Causas de erro para a historia da solução dos problemas

Para podermos seguir passo a passo a marcha dos descobrimentos, para

vermos como pouco a pouco se foi correndo a cortina que escondia aos

olhos dos homens da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario

a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos actuaes, para nos

collocarmos no ponto de vista em que os homens de eras anteriores se

collocavam em virtude do que elles então sabiam. A falta d’essa correcção

indispensavel arrasta muitos escriptores notaveis a erros grosseiros, que

muitas vezes lhes escapam exactamente por não terem o cuidado constante

de applicarem essa correcção ás tradições que dos tempos passados lhes

vem. O proprio Humboldt, que frequentemente observa quanto é funesto esse

erro, a esse erro cede só porque uma vez se esqueceu de verificar qual

era a região que nos principios do seculo XV era conhecida pelo nome

de Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava comprehendida

entre o cabo Cantim e o Bojador não acceitaria a pretenção franceza de

terem chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt a essa Guiné

tropical que já muito para além fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo

que nota como é fallaz a denominação de India dada pelos antigos a varias

regiões, visto que muitas vezes comprehendia as regiões meridionaes da

Asia, a parte da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o extremo

Oriente. Marco Polo designava tres Indias, havia a India exterior e a

India inferior, a India superior que era a parte mais oriental da Asia

etc.[10] Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens instruidos

não de que Colombo julgasse ter encontrado a Asia, mas de que imaginasse

ter encontrado a India, arrastados pela tendencia natural de vermos com

os nossos olhos de agora a geographia dos outros tempos; e de suppôrmos

que a India não podia ser no seculo XV senão a que nós hoje conhecemos e

como tal designamos.

Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a posição geographica de

varias terras, a que attribuimos a sua posição actual, logo que lhes

encontramos em mappas antigos os nomes! Quantas terras differentes

receberam o mesmo nome que de umas a outras foi passando, segundo as

conjecturas dos geographos! As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante

de Delos, foram sempre navegando para o occidente, até que a geographia

positiva as fixou nas Canarias, arrancando-lhes o véo da lenda em que

os antigos as envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no Egypto,

passaram depois para o sul da Cyrenaica, depois ainda para defronte do

rio Lukkos, quer dizer, quasi pegadas com a costa marroquina, e só depois

para o ponto em que estão as Canarias.[11] A quantas ilhas se applicou o

nome de Taprobana, que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando muitas

vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, e quando outras vezes a

collocava a geographia conjectural dos antigos no oriente das Indias![12]

A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome de Aurea Chersoneso

que arbitrariamente suppomos agora que correspondia á peninsula de

Malaca![13] Como é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos de

alguma força apresentados por Mr. d’Anville, a identificação de Sofala

com Ophir![14] Como ainda se illudem hoje os mais serios investigadores

com o nome de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje

consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição dos antigos,

abrangia toda a parte meridional da Africa e vinha ligar-se com a costa

marroquina![15] Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações,

se vemos que os antigos e os Arabes, e os povos da edade média davam á

India uma fórma completamente phantastica, suppunham que o mar das Indias

era um mar mediterraneo, approximavam assim a costa asiatica da costa

africana, como a costa africana está proxima da Europa no Mediterraneo

europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse Ophir na Africa

como na India!

Depois que enorme cautella é ainda necessaria para o exame dos antigos

mappas, onde a phantasia se dava largas, e onde se misturavam com alguns

factos positivos todas as conjecturas que formava ou a imaginação

ou o espirito reflexivo d’aquelles que os traçavam! Como é ridiculo

para quem conhece o espirito que presidia á elaboração dos mappas

ouvir escriptores serios fallarem com muita gravidade no famoso mappa

trazido pelo infante D. Pedro das suas viagens, e onde estão traçados

o cabo da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães! Não sabem esses

escriptores que, até depois de feitos os descobrimentos, a phantasia dos

cartographos não se contentava com os factos positivos narrados pelos

navegadores e continuava a ampliar por sua conta o mundo conhecido! Os

proprios navegadores ás vezes contribuiam para illudir os cartographos.

Christovão Colombo, ao tocar na ilha de Cuba, julgou ter chegado a terra

firme e tanto d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes

que fôra n’um continente que tinham effectivamente tocado![16] Pedro

Alvares Cabral tomou o Brazil por uma grande ilha. Em mappas muito

posteriores aos descobrimentos americanos, feitos já depois de Vasco

Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se no sitio em que está o

isthmo de Panamá[17] um estreito que punha em communicação os dois

mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na demolição de glorias

estabelecidas de sustentar que o infante D. Henrique tinha mappas

que até lhe mostravam onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo

levava comsigo mappas que lhe davam o traçado da America, que Fernão de

Magalhães n’um globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito famoso

que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares tinha um mappa tambem que

lhe designava o sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas!

Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes podia fazer o

acaso que coincidisse com a descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela

imaginação dos cartographos; mas logo o formigar dos erros perfeitamente

incompativeis com o imaginario descobrimento prova exuberantemente que só

em coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia basear.

O que melhor pode mostrar como faltava completamente aos antigos o

conhecimento da terra, para além dos estreitos limites em que se

concentraram as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana,

está na variedade dos systemas com que se procurava explicar a fórma do

mundo. A sciencia não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro

das idéas conquistadas cada idéa nova que ia sendo adquirida. Como todas

as explicações eram conjecturaes, cada nova theoria provava apenas

a argucia e o engenho do espirito que a concebia, mas estava sujeita

á discussão e á contradicção como todas as soluções que não assentam

em factos positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que a idéa da

esphericidade da terra triumphou na antiguidade, mas pode dizer-se que

triumphou porque a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não porque

todos a reconhecessem, e porque não houvesse tambem homens de primeira

plana que absolutamente a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas contestou-a

vivamente Plutarcho.[18] A theoria de ser a terra um disco cercado pelo

rio Oceano, que é a theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque

a observação dos phenomenos celestes mostrou de um modo evidente quanto

era absurda, porque se via bem que não era possivel que o sol se sumisse

no occidente, e voltasse depois pelo mesmo caminho e em segredo de

noite para reapparecer no Oriente, porque o movimento apparente do céo

não podia explicar-se senão allegando-se que os corpos celestes n’uma

parte da sua marcha passavam por debaixo da terra, para reapparecerem

no sitio opposto áquelle por onde se tinham sumido. Então sim, então a

idéa de que a terra assentava em bases solidas, tendo por cima de si o

céo estrellado, desappareceu completamente, e a primeira conquista da

sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço, embora fizesse d’ella

ainda o centro da creação, embora suppozesse que tudo se fizera no

Universo em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso espaço em

varias espheras concentricas os orbes luminosos que entoavam a harmonia,

que Platão julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que espalhavam

nos intermundios a chamma ora intensa como a do sol, ora meiga como a

da lua, ora palpitante e suavissima como a das estrellas, das corôas

resplandecentes com que a Divindade as cingiu.

Mas com relação á fórma da terra que diversidade de opiniões! Pomponio

Mela considerava a terra chata como a suppunham os Hebreus, como a

suppozeram depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho,

Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe a fórma de um quadrilongo,

Cicero, no famoso _Sonho de Scipião_, acceitava as doutrinas dos

geographos mais notaveis, considerava-a espherica, e essa opinião foi

seguida por Macrobio, que tambem dava, como Cicero, á parte habitada a

fórma de uma chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade o

principio de que a terra era espherica, avulta o grande nome do geographo

antigo Ptolomeu. Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés, suppõem

a terra ovoide, e Posidonius suppõe que essa ellipse estreita que

constitue a terra termina em duas pontas agudissimas.[19]

Apezar d’essas differenças porém, a opinião da esphericidade da terra

é a que predomina entre os antigos, é a que tem a seu favor a enorme

authoridade de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de Eratosthenes

e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão, a que é preconisada pela

escola de Alexandria e que adquire por conseguinte um verdadeiro valor

scientifico, mas a religião christã intervem no debate, e a theoria dos

antigos é considerada como heterodoxa pelos Santos Padres. A terra tem

a fórma de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada como

absolutamente contraria á logica divina, e esta opinião tão respeitada,

tão importante introduz immediatamente a confusão nos espiritos da edade

média. O conhecimento da sciencia arabe traz ainda um novo elemento de

complicação. Na sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo

o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles teem ferventes

discipulos nos sabios orientaes, que podem esfumar as suas doutrinas no

vago do seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as applaudem.

E assim vamos encontrar por toda a edade média a velha theoria grega

reforçada agora pela adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs.

Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes, que tinham pelo saber

da antiguidade um supersticioso respeito, a influencia de Ptolomeu, mas

deante da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina e emmudece.

Então vamos encontrar os cartographos da edade média empenhados na

improba tarefa, que tantas vezes se tem repetido, de procurarem conciliar

as doutrinas da Egreja com a tradição da sciencia. Apparece-nos muitas

vezes a terra como um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que

o systema das espheras applicado ao systema cosmographico encontra nos

espiritos da meia edade um verdadeiro engodo, a terra fixa no meio

do universo espherico mantem a fórma especial que os Santos Padres

decretaram que tivesse.[20]

