A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de
justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos
grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as
solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos
milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso.
Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um
só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece
ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa,
porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou
porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito
da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito
adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno
perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros
ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas
profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o
nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas
montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi
pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que
não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental
quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as
instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas
a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa
raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos
explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento
moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao
mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de
civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião
vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da
Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia
a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos
as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que
a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do
trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas
dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia
edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana
derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a
Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do
deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que
as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do
Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios
do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso,
assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar,
vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua
audacia.
Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça,
porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as
mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por
muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os
agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano
obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas.
Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas
derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes
predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle
aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não
foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe
a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo
capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade,
inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi
Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do
Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha
de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da
Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando
a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o
infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico,
foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava
pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o
sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria
incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade,
que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra.
Quando vejo a azafama com que procuram ainda hoje espiritos demolidores
sustentar que os Portuguezes foram precedidos por outros povos nos seus
descobrimentos, que teve Colombo predecessores no descobrimento da
America, pasmo que se não veja claramente o obstaculo deante do qual
baqueiam todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: antes
dos navegadores do infante D. Henrique terem demonstrado o contrario,
era ponto incontestavel para todos a impossibilidade de se viver na
zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o contrario, era ponto
incontroverso que a immensa extensão do Atlantico tornava impossivel que
um navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse terra antes
de terem perecido de fome e de sede todas as tripulações. Pois, se um
navio qualquer tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado antes
de nós ás costas da Guiné, não estava desde logo quebrado o encanto, não
cahia por terra toda a geographia systematica dos antigos, não estava
aberto para sempre o _mare clausum_, e podia alguem sustentar ainda que
era inhabitavel a zona torrida, quando havia em França marinheiros que
a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado incolumes, deixando
n’essas regiões que todos diziam completamente queimadas pelo sol
colonias florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, que
ainda hoje são citadas por escriptores francezes notabilissimos, em cujo
espirito um mal-entendido amor patrio parece extinguir completamente
a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa descoberta fosse
completamente inconsciente, que os marinheiros nem soubessem que tinham
entrado na zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel
com os conhecimentos embora rudimentares que precisava de ter o navegador
que se arriscava a tão aventurosas viagens.
O mesmo diremos das navegações antigas de que se encontra noticia nos
livros de Herodoto e no Periplo de Hannon. Se os marinheiros phenicios de
Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, e tivessem entrado no
Mediterraneo pelo estreito de Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão
de costas, como poderiam persistir no espirito dos geographos antigos
idéas tão absolutamente falsas a respeito da configuração da Africa e da
distribuição das zonas? Pode allegar-se por acaso que essa viagem não
deixou vestigios, quando vemos que as viagens dos Phenicios nos mares
da Europa tão difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, que
nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, essa terra gelada, e que pelo
contrario perderam immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, que
viviam nas terras ardentes, o conhecimento de costas que o sol tambem
aquecia e em que encontravam muitas vezes como que a reproducção das
suas terras nataes? E não seria extranho tambem que Hannon tivesse feito
a longa viagem que do seu Periplo se quer deduzir que fez, e que se
apagasse completamente na memoria carthagineza o conhecimento das terras
percorridas em tão memoravel expedição, preferindo tambem, ao que parece,
esses filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares tempestuosos
da Europa ao clima quente e ao mar sereno da Africa Occidental?
