_De como El-Rei D. Affonso embarcou em França e se veio a Portugal,
e se vio com o Principe seu filho_
E para embarcar, por algum pejo que teve dos que o conheciam, não tornou
a Aynafrol, mas por outro caminho em que por seu desporto todos os
principaes juntamente comiam e folgavam, vieram a uma angra do mar que
dizem a Oga, onde para a pessoa d'El-Rei estava já prestes uma carraca
que mandara fretar a Antona, e alli vieram logo de Aynafrol as outras
naus de França, para todos embarcarem como embarcaram, e fizeram logo
vella, e em poucos dias foram ancorar através d'Antona á ilha d'Oyque,
onde El-Rei houve rebate de novas de oitenta urcas d'allemães que vinham
contra franceses. E porém por ventos contrairos não poderam as urcas
entrar, e a El-Rei conveio sair da ilha não pela banda do Norte por onde
entraram, mas pelas agulhas que dizem logar mui perigoso.
E d'alli no mez d'Outubro fez vella, e com um pouco de temporal que
sobreveio uns navios em que vinham cavallos não poderam aguardar a
conserva, e vieram-se diante a Portugal, por que o Principe da vinda
d'El-Rei seu padre foi logo avisado, sendo havia muito pouco alevantado
já por Rei, como atrás disse.
Arribou El-Rei em Cascaes, onde logo foi certificado que o Principe seu
filho era já obedecido e intitulado por Rei, e foi surgir a Oeiras, e ao
outro dia sahio em terra, e no mesmo dia veio hi logo o Principe seu
filho, que em o vendo com lagrimas de tanto prazer e alegria, como foram
de paixão e tristeza as de Santarem, quando em sua vida e por sua
obediencia se alevantou por Rei. E com muita reverença com os giolhos em
terra lhe beijou as mãos, ás quaes com palavras de Principe tão
excellente, e filho tão bom e tão obediente como elle era, logo
renunciou e depôs o titulo de Rei, de que por cumprir seu mandado e por
haver sua benção mais que por cobiça de reinar se intitulara.
Com este despejo e bondade do Principe ficou El-Rei e todolos de sua
companhia muito descarregados e alegres, e El-Rei logo com razões e
causas muito de louvor quizera obrigar o Principe para não desistir do
nome de Rei e do hereditario cetro que já tinha, mas elle com outras de
não menos honestidade que merecimento, sempre se escusou, e como quer
que depois El-Rei lhe movesse e rogasse que todavia se chamasse e fosse
Rei de Portugal, e que elle se contentaria ser Rei dos Algarves com a
parte d'Africa, onde na guerra dos mouros folgaria servir a Deos e
n'ella acabar, o Principe pelo amor e grande acatamento que lhe tinha
nunca o quiz aceitar, e sempre o contrariou, de maneira que El-Rei D.
Affonso não leixou o nome inteiro de seus reinos, nem o Principe em sua
vida acrecentou o seu.
E d'alli d'Oeiras se veio El-Rei a Lisboa, e para o vêr vieram logo a
Princesa D. Lianor, e o duque e duquesa de Bragança, e assi todolos
senhores do reino, onde estiveram depois de Janeiro de mil e
quatrocentos e setenta e sete. E de Lisboa se foi El Rei a
Montemor-o-Novo, onde esteve o verão, e no fim d'elle se foi a Evora
durando ainda a guerra de Castella, que se continuava e fazia com muitas
entradas e grandes cavalgadas.
E n'este tempo depois da vinda d'El-Rei D. Affonso de França elle enviou
seus recados e messegeiros a Castella, para outra vez tornar entrar
n'ella, e casar publica e perfeitamente com a Rainha D. Joana, para que
já tinha boa disposição, com que muitos grandes de Castella se tornavam
a offerecer. Mas o Principe por causas justas que o a isso moveram,
amoestado e castigado dos enganos e pouca firmeza que n'elles se achou
da primeira entrada, o estorvou da segunda, e assi do casamento que
nunca consentio que por isso se fizesse.