Durante largos seculos pairou sobre a humanidade a duvida mais profunda

ácerca da fórma do planeta que ella habita. Se alguns sabios entrevêem

a verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente pelas deducções

que tiram dos seus calculos e das suas observações astronomicas, não

pelo conhecimento directo que possam ter do planeta. Por isso tambem a

orthodoxia triumpha, embora as razões em que se funda não sejam bastante

poderosas contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar da fraqueza

da argumentação, a fé supera sempre facilmente as theorias conjecturaes

dos seus adversarios. É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa

na sua lucta contra os systemas philosophicos adversos. Ella dá uma

certeza sem fundamento que não seja a auctoridade respeitada da tradição

e da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos verosimeis,

mas todas baseadas em simples conjecturas. No dia em que o materialismo

conseguir fazer palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e que

se representa por esse nome fascinador da alma dotada de immortalidade, o

espiritualismo cahiu para não mais se levantar. Emquanto a demonstração

da redondeza da terra e da existencia dos antipodas não sahiu do dominio

conjectural, a fé que oppunha a essas vagas theorias uma affirmação

baseada em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios adversos mas

aferradas ao espirito humano pelas raizes potentissimas da tradição,

os Santos Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que um pequeno

povo debruçado sobre os mysterios do Oceano resolveu sondal-os e

quebrar as barreiras que separavam do mundo conhecido essa região

enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel, chegar

ás regiões defezas, arrombar as portas fechadas pela triplice chave

da sciencia, da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não tinham

conseguido conseguiu-o meio seculo apenas. Então a sciencia não parou,

não retrocedeu, não se contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada

facto que se adquiria era uma confirmação de uma theoria contestada,

ou a revelação de uma theoria nova. A fé cedeu deante da evidencia.

Quando os marinheiros portuguezes entraram na zona torrida, cahiu por

terra a idéa consagrada da impossibilidade d’alli se viver, quando

entraram na zona temperada do sul, desappareceu, substituida pela real,

a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar os antipodas; quando

Colombo transpoz o Oceano occidental, a idéa da immensidade dos mares

perdeu-se para sempre; quando Fernão de Magalhães passou do Atlantico

ao Pacifico, e quando o seu ultimo navio veiu fundear n’um porto da

peninsula hispanica depois de ter dado volta completa ao mundo, não teve

mais contradictores nem descrentes a theoria da esphericidade da terra. O

quadrado dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas d’esses

cavalleiros do Oceano.

Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas, nem com os devaneios

dos sonhadores scientificos, que a terra depois de explorada

audaciosamente se torna incompativel. O proprio systema scientifico de

Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana, estala não podendo

conter em si o mundo tal como foi estudado e descoberto. O systema de

Copernico restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade á terra.

Se não era o sol que percorria lentamente o zodiaco, illuminando no

mais alto do seu curso com a sua luz fecundante a terra privilegiada,

e queimando quando se abaixava a terra condemnada e maldita, se a zona

torrida não era um inferno sempre em chammas, nem nas suas proximidades

pullulavam os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro, como as viagens

portuguezas amplamente demonstravam, que motivo havia para se suppôr

que o Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das maldições de

Deus sobre a Terra, e porque não seria antes a Terra que adejaria no

espaço, irmã d’esses numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo

no meio d’essa immensidade de atomos, bago d’essa poeira de luz dispersa

no firmamento, e posta em movimento pelo sopro mysterioso da grande

attracção universal? E a Copernico succediam Képler e Newton, e as leis

do Universo iam-se coordenando n’um Codigo formulado pela sciencia,

não ao acaso das conjecturas, mas segundo as indicações positivas dos

factos. E assim foi que a audacia portugueza transformou completamente

a sciencia humana, e iniciou esta epocha portentosa que dura ha quatro

seculos apenas, e que deu mais á humanidade que as dezenas de seculos da

historia conhecida que a precederam. E assim é que, se a Colombo cabe a

indisputavel gloria de ter destruido a fabula que tornava inaccessiveis

as terras do occidente, ao infante D. Henrique mais do que a nenhum

outro cabe a gloria immensa de ter affrontado a sciencia, a fé e a lenda

para fazer da sciencia conjectural uma sciencia positiva, da fé que

amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou, da lenda que acovardava a

alma humana a epopéa que a enalteceu.

Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e grande Magalhães! Formam

um grupo de heroes os audazes marinheiros que desde Gil Eanes até

Bartholomeu Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram todos os mares, e

affrontaram todas as tempestades, compõem uma phalange benemerita os

missionarios da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde iniciador

da exploração scientifica do continente africano até aos modernos sabios

viajantes, se internaram nos sertões affrontando os povos barbaros,

como formam uma legião sagrada os missionarios da fé que não recúaram

deante dos mais horridos perigos para levarem a regiões ignotas a

palavra divina, mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos

estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o pensativo infante,

que accendeu com as suas mãos intrepidas, entre os motejos da sciencia,

os anathemas da Egreja e os gritos pavidos da superstição, esse pharol

glorioso que projectou de Sagres sobre o vasto Oceano, por cima das suas

ondas tenebrosas, a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora da

civilisação moderna.

Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica · 第 4 / 21 题