O conego Dias recommendára muito a Amaro que ao menos nas primeiras
semanas, para evitar as suspeitas da mana e da criada, não fosse á
Ricoça. E a vida d'Amaro tornou-se então mais triste, mais vazia que
outr'ora, quando pela primeira vez deixando a casa da S. Joanneira viera
para a rua das Sousas. Todos os seus conhecidos estavam fóra de Leiria:
D. Maria da Assumpção na Vieira; as Gansosinhos ao pé d'Alcobaça com a
tia, a famosa tia que havia dez annos estava para morrer e para lhes
deixar uma grande herdade. Depois do serviço da Sé, as horas, todo o
longo dia, arrastavam-se pesadas como chumbo. Não estaria mais separado
de toda a communicação humana, se como Santo Antonio vivesse nos areaes
do deserto libyco. Só o coadjutor que, coisa singular, nunca lhe
apparecia nos tempos felizes, voltára agora, como o companheiro fatidico
das horas tristes, a visital-o uma, duas vezes por semana, ao fim do
jantar, mais magro, mais chupado, mais soturno, com o seu eterno
guardachuva na mão. Amaro odiava-o; ás vezes, para o impôr, fingia-se
todo occúpado n'uma leitura; ou precipitando-se para a mesa, mal lhe
sentia nos degraus as passadas lentas:
--Amigo coadjutor, desculpe, que estou aqui a rabiscar uma coisa.
Mas o homem installava-se, com o odioso guardachuva entre os joelhos:
--Não se prenda, senhor parocho, não se prenda.
E Amaro, torturado por aquella figura lugubre que não se mexia na
cadeira, atirava a penna, furioso, agarrava o chapéo:
--Não estou hoje p'r'á coisa, vou espairecer.
E á primeira esquina descartava-se bruscamente do coadjutor.
Ás vezes, farto de solidão, ia visitar o Silverio. Mas a felicidade
pachorrenta d'aquelle sêr obeso, occupado em colleccionar receitas de
medicina caseira e em observar as perturbações phantasticas da sua
digestão; os seus constantes louvores do doutor Godinho, dos pequenos e
da senhora; as chalaças obsoletas que elle repetia havia quarenta annos
e a innocente hilaridade que ellas lhe davam, impacientavam Amaro.
Sahia, enervado, pensando na sorte inimiga era a felicidade por fim:
porque não havia de elle ser tambem um bom padre caturra, com uma
pequenina mania tyrannica, parasita regalado d'uma familia respeitavel,
tendo um d'estes sangues tranquillos que giram sob camadas de gordura,
sem perigo de transbordar e de causar desgraças, como um riacho que
corre por debaixo d'uma montanha?...
Outras vezes ia ao collega Natario, cuja fractura, mal tratada ao
principio, o retinha ainda na cama com o apparelho na perna. Mas ahi,
enjoava-o o aspecto do quarto--impregnado d'um cheiro d'arnica e de
suor, com uma profusão de trapos ensopados em malgas vidradas, e
esquadrões de garrafas sobre a commoda entre fileiras de santos.
Natario, mal o via apparecer, rompia em queixas: As cavalgaduras dos
medicos! A sua má sorte habitual! As torturas a que o forçavam! O atrazo
em que estava a medicina n'este maldito paiz!... E ia salpicando o
soalho negro de expectorações e de pontas de cigarro. Desde que estava
doente, a saude dos outros, sobretudo dos amigos, indignava-o como uma
offensa pessoal.
--E vossê sempre rijo, hein? Pudera!--murmurava com rancor.
E pensar que aquella besta do Brito nunca lhe doera a cabeça! E que o
alarve do abbade se gabava de nunca ter estado na cama depois das sete
da manhã! Animaes!
Amaro então dava-lhe as novidades: alguma carta que recebera do conego,
da Vieira, as melhoras da D. Josepha...
Mas Natario não se interessava pelas pessoas a quem apenas o unia a
convivencia e a amizade; interessavam-n'o só os seus inimigos, com quem
tinha ligações d'odio. Queria saber do escrevente, se já tinha estourado
de fome...
--Esse ao menos pude-lhe ser bom antes de cahir aqui n'esta maldita
cama!...
