Ao outro dia desde as sete da manhã, o padre Amaro esperava a Dionysia
em casa, postado á janella, com os olhos cravados na esquina da rua, sem
reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face. Mas a Dionysia não
apparecia: e elle teve de partir para a Sé, amargurado e doente, a
baptisar o filho do Guedes.
Foi uma pesada tortura para elle vêr aquella gente alegre que punha na
gravidade da Sé, mais sombria por esse escuro dia de dezembro, todo um
rumor mal contido de regosijo domestico e de festa paterna; o papá
Guedes resplandecente de casaca e gravata branca, o padrinho
compenetrado com uma grande camelia ao peito, as senhoras de gala, e
sobretudo a parteira rechonchuda, passeando com pompa um montão de
rendas engommadas e de laçarotes azues onde mal se percebiam duas
bochechinhas trigueiras. Ao fundo da igreja, com o pensamento bem longe
na Ricoça e na Barrosa, foi engorolando á pressa as ceremonias: soprando
em cruz sobre a face do pequerrucho para expulsar o Demonio que já
habitava aquellas carninhas tenras; impondo-lhe o sal sobre a bôca para
que elle se desgostasse para sempre do sabor amargo do peccado e tomasse
gosto a nutrir-se só da verdade divina; tocando-o com saliva nas orelhas
e nas narinas, para que elle não escutasse jámais as solicitações da
carne e jámais respirasse os perfumes da terra. E em roda, com tochas na
mão, os padrinhos, os convidados, na fadiga que davam tantos latins
rosnados á pressa, só se occupavam do pequeno, n'um receio que elle não
respondesse com algum desacato impudente ás tremendas exhortações que
lhe fazia a Igreja sua Mãi.
Amaro, então, pondo de leve o dedo sobre a touquinha branca, exigiu do
pequerrucho que elle, alli em plena Sé, renunciasse para sempre a
Satanaz, ás suas pompas e ás suas obras. O sacristão Mathias, que dava
em latim as respostas rituaes, renunciou por elle--emquanto o pobre
pequerrucho abria a boquinha a procurar o bico da mama. Emfim o parocho
dirigiu-se á pia baptismal seguido de toda a familia, das velhas devotas
que se tinham juntado, de gaiatos que esperavam uma distribuição de
patacos. Mas foi toda uma atrapalhação para fazer as unções: a parteira
commovida não atinava a desapertar os laçarotes do chambre, para pôr a
nú os hombrosinhos, o peito do pequeno; a madrinha quiz ajudal-a: mas
deixou escorregar a tocha, alastrou de cera derretida o vestido d'uma
senhora, uma visinha dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva.
--Franciscus, credis?--perguntava Amaro.
O Mathias apressou-se a affirmar, em nome de Francisco:
--Credo.
--Franciscus, vis baptisari?
O Mathias:
--Volo.
Então a agua lustral cahiu sobre a cabecinha redonda como um melão
tenro: a criança agora perneava n'uma perrice.
--Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... et Filiis... et
Espiritus Sancti...
Emfim, acabára! Amaro correu á sacristia a desvestir-se--emquanto a
parteira grave, o papá Guedes, as senhoras enternecidas, as velhas
devotas e os gaiatos sahiam ao repique dos sinos; e agachados sob os
guardachuvas, chapinhando a lama, lá iam levando em triumpho Francisco,
o novo christão.
Amaro galgou os degraus de casa com o presentimento que ia encontrar a
Dionysia.
Lá estava, com effeito, sentada no quarto, esperando-o, amarrotada,
enxovalhada da lucta da noite e da lama da estrada: e apenas o viu
começou a choramingar.
--Que é, Dionysia?
Ella rompeu em soluços, sem responder.
--Morta! exclamou Amaro.
--Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou emfim a matrona.
Amaro tombou para os pés da cama como morto tambem.
A Dionysia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face d'agua, de vinagre.
