_De como foi a morte d'El-Rei D. Affonso_
E depois da profissão da Excellente Senhora; porque El-Rei D. Affonso em
Coimbra foi em ponto de morte como disse, nunca mais foi alegre, e
sempre andou retraido, maginativo e pensoso, mais como homem que
avorrecia as cousas do mundo, que como Rei que as estimava. Pelo qual no
seguinte verão elle foi a Beja vêr o Principe seu filho e a Princesa D.
Leanor sua mulher, e alli tiveram o pae e o filho entre si praticas
secretas, em que El-Rei determinou querer no fim d'este anno se vivera
fazer côrtes geraes em Estremoz; porque em Lisboa e Evora morriam, e
leixar a inteira governança dos reinos ao Principe seu filho, e elle em
habitos honestos de leigo e não com obrigação de religião se retraer no
mosteiro de Varatojo junto com Torres Vedras, que elle de novo fundou
para alli servir a Deos e em sua vida temperar e remediar os odios e
dissenções que já entendia que por sua morte entre o Principe seu filho
e os da casa de Bragança se não podiam escusar, e cousa justa fôra
permitir então a bondade e misericordia de Deos este bem, porque tanto
mal depois se não seguia, e porém o Principe ficou em Beja para d'alli
continuadamente mandar visitar e prover o Infante D. Affonso seu filho,
e a Infante D. Isabel que eram na terçaria em Moura, como sempre fez.
E El-Rei D. Affonso na entrada d'Agosto se foi a Cintra, onde adoeceu de
febre muito aguda, de que o Principe sendo avisado, a gram pressa foi
logo com elle, que achou já em desposição mortal e sem esperança de
vida. Na qual El-Rei tendo feito seu testamento, e recebendo todolos
sacramentos alli acabou como bom e catholico christão, dando sua alma a
Deos a vinte e oito dias d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor
Jesu Christo de mil e quatrocentos e oitenta e um. E na propria casa em
que nasceo, ali morreu e acabou. Foi seu corpo logo metido em um ataude,
e posto sobre uma azemola que com cruzes, tochas, e clerigos foi pelo
conde de Monsanto, que hi era, e por outros fidalgos levado ao mosteiro
da Batalha, e enterrado na casa do cabido, onde jaz até haver sua
solemne merecida sepultura.