As sobrinhas appareciam então--duas creaturinhas sardentas, d'olhos
muito pisados. O seu grande desgosto era que o titi não mandasse vir a
_benzedeira_ pôr-lhe _virtude_ na perna: era o que tinha curado o
morgadinho da Barrosa, e o Pimentel d'Ourem...
Natario, na presença das _duas rosas do seu canteiro_, calmava-se.
--Coitaditas, não é por falta de cuidados d'ellas que eu ainda não
arribei... Mas tenho soffrido, caramba!
E as duas rosas, com o mesmo movimento simultaneo, voltavam-se para o
lado limpando os olhos aos lenços.
Amaro sahia d'alli, mais enfastiado.
Para se fatigar tentava dar grandes passeios pela estrada de Lisboa. Mas
apenas se afastava do movimento da cidade, a sua tristeza tornava-se
mais intensa, concordando com aquella paizagem de collinas tristes e
arvores enfezadas: e a sua vida apparecia-lhe como essa mesma estrada
monotona e longa, sem um incidente que a alegrasse, estirando-se
desoladamente até se perder nas brumas do crepusculo. Ás vezes, ao
voltar, entrava no cemiterio, ia passeando entre os renques de
cyprestes, sentindo áquella hora do fim da tarde a emanação adocicada
das moitas de goivos; lia os epitaphios; encostava-se á grade dourada do
jazigo da familia Gouvêa, contemplando os emblemas em relevo, um chapéo
armado e um espadim, seguindo as negras letras da famosa ode que lhe
adorna a lapida:
Caminhante, detem-te a contemplar
Estes restos mortaes;
E, se sentires a mágoa a transbordar,
Detem teus ais.
Que Julio Cabral da Silva Maldonado
Mendonça de Gouvêa,
Moço fidalgo, bacharel formado,
Filho da illustre Cêa,
Ex-administrador d'este concelho,
Commendador de Christo,
Foi de virtudes singular espelho,
Caminhante, crê n'isto.
Depois era o rico mausoléo do Moraes, onde sua esposa, que agora, rica e
quarentona, vivia em concubinagem com o bello capitão Trigueiros, fizera
gravar uma piedosa quadra:
Entre os anjos espera, ó esposo,
A metade do teu coração
Que no mundo ficou, tão sózinha,
Toda entregue ao dever da oração!...
Algumas vezes, ao fundo do cemiterio, junto ao muro, via um homem
ajoelhado ao pé d'uma cruz negra, que um chorão assombreava, ao lado da
valla dos pobres. Era o tio Esguelhas, com a sua moleta no chão, rezando
sobre a sepultura da Tótó. Ia fallar-lhe, e mesmo, n'uma igualdade que
aquelle logar justificava, passeavam familiarmente, hombro a hombro,
conversando. Amaro, com bondade, consolava o velho: de que servia á
desgraçada rapariga a vida para a passar estirada n'uma cama?
--Sempre era viver, senhor parocho... E eu, veja agora isto, sósinho de
dia e de noite!
--Todos têm as suas solidões, tio Esguelhas, dizia melancolicamente
Amaro.
O sineiro então suspirava, perguntava pela snr.^a D. Josepha, pela
menina Amelia...
--Lá está na quinta.
--Coitadita, não está má estopada...
--Cruzes da vida, tio Esguelhas.
E continuavam calados por entre as ruas de buxo que fecham os canteiros
cheios do negrejamento das cruzes e da brancura das lapidas novas.
Amaro, ás vezes, reconhecia alguma sepultura que elle mesmo tinha
aspergido e consagrado: onde estariam aquellas almas que elle
recommendára a Deus em latim, distrahido, engorolando á pressa as
orações para ir ter com Amelia? Eram jazigos de gente da cidade; elle
conhecia de vista as pessoas da familia; vira-as então lavadas em
lagrimas, e agora passeavam em rancho pela Alameda ou chalaceavam ao
balcão das lojas...
Voltava para casa mais triste,--e a sua longa noite começava,
infindavel. Tentava lêr; mas ao fim das dez primeiras linhas bocejava de
tedio e de fadiga. Ás vezes escrevia ao conego. Ás nove horas tomava
chá; e depois era um passear sem fim pelo quarto, fumando maços de
cigarros, parando á janella a olhar a negrura da noite, lendo aqui e
além uma noticia ou um annuncio do _Popular_ e recomeçando a passear com
bocejos tão cavos que a criada os ouvia na cozinha.
