Tinha decorrido mais de seis mezes que a esquadrilha estava no porto de
S. Julião quando um dia appareceu na praia um homem de grande estatura,
mal coberto com uma pelle de animal, cantando em desconcertada voz,
pulando e lançando punhados de areia na cabeça, o que pareceu significar
as suas intenções pacificas, porque, segundo diz o capitão Cook na sua
_Voyage dans l'hémisphère austral_, os indios da ilha de Malicolo
lançavam agua na cabeça em signal de paz.
Extranha apparição esta que surprehendeu os navegantes já descoraçoados
de encontrarem alma viva n'aquellas paragens.
Os hespanhoes repetiram o mesmo signal que o selvagem fizera, de deitar
areia na cabeça, para assim elle entender que estavam na mesma intenção.
De facto o selvagem acercou-se de um marinheiro que Magalhães mandou a
terra e com elle veio á presença do chefe da esquadrilha.
Pigafetta descrevendo este selvagem diz: «Era este homem tão alto que a
sua cintura dava pela nossa cabeça. Bella estatura; rosto amplo e
arroxeado, olheiras amarellas e como que marcando-lhe as faces duas
manchas em fórma de coração. Os cabellos, muito curtos, pareciam
embranquecidos com pós. Cobria o corpo, ainda que mal, com as pelles de
um animal que abundava n'aquelle paiz. Este animal tem cabeça e orelhas
de mula, corpo de camello, pernas de veado, cauda de cavallo e relincha
como este.»
Deve ser o guanaco.
Parece que a surpreza fez augmentar aos olhos dos hespanhoes as
proporções d'aquelle selvagem, pois que D'Orbigny na sua obra _L'homme
americain_ referindo-se aos habitantes d'aquellas regiões diz: «Não
podemos occultar que nos illudiu a apparencia d'estes homens. A largura
das suas espaduas, cobertas desde a cabeça até os pés com capas de
pelles de animaes selvagens, cosidas numa só peça, produziram em nós tal
illusão, que primeiro de os medirmos nos pareceram de extraordinaria
altura, emquanto que depois de bem observados e medidos directamente,
ficaram reduzidos ás dimensões vulgares.»
Diz ainda Pigafetta: «Magalhães recebeu com muito agrado este selvagem.
Ordenou que lhe dessem de comer e o levassem diante de um grande
espelho, o que o surprehendeu extraordinariamente e encheu de admiração.
O selvagem que não tinha a menor noção do que fosse um espelho, e que
pela primeira vez via a sua propria figura, recuou cheio de espanto,
deitando ao chão quatro homens que estavam atraz d'elle.»
Aquelle primeiro selvagem foi mandado pôr em terra depois de Magalhães
lhe ter dado alguns presentes, e elle tão contente se foi, que não
tardou que outros se apresentassem com a mira nas mesmas dadivas.
Eram todos da mesma corpolencia que o primeiro, e como aquelle tinham
pés enormes, pelo que os navegantes os denominaram Patagões, nome porque
ainda actualmente são designados os homens d'esta raça.
A todos Magalhães mandou dar comida e presenteou com espelhinhos,
missangas e outras bugiarias, com o que ficaram muito contentes. Um
d'elles mais domestico demorou-se alguns dias a bordo da _Trindade_,
sociando com os marinheiros, que lhe ensinaram algumas palavras
castelhanas e o baptisaram com o nome de João.
Este João comia os ratos que os marinheiros caçavam, e o fazia com muito
gosto, até que mostrando vontade de ir para terra o desembarcaram, sem
que por muitos dias voltassem ás vistas dos navegantes outros selvagens.
Eram tão extraordinarios os habitantes d'aquellas paragens, que
Magalhães entendeu trazer dois d'elles ao rei de Castella, quando
regressasse á Europa.
Foi assim que a 28 de julho, voltando á praia quatro selvagens dos que
já tinham estado a bordo, Magalhães os mandou buscar, retendo no navio
dois d'elles e mandando para terra os outros.
É curioso o que Pigafetta descreve a respeito da prisão d'estes dois
patagões: «Foi preciso pôr-lhe grilhões aos pés, enganando-os,
fazendo-lhes acreditar que os ferros eram presentes e lh'os punham nos
pés para que os podessem levar para terra.»
Não foi de bom aviso a detenção dos patagões a bordo, porque isto levou
desconfiança aos que estavam em terra e que, mais numerosos, vieram
juntar-se de noite, na praia onde accenderam fogueiras, coisa que até
ali não fôra visto pelos navegantes.
Este facto chamou a attenção de Magalhães, que na manhã seguinte mandou
sete homens á descoberta para saber o que seria.
Os exploradores, porém, encontraram a praia deserta e apenas vestigios
das fogueiras, assim como das pégadas dos indigenas impressas sobre a
areia e na neve que cobria as extensas planicies. Os exploradores,
apesar do seu limitado numero, não duvidaram de se enternarem em busca
dos selvagens, mas passaram o dia n'esta diligencia sem encontrarem
nenhum, resolvendo por fim retirarem-se ao approximar-se a noite.
Foi n'essa occasião que os exploradores se viram acommettidos por um
bando de patagões, completamente nús e armados de flechas e que, segundo
parece, os andava seguindo a distancia, sem que até ali tivesse sido
notado.
Travou-se lucta desproporcionada, porque alem da desegualdade numerica,
os exploradores apenas levavam um arcabuz, unica arma de fogo com que se
encontravam, para fazer frente ao inimigo que os atacava.
Diogo Barroza, soldado da guarnição da _Trindade_, caiu morto por uma
flechada, e a lucta recresceu de intensidade e bravura. Os exploradores
carregando sobre os selvagens com redobrado valor e luctando corpo a
corpo, taes estragos lhes fizeram, que o inimigo recuou, fugiu e
desappareceu para o interior deixando os exploradores senhores do campo.
Só na manhã seguinte voltaram para bordo, depois de terem passado a
noite á roda de uma fogueira para se aquecerem e na qual assaram uma
porção de carne, que os selvagens abandonaram na fuga, e que serviu aos
exploradores de lauta ceia.
Quando Fernão de Magalhães soube do occorrido, quiz vingar a morte do
soldado da _Trindade_ e mandou para terra vinte homens armados para
bater os patagões; mas trabalho inutil foi este, porque os selvagens não
appareceram por mais que os procurassem e os exploradores apenas poderam
dar sepultura ao cadaver de Diogo Barroza, seu companheiro d'armas.