CAPITULO CCIII

_De como El-Rei D. Affonso embarcou em França e se veio a Portugal,

e se vio com o Principe seu filho_

E para embarcar, por algum pejo que teve dos que o conheciam, não tornou

a Aynafrol, mas por outro caminho em que por seu desporto todos os

principaes juntamente comiam e folgavam, vieram a uma angra do mar que

dizem a Oga, onde para a pessoa d'El-Rei estava já prestes uma carraca

que mandara fretar a Antona, e alli vieram logo de Aynafrol as outras

naus de França, para todos embarcarem como embarcaram, e fizeram logo

vella, e em poucos dias foram ancorar através d'Antona á ilha d'Oyque,

onde El-Rei houve rebate de novas de oitenta urcas d'allemães que vinham

contra franceses. E porém por ventos contrairos não poderam as urcas

entrar, e a El-Rei conveio sair da ilha não pela banda do Norte por onde

entraram, mas pelas agulhas que dizem logar mui perigoso.

E d'alli no mez d'Outubro fez vella, e com um pouco de temporal que

sobreveio uns navios em que vinham cavallos não poderam aguardar a

conserva, e vieram-se diante a Portugal, por que o Principe da vinda

d'El-Rei seu padre foi logo avisado, sendo havia muito pouco alevantado

já por Rei, como atrás disse.

Arribou El-Rei em Cascaes, onde logo foi certificado que o Principe seu

filho era já obedecido e intitulado por Rei, e foi surgir a Oeiras, e ao

outro dia sahio em terra, e no mesmo dia veio hi logo o Principe seu

filho, que em o vendo com lagrimas de tanto prazer e alegria, como foram

de paixão e tristeza as de Santarem, quando em sua vida e por sua

obediencia se alevantou por Rei. E com muita reverença com os giolhos em

terra lhe beijou as mãos, ás quaes com palavras de Principe tão

excellente, e filho tão bom e tão obediente como elle era, logo

renunciou e depôs o titulo de Rei, de que por cumprir seu mandado e por

haver sua benção mais que por cobiça de reinar se intitulara.

Com este despejo e bondade do Principe ficou El-Rei e todolos de sua

companhia muito descarregados e alegres, e El-Rei logo com razões e

causas muito de louvor quizera obrigar o Principe para não desistir do

nome de Rei e do hereditario cetro que já tinha, mas elle com outras de

não menos honestidade que merecimento, sempre se escusou, e como quer

que depois El-Rei lhe movesse e rogasse que todavia se chamasse e fosse

Rei de Portugal, e que elle se contentaria ser Rei dos Algarves com a

parte d'Africa, onde na guerra dos mouros folgaria servir a Deos e

n'ella acabar, o Principe pelo amor e grande acatamento que lhe tinha

nunca o quiz aceitar, e sempre o contrariou, de maneira que El-Rei D.

Affonso não leixou o nome inteiro de seus reinos, nem o Principe em sua

vida acrecentou o seu.

E d'alli d'Oeiras se veio El-Rei a Lisboa, e para o vêr vieram logo a

Princesa D. Lianor, e o duque e duquesa de Bragança, e assi todolos

senhores do reino, onde estiveram depois de Janeiro de mil e

quatrocentos e setenta e sete. E de Lisboa se foi El Rei a

Montemor-o-Novo, onde esteve o verão, e no fim d'elle se foi a Evora

durando ainda a guerra de Castella, que se continuava e fazia com muitas

entradas e grandes cavalgadas.

E n'este tempo depois da vinda d'El-Rei D. Affonso de França elle enviou

seus recados e messegeiros a Castella, para outra vez tornar entrar

n'ella, e casar publica e perfeitamente com a Rainha D. Joana, para que

já tinha boa disposição, com que muitos grandes de Castella se tornavam

a offerecer. Mas o Principe por causas justas que o a isso moveram,

amoestado e castigado dos enganos e pouca firmeza que n'elles se achou

da primeira entrada, o estorvou da segunda, e assi do casamento que

nunca consentio que por isso se fizesse.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 77 / 127 题