Para entreter estas noites melancolicas, e por um excesso de
sensibilidade ociosa, tentára fazer versos, pondo o seu amor e a
historia dos dias felizes nas formulas conhecidas da saudade lyrica:
Lembras-te d'esse tempo da delicias,
Ó anjo feiticeiro, Amelia amada,
Quando tudo eram risos e ventura
E a vida nos corria socegada?
Lembras-te d'essa noite de poesia
Em que a lua brilhava pelos céos,
E nós unindo as almas, ó Amelia,
Erguemos nossa prece para Deus?...
Mas a despeito de todos os esforços nunca passára d'estas duas
quadras--apesar de as ter produzido com uma facilidade
promettedora--como se o seu sêr contivesse apenas estas duas gottas
isoladas de poesia, e, soltas ellas á primeira pressão, nada mais
restasse senão a sêcca prosa do temperamento carnal.
E esta existencia varia relaxára-lhe tão subtilmente todo o machinismo
da vontade e da acção, que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a
fastidiosa concavidade das horas infindaveis era-lhe odioso como o peso
d'um fardo injusto. Preferia ainda os tedios da ociosidade aos tedios da
occupação. A não serem os deveres estrictos que elle não podia desleixar
sem escandalo e sem censura--desembaraçára-se, pouco a pouco, de todas
as praticas do zelo interior: nem a oração mental, nem as visitas
regulares ao Santissimo, nem as meditações espirituaes, nem o rosario á
Virgem, nem a leitura á noite do Breviario, nem o exame de
consciencia--todas estas obras da devoção, estes meios secretos de
santificação progressiva substituia-os pelos infindaveis passeios pelo
quarto, do lavatorio á janella, e por maços de cigarros fumados até ao
negro dos dedos. A missa, pela manhã, era rapidamente engorolada; o
serviço da parochia feito com surdas revoltas de impaciencia; tornára-se
consummadamente o _Indignus sacerdos_ dos ritualistas; e tinha na sua
ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete meios defeitos que
os theologos attribuem ao _mau padre_.
Só lhe restava através da sua sentimentalidade um appetite tremendo. E
como a cozinheira era excellente, e a snr.^a D. Maria da Assumpção,
antes da sua partida para a Vieira, lhe deixára um fornecimento de cento
e cincoenta missas a cruzado--banqueteava-se, tratando-se a gallinha e a
geleia, regando-se d'um vinho picante da Bairrada que o padre-mestre lhe
escolhera. E alli ficava á mesa, horas esquecidas, de perna esticada,
fumando sobre o café, e lamentando não ter á mão a sua Ameliasita...
--Que fará ella por lá, a pobre Ameliasita! pensava, espreguiçando-se
com tedio e com langor.
A pobre Ameliasita, na Ricoça, amaldiçoava a sua vida.
Logo durante a jornada no _char-à-banc_ D. Josepha lhe fizera
tacitamente sentir que d'ella não tinha a esperar nem a antiga amizade,
nem o perdão do escandalo... E assim foi, quando se installaram. A velha
tornou-se intratavel: era todo um modo cruel de abandonar o _tu_, de a
tratar por _menina_; uma recusa rispida se Amelia lhe queria arranjar a
almofada ou aconchegal-a no chale; um silencio reprehensivo quando ella
lhe passava o serão no quarto, costurando; e a todo o momento allusões
suspiradas ao triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos seus
dias...
Amelia, comsigo, accusava o parocho: elle promettera-lhe que a madrinha
seria toda caridade, toda cumplicidade; entregava-a por fim a uma
semelhante ferocidade de velha virgem devota!...
Quando se viu n'aquelle casarão da Ricoça, n'um quarto regelado, pintado
a côr de canario, lugubremente mobilado com uma cama de docel e duas
cadeiras de couro, chorou toda a noite com a cabeça, enterrada no
travessseiro--torturada por um cão que debaixo das janellas, estranhando
sem duvida as luzes e o movimento na casa, uivou até de madrugada.