Elle recuperou-se um pouco, muito pallido: afastou-as com a mão, sem
fallar; e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, n'um chôro
desesperado,--emquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo á
cozinha.
--Parece que tinha muita amizade á menina, começou a Escolastica,
fallando baixo como na casa d'um moribundo.
--Costume d'ir por lá. Foi hospede tanto tempo... Ai, eram como
irmãos...--disse a Dionysia, ainda chorosa.
Fallaram então de doenças de coração--porque a Dionysia contára á
Escolastica que a pobre menina tinha morrido d'um aneurisma rebentado. A
Escolastica tambem soffria do coração; mas n'ella eram flatos, dos maus
tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz tambem!
--Vossemecê toma uma gotinha de café, snr.^a Dionysia?
--Olhe, a fallar a verdade, snr.^a Escolastica, tomava uma gotinha de
geropiga...
A Escolastica correu á taberna ao fim da rua, trouxe a geropiga n'um
copo de quartilho debaixo do avental: e ambas á mesa, uma molhando sopas
no café, outra escorropichando o copo, concordavam, com suspiros, que
n'este mundo tudo eram sustos e lagrimas.
Deram onze horas: e a Escolastica pensava em levar um caldo ao senhor
parocho, quando elle chamou de dentro. Estava de chapéo alto, com o
casaco abotoado, os olhos vermelhos como carvões...
--Escolastica, vá a correr ao Cruz que me mande um cavallo... Mas
depressa.
Chamou então a Dionysia: e sentado ao pé d'ella, quasi contra os joelhos
da mulher, com a face rigida e livida como um marmore, escutou em
silencio a historia da noite--as convulsões de repente, tão fortes que
ella, a Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as
prostrações em que cahia! depois a anciedade da asphyxia que a fazia tão
rôxa como a tunica d'uma imagem...
Mas o moço do Cruz chegára com o cavallo. Amaro tirou d'uma gaveta,
d'entre roupa branca, um pequeno crucifixo, deu-o á Dionysia que ia
voltar á Ricoça para ajudar a amortalhar a menina.
--Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-m'o ella dado...
Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a galope. Não
chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol de
dezembro fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.
Quando chegou ao pé do poço entulhado, d'onde se avistava a casa de
Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho d'ovelhas
que tomava o caminho; e o pastor, com uma pelle de cabra ao hombro e a
borracha a tiracollo, fez-lhe lembrar de repente Feirão, toda a vida
passada, que lhe voltava por fragmentos bruscos--aquellas paizagens
afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joanna rindo estupidamente
dependurada da corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na
Gralheira, com o abbade, defronte da chaminé, onde a lenha verde
estalava; os longos dias em que se desesperava na tristeza da
residencia, vendo fóra sem cessar cahir a neve... E veio-lhe um desejo
ancioso d'essas solidões da serra, d'essa existencia de lobo, longe dos
homens e das cidades, sepultado lá com a sua paixão.
A porta da Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar, atirando a
voz por cima do telhado dos curraes, para o pateo, onde sentia cacarejar
os gallos. Ninguem respondeu. Seguiu então pelo caminho da aldeia,
levando a egoa pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher obesa
fazia meia sentada á porta. Dentro, no escuro da baiuca, dois homens com
os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas n'uma bisca renhida; e um
rapazola d'uma amarellidão de sezões, com um lenço amarrado na cabeça,
olhava-lhes o jogo tristemente.
A mulher tinha justamente visto passar a snr.^a Carlota, que até parára
a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Michaela, ao
adro. Chamou para dentro; uma rapariguita vesga appareceu de traz da
sombra das pipas.
--Corre, vai á Michaela, dize à snr.^a Carlota que está aqui um senhor
da cidade.
Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado n'uma pedra, com o
seu cavallo pela redea. Mas aquella casa fechada e muda aterrava-o. Foi
pôr o ouvido á fechadura, na esperança d'ouvir um chôro, uma rabuje de
criança. Dentro pesava um silencio de caverna abandonada. Mas
tranquillisava-o a idéa que a Carlota teria levado a criança comsigo,
para Michaela. Devia realmente ter perguntando á mulher na taberna, se a
Carlota trazia uma criança ao collo... E olhava a casa bem caiada, com a
sua janella em cima que tinha uma cortininha de cassa, um luxo tão raro
n'aquellas freguezias pobres; recordava a boa ordem, o escarolado da
louça da cozinha... Decerto, o pequerrucho devia ter tambem um berço
aceado...
Ah, estava doido decerto na vespera, quando puzera alli, na mesa da
cozinha, quatro libras em ouro, preço adiantado d'um anno de criação, e
dissera cruelmente ao anão--«conto comsigo»! Pobre pequerruchinho!...
Mas a Carlota comprehendera bem, á noite na Ricoça, que elle agora
queria-o vivo, o seu filho, e creado com mimo!... Todavia não o deixaria
alli, não, sob o olho raiado de sangue do anão... Leval-o-hia essa noite
á Joanna Carreira dos Poyaes...
Que as sinistras historias da Dionysia, a _tecedeira d'anjos_, eram uma
legenda insensata. A criança estava muito regalada em casa de Michaela,
chupando aquelle bom peito de quarentona sã... E vinha-lhe então o mesmo
desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se em Feirão, levar comsigo a
Escolastica, educar lá a criança como sobrinho, revivendo n'elle
largamente todas as emoções d'aquelle romance de dois annos; e alli
passaria n'uma paz triste, na saudade de Amelia, até ir como o seu
antecessor, o abbade Gustavo que tambem creára um sobrinho em Feirão,
repousar para sempre no pequeno cemiterio, de verão sob as flôres
silvestres, de inverno sob a neve branca.
Então a Carlota appareceu; e ficou attonita ao reconhecer Amaro, sem
passar da cancella, com a testa franzida, a sua bella face muito grave.
--A criança? exclamou Amaro.
Depois d'um momento, ella respondeu, sem perturbação:
--Nem me falle n'isso, que me tem dado um desgosto... Hontem mesmo, duas
horas depois de ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se rôxo, e
alli me morreu debaixo dos olhos...
--Mente! gritou Amaro. Quero vêr.
--Entre, senhor, se quer vêr.
--Mas que lhe disse eu hontem, mulher?
--Que quer, senhor? Morreu. Veja...
Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem cólera nem receio. Amaro
entreviu n'um relance, ao pé da chaminé, um berço coberto com um saiote
escarlate.
Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do cavallo. Mas a
mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha ido
justamente à aldeia para encommendar um caixãosinho decente... Como vira
que era filho de pessoa de bem, não o quisera enterrar embrulhado n'um
trapo. Mas emfim, como o senhor alli estava, parecia-lhe razoavel que
désse algum dinheiro para a despeza... Uns dois mil reis que fossem.
Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a esganar; por
fim, metteu-lhe o dinheiro na mão. E ia trotando no carreiro, quando a
sentiu ainda correndo, gritando _pst! pst!_ A Carlota queria-lhe
restituir o capote que elle emprestára na vespera: tinha feito muito bom
serviço, que a criança chegára quente como um rojãosinho...
Infelizmente...
Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente a ilharga da
cavalgadura.
Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não entrou em casa. Foi
direito ao paço do bispo. Tinha agora uma idéa só: era deixar aquella
cidade maldita, não vêr mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa
da Sé...
Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do paço, que lhe lembrou com
inquietação o que o Libaninho dissera na vespera da indignação do senhor
vigario geral, da denuncia obscura... Mas a affabilidade do padre
Saldanha, o confidente do paço, que o introduziu logo na livraria de sua
excellencia, tranquillisou-o. O senhor vigario geral foi muito amavel.
Estranhou o ar pallido e perturbado do senhor parocho...
--É que tenho um grande desgosto, senhor vigario geral. Minha irmã está
a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excellencia licença para lá
ir, por uns dias...
