Ora, dado que só muito lentamente e por via de provas espaçadas e

progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir á qualificação

de mestre, e só como simples obreiro podia ser admittido e iniciado,

dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar

que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico,

era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois

de utilisado em qualquer obra, parece-me não haver um excessivo arrojo

em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo

de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho á

maçonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha,

seria então da maçonaria e não d'elle o monumento de que se trata.

Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que

elle não encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe

submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas

imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais

caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram

em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das

herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos

intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as

lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo

intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra,

ameaçava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.

Sem exposição de plano referido ás obras que recentemente se tem feito,

e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discussão, quem, como

eu, não tem voto na materia para a resolver por sentença, precisaria de

entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes

demonstrações para pôr em evidencia todos os erros que em taes obras se

teem comettido. Para não tornar pelo emprego d'esse processo,

excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital,

sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na

restauração da Batalha.

Pela entrada principal da egreja, á semelhança do que succede em grande

parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete

se me não engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos

restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por

assistido de razões plausiveis para modificar o alludido systema,

rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu

os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe

serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por

esse modo tendo de altura a dimensão de duas larguras em vez de largura

e meia approximadamente, segundo a dimensão primitiva. O architecto

havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estações

superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta

approvação.

Será difficil encontrar em um tão breve episodio de construcção uma tão

vasta affirmativa de desoladora ignorancia.

Poderá parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se

arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio

da sua profissão. O erro é todavia no caso sujeito tão flagrante que não

supporta defesa. Um barbarismo architectonico está tanto ao alcance de

um escriptor como um barbarismo grammatical está ao alcance de um

architecto.

Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de

proporção e de relacionação que se chama a _escala_. Sem escala não ha

obra de architectura nem ha construcção alguma sensata, por mais

subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a

unidade abstracta d'essa medida é o modulo. Na architectura da edade

média a unidade é o homem. N'este simples principio, tão magistralmente

exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da

architectura medieval. D'essa referencia de toda a construcção á

pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade

que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa

Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja

de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras

da cantaria á altura das paredes e das pilastras, porque a escala

gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente

ás dimensões do material. Assim pela serie das juntas, sempre em

evidencia na sobreposição das cantarias, a vista calcula rapidamente,

por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha,

estabelecendo a proporção entre as dimensões da pedra e a estatura do

homem, e entre a altura do homem e a elevação da nave.

Do que fica exposto resulta que a simples substituição de uma pedra por

uma pedra de dimensão differente na base de uma hombreira no portal da

Batalha é, em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um

grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente

a dimensão exacta e precisa, que á esquadria da cantaria impõe a

dimensão do bloco, é um elemento fundamental da escala pela qual se rege

todo o edificio; e não pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.

Mas temos de considerar ainda que com essa mudança de pedra se offendeu

o preceito da unidade, alterando a fórma e a dimensão de um dos mais

importantes membros da construcção. O conjuncto de um monumento--diz

Quatremère de Quincy--é de tal modo combinado, que n'elle se não pode

nem tirar nem pôr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Dué

desenvolve esse preceito da maneira seguinte: «É um erro grosseiro

suppôr que um qualquer membro de architectura da edade média pode ser

impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura não ha

membro algum, que não esteja na escala do monumento para que foi

composto. Alterar esta escala é tornar esse membro disforme... Os erros

de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o

valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restauração.» As

dimensões das portas--já dizia Vinhola--devem ser de uma proporção

relativa á escala pela qual se construir o edificio, á grandeza das suas

differentes peças e finalmente ás particularidades da obra e do local em

que esta fôr feita. Com relação ás portas nas ordens jonica, dorica,

corinthia e toscana as proporções entre a altura e a largura dos

portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de

Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porém um papel mais

preponderante que em qualquer outro systema de construcção. «De hora

avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta

deixará de augmentar em proporção com o edificio, porque, sendo feita

para o homem, conservará sempre a escala propria do seu destino.»

A medida de extensão na edade média era a toeza, correspondente á

estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao

portador de uma lança de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz

ou de um pendão, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas

toezas e meia, segundo as regiões em que se construia. O portal gothico

tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a

condição de representar na fachada do templo como que um summario de

toda a obra. É do principio da arcada, de que a porta é o motivo

predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as

demais fórmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio.

Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas,

baldaquinos, trifolios, que são na egreja da Batalha senão applicações e

desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas

constitutivas da porta principal do templo?