Ao outro dia desceu á quinta a vêr os caseiros. Era talvez boa gente com
quem podia distrahir-se. Encontrou uma mulher, alta e lugubre como um
cypreste, carregada de luto: um grande lenço negro tingido, muito puxado
para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha
uma tristeza de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda peor,
semelhante a um ourango-tango, com duas orelhas enormes muito despegadas
do craneo, uma saliencia bestial de queixo, as gengivas deslavadas, um
corpo desengonçado de tisico, de peito mettido para dentro. Abalou bem
depressa, foi vêr o pomar: andava maltratado; as ruasitas estavam
invadidas por um hervaçal humido; e a sombra das arvores muito juntas,
n'um terreno baixo, cercado d'altos muros, dava uma sensação doentia.
Era ainda preferivel passar os seus dias mettida no casarão; dias
infindaveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso d'um
desfilar funerario.
O seu quarto era na frente; e pelas duas janellas recebia a impressão
triste da paizagem que se estendia defronte, uma ondulação monotona de
terras estereis com alguma magra arvore aqui e além, um ar abafado em
que parecia errar constantemente a exhalação de paues proximos e de
baixas humidas, e a que nem o sol de setembro dissipava o tom
sezonatico.
Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josepha, accommodal-a no canapé;
depois vinha costurar para ao pé d'ella--como outr'ora na rua da
Misericordia para ao pé da mãi; mas agora em logar das boas
«cavaqueiras» tinha só o silencio intratavel da velha e a sua ronqueira
incessante. Pensára em fazer vir o seu piano da cidade; mas, apenas em
tal fallou, a velha exclamou com azedume:
--A menina está doida... Não tenho saude para tocatas! Ora o
desproposito!
A Gertrudes tambem não lhe fazia companhia; nas horas em que não estava
ao pé da velha, ou na cozinha, desapparecia; era justamente d'aquella
freguezia, e passava o seu tempo pelos casaes, palrando com as antigas
visinhas.
A peor hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rozario, ficava
junto á janella olhando estupidamente as gradações da luz poente; todos
os campos pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silencio
parecia descer, pousar sobre a terra; depois uma primeira estrellinha
tremeluzia e brilhava; e diante d'ella era então só uma massa inerte de
sombra muda até ao horisonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada
tira côr de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum tom de luz
ou contorno de objecto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para
longe, para a Vieira; áquella hora a mãi e as amigas recolhiam do
passeio na praia; já todas as redes estavam apanhadas; já pelos
palheiros começam a apparecer as luzes; é a hora do chá, dos quinos
alegres, quando os rapazes da cidade vão em rancho pelas casas amigas,
com uma viola e uma flauta, improvisando _soirées_. E ella alli, só!...
Era então necessario deitar a velha, rezar com ella e com a Gertrudes o
terço. Accendiam depois o candieiro de latão, pondo-lhe diante uma velha
chapeleira para dar sombra ao rosto da doente; e todo o serão, no
silencio lugubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava
agachada a um canto.
Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, n'um medo constante
de ladrões; e então começava para Amelia a hora dos terrores
supersticiosos. Não podia adormecer, sentido ao pé a negrura d'aquellas
antigas salas deshabitadas e em redor o tenebroso silencio dos campos.
Ouvia ruidos inexplicaveis: era o soalho do corredor que estalava, sob
passadas mulplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como
sob um halito invisivel; ou a distancia, para os lados da cozinha, o
baque surdo d'um corpo. Accumulava então as orações, encolhida debaixo
da roupa; mas, se adormecia, as visões do pesadêlo continuavam-lhe os
terrores da vigilia. Uma vez acordára de repente, a uma voz que dizia,
gemendo, por traz da alta barra da cama:--_Amelia, prepara-te, o teu fim
chegou!_ Espavorida, em camisa, atravessou correndo a casa, foi
refugiar-se na cama da Gertrudes.
Mas na noite seguinte a voz sepulchral voltou quando ella ia adormecer:
_Amelia, lembra-te dos teus peccados! Prepara-te, Amelia!_ Deu um grito,
desmaiou. Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitára, correu
áquelle ai agudo que cortára o silencio do casarão. Achou-a estirada ao
través do leito, com os cabellos soltos da rede rojando no chão, as mãos
geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e até de
madrugada foi uma azafama para a chamar á vida. Desde esse dia a
Gertrudes dormia ao pé d'ella--e a voz não tornou a ameaçal-a por traz
da barra.
Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéa da morte e o pavor do
inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante d'estampas passou pela
Ricoça; e a snr.^a D. Josepha comprou-lhe duas lithographias--a _Morte
do Justo_ e a _Morte do Peccador_.
--Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse
ella.
Amelia não duvidou ao principio que a velha, que contava morrer no mesmo
apparato de gloria com que expirava o _Justo_ da estampa, lhe quizera
mostrar a ella, a _peccadora_, a scena pavorosa que a esperava. Odiou-a
por aquella «picardia». Mas a sua imaginação aterrada não tardou a dar á
compra da estampa outra explicação: era Nossa Senhora que alli mandára o
vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na lithographia da _Morte
do Peccador_ o espectaculo da sua agonia: e estava então certa que tudo
seria assim, traço por traço--o seu anjo da guarda fugindo aos soluços;
Deus-Padre desviando o rosto d'ella com repugnancia; o esqueleto da
morte rindo ás gargalhadas; e demonios de côres rutilantes, com todo um
arsenal de torturas, apoderando-se d'ella, uns pelas pernas, outros
pelos cabellos, arrastando-a com uivos de jubilo para a caverna
chammejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna
Dôr... E ella podia vêr ainda, no fundo dos céos, a grande balança--com
um dos pratos muito alto onde as suas orações não pesavam mais que uma
penna de canario, e o outro prato cahido, de cordas retesadas,
sustentando a enxerga da cama do sineiro e as suas toneladas de peccado.
Cahiu então n'uma melancolia hysterica que a envelhecia; passava os dias
suja e desarranjada, não querendo dar cuidado ao seu corpo peccador;
todo o movimento, todo o esforço lhe repugnava; as mesmas orações lhe
custavam, como se as julgasse inuteis; e tinha atirado para o fundo
d'uma arca o enxoval que andava a costurar para o filho--porque o
odiava, aquelle sêr que ella sentia mexer-se-lhe já nas entranhas e que
era a causa da sua perdição. Odiava-o--mas menos que o outro, o parocho
que lh'o fizera, o padre malvado que a tentára, a estragára, a atirára
ás chammas do inferno! Que desespero quando pensava n'elle! Estava em
Leiria socegado, comendo bem, confessando outras, namorando-as talvez--e
ella alli sósinha, com o ventre condemnado e enfartado do peccado que
elle lá depuzera, ia-se afundindo na perdição sempiterna!
Decerto esta excitação a teria matado--se não fosse o abbade Ferrão que
começára então a vir vêr muito regularmente a irmã do amigo conego.
Amelia ouvira fallar muitas vezes n'elle na rua da Misericordia;
dizia-se lá que o Ferrão tinha «idéas exquisitas»: mas não era possivel
recusar-lhe nem a virtude da vida nem a sciencia de sacerdote. Havia
muitos annos que era alli abbade; os bispos tinham-se succedido na
diocese, e elle alli ficára esquecido n'aquella freguezia pobre, de
congrua atrazada, n'uma residencia onde chovia pelos telhados. O ultimo
vigario geral, que nunca dera um passo para o favorecer, dizia-lhe
todavia, liberal de palavriado:
--Vossê é um dos bons theologos do reino. Vossê está predestinado por
Deus para um bispado. Vossê ainda apanha a mitra. Vossê ha de ficar na
historia da Igreja portugueza como um grande bispo Ferrão!
--Bispo, senhor vigario geral! Isso era bom! Mas era necessario que eu
tivesse o arrojo d'um Affonso d'Albuquerque ou d'um D. João de Castro,
para aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade!
E alli ficára, entre gente pobre, n'uma aldeia de terra escassa, vivendo
de dois pedaços de pão e uma chavena de leite, com uma batina limpa onde
os remendos faziam um mappa, precipitando-se a uma meia legua por um
temporal desfeito se um parochiano tinha uma dôr de dentes, passando uma
hora a consolar uma velha a quem tinha morrido uma cabra... E sempre de
bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos calções para uma
necessidade do seu visinho, grande amigo de todos os rapazitos a quem
fazia botes de cortiça, e não duvidando parar, se encontrava uma
rapariga bonita, o que era raro na freguezia, e exclamar: «Linda moça,
Deus a abençôe!»
E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era tão celebre, que lhe
chamavam «a donzella».