O senhor vigario geral consternou-se com bondade.
--Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forçados da barca de
Charonte.
Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat
Et ferruginea subvectat corpora cymba.
Ninguem lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei de a recommendar
nas minhas orações...
E muito methodico, sua excellencia tomou uma nota a lapis.
Amaro, ao sahir do paço, foi direito á Sé. Fechou-se na sacristia, a
essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabeça entre os
punhos, escreveu ao conego Dias:
«Meu caro padre-mestre.--Treme-me a mão ao escrever estas linhas. A
infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui
ficasse, estalava-me o coração. Sua excellentissima irmã lá estará
tratando do enterro... Eu, como comprehende, não posso. Muito lhe
agradeço tudo... Até um dia, se Deus quizer que nos tornemos a vêr. Por
mim conto ir para longe, para alguma pobre parochia de pastores, acabar
meus dias nas lagrimas, na meditação e na penitencia. Console como puder
a desgraça da mãi. Nunca me esquecerei do que lhe devo, emquanto tiver
um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabeça.--Seu amigo
do C.--_Amaro Vieira_.»
«P. S. A criança morreu tambem, já se enterrou.»
Fechou a carta com uma obreia preta; e depois d'arranjar os seus papeis,
foi abrir o grande portão chapeado de ferro, olhar um momento o pateo, o
barracão, a casa do sineiro... As nevoas, as primeiras chuvas já davam
áquelle recanto da Sé o seu ar lugubre d'inverno. Adiantou-se devagar,
sob o silencio triste dos altos contrafortes, espreitou á vidraça da
cozinha do tio Esguelhas: elle lá estava, sentado á chaminé, com o
cachimbo na bôca, cuspilhando tristemente para as cinzas. Amaro bateu de
leve nos vidros--e quando o sineiro abriu a porta, aquelle interior
conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Tótó, a escada
que ia para o quarto, agitaram o parocho de tantas recordações e de
saudades tão bruscas, que não pôde fallar um momento, com a garganta
tomada de soluços.
--Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou por fim. Vou a Lisboa,
tenho minha irmã a morrer...
E acrescentou com os beiços tremulos d'um chôro que ia romper:
--Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre Ameliasinha lá morreu de
repente...
O sineiro emmudeceu, assombrado.
--Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão, tio Esguelhas. Adeus...
--Adeus, senhor parocho, adeus! disse o velho com os olhos arrazados
d'agua.
Amaro fugiu para casa, contendo-se para não soluçar alto pelas ruas.
Disse logo á Escolastica que ia partir n'essa noite para Lisboa. O tio
Cruz devia mandar-lhe um cavallo, para ir tomar o comboio a Chão de
Maçãs.
--Eu não tenho senão o dinheiro que é necessario para a jornada. Mas o
que ahi me fica em lençoes e toalhas é para vossê...
A Escolastica, chorando de perder o senhor parocho, quiz beijar-lhe a
mão por tanta generosidade: offereceu-se para fazer a mala...
--Eu mesmo a arranjo, Escolastica, não se incommode.
Fechou-se no quarto. A Escolastica, ainda choramingando, foi logo
recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armarios. Mas
Amaro d'ahi a pouco gritou por ella: diante da janella uma harpa e uma
rebeca, em desafinação, tocavam a valsa dos _Dois mundos_.
--Dê um tostão a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhe que vão
p'r'ó inferno... Que está aqui gente doente!
E até ás cinco horas a Escolastica não tornou a sentir rumor no quarto.
Quando o moço do Cruz veio com o cavallo, pensando que o senhor parocho
adormecera, ella foi-lhe bater devagarinho á porta do quarto,
choramingando já da despedida proxima. Elle abriu logo. Estava de capote
aos hombros; no meio do quarto prompta e acorreada a mala de lona que
devia ir á garupa da egoa. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar
n'essa noite à snr.^a D. Maria da Assumpção, ao padre Silverio e a
Natario: e ia descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na
escada um ruido conhecido de muleta, e o tio Esguelhas appareceu muito
commovido.
