Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições
que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé
e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados
navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois
percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do
que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que
affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até
á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais
manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia
recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel
dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam
impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes
iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na
fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim
dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez
tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul,
mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta
que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem
maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da
costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando
que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com
cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto
de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente
interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos
eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na
hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na
costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos
monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona
torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas
não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano,
não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir
facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem?
Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito
dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios
notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente
á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer
a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que
chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram
para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram
então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos
que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos
instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo
que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos,
aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se
comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé?
N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e
julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas
obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares,
é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será
esta definitivamente a verdadeira!
Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar
a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes,
é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com
relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel,
cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas
theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo.
Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza
da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em
todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha
do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do
sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas
conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não
podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses,
que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste?
Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a edade média, que teve
sempre pela sciencia antiga um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes
adulteradas, misturadas com manifestações de ignorancia, com superstições
e crendices, mas naturalmente arraigadas nos espiritos, e exaltadas com
enthusiasmo pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram
das trevas a Europa barbara, e que levantaram como um facho luminoso a
doutrina já completa e bem comprehendida do grande geographo antigo.
Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios medievaes, n’uma d’essas
_Imago mundi_ ou _Thesaurus_, que eram as encyclopedias do tempo, a
condensação de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, explicada,
mas tambem modificada. Queremos falar nos _Dialogos_ de Pedro Affonso.
Os dois que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, este o
discipulo.
Diz Moysés:
—Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. Que parte?
_Pedro_—Desde o meio da terra até á parte septentrional.
_Moysés_—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, porque
n’essa materia cada nação tem tido, segundo os auctores, idéas
differentes. Divide-se effectivamente a terra em cinco zonas:
uma no meio, queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte
inhabitavel; duas nas extremidades, muito afastadas do sol, e
egualmente inhabitaveis, por causa do rigor do frio; e duas
médias, temperadas pelo calor da primeira e pelo frio das
outras duas, e unicas habitaveis[21].
_Pedro_—Esse systema está em contradicção com o testemunho dos
nossos olhos. Vemos effectivamente _Aren_ situado no centro da
terra; no seu zenith principiam o Aries e a Balança; o ar é
alli tão suave que a temperatura das quatro estações é quasi
sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de côr brilhante
e de sabor delicioso; os homens não são nem descarnados, nem
obesos, mas de uma compleição bem proporcionada. O clima
que exerce esta salutar influencia no corpo não actúa menos
efficazmente sobre o espirito que brilha pela sensatez e por
uma moderação cheia de acerto. _Como se pode pois dizer que um
logar que o sol percorre em linha recta em toda a sua extensão
é inhabitavel?_ Não: todo o espaço de terra comprehendido
entre esse logar e o segmento septentrional é habitavel sem
interrupção, e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas
climas, em conformidade com o numero dos sete planetas. O
primeiro clima está na linha do meio; ahi é que Aren foi
fundado. O setimo occupa a extremidade do mundo septentrional.
Nenhuma d’essas partes é inhabitavel, se exceptuarmos os
sitios em que grandes massas de areia quasi sem agua ou então
montanhas pedregosas se recusam ao trabalho da charrua.
_Moysés_—Resta-me pedir-te que me demonstres como succede que
esta parte da terra que fica para além de Aren para o sul não é
habitada como a que está para áquem para o norte, de modo que
Aren se ache no centro da região habitavel, ou então tambem
porque não é a parte meridional que é habitavel, emquanto
a parte septentrional seria inhabitavel, ao inverso do que
succede.
_Pedro_—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente
ao circulo da terra, e porque essa excentricidade atira a
maior parte da circumferencia para uma distancia maior do
septentrião. Segue-se d’ahi que, logo que o sol passa para
os signos do hemispherio meridional, quer dizer para a parte
da circumferencia comprehendida entre a Balança e Aries,
approxima-se da terra, e, queimando os seus raios o solo a
esta curta distancia, tornam-n’a esteril e por conseguinte
inhabitavel. Só a partir do primeiro clima para o norte é que
o espaço que comprehende os sete climas é habitavel. Mas tudo
o que vem depois a partir do setimo clima é privado de todo
o calor, por causa do afastamento do sol, que vae percorrer
os seis signos meridionaes; d’ahi o excesso das nuvens, dos
nevoeiros e das geadas; e emfim a ausencia de toda a creatura
animada n’essa parte da superficie terrestre[22]».
Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta era a doutrina que
procurava conciliar a theoria scientifica com as palavras da Egreja.
A doutrina de Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios da
antiguidade e da edade média, era que a zona torrida estava collocada
debaixo do zodiaco, que, proxima do sol por conseguinte, era por elle
abrazada, mas que para além d’essa região havia outra temperada como
a nossa, assim como outra tambem glacial como a zona arctica. Essa
foi sempre a doutrina predominante, embora contra ella protestasse a
orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava como facto incontroverso
que a zona torrida era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como
queria Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito em torno
da terra durante as vinte e quatro horas, e descrevendo-o ao longo do
zodiaco perfeitamente parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr
perpendicularmente os seus raios e a queimasse e destruisse, ou, como
pretendia Pedro Affonso, não descrevendo o sol esse circulo perfeito que
Ptolomeu imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico ao da terra,
d’ahi resultasse que, ao passar pelos signos meridionaes do zodiaco,
estivesse mais proximo da terra, e fosse o hemispherio meridional o que
os seus raios incendiavam.
Devemos notar que esta ultima hypothese era a que se approximava mais da
ellipticidade da orbita da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha
ainda que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra como hoje se
sabe que a terra descreve uma ellipse em torno do sol, já se principiava
a querer applicar ao sol a theoria dos _epicyclos_ e dos _excentricos_,
com que a astronomia antiga procurava conciliar com a theoria geral do
Universo as contradicções que resultavam do movimento apparente de muitos
planetas. A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina moderna da
_periphelia_ e da _aphelia_. Adivinhava que ha um periodo em que o sol
está mais afastado da terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de
que, dando-se a _periphelia_, quer dizer o periodo de maior approximação
do sol, em janeiro, quando é verão no hemispherio austral, d’ahi resulta
que effectivamente os verões austraes são mais quentes do que os
nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma verdade hoje perfeitamente
demonstrada. Acontece porém que, sendo a terra que se move e não o sol,
quando chega a _aphelia_, quer dizer o periodo de maior afastamento do
sol, em julho, sendo então verão entre nós e inverno no hemispherio
austral, tambem succede que são os seus invernos mais regelados.
Mas, se a terra se conservasse immovel, como até Copernico se suppoz,
passando o sol sempre á mesma distancia do mesmo ponto da terra, seria
sempre effectivamente o hemispherio austral o que mais lhe sentiria os
implacaveis ardores.
Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu que triumphava nas
escolas, era esse o que tinha a sua consagração scientifica. Segundo a
theoria do grande geographo, a terra espherica estava dividida em cinco
zonas, as zonas glaciaes tão longe do sol que a vida era alli impossivel
por causa da falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima do sol,
que em torno d’ella descrevia a sua enorme e rapidissima viagem, que a
vida era impossivel pelo excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde
nem o calor era extraordinario nem extraordinario o frio, e que a vontade
suprema destinara evidentemente para habitação do homem.
Era conforme esta theoria com o espirito, com o pensamento grego que em
tudo se manifestava, na arte, na poesia, na philosophia, no viver social
e politico. O ideal grego é a moderação e a harmonia. O universo devia
regular-se tambem por essas leis harmonicas, que marcam tanto o rhythmo
da architectura do Parthenon como o da poesia de Sophocles, tanto o da
philosophia de Platão e de Aristoteles e o da eloquencia de Demosthenes
e de Lysias como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso
anthropomorphismo hellenico, que produziu aquelles typos idealmente
bellos nas suas proporções sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o
homem tambem não poderia viver senão nas regiões em que o clima tivesse
a harmonia e a moderação compativeis com o desenvolvimento normal da
vida humana. Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando
o equilibrio da temperatura, desmanchava-se tambem o equilibrio das
proporções e da fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa pavorosa
zona torrida começava a terrivel degeneração da raça, surgiam creaturas
cada vez mais monstruosas, e era assim effectivamente que Plinio
explicava essa efflorescencia de monstros que, no seu entender e no
entender dos outros geographos antigos, se manifestava nas regiões mais
proximas da zona torrida[23], onde desapparecia emfim no immenso incendio
com que o sol abrazava o mundo.
Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem que eram duas as zonas
temperadas, uma ao norte, e outra ao sul do Equador, mas entre as duas,
pela sua theoria, não podia haver communicação. Essa terra é a famosa
_terra antichtona_, a _terra austral_, o _alter orbis_ que figura
conjecturalmente nos antigos mappas, e em que, por mais de uma vez,
uns teem querido ver a America, outros as regiões descobertas pelos
Portuguezes! A America nunca pela _terra antichtona_ podia ser designada,
porque a _terra antichtona_ ficava para o sul, mas tão levianamente
homens de merito notavel teem estudado estes assumptos, que se deixaram
muitas vezes illudir pela orientação de antigos mappas que é quasi sempre
diversa da nossa. O oriente era muitas vezes collocado nos mappas no
sitio onde hoje collocamos o norte, o occidente onde fica o sul, o norte
para o lado do occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes então
invertiam completamente o systema. O sul fica para o norte e o norte para
o sul. Com estas alterações que immenso cuidado é necessario quando se
pretendem tirar quaesquer illações dos mappas antigos!
É essa a doutrina que prevalece durante toda a edade média. É Macrobio
que suppõe a zona torrida inhabitada e queimada pelos fogos do
sol, e a zona temperada austral povoada por homens de uma especie
desconhecida[24], Orosio que declara que do interior da Africa nada se
pode conhecer porque o calor da zona torrida o reduz a uma brazeira.[25]
S.ᵗᵒ Izidoro de Sevilha sustenta egualmente a existencia da _terra
antichthona_ onde habitam os antipodas, se não são fabulosos.[26]
Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica exposta
pittorescamente pela comparação do ovo, que vê a terra collocada no meio
do mundo como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar como a membrana
e o fogo como a casca, tambem apresenta a doutrina da terra antichthona
separada da nossa pela zona inhabitavel.[27] S. Virgilio imagina que
o _alter orbis_ tem outra lua, outro sol e outras estações.[28] Raban
Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos, e nas Gorgonas cabelludas e
phantasticas, tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor do
sol[29]; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des Vignes, o famoso Pedro
d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme e quantos outros estabelecem
e proclamam esta doutrina que é a que tem um caracter scientifico.
Quando o mundo christão entra em relações com o mundo arabe então
illuminado por uma forte civilisação, quando trava conhecimento com os
seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi, o que encontra?
Encontra a influencia de Ptolomeu alli tambem predominante como em geral
a influencia grega, o _Almagesto_ considerado como uma obra divina,
e portanto egualmente triumphante a doutrina da antichtona e da zona
torrida inhabitavel.
Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa idéa? Ha de certo,
mas esses são só os espiritos independentes como Alberto Magno, como
Rogerio Bacon, como Pedro d’Abano, esses simplesmente não acceitam o que
não está demonstrado, mas não vão contra factos incontestados. Assim
Alberto Magno não acceita sem demonstração a idéa de que o sol percorra
especialmente a zona torrida e a prive de toda a vegetação e de toda a
manifestação de vida, mas, não contestando que não ha relações entre
a terra que habitamos e a terra desconhecida, attribue esse facto em
primeiro logar á immensidade dos mares, em segundo logar á existencia na
antichthona de montanhas magneticas que prendem os habitantes e que os
não deixam transpôr os incommensuraveis espaços que os separam da terra
que habitamos[30].
Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente identica[31]. Pedro
d’Abano refugia-se na vaga observação de que o meio deve ser mais
perfeito do que as extremidades[32], e uns e outros sustentam que a zona
torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano não rodeia simplesmente a
terra, que se interna no seio d’ella formando os quatro grandes golphos
do Mediterraneo, do Mar das Indias, do Mar Roxo e do Caspio, porque este
mar interior foi por muito tempo e por muitos geographos considerado como
um mar que communicava ou com o Baltico, ou com o Occeano.