O que é estranho realmente, é que o alto espirito de Humboldt acceitasse
sem exame as pretenções dos Normandos, limitando-se a observar na sua
_Historia da geographia do Novo Continente_ que esses factos citados
não diminuem a gloria de quem tentou a exploração seguida das costas
africanas![1] Não viu o grande historiador, o immortal geographo, que
esses factos isolados bastavam para destruir todas as lendas, que eram
a chave com que ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só se
abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços dos navegadores
portuguezes, que bastavam para abrir o caminho para a _terra antichtona_,
para o _alter orbis_, onde muitos diziam que ficava situado o Paraizo
Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer nunca, porque ás duas
zonas temperadas se interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida
completamente queimada pelo sol? Tão profunda seria a ignorancia em
Dieppe que ninguem visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos
seculos XIII e XIV, sobretudo, em que já começava a actuar nos espiritos
europeus a febre das viagens, já depois de Marco Polo ter escripto a
sua curiosa narrativa, depois das viagens para o Oriente de Rubruquis
e de Carpino, e das viagens de sir John Mandeville, quasi um normando
tambem? Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa quem lhes ensinasse a
verdade, continuavam geographos e cartographos, todos os sabios, todos os
estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de monstros horrificos
os desconhecidos plainos africanos, a pintar a vermelho nos mappas,
para bem indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? Possuindo
colonias na costa africana, tendo marinheiros que tão bem conheciam
esses mares podiam os reis de França consentir que, por bulla de 8 de
janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos reis de Portugal «todas
as conquistas da Africa com as ilhas nos mares adjacentes _desde o cabo
Bojador e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa meridional_?»[2].
E era possivel ainda que no principio do seculo XV os capellães de João
de Bethencourt, _fidalgo normando_ que occupára as Canarias, compondo a
narrativa da famosa expedição, nem uma palavra escrevessem ácerca das
expedições dos seus patricios, e que pelo contrario dissessem, elles
normandos, que «_si aucun noble prince du royaume de France ou d’ailleurs
vouloit entreprendre aucune grande conqueste par deçà, qui seroit une
chose bien faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu de
frais; car Portugal et Espagne et Aragon les fourniroient pour leur
argent de toutes vitoailles et de navires plus que nul autre pays, et
aussi de pilotes qui savent les ports et les contrées_?»[3]
Com tanta superficialidade porém se estudam estes assumptos que nem
se pensa em se saber se a Guiné do seculo XIV é a Guiné posterior aos
descobrimentos. Isso leva escriptores francezes e o proprio Humboldt
a allegar que este mesmo Bethencourt explorou a Guiné antes dos
portuguezes, sem verem que o que os seus capellães contam é o seguinte:
que «os navegantes normandos se affogaram nas costas _da Barbaria ao
pé de Marrocos_»,[4] e que Bethencourt tencionava visitar a parte da
«terra firme que fica _entre o cabo Cantim e o Bojador_»[5] que para isso
consultara o livro de um religioso hespanhol «_que visitára a Guiné,
mas que, chegando ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas que
ficavam áquem_».[6] A Guiné do tempo de Bethencourt era, como se vê, a
que ficava para cá do cabo Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio
VII disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem as ilhas Canarias
a doze leguas de Guiné.[7]
Que immenso cuidado é necessario, quando se procura destruir uma tradição
profundamente e fortemente documentada! Quantas causas de erro escapam ao
investigador ou frivolo, ou negligente, que se ufana de encontrar n’um
velho alfarrabio um facto que vem destruir completamente o que parecia
assente e demonstrado! Basta uma variação de nome para transtornar todas
as deducções. Basta que uns não saibam, que outros não reparem que o nome
de Guiné foi mudando de sitio, como outros muitos nomes geographicos,
á medida que os descobrimentos foram caminhando, para que todas as
interpretações caiam por terra! Não basta que se diga que no seculo
XIV ou XV houve Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel
apurar tambem se a Guiné do principio do seculo XV era a mesma que assim
se denominou depois dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde resulta
sabermos que a Guiné ficava, para os capellães de Bethencourt, áquem do
cabo Bojador, destruiria completamente a singularissima reivindicação
franceza se tantos argumentos fortissimos não houvesse para lhe
demonstrar a inanidade.[8]
É o que succede tambem com os detractores de Colombo. Não vêem
immediatamente os que dizem que antes de Colombo chegaram a terras
americanas João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, que, se algum
d’elles tivesse levado a termo tão importante expedição, bastava isso
para ficar logo resolvido o grande problema do fim do seculo XV que
trazia preoccupados sabios e estudiosos, deante do qual tanto hesitou D.