Quão tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos

os serviços da arte para que possa dar-se um attentado da ordem

d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que

uma repartição publica auctorise, para que um ministro da corôa

sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que

se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade média, alterando

as fórmas de uma porta, que é a porta principal d'essa gloriosa egreja

de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alçaram

pela bitola dos estandartes, dos balsões e das bandeiras de Aljubarrota,

e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a

cimeira do morrião dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!

Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restaurações da

Batalha teria de referir-me ás vís deturpações por que está passando a

capella do fundador; ao detestavel altar mór, em cuja pedra tão

miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de

um mosaico, e a odiosa coloração das vidraças, em que o doce tom de

ambar, que os vidristas da edade média obtinham por uma emulsão de mel

na preparação da tinta, se vê substituido pelo de um reles amarello cru,

de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo

de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma

capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu

horrorisado espanto perante esse tão insolente e tão irrespeitoso abuso

do pseudo-gothico, em proporção e em escala unicamente permittidas, por

longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados,

na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.

O meu fim porém não é fazer a critica das restaurações da Batalha, mas

sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos

caracteristicos e capitaes, que nas restaurações emprehendidas tanto

n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados

a expensas do estado, não houve antecedencia de programma, nem estudo

previo, nem determinação de methodo, nem sancção critica, nem

fiscalisação technica, nem policia artistica de especie alguma.

Pelo numero e pelo quilate das mutilações, deturpações e superfetações,

inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que são objecto os

monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a

Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se

passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares

estão no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.

Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome á villa. Esta ponte,

em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada

por dois castellos ogivaes. A vereação, com o motivo de desafogar a

vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar

as ameias da alludida ponte.

Outra vereação, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa

Maria de Marvilla, fundação dos primeiros tempos da monarchia, para o

fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa

razão uma praça. A Real Associação dos architectos civis propõe-se a

esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A

junta de parochia prefere derretel-os.

No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo

rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um

documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de

côrte na edade média, certos festeiros em noite de gala, derribam a

columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias

e de pyrotechnica.

Na alcaçova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se

por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.

A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das

_Viagens na minha terra_, é arrasada, juntamente com a capellinha de

Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No orçamento d'essa

demolição, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem,

tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais

tempo se não podia protrahir_, fôra vantajosamente arrematada pela

quantia de trinta e nove mil réis, calculando-se em mais de cem mil o

valôr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de

alegria orçamental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador

da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com

as espadas e as lanças gottejantes de sangue mouro, firmando por esse

acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.

A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por

disposição do respectivo municipio.

A destruição das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes,

com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido

a grande preocupação vesanica das municipalidades modernas,

absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradições locaes

de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.

Dentro d'essa cathegoria de delinquentes será difficil disputar o

primeiro logar da serie pathologica á cidade do Porto.

O Arco da Vendoma, á rua Chan, que havia sido uma das portas da

circumvalação sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em

ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de França pelo bispo D.

Nonego, é desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito

seculos de existencia.

Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do

Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razões algumas que expliquem

mais esta demolição que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol

ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_,

onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de

tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam

espontaneamente cedido á armada de D. João I para a expedição de Ceuta.

Á Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol só resta o nome, foi

acclamado D. João I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por

ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasião das suas bodas com

o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.

O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo á linda narrativa

portuense de Almeida Garrett, é sacrificado como os demais ao alvião

municipal da cidade invicta.

O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido,

foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e

os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua

rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festões de flores pendentes

das velhas janellas de resalto, á flamenga, sob punhados de trigo,

reluzente no ar em chuva de ouro.

Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se está

mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a

Torre das Cabaças.

Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as

medidas do côche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de

percorrer, e desfizeram-se diligentemente a picão, nas ruas da villa,

todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de

entalação para o trajecto da real berlinda.

No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos

angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio

transito. Entre a Torre do Alporão e a Torre das Cabaças o passo porém

apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio

côche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira

mandára previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fóra,

presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra

infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo

da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os

dois monumentos. Então, depois de haverem marrado por um momento no

problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a

difficuldade, redobando a fita da medição inutilmente esticada, mettendo

os solicitos e suados covados debaixo dos braços, e mandando

simplesmente arrasar a Torre do Alporão, monumento do dominio romano, do

alto do qual, durante a occupação serracena, o arabe dictava ao povo a

lei de Mahomet.