De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas d'estação aos
pés do Santissimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as
menores praticas da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia
com uma profunda oração mental, uma meditação de fé, d'onde a sua alma
sahia mais agil, como d'um banho fortificante; preparando-se para o
somno com um d'estes longos e piedosos exames de consciencia, tão uteis,
que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarcho e
Seneca, e que são a correcção laboriosa e subtil dos pequenos defeitos,
o aperfeiçoamento meticuloso da virtude activa, emprehendido com um
fervor de poeta que revê um poema querido... E todo o tempo que tinha
vago, abysmava-se n'um cahos de livros.
Tinha só um defeito o abbade Ferrão: gostava de caçar! Cohibia-se,
porque a caça tira muito tempo, e é sanguinario matar uma pobre ave que
anda azafamada pelos campos nos seus negocios domesticos. Mas nas claras
manhãs d'inverno, quando ainda ha orvalho nas giestas, se via passar um
homem d'espingarda ao hombro, o passo vivo, seguido do seu
perdigueiro--iam-se-lhe os olhos n'elle... Ás vezes porém, a tentação
vencia: agarrava furtivamente a espingarda, assobiava á _Janota_, e com
as abas do casacão ao vento, lá ia o theologo illustre, o espelho de
piedade, através de campos e valles... E d'ahi a pouco--pum... pum! Uma
codorniz, uma perdiz em terra! E lá voltava o santo homem com a
espingarda debaixo do braço, os dois passaros na algibeira, cosendo-se
com os muros, rezando o seu rosario á Virgem, e respondendo aos _bons
dias_ da gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso.
O abbade Ferrão, apesar do seu aspecto «gêbo» e do seu grande nariz,
agradou a Amelia, logo desde a primeira visita á Ricoça; e a sua
sympathia cresceu, quando viu que D. Josepha o recebia com pouco
alvoroço, apesar do respeito que o mano conego tinha pela sciencia do
abbade.
A velha, com effeito depois de ter estado só com elle n'uma pratica
d'horas, condemnára-o com uma unica palavra, na sua auctoridade de velha
devota experiente:
--É relaxado!
Não se tinham realmente comprehendido. O bom Ferrão, tendo vivido tantos
annos n'aquella parochia de quinhentas almas, as quaes cahiam todas, de
mães a filhas, no mesmo molde de devoção simples a Nosso Senhor, Nossa
Senhora e S. Vicente, patrono da freguezia, tendo pouca experiencia de
confissão, encontrava-se subitamente diante d'uma alma complicada de
devota de cidade, d'um beaterio caturra e atormentado; e ao ouvir
aquella extraordinaria lista de peccados mortaes, murmurava espantado:
--É estranho, é estranho...
Percebera bem ao principio que tinha diante de si uma d'essas
degenerações morbidas do sentimento religioso, que a theologia chama
_Doença dos escrupulos_--e de que na sua generalidade estão affectadas
hoje todas as almas catholicas; mas depois, a certas revelações da
velha, receou estar realmente em presença d'uma maniaca perigosa; e
instinctivamente, com o singular horror que os sacerdotes têm pelos
doidos, recuou a cadeira.
Pobre D. Josepha! Logo na primeira noite em que chegára á Ricoça
(contava ella), ao começar o rosario a Nossa Senhora, lembrára-lhe de
repente que lhe esquecera o saiote de flanella escarlate, que era tão
efficaz nas dôres das pernas... Trinta e oito vezes de seguida
recomeçára o rosario, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre
ella e Nossa Senhora!... Então desistira, d'exhausta, d'esfalfada. E
immediatamente sentira dôres vivas nas pernas, e tivera como uma voz de
dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe
alfinetes nas pernas...
O abbade pulou:
--Oh, minha senhora!...
--Ai, não é tudo, senhor abbade!
Havia outro peccado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir
a expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na bôca,
tinha de escarrar; ultimamente engulia o escarro, mas estivera pensando
que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia d'embrulhada para o estomago
e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?
O abbade, d'olhar esgazeado, limpava o suor da testa.
Mas isto não era o peor: o grave era, que na noite antecedente estava
toda socegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier--e de
repente, nem ella soube como, põe-se a pensar como seria S. Francisco
Xavier nú em pêllo!
O bom Ferrão não se moveu, atordoado. Emfim, vendo-a a olhar anciosa
para elle, á espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:
--E ha muito que sente esses terrores, essas duvidas...?
