_De como El-Rei em pessoa correu o campo d'Arzilla_
Tornou-se El-Rei a Ceuta, onde foi aconselhado que por quanto a boa
fortuna n'esta jornada d'Africa então lhe não terçava á sua vontade,
consirada isso mesmo a perda da gente com outros inconvenientes assaz
efficazes, que sem mais fazer nem commetter outra cousa se devia de
tornar ao reino, e dar a seus vassallos algum pão de paz e descanso. E
porém El-Rei sem embargo de todo determinou correr primeiro o campo
d'Arzila, e vê-la, com desejo de a tomar, o que logo pôs em obra; porque
partiu logo para Alcacere, e de hi com o Infante passou a serra pelo
porto d'Alfeixe, e em amanhecendo deram em umas aldeias, que com o aviso
e mêdo da ida d'El-Rei eram já despovoradas, e porém correram legoa e
meia por outras partes, e n'aquellas principalmente que o Infante D.
Fernando barrejou mataram alguns mouros e captivaram muitos, e
arrancaram muito gado e outro despojo, com que já de noite passaram o
rio de Tagadarte, e junto com elle da banda d'Alcacere se alojaram
aquella noite. Na qual sobrevieram tantas chuvas, e tão aspera
tempestade com que a ribeira encheu de maneira, que se a não tiveram
passada e ficando alem d'ella, se dispunham a mui certo perigo; porque a
infinda gente dos mouros que logo cresceu deu d'isso ao diante claro
testemunho.
E por esta causa não pôde El-Rei vêr Arzilla, de que recebeu então gram
desprazer, e muito mais depois que soube que os mouros da villa indo
elle sobre ella tinham determinado dar-lh'a, e virem ao caminho
entregar-lhe as chaves, e tornou-se a Ceuta onde os cavallos e a gente
por mau trato, e por aspereza dos tempos lhe falleciam. E por isso logo
começou de declarar sua vinda e despedir a gente; e porém El-Rei não era
satifeito; porque em todo o tempo d'esta passagem se não vira em alguma
travada peleja de mouros, como elle desejava.