgo, Isidoro de Sevilha, Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna,

Raban Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré d’Autun,

Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville, Jourdain de Sévérac, Omons,

que ainda suppunha que lá estava o anjo da espada chammejante, Ranulpho

Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto Latini, Dante, etc. Uns

suppunham-n’o erguido n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno

d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas.

Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios: o Nilo, o Ganges, o

Tigre e o Euphrates. Era necessario, porém, explicar-se como é que estes

rios appareciam tão longe da sua celeste origem, e sobretudo como é que

o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido na Asia. A explicação era a da

corrente subterranea, e submarina tambem com relação ao Nilo, quando a

supposição de um mar mediterraneo, que trazia comsigo a união da Asia com

a Africa, não tornava dispensavel esta conjectura[41].

Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no espirito dos homens ainda

depois das grandes descobertas. Colombo, cuja alma enthusiastica se

deixava invadir facilmente pelas seducções do mysticismo, e que tinha a

fé ardente que foi um dos principaes elementos do seu triumpho, nutria

a secreta esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como contava

encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes indispensaveis para a

reconquista do sepulchro de Christo. Era logica a sua esperança. Se

elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo Oriente, se no

extremo Oriente estava o jardim de delicias em que Deus collocara os

nossos primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria? Quando na

sua terceira viagem chegou á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente

chegado ao Paraizo terrestre, não pela formosura das paizagens e pela

abundancia da vegetação, mas porque, vendo a torrente das aguas do

grande rio, suppoz que era um dos que borbulhavam da elevada montanha do

Paraizo terrestre[42]. Christovão Colombo não admittia absolutamente a

esphericidade da terra. Como varios outros geographos da edade média, que

lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma de um cone ou de um

pião[43], Christovão Colombo suppunha que ella teria a fórma de uma pera,

e que junto do pé é que estava exactamente o Paraizo[44].

Tambem a esphericidade da terra era absolutamente contradictada

pelos Santos Padres, que lhe davam a fórma de um quadrado ou de um

parallelogrammo, fórma emfim que se assemelhasse á do Tabernaculo de

Moysés. Desdenhando a idéa scientifica oriunda dos Gregos, e sustentada

pelos Arabes, vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de que o

centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam a contar as latitudes e

longitudes, que ficava exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes,

ponto geographico que foi muitas vezes representado pelos cartographos

como uma cidade maravilhosa, com um castello, em que habitava um

mysterioso soberano, os Padres da Egreja reclamavam para Jerusalem a

honra de ser ella o centro da terra, ou pelo menos o centro da terra

habitada, quando se imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas

aguas desde o diluvio.

Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto as idéas geographicas

affirmadas dogmaticamente pela religião, fallaremos ainda, posto que não

interesse a questão dos descobrimentos maritimos, na existencia para o

norte das terras de Gog e de Magog. Eram os paizes ao norte da Asia,

n’essa região desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas, porque

era a que se approximava das zonas glaciaes inhabitaveis. Ahi, dizia-se,

habitavam os filhos de Caim[45], povos que tinham escapado, ao que

parece, do diluvio, não por traz da barreira insuperavel da zona torrida,

mas encostando-se ás gelidas barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em

incursões ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua grande expedição,

que ficou legendaria, levantou a grande muralha que poz termo ás suas

arremettidas[46]. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel, que

não voltaram do captiveiro da Babylonia, n’essa região mysteriosa ficaram

internadas, como depois se disse, quando se descobriu a America e alli se

encontrou uma raça de homens desconhecida, que eram ainda as dez tribus

de Israel que se tinham perdido n’essas regiões que o Atlantico por tanto

tempo escondera detraz da cortina das suas vagas[47].

Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos importantissimos as

affirmações scientificas, cerrou ainda mais as portas do _mare clausum_.

O homem não podia chegar á zona torrida, era esse o ponto capital, que

a um tempo sustentavam os homens da sciencia e os homens da orthodoxia.

Assim que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se, a terra

inflammava-se, montes ardentes reflectiam as suas chammas nas aguas, e

monstros extranhos que o calor fazia brotar, plantas extraordinarias

que só podiam florescer n’essa monstruosa estufa, começavam a apparecer

n’essas terras extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava ás

regiões onde soprava um vento glacial, outros monstros appareciam, e os

povos ferocissimos de Gog e Magog só esperavam que um audacioso rompesse

a muralha de Alexandre que os refreiava para cairem de novo sobre o

mundo, entregue assim nas garras de Satanaz.