--Sempre, senhor abbade, sempre!
--E tem convivido com pessoas que, como a senhora, são sujeitas a essas
inquietações?
--Todas as pessoas que conheço, duzias d'amigas, todo o mundo... O
Inimigo não me escolheu só a mim... A todos se atira...
--E que remedio dava a essas anciedades d'alma...?
--Ai, senhor abbade, aquelles santos da cidade, o senhor parocho, o snr.
Silverio, o snr. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre d'embaraços...
E com uma habilidade, com uma virtude...
O abbade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que
por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim
voluntariamente o rebanho n'aquellas trevas d'alma, mantendo o mundo dos
fieis n'um terror abjecto do céo, representando Deus e os seus santos
como uma côrte que não é menos corrompida nem melhor que a de Caligula e
dos seus libertos.
Quiz então levar áquelle nocturno cerebro de devota, povoado de
phantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as
suas inquietações vinham da imaginação torturada pelo terror d'offender
a Deus... Que o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai
indulgente e amigo... Que é por amor que é necessario servil-o, não por
medo... Que todos esses escrupulos, Nossa Senhora a enterrar alfinetes,
o nome de Deus a cahir no estomago, eram perturbações da razão doente.
Aconselhou-lhe confiança em Deus, bom regimen para ganhar forças. Que
não se cansasse em orações exageradas...
--E quando eu voltar, disse emfim erguendo-se e despedindo-se,
continuaremos a conversar sobre isto, e havemos de serenar essa alma.
--Obrigada, senhor abbade, respondeu a velha sêccamente.
E apenas a Gertrudes d'ahi a pouco entrou a trazer-lhe a botija para os
pés, D. Josepha exclamou, toda indignada, quasi choramingando:
--Ai, não presta p'ra nada, não presta p'ra nada!... Não me percebeu...
É um tapado... É um pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha n'um
sacerdote do Senhor...
Desde esse dia não tornou a revelar ao abbade os peccados medonhos que
continuava a commetter; e quando elle, por dever, quiz recomeçar a
educação da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios que, como se
confessava com o senhor padre Gusmão, não sabia se seria delicado
receber d'outro a direcção moral...
O abbade fez-se vermelho, respondeu:
--Tem razão, minha senhora, tem razão, deve-se ter muita delicadeza
n'essas coisas...
Sahiu. E d'ahi por diante, depois de ter entrado no quarto a saber-lhe
da saude, de ter fallado do tempo, da estação, das doenças que iam,
d'alguma festa na igreja,--apressava-se em se despedir e ir para o
terraço conversar com Amelia.
Vendo-a sempre tão tristonha, interessára-se por ella; para Amelia, as
visitas do abbade eram uma distracção, n'aquella solidão da Ricoça; e
assim se iam familiarisando, a ponto que nos dias em que elle
regularmente vinha, Amelia punha um mantelete e ia pelo caminho dos
Poyaes esperal-o até junto á casa do ferrador. As conversas do abbade,
fallador incansavel, entretinham-na, tão differentes dos mexericos da
rua da Misericordia,--como o espectaculo d'um largo valle com arvores,
plantações, aguas, pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos
habituados ás quatro paredes caiadas d'uma trapeira da cidade. Tinha com
effeito uma d'estas conversações semelhantes aos _jornaes semanaes de
recreio_, o Thesouro das familias ou as Leituras para serões, em que de
ha tudo--doutrina moral, historias de viagens, anecdotas dos grandes
homens, dissertações sobre a lavoura, citação d'uma boa chalaça, traços
sublimes da vida d'um santo, um verso aqui e além, e até receitas, como
uma muito util que deu a Amelia para lavar as flanellas sem encolherem.
Só era monotono quando fallava da sua familia parochiana, dos
casamentos, baptisados, doenças, questões, ou quando começava as suas
historias de caça.
--Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Corrego das Tristes, quando
uma revoada de perdizes...
