CAPITULO CLXXXV

_De como foi a dita traição, e da maneira que El-Rei D. Affonso

sobre isto teve_

A dita ponte tem duas torres, uma na entrada da cidade, de que era

alcaide um Pedro de Mazaregos, e outra da outra parte, que tinha um

chamado Valdes, seu cunhado, dos quaes El-Rei fôra já avisado que se

segurasse, porque contra seu serviço tratavam com El-Rei D. Fernando. O

que El-Rei crendo que eram suspeitas falsas que d'elles lhe davam, não o

quiz remedear.

E no dia em que El-Rei havia de Çamora mandar a gente pelo Principe, foi

certificado pelo doutor Pareja, corregador da cidade, já de noite, como

gente grossa d'El-Rei D. Fernando sobre concerto da ponte era partida de

Vilhalpando contra Çamora. E o trato era sabendo da vinda do Principe,

que o leixassem com toda a gente meter e entrar na ponte, e que se

levantassem contra elles, e cerrassem ambas as torres, e os matassem ou

prendessem, e pela duvida que El-Rei D. Affonso contra os da ponte tinha

já concebida, conveio sem mais esperar poer-se logo a cavallo. E sendo

com elle o Arcebispo de Toledo e outros alguns, chegaram á ponte da

parte da cidade, e mandou a Pedro de Mazaregos que logo abrissem a torre

e lhe viesse fallar, o qual se escusou d'isso com taes palavras e

mostranças, por que El-Rei e os que com elle iam, claramente conheceram

ser traição. E como cousa já danada, logo assi de noite como iam sem

mais outro acordado proposito, tentaram de por força tomar a ponte, mas

pela forte resistencia e defesa que dentro houve, não poderam.

El-Rei e todolos outros mui tristes se volveram á cidade, que com

repique do sino grande, e com dobradas vozes de «traição, traição», foi

logo metida em temeroso alvoroço d'armas, e certamente consiradas bem as

circumstancias de muitas cousas que n'aquella noite concorreram, ella

geralmente a todos e em cada parte foi de grande temor e espanto; porque

a todos era notorio haver traição, e mui poucos sabiam em que pessoas e

de que maneira seria. E com este medo tão claro e segurança tão escura,

assi trabalhavam de se salvar os castelhanos dos portuguezes, como os

portuguezes dos castelhanos, sem haver de uns para os outros nenhuma

certa fiança, até que foi manhã, que a todos fez certos da clara

verdade.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 59 / 127 题