Para todos então a approximação da zona torrida era assignalada pela
existencia de monstros, em que se desentranha com uma espantosa
exuberancia a fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia das
antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se de um modo prodigioso
nas descripções dos mais serios geographos. Nas regiões que confinavam
com as que eram defezas aos homens brotavam as plantas maravilhosas, a
especie humana torcida e desfigurada desatava-se em fórmas phenomenaes, e
ao lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como os que reconstitue
para as epochas primitivas a paleontologia moderna, essas regiões
devastadas. Para o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban Mauro
os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente guardavam o oiro
e as pedras preciosas[33]. Para o sul, segundo o pensar de Vicente de
Beauvais, um dos grandes geographos da edade média, havia dragões logo
para deante de Marrocos[34]. João de Hase collocou na India os pygmeus
que apenas viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam os navios
para o fundo do mar[35]. As obras de Plinio eram fonte inexgotavel
de extraordinarias divagações. Cynocephalos e acephalos, cyclopes e
arimaspes, antipodas que não tinham dedos, hippopodas que tinham pés de
cavallo, e juntamente com elles os gryphos pullulavam n’essas regiões
mysteriosas, como aviso supremo que a Providencia dava aos que pretendiam
penetrar nas regiões em que o sol impera e que o sol devasta.
No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se uma das collecções
mais completas d’essa estranha producção zoologica e anthropologica da
sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia não a produzia a
edade média, colhera-a nos livros da erudita antiguidade. Era lá que
ella encontrava os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e Plinio
e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que tinham os olhos no peito
e os Presumbanos sem orelhas. Se seguimos as indicações d’esse famoso
mappa-mundi lá encontramos ao norte os gryphos que teem azas de aguia
e corpo de leão e que defendem contra os Arimaspes as minas das verdes
esmeraldas, os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade e que
só morre quando, cançando-se de viver, se lança ao mar do alto de um
rochedo, e os Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite que de
dia, e os minotauros que teem corpo de homem, cabeça, cauda e pés de
toiro, e os tigres da Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem
deante d’elles, se lembram de lhes atirar um espelho, e na India então
a monstruosa mantichora que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda
de escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr de um vermelho
sanguineo, os pelicanos que abrem o seio para sustentar os filhos, e
povos sem nariz, e outros sem lingua, e os Monoculos que teem um olho só,
uma perna só e um pé tamanho que, depois de terem andado largo caminho,
apesar dos seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez prodigiosa, ao
descançarem levantam o pé e adormecem á sua sombra.
Na Phrygia apparece o _bomaco_, um estranho animal, que tem crinas de
cavallo e cabeça de toiro, e que se defende, quando foge, com os proprios
excrementos que queimam tudo em que tocam, na Arabia a phenix animal
unico que vive quinhentos annos, na Bythinia o lynce que vê atravez dos
muros e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o rio Jordão, junto
do Asphaltite, a designação de que nas suas aguas sobre-nada o ferro e
mergulham as pennas.
Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica, botanica e
anthropologica. Alli vive a salamandra, um dragão venenoso que se deleita
nas chammas, alli floresce a _mandragora_, essa planta de face humana
que tem miraculosas virtudes, alli corre o _éalo_, que tem corpo de
cavallo, cauda de elephante e queixos de cabra, cujo pello é negro e
cujos chavelhos moveis teem uma braça de comprimento. Alli se succedem
emfim os _Ambaros_ que não teem orelhas e cuja planta dos pés é queimada,
os Scinopodas que teem as mesmas particularidades que os Monoculos, os
Androgynos que reunem n’um só individuo os dois sexos, os Himantopodas
que arrastam as pernas de fórma que mais rastejam do que andam, os
Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam o pudor das
suas mulheres expondo os filhos ás serpentes, os _Parvini_ que teem
quatro olhos, os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras
e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os Virgogicos que habitam
em cavernas e comem insectos, e os satyros, e os faunos que são meio
homens e meio cavallos, e outros povos que teem o rosto comprimido e se
sustentam por meio de um canudo, outros que teem nos hombros os olhos e
a bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo um dos labios, tão
proeminente elle é, e entre animaes além dos dragões e dos gryphos o
famoso basilisco, animal monstruoso que tem na fronte uma faxa branca que
imita um diadema, e que empesta o ar que respira, mata as plantas de que
se approxima, devasta o paiz que percorre, e a esphinge que tem azas de
passaro, cauda de serpente e cabeça de mulher, e o monocerio, que, apesar
de ser perigosissimo, quando d’elle se approxima uma donzella que lhe
mostra o seio, toda a sua furia se aplaca, e sobre esse seio adormece,
e as formigas enormes que guardam as areias de oiro. Alli tambem se
encontram montes em fogo cheios de serpentes, montes silenciosos de dia,
mas onde, á noite, accorda, á luz de estranhas claridades, o som dos
pandeiros dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os ladrões, e o
poço maravilhoso, que se conserva todo o anno immerso na sombra, mas que
em certo dia, quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se projectam
verticalmente sobre a sua superficie, se enche de subito de immensa
claridade, e cidades como a de Adaber onde os dragões pullulam.
Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de viajantes? Não! isto
tem, pelo menos em grande parte, um caracter scientifico. A antiguidade
o transmittira e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu ou
em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou em Solino, ou em Pomponio
Mela. Durante os descobrimentos estas noções acompanhavam os nossos
viajantes, que, ao passo que destruiam umas, ainda iam acalentando as
outras. O mytho das amazonas, que, durante a antiguidade, fluctuára
entre a Scythia e os arredores do Egypto, chegou a transplantar-se
para a America, e estava na mente do explorador que deu o nome de
Amazonas ao gigante fluvial da America do Sul. As singularidades da
phenix e do lynce eram perfeitamente admittidas como authenticas, e
a dedicação materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria á
verdade, que esse passaro, longe de se dedicar pelos filhos, nem sequer
os defende como fazem os outros animaes, até ha bem pouco tempo passou
por certa. As monstruosidades humanas não espantavam pessoa alguma,
e bem o podemos perceber se nos lembrarmos que não estranhariamos
monstruosidades semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade
scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo como os organismos animaes
se adaptam aos meios em que teem de viver, não nos custa a admittir que
os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não tenham tambem os
orgãos respiratorios, que lhes faltem a bocca e o nariz, e que engulam
o alimento, se de alimento precisam, por outra fórma qualquer. Desde o
momento que se admittia o rigor inflexivel do sol nas regiões tropicaes,
como se não admittiria a existencia dos Himantopodas e dos outros povos
em cujo organismo a providente natureza desenvolvera sobretudo os orgãos
que tivessem por fim preserval-os do sol?
Assim as affirmações positivas e serias da sciencia eram todas contrarias
á navegação para a zona torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se
uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria a nós tentar uma
viagem em direcção á lua. Azurara, se escrevesse a sua _Chronica da
Guiné_ antes dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos lá fóra,
passaria por auctor de um outro _Amadis de Gaula_, e ninguem estranharia
que a patria de Lobeira produzisse outro escriptor não menos phantasioso,
ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente todos os limites da
verosimilhança. Mesmo n’essa epocha de credulidade o livro de Azurara
faria sorrir os leitores, se a realidade dos factos não fosse já
conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir os romances de Julio Verne.
Mas não apparece agora a todos evidente e claro o absurdo de se suppor
que por alguem fomos precedidos nos descobrimentos africanos? Seria
necessario suppor, para que os normandos tivessem ido á zona torrida,
e creado estabelecimentos na costa e desamparado depois essa navegação
sem que ninguem tivesse ligado a essas expedições a minima importancia,
seria necessario suppor que as questões geographicas encontravam no
mundo medieval a mais completa indifferença, que ninguem sabia se havia
zona torrida ou não, e que viagens d’essas não levantavam a minima
curiosidade. Não; a edade média preoccupava-se avidamente com as questões
de geographia, principalmente depois das cruzadas, e sobretudo depois
d’essa grande Renascença do seculo XIII, que foi a aurora do grande
esplendor do seculo XVI.
Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de Tours, Marciano Capella,
Vibio Sequester, St.° Avito, e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio
e Paulo Orosio nos seculos V e VI; St.° Isidoro de Sevilha, Philopomus,
Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo VIII, Anonymo de Ravenna,
Dicuil, Raban Mauro, Alfredo o Grande no seculo IX, Alfrico, Adelbod,
o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo X, Herman Contractus, e
Azaph o Hebreu no seculo XI, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de
Saint-Victor, Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme de Jumiège,
Herrade de Landsberg, e Bernardo Sylvestris no seculo XII, Sacro Bosco,
Vicente de Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto de Lincoln,
Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli, Roberto de S. Marianno d’Auxerre,
Gervais de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville, Omons,
Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto e Nicephoro Blemmyde no
seculo XIII, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen, Faccio
degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio, Petrarcha, Bartholomeus
Anglicus, Gervais, Ricobaldi de Ferrara no seculo XIV, Pierre d’Ailly,
Guilhermo Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no seculo XV, e quantos
outros mais ainda sustentaram e ensinaram as doutrinas cosmographicas
que temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu de que só a
zona torrida era inhabitavel, outros a de que era inhabitavel toda
a parte meridional da terra, outros e esses ainda assim rarissimos
como Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem contestação
nem como verdade absoluta a affirmação de que era inhabitavel a zona
torrida, sustentavam que nem por isso deixava de ser impossivel a
transposição dos seus limites, porque o mar immenso a cobria toda, e
porque nas terras antichtonas havia as terriveis montanhas magneticas
cujo pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que acompanhavam
as copias dos manuscriptos antigos, como de Sallustio, do Apocalypse,
de Pomponio Méla, de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as _Imago
mundi_ e as _Thesaurus_, e os que se elaboravam nos conventos mais
eruditos, todos reproduziam estas affirmações, esta fórma estranha da
terra, e inflammavam com a tinta vermelha os mares da zona torrida e
inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa principiavam logo
ao sul de Marrocos, as indicações dos estranhos povos que as habitavam.
E, quando tão arraigada se achava esta convicção no animo de todos,
quando no seculo XIV se discutiam com ardor as doutrinas capitaes que
expozemos ácerca da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever,
com o titulo de _Conciliator_, um livro destinado, como indica o seu
titulo, a conciliar essas doutrinas, quando as viagens de Marco Polo
excitavam immensa curiosidade e muita incredulidade tambem, tão estranhas
coisas contava—apesar de nenhuma d’ellas destruir afinal de contas os
pontos capitaes da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se que
navegadores quaesquer fizessem viagens, que destruissem completamente as
noções essenciaes da geographia essencialmente admittida, viagens em que
penetrassem na zona torrida não só sem perigo, mas tambem sem encontrar
nas regiões circumjacentes nem povos monstruosos, nem animaes estranhos,
nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse capitães e
marinheiros, nem excitasse a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges,
nem dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos que compunham as
encyclopedias, nem dos que desenhavam os mappas, nem dos aventureiros dos
outros paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes, que deram
logo brado em toda a Europa, como não podia deixar de succeder quando
se désse um passo tão gigante no conhecimento do mundo, quando a prôa
dos nossos navios, como o teria feito a prôa dos navios normandos, se as
suas viagens fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema
geographico, sustentado desde a mais remota antiguidade pelos respeitados
eruditos?
Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence não a quem a faz, mas
a quem a demonstra. Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar
para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo que respondia aos
que negavam o movimento andando, os Portuguezes responderam aos que
sustentavam a impossibilidade de transpor a zona torrida transpondo-a.
Essa demonstração tel-a-hiam feito os Normandos, se antes de nós lá
tivessem ido, ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam elles,
mas gloria immediata, porque o facto era de tal ordem que não era
necessario que decorressem seculos para se lhe reconhecer a importancia.
No capitulo immediato veremos como a fé e a lenda, ainda mais do que a
sciencia, fechavam a zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns,
a enchiam, á investigação do homem. Essas lendas, como as da sciencia,
iam sendo rasgadas a pouco e pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas,
dos hombros dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros de Cintra, que
envolvem o valle e a montanha, tendo por cima o céo azul. Á medida que os
transpomos, vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia, irrompe
um arvoredo, um grupo de rochas, mas em muitos pende ainda dilacerado
o manto do nevoeiro. Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes
caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia tudo rompeu, e o mundo
appareceu emfim na sua completa e radiosa realidade.