VIII

Decorreram seis mezes entre a assignatura do contracto e a partida de

Magalhães. Foram seis mezes de luctas para o ousado portuguez, em que se

lhe levantaram difficuldades por todos os lados, desde aquellas que

Rodrigo Faleiro lhe criou com o seu genio irascivel, até ás que o povo

de Sevilha, instigado pelos agentes portuguezes para impedirem a

empreza, oppôz, tentando destruir os navios que estavam a construir para

a viagem, e contra a vida de Magalhães, desconfiando da lealdade do seu

procedimento.

Não foi menos importante a falta de dinheiro para occorrer ás despezas

da expedição, falta que suppriu Christovão de Haro e Affonso Gutierres a

que tambem acudiram alguns negociantes de Sevilha a instancias do bispo

de Burgos, devotado protector da empreza.

Faleiro, investido de poderes eguaes aos de Magalhães e de genio mui

differente d'este, foi impossivel dirigir os trabalhos de commum accordo

e a tal ponto chegou a desintelligencia entre os dois, que Carlos V sem

querer melindrar nem um nem outro, mas vendo a impossibilidade de se

consertarem, determinou por uma real cedula datada de 26 de julho de

1519, que Faleiro ficasse em Sevilha tratando de aprestar uma outra

expedição, que seguiria a Magalhães, e que o capitão portuguez partisse

com o exclussivo de unico commandante superior da esquadrilha.

Tudo se aprestou alfim: a esquadrilha que ia a descoberta compunha-se de

cinco navios, de que Fernão de Magalhães era o almirante. O primeiro

d'aquelles navios era o _Trindade_, em que ia Magalhães; o segundo

_Santo Antonio_ commandado por João de Cartagena, que era ao mesmo tempo

vedor da armada e tinha o titulo de adjunto de Fernão de Magalhães; o

terceiro, _Conceição_ do commando de Gaspar de Quesada; o quarto,

_Victoria_ tendo por commandante Luiz de Mendonça, que era tambem o

thesoureiro da armada; o quinto, _Santiago_, que era o mais pequeno,

commandado pelo piloto João Serrano.

Foi a 10 de agosto de 1519 que a esquadrilha levantou ferro, e descendo

o Guadalquivir, veiu fundear no porto de S. Lucar de Barrameda, para

quarenta dias depois, a 20 de setembro, soltar as velas ao vento, em

monção favoravel e aventurar-se por esses mares fóra, sem temor dos

perigos, á procura da passagem para o mar do sul.

Ia na expedição um interprete indio malayo, christão, que Magalhães

levava para melhor se entender com os povos que esperava encontrar;

tambem ia Duarte Barbosa cunhado de Magalhães, que já conhecia a Asia, e

o italiano Antonio Pigaffetta, que foi o chronista da viagem. Além

d'este iam outros extrangeiros, como francezes, flamengos e um inglez,

todos fazendo parte da companha, soldados, marinheiros, artifices

etc.[3]

As caravellas, com suas proas alterosas, lá iam cortando o mar,

impellidas pelo vento rijo que lhe empavesava as latinas. Era um dia de

sol, como só os ha na peninsula Iberica, e os seus raios de ouro

reflectindo-se nas aguas centuplicavam a luz que illuminava aquelle

quadro, ao mesmo tempo que alentavam a alma dos valorosos navegantes,

não deixando esfriar o enthusiasmo que animava todos: os que partiam e

os que em terra lhe dirigiam as ultimas saudações.

A epocha era d'aquellas aventuras que melhor iam a estes povos,

hespanhoes e portuguezes que por egual andavam empenhados nas

descobertas.

[3] _Vida e Viagens de Fernão de Magalhães_ por Diego de Barros

Arana.

Descobrimento das Filippinas pelo navegador portuguez Fernão de Magalhães · 第 19 / 41 题