_De como El-Rei foi certificado que os mouros de Tangere tinham
leixado a cidade, e do que sobr'isso logo proveu, e de como se foi
a ella, e de hi para o reino_
El-rei em provendo as cousas da villa que cumpriam, com fundamento de se
volver para o reino, foi por dois mouros a gram pressa certificado que
os moradores da cidade de Tangere esquecidos da grande fortaleza d'ella
e de si mesmos, principalmente temendo que a mortindade e estrago de
Arzilla, de que por uma velha segundo se disse, foram avisados, não
viesse tambem sobre elles, a tinham desamparada de todo. A qual leixaram
vazia de suas pessoas e fazendas, e cheia de muito fogo, que as casas e
reliquias d'ella sem proveito dos christãos se destruissem e queimassem.
E após a primeira nova d'esta tamanha e não crida gloria, vieram logo
outros que sem duvida o confirmaram, pelo qual El-Rei com muita gente de
pé, e com os de cavallo que foi possivel, enviou logo á dita cidade D.
João, filho do duque, que depois foi marquez de Montemór, aos XXVIII
dias d'Agosto, dia de Santo Agostinho, que segundo se affirma foi já
bispo d'ella. E ao outro dia o dito D. João sem alguma contradição
entrou na cidade, em que achou certas bombardas grossas, e muita outra
artilharia e polvora, a que os mouros por desacordo e cegueira, ou por
causa de mais seu damno não poseram o fogo, e o punham andando ás palhas
e cousas pequenas das casas. Da qual cousa logo avisou El-Rei, que
alegre de tão bem aventurado sobcedimento, sem muito trespasso com o
Principe, e com a nobre gente de sua côrte, logo se foi á dita cidade,
em que entrou já sem o ardente desejo de sua destruição e vingança, em
que sempre vivia.
Foi-se logo á Mesquita que já era feita egreja, onde deu muitas graças e
louvores a Deos, e envestio de Bispo da cidade o prior de S. Vicente de
Fóra de Lisboa, que sendo da regra e Ordem de Santo Agostinho, por
promoção e auctoridade apostolica era já d'antes intitulado Bispo
d'ella, na qual esteve El-Rei XVII dias não se fartando de a vêr, dentro
dos quaes proveo as cousas que para boa governança d'ella cumpriam. E
fez e leixou por capitão e governador d'ella a Ruy de Mello seu Guarda
Mór, que depois foi conde d'Olivença, pessoa no reino tão principal que
o tal carrego, e outro de mais honra e mór perigo e peso, por muitas
causas e razões mui bem merecia.
E assi ennovou e accrescentou El-Rei o titulo que tinha, e se intitulou
nova e primeiramente por esta maneira: D. Affonso por graça de Deus Rei
de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa. E depois de
fazer muitas terras chãs dos mouros suas subjeitas e tributarias, e
notificar ao Papa e a todolos Reis e Principes christãos esta sua
excellente victoria, partiu-se com o Principe para Portugal aos XVII
dias do mez de Setembro, e logo ao outro dia seguinte foi no porto da
cidade de Silves. De maneira que El-Rei em XXXIII dias contados do dia
que partiu de Lisboa até este, começou e acabou prosperamente estes
tamanhos feitos, de que Deus foi muito servido, e seu estado e nome por
todo o mundo mui accrescentado e louvado.
E os christãos d'Andaluzia não receberam por isso menos prazer que
segurança, de que com festas para o mundo, e devotas procissões para
Deos deram claros signaes.
E de Silves se foi logo El-Rei e o Principe por mar á cidade de Lisboa,
onde foram com grande triunfo, e muitas festas e alegrias recebidos, o
que todo tambem por todo o reino com a notificação e certeza da victoria
por muitos dias se continuou.