No centro da terra habitada, que tinha a fórma quadrilateral, erguia-se

Jerusalem; no extremo Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e

d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo ainda nas suas aguas

o nateiro fecundante que ia dar como que uns reflexos da vegetação

paradisiaca ás terras que atravessava.

Em torno do dogma como em torno da sciencia nasciam então as lendas.

Deante do dogma inclinavam-se todos, deante da sciencia inclinavam-se

os illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes, e uns e outros

paravam deante d’esse mar que tantos mysterios encerrava.

Classificamos propriamente como legendarias as supposições que não

tinham a minima base scientifica ou que não repousavam no dogma. Assim

a _terra velada_ de Theopompo não era senão a _terra incognita_ de

Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego que os homens que a habitavam

eram de uma estatura duas vezes maior que a dos do mundo conhecido,

perdia-se completamente nas regiões da phantasia, porque não havia, como

para a humanidade monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima.

Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada de se resguardarem

contra os ardores de um sol terrivel fosse, atravez de gerações

successivas, desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o homem se

podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente semelhante ao nosso nenhum

motivo havia para que se suppozesse que duplicava a estatura humana. E

comtudo essa lenda actuava fortemente no espirito dos navegadores, e

assim se explica a formação da lenda dos Patagonios.

Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da Prata, que apparecem nos

mappas da edade média e que vão fugindo para regiões mais distantes á

medida que vae sendo conhecido o mundo oriental, como succedia tambem ás

Hesperides, antigas ilhas de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de

oiro opulentos era guardado por um dragão, como tambem na edade média

as montanhas que encerravam thesouros preciosissimos eram guardadas por

gryphos e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre em ilhas situadas

nos mares desconhecidos que se colloca ou a região das riquezas ou a

região da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as ilhas das Hesperides

eram para os antigos a patria de todos os sonhos da felicidade suprema.

Era nas regiões do Norte, onde parecia que devia reinar comtudo a eterna

desolação, que elles collocavam tambem a ideal ventura, phantasiando esse

povo dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a edade média essa

tradição, e nos mappas medievaes se vêem para além do mundo conhecido as

ilhas onde habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se,

como dissemos, as ilhas do Oiro e da Prata, as ilhas dos Homens e das

Mulheres, que eram o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de

Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova fórma ás preoccupações

da zona torrida. Quem abordasse á ilha do Sol era immediatamente

suffocado pelo ar em braza que alli se respirava[48]. Finalmente, nos

mappas da edade média já mais proximos da epocha dos descobrimentos

apparece semeado de innumeras ilhas o mar oriental: sete mil dizem as

legendas de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento foi suggerido

pelo conhecimento das viagens de Marco Polo e pelas indicações que o

viajante veneziano dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram existentes

no mar oriental. É bem provavel, e o que é certo é que o pensamento da

existencia de innumeras ilhas no oriente da India actuou nos sabios do

seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão Colombo e um dos pontos

de apoio de Toscanelli para a sua theoria da possibilidade da viagem que

Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que o continente asiatico

estivesse mais longe do que se suppunha, sempre se encontrariam no

caminho ilhas que servissem de porto de escala e de arribação[49].

Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como serviram aos

historiadores superficiaes para procurar attenuar a gloria dos

Portuguezes e a gloria de Colombo! Brotavam das ondas mysteriosas como

brota a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por aquelle Oceano

tenebroso que se estendia para o Occidente, nas ondas do ignoto mar

indico, por muito tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros

descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo, pelo mar ignorado

do Norte semeava a imaginação dos cartographos quantas ilhas ideara a

phantasia antiga, a phantasia dos _troubadours_ ou dos _trouvéres_ e

a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos, as ilhas das fabulosas

riquezas, a Chrysé, a Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar

entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso, a de Diomedes,

a outra em que se vê ás horas do sol poente a sombra gigante e pensativa

de Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que povoavam a

imaginação d’estes marinheiros do occidente, que, erguidos ao pôr do

sol nos rochedos da costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma ilha

fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando andavam á pesca, julgavam

escutar no surdo rugido das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas

milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia o vento cá fóra e o

mar quebrava com doloridas queixas ou com furioso estrepito nas fragas

desnudadas. Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos claustros para ornar

com esses arrebiques de maravilhoso a existencia piedosa de um santo

missionario. Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde cantavam as

aves do Paraizo, e onde se respirava tão celeste e perduravel perfume que

n’elle ficaram para sempre impregnadas as vestes do santo viajante. Era

na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam, era ahi que se formavam

ao lado da legenda de S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros

navegadores celticos que iam atravez dos mares da phantasia procurar

ignotas ilhas.

Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas ondas do mar com

cincoenta navios, e só o cadaver do seu cão reapparecerá na praia, já

tres filhos de Corra tinham com os seus quatorze companheiros, entre os

quaes iam um bispo e um bardo, abordado ás ilhas das Almas, encontrando

depois de quarenta dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a

ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam com as carnes rasgadas

pelas aguias negras, e outra em que um moleiro moía eternamente farelo

por ter roubado os seus freguezes, e outra em que um alquilador, que

roubara o cavallo a seu irmão, passava por deante dos olhos assombrados

dos viajantes no galope infernal de um cavallo de fogo.

Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham chegado á ilha dos

Passaros, onde volteiam aves de aureas e de purpureas pennas, regidas por

um rei de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam cantos de uma

celestial melodia, e a outra onde choram com saudades da patria as doces

Irlandezas exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos.

Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com mais nove bardos procurar a

ilha Verde, que nunca foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de

oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança um côro eterno de bellos

rapazes e de formosas raparigas.

Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. Esse encontrara a ilha

onde os anjos que acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente seus

cumplices, cantam os hymnos de esperança, e o aspero rochedo batido

pelas vagas, onde Judas é consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra

promettida aos eleitos, a terra dos bemaventurados.

S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. Esse vae, segundo

a lenda, quando a quaresma começa, para o seu _purgatorio_, n’uma ilha

de que ninguem se pode approximar, onde ha uma caverna que os maus

espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas subterraneas, que vão

ter uma ao Inferno, outra ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do _Purgatorio

de S. Patricio_, como a ilha abençoada de _S. Brandão_, é um dos sonhos

mais persistentes da edade média, e uma e outra lá apparecem nos mappas

medievaes, nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se a ilhas

verdadeiras, como acontece com o _Purgatorio de S. Patricio_, que alguns

cartographos collocam na Islandia.

A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação de terras

phantasticas, e não podia deixar de ser assim, não só porque os povos

d’essa raça são essencialmente imaginativos e sonhadores, como tambem

porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade occidental da Europa,

a tão pouca distancia da America, aonde tantas vezes deviam chegar,

como chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas e cadaveres

de homens de desconhecido aspecto, não podia deixar de pullular a cada

instante na alma do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas

para esse lado, como muitas vezes tambem, quando um pescador mais

audacioso se aventurava ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava

as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio as suas

maravilhosas lendas, elle seguiria caminho do Occidente, durante dias e

dias, até que a fome o salteasse, ou até que o continuado panorama das

vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem termo, fechando o horizonte,

os desanimasse afinal[50]. Mas tambem na peninsula hispanica lendas

semelhantes se formavam e pelas mesmas causas. Tambem aqui em Portugal

sobretudo e no Algarve principalmente os pescadores, ao largarem a

costa, sentiriam a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, e aqui

tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, ou no inverno ao lado

da chaminé, fallariam, como se as tivessem visto, em ilhas extranhas,

na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham refugiado, quando os

Mouros vieram á peninsula, sete bispos christãos com o povo das suas

dioceses, proscriptos agora e encantados como as meigas irlandezas

exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas ilhas phantasticas,

Antilia e Sete Cidades, ilha de S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio,

iam juntar-se ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes da

mythologia antiga para formarem esses archipelagos do sonho e da lenda

que se desfizeram em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no seu

manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos vulcanicos, palpitantes

ainda com o fogo que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com a

immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, as ilhas reaes e

verdadeiras.

Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser senão um estimulo

para cavalleiros denodados que não temiam os encantamentos, logo que

levavam comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. Com o coração

a bater-lhes um pouco, pallidos de supersticioso terror, mas incitados

pelas tentações das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto os

celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos mares mysteriosos em

demanda das ilhas paradisiacas; outros encontraram tambem no caminho

as ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa é que deveras

regelava o sangue nas veias do mais audacioso. Vinha dos antigos, e mais

tambem dos Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo que devaneavam

como Seneca no côro da _Medéa_, que para além do Oceano haveria terra

incognita, suppunham que n’esses mares longinquos se perdêra a luz do sol

e um manto espesso de trevas se desenrolava sobre as vagas? Como é que

o arabe Edrisi, que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas da eterna

felicidade, suppunha tambem que era o Atlantico o mar tenebroso, onde os

navios esbarravam uns nos outros e se despedaçavam em ignorados rochedos?

É porque suppunham que, depois do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da

India, porque imaginavam exactamente que o mar da India communicava com

o mar Tenebroso? Tambem a sciencia não dava fóros de authenticidade ao

mar Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao mar em fogo da zona

torrida. Era um dos fundamentos essenciaes da lenda do immenso pélago o

ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas dos que suppunham que

para além dos mares tinha o globo um cinto de montanhas, e que detraz

d’essas montanhas é que o sol se escondia durante a noite, pertencia a

essa classe de phantasias a que pertencem os montes Ripheus e outras

visões da desvairada imaginação dos sonhadores da geographia.

Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um novo elemento legendario. O

Oriente é a patria das estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados

de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas razões defezo, punham

como sentinellas immoveis e terriveis as estatuas mysteriosas, como os

leões de oiro que nos contos arabes defendem os palacios enfeitiçados.

Mas ainda a tudo accrescia uma tradição que se baseava na verdade, e que

não era menos desanimadora para os que tentassem romper o mysterio. Era

a do mar de Sargaço, que não era desconhecido dos antigos, esse mar que

os marinheiros de Colombo encontraram já muito para o occidente, e em que

se julgava que as plantas enredadas enleiavam por tal fórma os navios que

lhes paralysavam completamente os movimentos.

Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, e que

povoavam os espiritos dos marinheiros d’essa epocha, são as mesmas que

ainda hoje habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa

propagação de dados scientificos verdadeiros, obtidos pela experiencia

de todos os dias. No seu delicioso livro _Sull’Occeano_, o grande

escriptor italiano Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a bordo de um

paquete que singrava para a America aos passageiros de terceira classe,

emigrantes que iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos a ouvir

as palestras que se travariam entre os marinheiros do seculo XV a bordo

das suas esguias caravellas. Apesar dos factos demonstrarem o contrario,

ainda suppunham que, ao atravessarem a zona torrida, teriam de atravessar

um mar incendiado. Suppunham que veriam claramente a curvatura da terra

e o navio descer por ella como um bichinho em volta da superficie de uma

laranja. Todos esses terrores pueris dos passageiros que os marinheiros

hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que salteiavam o espirito

dos seus antepassados nos seculos da edade média, eram esses terrores

os que faziam recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões

do Atlantico os marinheiros que precederam Gil Eanes e que precederam

Christovão Colombo, eram ainda os que acompanhavam os descobridores

em cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é que a luz se foi

fazendo, só a pouco e pouco é que se foram desfazendo as idéas falsas da

antiguidade substituidas pelos factos verdadeiros, e era necessario que

fossem de uma rija tempera os marinheiros que recalcavam no fundo d’alma

esses terrores, que fossem denodados espiritos os d’esses commandantes

que assim partiam a arcar não só com os pavores da superstição, mas

com as affirmações da sciencia e com as determinações da fé, e que

fosse emfim um genio verdadeiramente transcendente o d’esse homem quasi

divino, que teve a intuição sublime da verdade e a inspiração de um

genio creador, que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um mar sem

trévas, a humanidade circulando sem peias em volta da terra seu dominio,

e que logrou escrever na face das ondas com a quilha das suas caravelas

essa epopéa maravilhosa que elle concebeu em Sagres e que foi a grande

epopéa do Renascimento.

V

Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica · 第 8 / 21 题