CAPITULO CXLVII

_De como foi a ida d'El-Rei em Africa com os dois mil de cavallo, e

do escallamento de Tangere_

E no anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e dois, se

principiou e ordenou a ida d'El-Rei em Africa, sobre o escalamento de

Tangere, que foi n'esta maneira.

Havia n'este tempo em casa d'El-Rei Diogo de Bairros e João Falcão,

homens mancebos e fidalgos, que desejosos d'acrescentar em suas honras

pediram a El-Rei licença, e lh'a deu, para irem ao soldo que El-Rei de

Fez então apregoara em seu reino contra outros mouros seus imigos e

reveis, os quaes para melhor seu aviamento se passaram a Andaluzia pedir

cartas ao duque de Medina Sidonia, com que o dito Rei de Fez tinha paz e

mostrança de singular amizade.

E o duque com respeito de serviço d'El-Rei não vendo para isso sua carta

se escusou, pelo qual conveiu a estes pedir a El-Rei que por sua carta

lh'o encommendasse, e em tanto porque o conde de Viana acertou d'entrar

de Alcacere em terra de mouros, foram estes com elle na entrada, onde

por caso Diogo de Bairros topou um João d'Escalona, de Tarifa, que já em

Tangere foram ambos captivos e em poder de um senhor. E praticando entre

si sobre um cano que era nos muros da cidade aberto e sahia para fóra,

se por elle haveria disposição de entrar n'ella gente: acharam que em

alguma maneira seria possivel, e com isto tornando-se estes a casa do

duque acharam cartas d'El-Rei, porque lhes revogou a licença e mandou

que logo se tornassem á sua côrte, o que cumpriram, e acharam El-Rei em

Cintra, onde a voltas da conta que lhe deram de sua jornada, tocaram na

pratica do cano para se entrar Tangere, que no coração d'El-Rei fez logo

muita impressão. E com isso os tornou a mandar providos de mercê e de

cartas para o conde de Viana, e asi para João d'Escalona, e para outro

Sancho Fernandez, de Tarifa, seu tio, que tinha um bregantim e era bom

piloto, que para o caso cumpria e se não podia escusar.

Passaram todos em Alcacere, e recontaram ao conde o proposito do cano de

Tangere com que iam, o qual anichillou de todo sua fantesia, e

concordaram que se não podia fazer, e acordado Diogo de Bairros d'outra

parte do muro por onde a cidade melhor se podia escalar e mais a

salvamento, depois de sobr'isso praticarem, foram por aviamento do conde

com boa dessimulação vêr o dito logar, e com quanto a cidade se velava,

porém todos tres por uma escada de corda subiram ao muro, por onde

andaram, e sem algum alvoroço nem sentimento colheram hervas d'elle, com

que se tornaram a Alcacere, e de hi a Portugal, e com elles João

d'Escalona, onde depois de a El Rei dizerem todo o que acharam e

experimentaram, ficou muito contente, e sobr'isso praticou logo com o

Infante D. Fernando seu irmão. E concordaram que para este caso haver

secretamente bom effeito, que o Infante com desejo de honra e outros

respeitos e obrigações que mostrasse ter para passar em Africa, pedisse

a El-Rei para isso licença, porque com esta mostrança este feito se

poderia melhor e mais encobertamente fazer, e assi se cumprio.

E porém a tenção propria e verdadeira d'El-Rei, em caso que logo a não

revelasse, foi ser tambem na passagem que outro si logo foi divulgada.

Em cujos percebimentos e apurações se seguiram tantos estrondos e

alvoroços que os mouros, e principalmente os de Tangere, como do dano de

tal passagem mais receosos foram de todo, e para todo logo avisados e

percebidos, o que El-Rei por o conde de Viana logo soube, pedindo-lhe

que para cousa tão feita como esta de Tangere em seus começos parecia,

com semelhantes estrondos a não desfizesse nem danasse, para que

abastaria não tanta gente como a de que se percebia, que pouca e pouca

podia dessimuladamente vir a Alcacere, e d'alli o feito se faria com

segurança e salvamento.

E a este siso não obedeceu o apetito d'El Rei, para que ajudou o conde

de Villa Real, que a este tempo estava na côrte, e com o conde de Viana

não era em muito accordo; porque envejoso da gloria e honra que se a

outrem aparelhava, por ter n'ella parte como por seu nobre e esforçado

coração sempre desejou, por seus meios e modos que por si e seus

parentes buscou, teve maneira que El-Rei o mettesse n'este feito, em que

lhe diziam não ser razão que por dito de dois homens elle com seu reino

se aventurasse, e que ante de o cometer convinha que tal pessoa como era

o conde de Villa Real com elles em pessoa fizesse juntamente a mesma

experiencia. E que El-Rei para ser desenganado era bem que estreitamente

lh'o encommendasse, especialmente que elle era tal que buscaria em

Tangere outros logares por onde a cidade melhor e mais seguramente se

cobrasse. Anichilando como suspeito o conselho do conde de Viana,

atribuindo-lh'o a cautelosas manhas com que á custa alheia queria sempre

ganhar honra e acrescentamento para si. E em fim, o conde de Villa Real

foi d'El-Rei para isso rogado, e elle acceitou a ida com encarecimentos

de receber morte e captiveiro por seu serviço, pedindo-lhe que, se

lembrasse em tal caso d'elle e de seus filhos. A, que El-Rei logo d'ante

mão satisfez concedendo-lhe liberalmente á custa dos bens de sua corôa,

mui grandes e duvidosos requerimentos que com elle trazia.

O conde de Villa Real partiu de Lisboa no anno de mil e quatrocentos e

sessenta e tres, com elle Diogo de Bairros e João d'Escalona, e no

caminho se ajuntou com elles João Falcão, e chegaram a Lagos onde a

condessa sua mulher estava parida de D. Fernando seu filho primeiro, e

d'alli a levou a Ceuta, e d'hi com achaque de buscar gente com que

poderosamente entrasse em terra de mouros passou em Tarifa, d'onde por

mar foi vêr o lugar do escalamento, a que não sahiu do mar, nem foi

n'elle por causa da muita tardança que fizeram os que primeiro sahiram.

A que se juntaram mais Lourenço de Caceres, adail, e Pedro Affonso, os

quaes acharam o lugar bem desposto e sem alguma mudança, e com isso se

foi o conde mui alegre a Gibaltar, que o anno passado fôra aos mouros

filhada, d'onde logo avisou El-Rei da boa desposição do feito, para o

qual ficou alli precebendo manhosamente a mais gente que pôde para a

passar a Ceuta, como passou, em que foram cento e cincoenta de cavallo e

quatrocentos de pé, com fundamento entre El-Rei e o conde já concertado,

que no dia que El-Rei por mar houvesse de ser no escallamento de

Tangere, a que havia de ir da banda de Castela, de um lugar que se diz

Bollonha, esse mesmo dia entrasse o conde por terra e fosse sobre a

cidade para soccorrer e ajudar os que n'ella subissem e entrassem, e

assi impedir qualquer soccorro que aos mouros da cidade de fóra viesse.

E porém na partida d'El-Rei e do Infante se pôs tanta dillação além do

tempo que tinham assignado, que o conde sem descobrir o caso não pôde

reter mais a gente estrangeira que sustinha, e a despediu.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 21 / 127 题