João II, que inflammou em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, em
Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo se saudaria essa resolução
do grande problema!
O que faz tambem com que homens de valor no nosso tempo possam acceitar
fabulas tão pueris, como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, é
que raros estudam a fundo o problema que pretendem resolver a seu modo, e
não o sabem pôr em equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão Colombo
considerado como um visionario por dizer que se encontraria a India
navegando-se pelo occidente, outros a lenda de Christovão Colombo tratado
como um louco por imaginar que para o lado do occidente havia terras. E
por isso dizem uns que elle sabia perfeitamente que havia terras porque
tinha conhecimento de viagens a que os navegadores não tinham ligado
importancia alguma e que tinham passado despercebidas, outros que algum
dos reis com quem elle tratara, D. João II por exemplo, não ignoravam que
havia terras para o occidente a grandissima distancia da Europa, porque a
essas terras já um portuguez aportara, mas estavam convencidos que essas
terras não eram a India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham
razão e não Colombo.
É mal posto o problema: que se poderia chegar á Asia indo-se pelo
occidente, raros seriam os homens de alguma instrucção que o podessem
pôr em duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara em todos
os espiritos, e a sua consequencia natural era que pelo occidente se
poderia chegar ao oriente. Que devia haver terras para o occidente
era por conseguinte egualmente incontestavel. A questão toda estava
exclusivamente na distancia.
D. João II não julgava Colombo um visionario por elle lhe dizer que pelo
occidente se chegaria á India, julgou-o um visionario por elle suppôr
que poderia atravessar para chegar ao seu destino a enorme extensão dos
mares. Não o suppoz visionario por elle cuidar que encontraria terras ao
occidente, ainda que essas terras não fossem a India, suppôl-o visionario
por elle imaginar que teria tempo de chegar a essas terras a salvamento.
Logo, se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado essa
façanha, estavam dissipadas todas as duvidas.
Havia terras a grande distancia da Europa, terras que ou seriam a
India, ou algum d’esses archipelagos em que Toscanelli tinha fé, que
serviriam de escala aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?[9]
O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando Christovão Colombo
voltou, sentir-se-hia em Lisboa quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou
sentir-se-hia em França quando Jean Cousin entrasse n’algum dos seus
portos.
O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr a glorias consagradas
não só pela tradição, mas pelos factos incontestados e pelos
resultados conseguidos, estas lendas pueris forjadas ou pela inveja
dos contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos historiadores sem
probidade scientifica que abundaram no seculo XVII, está em pôrem
completamente de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos
se fizeram, de modo que o infante D. Henrique e Colombo apparecem como
uns vultos inexplicaveis sem raizes no passado e sem relações de especie
alguma com o espirito das gerações de que fizeram parte. Querem então
reduzir á estatura normal esses vultos descommunaes, e aproveitam
qualquer tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso de mofa, que
elles não fizeram senão aproveitar os esforços inconscientes feitos por
alguns vultos humildes, para forjarem com esse metal roubado a pobres as
estatuas da sua grandeza.
Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes grandes phenomenos da
vida da humanidade, e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece
ainda mais brilhante quando vemos que elle resume as vagas aspirações da
geração a que pertencem, satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando
a solução que os outros debalde procuram. O infante D. Henrique surge no
meio de uma geração que se debate na ancia do desconhecido, que se julga
apertada na jaula d’este mundo antigo, e anceia por encontrar espaço mais
amplo em que mais livremente respire. Havia um seculo já que a sede das
viagens se apoderara dos espiritos, que o conhecimento da terra era a
preoccupação constante de todos os espiritos mais illustrados e cultos,
em que já se multiplicavam os documentos cartographicos, em que aquellas
encyclopedias medievaes que tinham o titulo quasi consagrado de _Imago
mundi_ se enchiam com as mais phantasticas noções, revelando comtudo
o ardor com que se procurava supprir com uma geographia conjectural a
falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se tinham emprehendido
as grandes viagens terrestres pela Asia, procuravam os povos maritimos
sondar os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos perscrutal-os,
e a expedição de João de Bethencourt bem o demonstrou, aspiravam a
descobril-os os Genovezes, e a infeliz expedição de Vivaldi de que nunca
mais houve noticias depois das suas galés terem transposto o estreito
de Gibraltar confirma-o cabalmente, queriam os Catalães encontral-os e
Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, e não conseguiu passar
além do Bojador, foi um dos que se illustraram n’essas tentativas; mas
paralysou-os a tradição geographica tão enraizada nos seus espiritos
como o estão hoje no nosso as theorias da geographia moderna. Logo que
a costa africana, em vez de voltar para o oriente, continuava a seguir
para o sul, internando-se por conseguinte na zona torrida, a affirmação
scientifica de que o sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se
ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer recuar, ainda que
as affirmações cathegoricas da orthodoxia e os terrores da superstição
os não movessem. D. Henrique teve o genio de um livre espirito que se
revolta contra uma tradição que se não baseia em dados positivos, e
que a submette audaciosamente ao exame da experiencia, teve a coragem
que transmittiu aos seus navegadores de arcar contra as affirmações da
sciencia, contra os dogmas da religião, contra os pavores da lenda.
Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu a Europa toda, e
resoou em toda a parte como uma grande conquista do espirito humano, e
a theoria das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade
de communicação entre as duas zonas temperadas dissipou-se, e a Egreja
teve de se conformar com a existencia dos antipodas que ella considerava
como uma affirmação incompativel com o espirito christão. Pois não se
vê que tudo isso aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse
penetrado na zona torrida, muito para além das regiões habitaveis? E não
se vê tambem que semelhante navegação não passaria despercebida n’uma
epocha em que era universal a anciedade pela ampliação dos conhecimentos
geographicos?
Succede o mesmo com Christovão Colombo. A existencia de terras para
o occidente é um dos sonhos da humanidade desde longas eras. Quanto
esse problema preoccuparia os navegadores portuguezes n’esse seculo XV
todo illuminado pelas suas glorias pode bem imaginar-se. Attestam-n’o
as aventurosas expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi
que procurou sondar as regiões inexploradas da Africa, muitos d’esses
audaciosos se perderam no vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros
chegaram a terras um pouco afastadas e foi assim que a ilha das Flores
se descobriu, mas como o mesmo Ferrer recuando deante do Bojador, como
Bethencourt não ousando afastar-se para além das costas de Marrocos, os
açorianos desmaiaram deante da infinita solidão do Atlantico. Quando
Colombo quebrou essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo o receberam,
com que despeito por lhe não ter dado inteiro credito o acolheu D. João
II! Como logo partiram de toda a parte navios a sondar esses mares
desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean Cousin ou João Vaz Côrte
Real tivessem, antes de Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria
para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a attenção e a inveja de
toda a Europa?
Assim, resumindo as questões capitaes em que se condensa o nosso ponto
de vista, temos que os dois grandes problemas geographicos que foram
resolvidos pelos navegadores do infante D. Henrique e pelas caravellas de
Christovão Colombo eram as seguintes:
1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as affirmações
da sciencia, tornava impossivel a communicação entre as duas
zonas temperadas, entre a terra em que habitamos e a terra
antichthona, entre o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro
e o _alter orbis_ onde a humanidade vivera antes do diluvio,
transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e pela tradição
antiga como o mar tenebroso, entrar n’um occeano que passava
por sobrenatural, onde se estava talvez á mercê das potencias
infernaes;
2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente ao oriente,
até chegar ás praias orientaes da Asia.
A resolução do segundo problema estava dependente da resolução do
primeiro. O primeiro acto de audacia era abrir os mares fechados, mostrar
que não tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de que o
rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. Esse resolveram-n’o
os Portuguezes, e ninguem os precedeu nem os podia preceder, pelo simples
motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse aberto o _mare clausum_,
não teriam elles que o tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha
uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas que o primeiro audacioso
dissipou. Se alguem, antes do infante, houvesse rasgado a cortina do
mysterio que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. A
geographia systematica da antiguidade e da edade média caía em ruinas
logo que o primeiro facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade do
systema.
Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante do segundo. Não se
oppunham á sua resolução nem as theorias geographicas dos antigos, porque
bem conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, nem as
opiniões orthodoxas que não contrariavam de um modo formalmente directo
as doutrinas de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, depois da
desapparição do mar Tenebroso, não faziam senão excitar os navegadores a
procurarem no Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão voltára
com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. O que se oppunha
simplesmente á resolução do problema era a immensidade do Occeano, que
parecia confirmada exactamente pelas navegações portuguezas. Navegara-se
durante annos e ainda se não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria
de se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava Toscanelli, um
dos enthusiastas da escola colombina, porque, se lá não chegardes em
breve, encontrareis disseminadas pelo Occeano centos e centos de ilhas
e de archipelagos que servem de guarda avançada ao grande continente
oriental. Sonho de visionario! dizia-se e Colombo era repellido. Mas
Colombo persistiu e foi elle que rompeu o encanto, elle e só elle que por
ninguem poderia ter sido precedido, porque, se o fosse, tinham caido por
terra todas as objecções, visto que o problema estava reduzido a este
simplissimo termo: atravessar o Occeano e encontrar terra a distancia
a que cheguem os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse
tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado o mysterio. Portuguez,
francez, hespanhol ou italiano, seria a sua volta saudada pelas
acclamações freneticas de toda a Europa maritima. Se foi essa gloria que
aureolou Colombo foi por que só a elle podia competir.
Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, deante dos marinheiros
que tentaram romper o mysterio, deante da intrepidez dos normandos que,
depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer a costa africana,
e cujos cadaveres despedaçados nas rochas da costa marroquina foram
o primeiro cimento com que se começou a erguer o monumento da gloria
portugueza, deante da audacia dos catalães que mais adeante foram
ainda, que já transpozeram o cabo Não, e que investiram talvez com o
Bojador, mas não sacrifiquemos a essa homenagem a justa gloria que cabe
aos que mais felizes, mais perseverantes, e sobretudo dirigidos por
um genio excepcional, quebraram definitivamente as barreiras, e, sem
hesitar um momento, proseguiram no caminho encetado, e methodicamente
foram desenrolando folha a folha o livro do mundo desconhecido, ainda
enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes os antigos papyros. Não
acceitamos como uma especie de premio de consolação para os precursores
menos felizes a phrase de Humboldt, que diz como que encolhendo os
hombros deante da injustiça do mundo que as descobertas só se principiam
a contar desde que formam serie. As descobertas contam-se desde que se
fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou os Genovezes as tivessem
feito, para elles iria a gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do
infante D. Henrique fossem muito adeante para que affluissem a Portugal
estrangeiros, nem o governo portuguez esperou por isso para reclamar do
Papa o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as Canarias? Logo
apparecem Portuguezes, Francezes e Hespanhoes a reclamar a sua posse.
Descobriam-se os Açores e a Madeira e ninguem com isso se importava. Não,
o Homero da grande epopéa maritima foi o infante D. Henrique. Antes dos
grandes epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em que se desata
a inspiração da musa popular, em que se modulam as aspirações e os
enthusiasmos do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, em
cuja fronte Deus accendeu a scentelha do genio, e que escuta pensativo
esses echos da guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a
imaginação, concentra na sua alma as palpitações da alma nacional, e dos
seus labios brota emfim a epopéa victoriosa em que tudo se condensa,
e encontra a sua expressão definitiva, que se fixa para sempre na
memoria do povo e na memoria da humanidade. As caravelas que iam ainda,
silenciosas e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que ou voltavam
sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio das vagas envolviam os seus
cadaveres fluctuantes, eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido
do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o infante foi o poeta soberano
que fez irromper da sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa
triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, como foi Colombo
depois que desenrolou no sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do
Atlantico.