--Entre, tio Esguelhas, entre.
O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:
--Vossa senhoria ha de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com
os desgostos que tenho passado. Já ha tempo que achei no quarto isto, e
pensei que...
E metteu na mão de Amaro um brinco d'ouro. Elle reconheceu-o logo: era
d'Amelia. Muito tempo ella o procurára debalde; soltára-se decerto
n'alguma manhã d'amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro então,
suffocado, abraçou o tio Esguelhas.
--Adeus! Adeus, Escolastica. Lembrem-se por cá de mim. Dê lembranças ao
Mathias, tio Esguelhas...
O moço afivelou a maleta ao sellim, e Amaro partiu, deixando a
Escolastica e o tio Esguelhas, a chorar ambos á porta.
Mas depois de ter passado os açudes, ao pé d'uma volta da estrada, teve
de apear para compôr o estribo: e ia montar, quando appareceram dobrando
o muro o doutor Godinho, o secretario geral e o senhor administrador do
concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio,
recolhendo para a cidade. Pararam logo a fallar ao senhor
parocho--admirando-se de o vêr alli, de maleta na garupa, com ares de
jornada...
--É verdade, disse, vou para Lisboa!
O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a
felicidade.--Mas quando o parocho fallou da irmã moribunda,
affligiram-se com polidez; e o senhor administrador disse:
--Deve estar muito sentido, comprehendo... De mais a mais essa outra
desgraça na casa d'aquellas senhoras suas amigas... A pobre Ameliasinha,
morta assim de repente...
O antigo Bibi exclamou:
--O quê? A Ameliasinha, aquella bonita que morava na rua da
Misericordia? Morreu?
O doutor Godinho tambem o ignorava, e pareceu consternado.
O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da
Dionysia. Dizia-se que fôra um aneurisma.
--Pois senhor parocho, exclamou Bibi, desculpe se afflijo as suas
crenças respeitaveis, que são as minhas de resto... Mas Deus commetteu
um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que
olhos, senhores! E depois com aquelle picantesinho da virtude...
Então, n'um tom de pezames, todos lamentaram aquelle golpe que devia ter
affectado tanto o senhor parocho.
Elle disse muito grave:
--Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades,
devia fazer, sem duvida, uma esposa modêlo... Senti-o muito.
Apertou silenciosamente as mãos em redor--e emquanto os cavalheiros
recolhiam á cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que já
escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.
Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro d'Amelia sahiu da Ricoça. Era
uma manhã aspera: o céo e os campos estavam afogados n'uma nevoa
pardacenta; e cahia, muito miuda, uma chuva regelada. Era longe da
quinta a capella dos Poyaes. O menino do côro adiante, de cruz alçada,
apressava-se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abbade Ferrão,
d'estola negra, abrigava-se, murmurando o _Exultabunt Domino_, sob o
guardachuva que sustentava ao lado o sacristão com o hyssope; quatro
trabalhadores da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva obliqua,
levavam n'uma padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e,
sob o vasto guardachuva do caseiro, a Gertrudes de mantéo pela cabeça ia
desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o valle triste dos Poyaes
cavava-se, todo pardo na neblina, n'um grande silencio; e a voz enorme
do vigario, mugindo o _Miserere_, rolava pela quebrada humida onde
murmuravam os riachos muito cheios.
Mas ás primeiras casas da aldeia os moços do caixão pararam derreados; e
então um homem, que estava esperando debaixo d'uma arvore sob o seu
guardachuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era João
Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em
dois sulcos negros, grossas lagrimas a correrem-lhe nas faces. E
immediatamente, por traz d'elle, vieram collocar-se dois criados de
farda, com as calças muito arregaçadas e tochas na mão--dois lacaios que
mandára o Morgado, para honrar o enterro d'uma d'essas senhoras da
Ricoça, amigas do abbade.
