_De como a villa foi entrada, e o Principe foi armado cavalleiro, e
morreram o conde de Marialva, e o conde de Monsanto e outros_
E aos XXIV dias do dito mez, que era dia de S. Bertolameu, pela manhã,
D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, a que a estancia e guarda do
castello era encomendada, enviou dizer a El-Rei que estava em sua tenda,
que o Alcaide da dita villa lhe queria ir falar sobre concerto, que era
tal que o devia aceitar. E ante de El-Rei dar final resposta, tendo
vontade de se concordar como aos mouros já escreveram e mandaram
requerer, vieram logo vozes emtoados por todos que a villa se entrava. O
que a vista propria d'El-Rei que a isso com muita trigança sahiu, fez
mui certo e verdadeiro; porque como o rumor correu que a villa era
entrada assi concorreu logo a gente do arraial aos muros, a que com
muitas escadas e engenhos que para isso eram ordenados, sem alguma certa
ordem de combate, logo com muita ardideza subiram e entraram á dita
villa por todalas partes.
E os mouros vendo-se entrados e perseguidos dos christãos, pelejando
bravamente uns se recolheram á misquita, e outros, os mais honrados ao
castello. E com os da misquita ante de ser vencida, houve de uma parte e
da outra mui crua e sangoenta peleja. Em que dos christãos entre outros
morreu principal e como ardido e valente cavalleiro, D. João Coutinho,
conde de Marialva, que com seu braço acompanhou primeiro seu corpo
d'outros corpos vazios d'almas imigas, e não sem grande tristeza que
El-Rei e o Principe e toda a côrte por sua morte tomaram, e não sem
causa; porque era mancebo, e senhor de grande e honrada casa, e em que
se vivera pareciam já virtuosos sinaes d'haver n'elle para o reino um
singular homem para armas e conselho.
E acabada a peleja da misquita, logo a gente recorreu ao castello, que
de todalas partes era mui forte e defensavel, cujo combate por esforço
d'El-Rei e do Principe, que eram presentes, foi com tanta força e
ardideza cometido, que logo antes de algumas escadas serem postas, os
christãos por lanças e páos com muita desenvoltura sobiam ás torres e
muros, de que os debaixo com uma louvada inveja de tanta honra,
esquecidos de todo perigo cometiam seus corpos com armas pesadas a mui
fracas toucas de linho, porque os allavam e subiam acima, onde nos muros
e torres que dos christãos se entravam, e depois no patim do castello
houve tão mortal peleja, como parecia claro nos muitos mortos e feridos
que em todas partes jaziam.
Alli no castello álém d'outros nobres christãos que com ferro morreram,
foi morto D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, camareiro-mór
d'El-Rei, que sua morte muito sentio; porque certo elle no campo e na
côrte, na paz e na guerra era por seu siso, discrissão e esforço, homem
mui principal. E em fim assi foram os mouros da villa e do castello
cometidos, que todos ficaram mortos e captivos sem alguma excepção, cujo
numero segundo comum orçamento seriam dos mortos até dois mil, e dos
captivos até cinco mil. E foi achado e tomado na villa mui grande e rico
despojo, que foi estimado a oitenta mil dobras d'ouro. Do qual todo
El-Rei fez aos tomadores escala franca, sem reservar para si quinto, nem
outro direito algum.
Acharam-se dentro cincoenta captivos christãos, a que a santa victoria
deu livre redenção. E El-Rei e o Principe, assi no entrar da villa, como
no soccorrer e prover das muitas pelejas e afronta dos combates, não
sómente por seu conselho e exforço usaram de oficios, que pareciam e
eram de aprovados capitães; mas ainda por seus braços cometeram e
acabaram feitos como ardidos e valentes cavalleiros, sem algum resguardo
nem tento do que a suas pessoas e dinidades reaes se deviam, e
certamente era grande gloria vêr aquelle dia na mão do Principe em idade
de XVI annos sua espada de bravos golpes torcida, e de sangue de infieis
em todo banhada, em cuja vista a mór parte da alegria era d'El-Rei seu
padre, que n'aquella victoria e perigo o tomou por parceiro, vendo que
em ajuda tão necessaria, e perigo tão conhecido não podera no mundo
escolher melhor companheiro do que gerara por filho.
E porém como El-Rei sentiu que o feito com desejado vencimento era de
todo acabado, foi logo á misquita dos mouros, onde sobre o corpo do
conde de Marialva achou já uma cruz, a qual por começo do serviço e
sacrificio, que a Deus n'ella ao diante se havia de fazer, logo beijou e
adorou, e depois de fazer oração, logo junto com o corpo morto do dito
conde, armou per si o Principe seu filho por cavaleiro, com palavras de
grandes louvores, e muitas bondades e merecimentos do mesmo conde. E
sendo ambos d'armas victoriosas vestidos, El-Rei no cabo de auto tão
devoto e tão glorioso, disse ao Principe, e não sem algumas lagrimas:
--«Filho, Deus vos faça tão bom cavaleiro como este que aqui jaz.»
E porque o conde D. João não tinha filhos, e por sua tão honrada casa,
por fallecimento de legitima sobcessão não ficar distinta ou minguada,
El-Rei em galardão de sua morte, e por sua vida e memoria para sempre
viva, fez conde de Marialva D. Francisco Coutinho seu irmão, que este
titulo e mercê aos Reis de Portugal e seus reinos sempre bem servio e
mereceo. E assi fez conde de Monsanto a D. João de Castro, filho do dito
conde D. Alvaro. E edificou a dita misquita em casa de oração da
avocação de Nossa Senhora, Santa Maria da Asumção; porque n'aquelle dia
partio de Lisboa para tomar a villa, e em tal dia partio El-Rei D. João
seu avô, quando tomou a cidade de Ceuta, e em tal venceu a batalha real,
e em tal dia falleceu, e em tal dia nasceu.