A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do

Alporão. Com quanto Garrett a faça invocar anachronicamente no _Alfageme

de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invasão castelhana, como um

dos traços mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa

torre data apenas do tempo de D. Manoel. Não tem caracter propriamente

architectural, é uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o seu

estranho remate, em grande elevação, formado pelo sino a descoberto,

sustido na convergencia superior de quatro varões de ferro, estribados

obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de

barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no

tanger das horas e dos signaes de rebate, dá-lhe uma feição

verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. Não será talvez o

mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é de certo o mais

suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o

mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa tão formosa campina

ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo

envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de

_relogio das cabaças_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no

ouvido á lembrança das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e

dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte

integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de

improvisação e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que

parece armada em quatro pampilhos, é uma verdadeira obra d'arte, que

lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos

architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradição pastoral da

região em que surgiu.

Os conspicuos burguezes do senado de Santarem não podem ter opinião

sobre esta questão de esthetica, porque elles carecem absolutamente do

ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaças, a

qual evidentemente se não construiu para que suas excellencias a

alveitassem doutoralmente de dentro dos paços do concelho, ou cá fora na

praça, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas,

abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente

cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaças fez-se

para ser olhada do vasto campo da Gollegã ou do campo de Almeirim, vindo

do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos

olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de

jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de

cabeçada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O

Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaças de

barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para

o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os

vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que

não vejo em arte razão alguma plausivel para que, como motivo ornamental

de uma torre, á folha do acantho ou ao chavelho em voluta da

architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho

de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.

Não! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella está a sua tão

caracteristica torre, para que se não diga que dos tres potes, que de

antiga tradição consta acharem-se soterrados na Alcaçova, um cheio de

ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade

não encontrou senão o ultimo para o despejar sobre os monumentos

publicos sujeitos á sua jurisdição e confiados á sua guarda.

Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a

Torre do Alporão, para passar uma rainha, é uma desdita em extremo

lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a

Torre das Cabaças, para que passem os proprios vereadores, é um desando

grande da publica administração para muito peior do que estavamos no

tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.

A torre da Sé Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado

perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os

poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo

o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nação.

Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os

documentos ineditos das relações do marquez de Pombal com D. Francisco

de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve

historia da demolição da torre da Sé Velha. Em carta de 3 de setembro de

1773, D. Francisco de Lemos dá conta ao marquez de que demoliu a torre:

«...A dita torre era um montão de pedra e cal sem arte e figura, que

servisse de ornato á cidade, e antes estava tirando a vista do Paço das

Escolas, e de muitas casas. E principalmente é muito nociva á Imprensa,

porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a

fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente á vista de todas

estas razões que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas

as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo

o que foi preciso fazer.» Em sigla marginal a esta carta opina o marquez

de Pombal: «Que está muito bem feita a providencia sobre a torre da Sé

antiga.» E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez,

em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo

de D. Francisco de Lemos: «Tambem me pareceu bem ajustada a providencia

e resolução que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da Sé antiga

que não servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, só

proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase

contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.»

Do mosteiro de Alcobaça desapparece todo um claustro do tempo de D.

Affonso Henriques.

Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimensões da rosacea no

frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em

risco todo o equilibrio da empena. Além d'isso, para o fim de aproveitar

a pedra para outras applicações, desampara-se a abobada, deitando abaixo

a ala do convento que lhe servia de encontro.

No castello de Palmella e em S. Salvador de Paço de Sousa acham-se

violados e deshonrados pelo mais completo despreso, além das campas dos

cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de

Egas Moniz, que em Paço de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade

para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que

continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia

de um bebedouro publico.

A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundação de

D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos

capiteis e os floridos arcos da sua restauração manoelina, converte-se

em uma das cavallariças do regimento aquartelado no convento.

Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a

egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada

liturgicamente. Parece que não houve tempo para satisfazer essa tão

breve formalidade de respeito.

As sarças, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo

precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de

ser a esculptura removida para S. João do Alporão pela benemerita

commissão administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam

miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez

destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal á

memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de

Alcacer-Ceguer se deixou morrer ás lançadas para salvar a vida do seu

rei.

O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associação

dos architectos trazido para o museu do Carmo.

Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica

reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se

ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D.

Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de

Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasião em que se lhe

destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo

para bebedouro especial dos cavallos com mormo.

As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o

principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe já de

quem eram, por que, para não escorregarem os cavallos do regimento,

desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se

continham.

O culto da arte em Portugal · 第 2 / 7 段