Amelia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam façanhas da _Janota_,
pontarias fabulosas contadas em mimica, com imitações de vozes de
passaros, e _pum, pum_ de fusilaria. Ou então eram descripções das
caçadas selvagens que elle lêra com gula--a caça ao tigre do Nepal, ao
leão d'Argelia e ao elephante, historias ferozes que arrastavam a
imaginação da rapariga para longe, para os paizes exoticos onde a herva
é alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em braza, e entre
cada ramagem reluzem os olhos d'uma fera... E depois, a proposito de
tigres e de malaios, lembrava-lhe uma historia curiosa de S. Francisco
Xavier, e eil-o lançado, o terrivel palrador, na descripção dos feitos
da Asia, das armadas da India e das estocadas famosas do cerco de Diu!
Foi mesmo um d'esses dias, no pomar, em que o abbade, tendo começado por
enumerar as vantagens que o conego tiraria de transformar o pomar em
terra de lavoura, acabára por contar perigos e valores dos missionarios
da India e do Japão--que Amelia, então em toda a intensidade dos seus
terrores nocturnos, fallou dos ruidos que ouvia na casa e dos
sobresaltos que lhe davam.
--Oh, que vergonha! disse o abbade rindo; uma senhora da sua idade ter
medo de papões...
Ella então, attrahida por aquella bondade do senhor abbade, contou-lhe
as vozes que ouvia de noite por detraz da barra da cama.
O abbade pôz-se sério:
--Minha senhora, isso são imaginações que deve a todo o custo dominar...
Decerto tem havido prodigios no mundo, mas Deus não se põe assim a
fallar a qualquer, por detraz das barras das camas, nem permitte ao
demonio que o faça... Essas vozes, se as ouve, e se os seus peccados são
grandes, não vêm de detraz da cama, vêm-lhe de si mesmas, da sua
consciencia... E póde então fazer dormir ao pé de si a Gertrudes, e cem
Gertrudes, e todo o batalhão de infanteria, que as ha de continuar a
ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é necessario é
calmar a consciencia que reclama penitencia e purificação...
Tinham subido ao terraço, fallando assim: e Amelia sentára-se fatigada
n'um dos bancos de pedra que alli havia, e ficára a olhar a quinta ao
longe, os tectos dos curraes, a longa rua de loureiros, a eira, e a
distancia os campos que se succediam planos e avivados do tom humido que
lhes dera a chuva ligeira da manhã: agora a tarde estava d'uma placidez
clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava
de vivos côr de rosa tenro... Pensava n'aquellas palavras tão sensatas
do abbade, no descanso que gozaria se cada peccado que lhe pesava na
alma como um penedo se tornasse ligeiro e se dissipasse sob a acção da
penitencia. E vinham-lhe desejos de paz, d'um repouso igual á quietação
dos campos que se estendiam diante d'ella.
Um passaro cantou, depois calou-se; e recomeçou d'ahi a um momento com
um trinado tão vibrante, tão alegre, que Amelia sorria, escutando-o.
--É um rouxinol...
--Os rouxinoes não cantam a esta hora, disse o abbade. É um melro... Ahi
está um que não tem medo de phantasmas, nem ouve vozes... Olha que
enthusiasmo, o maganão!
Era com effeito um gorgear triumphante, um delírio de melro feliz, que
dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.
E Amelia, diante d'aquelle chilrear glorioso d'um passaro contente,
subitamente, sem razão, n'um d'estes abalos nervosos que vem às mulheres
hystericas, rompeu a chorar.
--Então, que é isso, que é isso? fez o abbade muito surprehendido.
Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho e d'amigo, calmando-a.
--Que infeliz que sou!... murmurou ella aos soluços.
Elle então muito paternal:
--Não tem razão para o ser... Sejam quaes forem as afflicções, as
inquietações, uma alma christã tem sempre a consolação á mão... Não ha
peccado que Deus não perdôe, nem dôr que não calme, lembre-se d'isso...
O que não deve é guardar em si o seu desgosto... É isso que a suffoca,
que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, socegal-a, é procurar-me...
--Quando? disse ella toda desejosa já de se refugiar na protecção
d'aquelle santo homem.
--Quando quizer, disse elle rindo. Eu não tenho horas para consolar... A
igreja está sempre aberta, Deus está sempre presente...
Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amelia foi á
residencia; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno
confessionario de pinho--que o bom abbade por suas mãos pintára d'azul
escuro, com extraordinarias cabecinhas d'anjos que em logar d'orelhas
tinham azas, uma obra d'alta arte de que elle fallava com uma secreta
vaidade.