CAPITULO CLIII

_De como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a

terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado sobcedimento

que houve_

Partiu-se El-Rei para Ceuta, com fundamento de se vêr com El-Rei de

Castella, que era já em Gibaltar, e o Infante ficou em Alcacere, onde

pelo conde D. Sancho foi incitado para com tudo não desistir do mesmo

escallamento que havia de todo por acabado, e que então a empresa d'elle

lhe vinha melhor e com mais sua honra, pois El-Rei ia já d'elle de todo

desconfiado, e que tivesse maneira que o conde D. Duarte não fosse com

elle; porque além de não ser necessario, segundo elle sabia entoar suas

cousas, cresse que todo o merecimento do feito quanto se bem fizesse

havia de atribuir a si mesmo.

E a tenção de tal conselho bem parece que de inveja, ou d'alguma outra

paixão ia propriamente guiada e mais que da verdade, segundo a qual o

conde D. Duarte fôra para conselho e ajuda de tal feito mui necessario;

porque pelo acabamento de seus grandes feitos era havido e confirmado

por mui singular capitão.

Com este proposito o Infante se foi a Ceuta e para o escallamento, se se

podesse fazer, pediu licença a El-Rei, que lh'a deu, dizendo-lhe que

segundo a fortuna n'este caso se mostrara a elle tão contraira o havia

de todo por perdido, e porém o leixava nas mãos de Deus e nas suas, e

visse se por alguma maneira podia tomar o lugar; porque posto que lhe

prouvesse muito acertar-se no feito; porém muito mais lhe pesaria

perder-se, se sem elle se podesse cobrar, e com isto se tornou o Infante

a Alcacere, sem o querer revelar em Ceuta, receando não se poder escusar

do conde D. Duarte e d'outros senhores, que o haviam para isso de

requerer. E depois de tornar e mandar firmar outras vezes a segurança do

escallamento, aos XIX dias de Janeiro de mil e quatrocentos e sessenta e

quatro partiu d'Alcacere, e mandou levar quatro escadas, de que deu

cargo áquellas pessoas em que entendeu que havia saber e esforço para

isso.

E na tristeza e pezo que todos levavam pelo caminho, logo para bem do

feito pareceu desaventurado pronostico, especialmente que sendo sobre o

cabeço, que dizem d'Almenar, pareceu no ceu á vista de todos um

espantoso cometa, que lançava de si muitos raios de fogo em figura de

dragão. Ali disse então Gomez Freire, nobre fidalgo e de grande coração:

«Oh! noite má, para quem t'aparelhas», que ficou em proverbio muito

tempo acostumado.

E assi chegaram os primeiros com grande luar junto com a cidade, onde

porque a lua de todo se pozesse, esperaram até tres horas ante manhã. E

logo Diogo de Bairros, e João Falcão como principaes movedores do feito,

pediram e requereram a alguns do conselho d'El-Rei e do Infante que hi

eram, que juntamente fossem com elles como testemunhas vêr como estava;

porque se por algum caso se perdesse ou desaviasse, elles ficassem por

verdadeiros e livres da culpa, e João de Sousa a que seu resguardo

pareceu bem acceitou sua companhia, antre os quaes foi dado aviso que as

escadas não se pozessem, salvo depois que a guarda dos mouros descesse

do castello para fundo.

E aqui é de saber que este lanço de muro porque o escallamento era

ordenado, cerra no castello da parte do sertão em que ha cinco cubellos,

em fim dos quaes seguindo para fundo está uma torre que se chamava de

Gillahare.

E porque do castello havia sahida para o muro por uma ponte levadiça,

acordaram os christãos, que por quanto os mouros do castello sentindo a

gente no muro poderiam sahir pela ponte e impedir e damnificar os que

subissem pelas escadas, que a gente assi como subisse no muro, assi se

mettesse logo entre a dita ponte e as escadas, e uns resistissem aos

mouros que do castello quizessem sahir, e outros corressem pelo muro a

fundo para tomarem outra torre que está sobre um postigo, que se chama

de Gurer, com que se cobravam duas cousas para o feito mui necessarias e

seguras. A primeira para a gente poder de fóra entrar mui livremente sem

perigo nem contradição dos mouros, e a segunda senhoreavam a escada do

muro para que a salvo podiam descer e entrar para a cidade.

