_De como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a
terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado sobcedimento
que houve_
Partiu-se El-Rei para Ceuta, com fundamento de se vêr com El-Rei de
Castella, que era já em Gibaltar, e o Infante ficou em Alcacere, onde
pelo conde D. Sancho foi incitado para com tudo não desistir do mesmo
escallamento que havia de todo por acabado, e que então a empresa d'elle
lhe vinha melhor e com mais sua honra, pois El-Rei ia já d'elle de todo
desconfiado, e que tivesse maneira que o conde D. Duarte não fosse com
elle; porque além de não ser necessario, segundo elle sabia entoar suas
cousas, cresse que todo o merecimento do feito quanto se bem fizesse
havia de atribuir a si mesmo.
E a tenção de tal conselho bem parece que de inveja, ou d'alguma outra
paixão ia propriamente guiada e mais que da verdade, segundo a qual o
conde D. Duarte fôra para conselho e ajuda de tal feito mui necessario;
porque pelo acabamento de seus grandes feitos era havido e confirmado
por mui singular capitão.
Com este proposito o Infante se foi a Ceuta e para o escallamento, se se
podesse fazer, pediu licença a El-Rei, que lh'a deu, dizendo-lhe que
segundo a fortuna n'este caso se mostrara a elle tão contraira o havia
de todo por perdido, e porém o leixava nas mãos de Deus e nas suas, e
visse se por alguma maneira podia tomar o lugar; porque posto que lhe
prouvesse muito acertar-se no feito; porém muito mais lhe pesaria
perder-se, se sem elle se podesse cobrar, e com isto se tornou o Infante
a Alcacere, sem o querer revelar em Ceuta, receando não se poder escusar
do conde D. Duarte e d'outros senhores, que o haviam para isso de
requerer. E depois de tornar e mandar firmar outras vezes a segurança do
escallamento, aos XIX dias de Janeiro de mil e quatrocentos e sessenta e
quatro partiu d'Alcacere, e mandou levar quatro escadas, de que deu
cargo áquellas pessoas em que entendeu que havia saber e esforço para
isso.
E na tristeza e pezo que todos levavam pelo caminho, logo para bem do
feito pareceu desaventurado pronostico, especialmente que sendo sobre o
cabeço, que dizem d'Almenar, pareceu no ceu á vista de todos um
espantoso cometa, que lançava de si muitos raios de fogo em figura de
dragão. Ali disse então Gomez Freire, nobre fidalgo e de grande coração:
«Oh! noite má, para quem t'aparelhas», que ficou em proverbio muito
tempo acostumado.
E assi chegaram os primeiros com grande luar junto com a cidade, onde
porque a lua de todo se pozesse, esperaram até tres horas ante manhã. E
logo Diogo de Bairros, e João Falcão como principaes movedores do feito,
pediram e requereram a alguns do conselho d'El-Rei e do Infante que hi
eram, que juntamente fossem com elles como testemunhas vêr como estava;
porque se por algum caso se perdesse ou desaviasse, elles ficassem por
verdadeiros e livres da culpa, e João de Sousa a que seu resguardo
pareceu bem acceitou sua companhia, antre os quaes foi dado aviso que as
escadas não se pozessem, salvo depois que a guarda dos mouros descesse
do castello para fundo.
E aqui é de saber que este lanço de muro porque o escallamento era
ordenado, cerra no castello da parte do sertão em que ha cinco cubellos,
em fim dos quaes seguindo para fundo está uma torre que se chamava de
Gillahare.
E porque do castello havia sahida para o muro por uma ponte levadiça,
acordaram os christãos, que por quanto os mouros do castello sentindo a
gente no muro poderiam sahir pela ponte e impedir e damnificar os que
subissem pelas escadas, que a gente assi como subisse no muro, assi se
mettesse logo entre a dita ponte e as escadas, e uns resistissem aos
mouros que do castello quizessem sahir, e outros corressem pelo muro a
fundo para tomarem outra torre que está sobre um postigo, que se chama
de Gurer, com que se cobravam duas cousas para o feito mui necessarias e
seguras. A primeira para a gente poder de fóra entrar mui livremente sem
perigo nem contradição dos mouros, e a segunda senhoreavam a escada do
muro para que a salvo podiam descer e entrar para a cidade.
