_De como El-Rei chegou a Prazença, onde publicamente foi jurado por
Rei, e esposado com a Rainha D. Joana, e d'outras cousas_
E n'esta ordenança sem algum recontro nem rebate contrairo chegou El-Rei
á cidade de Prazença, onde o já esperava a Rainha D. Joana. E com ella o
duque e duqueza d'Arevallo, que eram senhores da dita cidade, e com
elles o marquez de Vilhena e o conde d'Oronha, e outros muitos senhores,
e pousou El-Rei com a Rainha dentro na fortaleza, onde por alguns dias
houve grandes festas e prazeres, nos quaes se consultou a maneira do
recebimento d'El-Rei com a Rainha, e seu alevantamento por Rei, o que se
fez em um alto e mui rico cadafalso posto na praça da cidade, em que
El-Rei e a Rainha ambos juntamente estiveram.
E alli depois de feita publicamente a solemnidade dos esposoiros, como
em tal caso cumpria, logo com cerimonias de trombetas e reis d'armas em
altas vozes foram pelos senhores que eram presentes, e com outros muitos
com suas procurações, alevantados e jurados por Reis de Castella, e por
taes lhes beijaram as mãos, e se tomaram d'isso publicos estromentos. E
d'alli em diante se intitulou El-Rei D. Affonso, Rei de Castella e de
Lião e de Portugal, etc., e chamou á Rainha esposa, com a qual então nem
depois nunca consumou o matrimonio, por defeito de despensação que não
tinha nem nunca houve. E por galardão do trabalho que Lopo d'Albuquerque
tomara no concerto d'esta entrada e casamento, El-Rei o fez alli conde
de Penamacôr.
E de Prazença fez El-Rei tornar D. João Galvão, Bispo de Coimbra, com
sua gente por fronteiro da comarca da Beira, e Pero d'Albuquerque por
capitão do Sabugal e Alfaiates.