Então, vendo estas duas librés que vinham afidalgar o prestito, o menino
do côro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já sem
fadiga, impertigaram-se ás varas da padiola: o sacristão bramiu um
_Requiem_ tremendo. E pelas lamas do íngreme caminho da aldeia foi
subindo o enterro, emquanto às portas as mulheres se ficavam
persignando, olhando as sobrepellizes brancas e o caixão de galões
d'ouro, que se iam afastando seguidos do grupo de guardachuvas abertos,
sob a chuva triste.
A capella era no alto, n'um adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o
enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do
_Subvenite sancti_ que o sacristão entoou em ronco.--Mas os dois criados
de farda não entraram porque o senhor Morgado assim o tinha ordenado.
Ficaram á porta, sob o guardachuva, escutando, batendo os pés regelados.
Dentro seguia o cantochão; depois era um ciciar d'orações que se
amortecia: e de repente latins funebres lançados pela voz grossa do
vigario.
Então os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento
na taberna do tio Seraphim. Dois moços de gado da quinta do Morgado, que
bebiam em silencio o seu quartilho, ergueram-se logo vendo apparecer os
dois criados de farda.
--Á vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o velho baixito que
acompanhava João Eduardo a cavallo. Nós lá estamos, na massada do
enterro... Boas tardes, snr. Seraphim.
Apertaram a mão ao Seraphim, que lhes mediu duas aguardentes--e
informou-se se a defunta era a noiva do snr. Joãosinho. Tinham-lhe dito
que morrera d'uma veia rebentada.
O baixito riu:
--Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe
rebentou foi um rapagão pelo ventre...
--Obra do snr. Joãosinho? perguntou o Seraphim, arregalando o olho
bréjeiro.
--Não me parece, disse o outro com importancia. O snr. Joãosinho estava
em Lisboa... Obra d'algum cavalheiro da cidade... Sabe vossemecê de quem
eu desconfio, snr. Seraphim?...
Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o
sahimento já ia ao pé do cemiterio, e que não faltavam senão «aquelles
senhores»! Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro quando ia
passando a pequena grade do cemiterio, ao ultimo versiculo do
_Miserere_. João Eduardo agora levava uma vela na mão, ia logo atraz do
caixão d'Amelia, tocando-o quasi, com os olhos ennevoados de lagrimas
fitos no velludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capella
dobrava desoladamente. A chuva cahia mais miuda. E todos calados, no
silencio fusco do cemiterio, com passos abafados pela terra molle,
iam-se dirigindo para o canto do muro onde estava cavada de fresco a
cova d'Amelia, negra e profunda entre a relva humida. O menino do côro
cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abbade Ferrão,
adiantando-se até á beira do buraco escuro, murmurou o _Deus cujus
miseratione_... Então João Eduardo, muito pallido, vacillou de repente,
e o guardachuva cahiu-lhe das mãos; um dos criados de farda correu,
segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arrancal-o d'ao pé da cova; mas
elle resistiu, e alli ficou, com os dentes cerrados, segurando-se
desesperadamente á manga do criado, vendo o coveiro e os dois moços
amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra
esfarellada que rolava, com um ranger de taboas mal pregadas.
--_Requiem aeternam donna ei, Domine!_
--_Et lux perpetua luceat ei_, mugiu o sacristão.
O caixão bateu no fundo com uma pancada surda: o abbade espalhou em cima
uma pouca de terra em fórma de cruz: e sacudindo lentamente o hyssope
sobre o velludilho, a terra, a relva em redor:
--_Requiescat in pace_.
--_Amen_, responderam a voz cava do sacristão e a voz aguda do menino do
côro.
--_Amen_, disseram todos n'um murmurio, que ciciou, se perdeu entre os
cyprestes, as hervas, os tumulos e as nevoas frias d'aquelle triste dia
de dezembro.