E os dois principaes escalladores e guiadores, foram primeiramente no

muro, e assi os outros que após elles haviam de seguir. E acertou-se que

a rolda dos mouros havendo já d'elles algum sentimento estava lançada

entre as ameas d'aquella parte, para differençar bem se eram os barbaros

da serra, que ás vezes com suas cargas e bestas se lançavam ao pé do

muro, ou por ventura christãos, e tanto espaço tomou para de sua duvida

se certificar, que dos christãos houveram sessenta lugar para subir, que

por pontos d'honra em taes tempos e casos mui prejudiciaes, não quizeram

guardar o que entre elles fôra concordado. Pelo qual João Falcão vendo

começos de tanto desmando, disse a João de Sousa que tomasse ou matasse

um mouro guarda que tinha ante si. E João de Sousa como fidalgo acordado

e de bom coração remetteu a elle, o qual da sombra da morte que comsigo

viu, acabou ser desenganado de sua duvida e começou de se poer em

defesa, e em João de Sousa correndo a lança nas mãos para lhe dar, o

mouro em se retrahendo cahiu do muro contra a cidade dentro em um pomar,

d'onde começou logo dar grandes brados, senificando com elles o damno

dos christãos que se aparelhava, e os christãos como os ouviram sem mais

outra consiração, crendo que outra sua grita ao menos para desmaio dos

contrairos aproveitaria muito, logo a deram com altas vozes, e não sem

grande estrondo de trombetas que já eram em cima, a que os mouros

acordaram, e com muita trigança acudiram por saber a causa de tamanho

rumor, principalmente os que guardavam a torre do muro porque os

christãos haviam de passar. Os quaes assi como viram os nossos estar no

muro, assi se tornaram e pozeram á porta da torre, de que podiam bem

defender aos christãos a passagem do muro para o não poderem descer para

a cidade; porque com sós paos sem outras armas, aos que por elle

passassem, segundo era estreito podiam levemente lançar d'elle abaixo, e

assi o faziam, e os christãos não podendo já passar não leixavam por

isso de subir; porque o Infante era já ao pé do muro, que a uns por

amor, e a outros com temor constrangia para isso, e assi como subiam não

podendo al fazer assi se mettiam por esses cubellos, e outros descendo

para fundo não podendo passar ficavam amontoados, sem poderem aproveitar

a si nem danar aos contrairos.

A cidade era já toda posta em armas e grande alvoroço, e como o alcaide

que se chamava Abrahem Benaamet foi por si certificado que nas outras

partes da cidade não havia outro commetimento nem affronta que muito

receou, salvo n'aquella, mandou logo ali vir grande claridade de fogo, e

com besteiros e espingardeiros, que em grande numero mandou metter no

pomar que era defronte d'onde os christãos estavam, matavam e feriam

muitos, e muitos em se revolvendo cahiam do muro entre elles, que

claramente eram logo espedaçados, e com gente que se enadeu no castello,

que sahiu pela ponte levadiça, tomaram as escadas postas no muro, ainda

que não foi sem grande peleja que sobr'isso houve, e foi de maneira que

do castello e de todalas partes, os mouros sem algum seu perigo faziam

um piadoso estrago nos christãos, porque sendo as escallas tomadas não

tinham algum remedio de salvação. O que todo bem visto por João de

Sousa, disse ao Infante de cima do muro, que não mandasse subir mais

gente; porque o feito com a gente subida eram de todo perdidos, e o

Infante sobre esperança de tanta alegria, ouvindo recado tão certo e tão

triste, não menos anojado que esforçado arremetteu a uma escada de

troços que mandara armar, e quizera por ella subir dizendo que o que

fosse de tão bons criados e servidores como já dentro eram, seria d'elle

até com elles morrer. Mas era hi o conde d'Odemira, e o commendador mór

de Christus com outros, que com palavras prudentes e de bom esforço o

detiveram, dizendo-lhe que aquella gente por boa e nobre que fosse, em

caso que Portugal a perdesse, bem poderia cobrar outra tal e melhor; mas

não a elle que era tal e tamanho Principe, que o reino teria d'elle para

sempre muita mingua e grande necessidade, e que não desse causa que

Tangere fosse tantas vezes sepultura de Infantes de Portugal, e com

estas e outras razões de conforto a estas conformes a que o Infante

obedeceu, vendo já o feito sem algum remedio, se tornou para Alcacere.

E dos christãos entre mortos e captivos ficaram trezentos, todos os mais

homens escolhidos e especiaes, duzentos mortos e cento captivos, e dos

mortos foram principaes, D. Gonçalo Coutinho, conde de Marialva, e D.

Rodrigo seu filho bastardo, e Gomes Freire d'Andrade, e D. Jorge de

Crasto, filho de D. Alvaro, que depois foi conde de Monsanto, e D. João

de Eça, e João de Taide, e Pedro Coelho, e Rui Diaz Lobo, e Pero de

Sousa seu irmão, Fernão de Macedo, e Pedro de Macedo seu irmão, e Alvaro

de Sá, e Fernão Vaz Côrte Real, Rui Paes, e Pero Paes, filhos de Payo

Rodriguez, Contador Môr, e assi outros muitos e bons cavalleiros e

homens de nobre sangue e bom coração.

E dos captivos principaes, que aos cubellos se recolheram e preitejaram

com os mouros, foi D. Fernando Coutinho, marechal, Fernão Tellez, Ruy

Lopez Coutinho, João Falcão, e Diogo da Silva, que depois foi conde de

Portalegre, Garcia de Mello, D. Alvaro de Lima, filho do visconde D.

Lionel de Lima; e outros muitos até o dito numero, em cujos grandes

resgates além das mortes de tanta e tão nobre gente, o reino recebeu uma

durosa magua e grandissima perda, a qual testemunhou bem com os grandes

prantos e geraes lamentações que em todo elle por este caso se fizeram,

e na gloria da victoria que os mouros tinham, praticando e examinando se

entre os christãos mortos ou captivos seria hi o conde D. Duarte,

respondeu um velho e entre elles de grande auctoridade: «não busqueis hi

o conde D. Duarte; porque na grande desordenança dos christãos vi eu bem

que não andava hi».

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 27 / 127 题