E os dois principaes escalladores e guiadores, foram primeiramente no
muro, e assi os outros que após elles haviam de seguir. E acertou-se que
a rolda dos mouros havendo já d'elles algum sentimento estava lançada
entre as ameas d'aquella parte, para differençar bem se eram os barbaros
da serra, que ás vezes com suas cargas e bestas se lançavam ao pé do
muro, ou por ventura christãos, e tanto espaço tomou para de sua duvida
se certificar, que dos christãos houveram sessenta lugar para subir, que
por pontos d'honra em taes tempos e casos mui prejudiciaes, não quizeram
guardar o que entre elles fôra concordado. Pelo qual João Falcão vendo
começos de tanto desmando, disse a João de Sousa que tomasse ou matasse
um mouro guarda que tinha ante si. E João de Sousa como fidalgo acordado
e de bom coração remetteu a elle, o qual da sombra da morte que comsigo
viu, acabou ser desenganado de sua duvida e começou de se poer em
defesa, e em João de Sousa correndo a lança nas mãos para lhe dar, o
mouro em se retrahendo cahiu do muro contra a cidade dentro em um pomar,
d'onde começou logo dar grandes brados, senificando com elles o damno
dos christãos que se aparelhava, e os christãos como os ouviram sem mais
outra consiração, crendo que outra sua grita ao menos para desmaio dos
contrairos aproveitaria muito, logo a deram com altas vozes, e não sem
grande estrondo de trombetas que já eram em cima, a que os mouros
acordaram, e com muita trigança acudiram por saber a causa de tamanho
rumor, principalmente os que guardavam a torre do muro porque os
christãos haviam de passar. Os quaes assi como viram os nossos estar no
muro, assi se tornaram e pozeram á porta da torre, de que podiam bem
defender aos christãos a passagem do muro para o não poderem descer para
a cidade; porque com sós paos sem outras armas, aos que por elle
passassem, segundo era estreito podiam levemente lançar d'elle abaixo, e
assi o faziam, e os christãos não podendo já passar não leixavam por
isso de subir; porque o Infante era já ao pé do muro, que a uns por
amor, e a outros com temor constrangia para isso, e assi como subiam não
podendo al fazer assi se mettiam por esses cubellos, e outros descendo
para fundo não podendo passar ficavam amontoados, sem poderem aproveitar
a si nem danar aos contrairos.
A cidade era já toda posta em armas e grande alvoroço, e como o alcaide
que se chamava Abrahem Benaamet foi por si certificado que nas outras
partes da cidade não havia outro commetimento nem affronta que muito
receou, salvo n'aquella, mandou logo ali vir grande claridade de fogo, e
com besteiros e espingardeiros, que em grande numero mandou metter no
pomar que era defronte d'onde os christãos estavam, matavam e feriam
muitos, e muitos em se revolvendo cahiam do muro entre elles, que
claramente eram logo espedaçados, e com gente que se enadeu no castello,
que sahiu pela ponte levadiça, tomaram as escadas postas no muro, ainda
que não foi sem grande peleja que sobr'isso houve, e foi de maneira que
do castello e de todalas partes, os mouros sem algum seu perigo faziam
um piadoso estrago nos christãos, porque sendo as escallas tomadas não
tinham algum remedio de salvação. O que todo bem visto por João de
Sousa, disse ao Infante de cima do muro, que não mandasse subir mais
gente; porque o feito com a gente subida eram de todo perdidos, e o
Infante sobre esperança de tanta alegria, ouvindo recado tão certo e tão
triste, não menos anojado que esforçado arremetteu a uma escada de
troços que mandara armar, e quizera por ella subir dizendo que o que
fosse de tão bons criados e servidores como já dentro eram, seria d'elle
até com elles morrer. Mas era hi o conde d'Odemira, e o commendador mór
de Christus com outros, que com palavras prudentes e de bom esforço o
detiveram, dizendo-lhe que aquella gente por boa e nobre que fosse, em
caso que Portugal a perdesse, bem poderia cobrar outra tal e melhor; mas
não a elle que era tal e tamanho Principe, que o reino teria d'elle para
sempre muita mingua e grande necessidade, e que não desse causa que
Tangere fosse tantas vezes sepultura de Infantes de Portugal, e com
estas e outras razões de conforto a estas conformes a que o Infante
obedeceu, vendo já o feito sem algum remedio, se tornou para Alcacere.
E dos christãos entre mortos e captivos ficaram trezentos, todos os mais
homens escolhidos e especiaes, duzentos mortos e cento captivos, e dos
mortos foram principaes, D. Gonçalo Coutinho, conde de Marialva, e D.
Rodrigo seu filho bastardo, e Gomes Freire d'Andrade, e D. Jorge de
Crasto, filho de D. Alvaro, que depois foi conde de Monsanto, e D. João
de Eça, e João de Taide, e Pedro Coelho, e Rui Diaz Lobo, e Pero de
Sousa seu irmão, Fernão de Macedo, e Pedro de Macedo seu irmão, e Alvaro
de Sá, e Fernão Vaz Côrte Real, Rui Paes, e Pero Paes, filhos de Payo
Rodriguez, Contador Môr, e assi outros muitos e bons cavalleiros e
homens de nobre sangue e bom coração.
E dos captivos principaes, que aos cubellos se recolheram e preitejaram
com os mouros, foi D. Fernando Coutinho, marechal, Fernão Tellez, Ruy
Lopez Coutinho, João Falcão, e Diogo da Silva, que depois foi conde de
Portalegre, Garcia de Mello, D. Alvaro de Lima, filho do visconde D.
Lionel de Lima; e outros muitos até o dito numero, em cujos grandes
resgates além das mortes de tanta e tão nobre gente, o reino recebeu uma
durosa magua e grandissima perda, a qual testemunhou bem com os grandes
prantos e geraes lamentações que em todo elle por este caso se fizeram,
e na gloria da victoria que os mouros tinham, praticando e examinando se
entre os christãos mortos ou captivos seria hi o conde D. Duarte,
respondeu um velho e entre elles de grande auctoridade: «não busqueis hi
o conde D. Duarte; porque na grande desordenança dos christãos vi eu bem
que não andava hi».