XIV

João Eduardo, á noitinha, ia sahir de casa para a rua da Misericordia,

levando debaixo do braço um rolo de amostras de papel de parede para

Amelia escolher, quando á porta encontrou a _Ruça_ que ia puxar a

campainha.

--Que é, _Ruça_?

--As senhoras foram passar a noite fóra de casa, e aqui está esta carta

que manda a menina.

João Eduardo sentiu apertar-se-lhe o coração, e seguia com o olhar

pasmado a _Ruça_, que descia a rua, batendo os tamancos. Foi ao pé do

candieiro, defronte, abriu a carta:

«Snr. João Eduardo.

«O que estava decidido a respeito do nosso casamento era na persuasão

que era v. s.^a uma pessoa de bem e que me poderia fazer feliz; mas como

se sabe tudo, e que foi o senhor que escreveu o artigo do _Districto_, e

calumniou os amigos da casa e me insultou a mim, e como os seus costumes

não me dão garantia de felicidade na vida de casada, deve desde hoje

considerar tudo acabado entre nós, pois não ha banhos publicados nem

despezas feitas. E eu espero, bem como a mamã, que o senhor seja

bastante delicado para não nos voltar a casa, nem perseguir-nos na rua.

O que tudo lhe communico por ordem da mamã, e sou

«criada de v. s.^a

«_Amelia Caminha_».

João Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede defronte onde batia a

claridade do candieiro, immovel como uma pedra, com o seu rolo de papeis

pintados debaixo do braço. Machinalmente voltou a casa. As mãos

tremiam-lhe tanto, que mal podia accender o candieiro. De pé, junto da

mesa, releu a carta. Depois ficou alli, fatigando a vista contra a

chamma da torcida, com uma sensação arrefecedora de Immobilidade e de

Silencio, como se subitamente, sem choque, toda a vida universal tivesse

emmudecido e parado. Pensou onde teriam _ellas_ ido passar a noite.

Lembranças de serões felizes na rua da Misericordia atravessaram-lhe

devagar na memoria: Amelia trabalhava, com a cabeça baixa, e entre o

cabello muito preto e o collar muito branco o seu pescoço tinha uma

pallidez que a luz amaciava... Então a idéa de que a perdera para sempre

varou-lhe o coração com um frio de punhalada. Apertou as fontes entre as

mãos, tonto. Que havia de fazer? que havia de fazer? Resoluções bruscas

relampejavam-lhe um momento no espirito, esvaiam-se. Queria

escrever-lhe! tiral-a por justiça! ir para o Brazil! saber quem

descobrira que elle era o auctor do artigo!--E como isto era o mais

practicavel áquella hora, correu á redacção da _Voz do Districto_.

Agostinho, estirado no canapé, com a véla ao pé sobre uma cadeira,

saboreava os jornaes de Lisboa. A face decomposta de João Eduardo

assustou-o.

--Que é?

--É que me perdeste, maroto!

E d'um só fôlego accusou furiosamente o corcunda de o ter trahido.

Agostinho erguera-se devagar, procurando imperturbavel a bolsa do tabaco

na algibeira da jaqueta.

--Homem, disse, nada d'espalhafatos... Eu dou-te a minha palavra d'honra

que não disse a ninguem do _Communicado_. É verdade que ninguem me

perguntou...

--Mas quem foi, então? gritou o escrevente.

Agostinho enterrou a cabeça nos hombros.

--Eu o que sei é que os padres andavam n'uma azafama para saber quem

era. O Natario esteve ahi uma manhã, por causa do annuncio de uma viuva

que recorre á caridade publica, mas do _Communicado_ não se disse nem

palavra... O doutor Godinho é que sabia, entende-te com elle! Mas então

fizeram-te alguma?

--Mataram-me! disse João Eduardo lugubremente.

Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, e sahiu arremessando a

porta. Passeou na Praça; foi ao acaso pelas ruas; depois, attrahido pela

obscuridade, á estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma intoleravel

palpitação surda latejar-lhe interiormente contra as fontes; apesar de

ventar forte nos campos, parecia-lhe seguir n'um silencio universal; por

vezes a idéa da sua desgraça rasgava-lhe subitamente o coração, e então

imaginava vêr toda a paizagem oscillar e o chão da estrada

afigurava-se-lhe molle como um lamaçal. Voltou pela Sé quando batiam

onze horas; e achou-se na rua da Misericordia, com o olhar cravado para

a janella da sala de jantar, onde havia ainda luz; a vidraça do quarto

d'Amelia alumiou-se tambem; ella ia deitar-se, decerto... Veio-lhe um

desejo furioso da sua belleza, do seu corpo, dos seus beijos. Fugiu para

casa: uma fadiga intoleravel prostrou-o sobre a cama; depois uma saudade

indefinida, profunda, foi-o amollecendo, e chorou muito tempo,

enternecendo-se mais com o som dos seus proprios soluços,--até que ficou

adormecido, de bruços, n'uma massa inerte.

Ao outro dia, cedo, Amelia vinha da rua da Misericordia para a Praça,

quando ao pé do Arco João Eduardo lhe sahiu d'emboscada.

--Quero-lhe fallar, menina Amelia.

Ella recuou assustada, disse a tremer:

--Não tem que me fallar...

Mas elle plantára-se diante d'ella, muito decidido, com os olhos

vermelhos como carvões:

--Quero-lhe dizer... Lá do artigo, é verdade, fui eu que o escrevi, foi

uma desgraça; mas a menina tinha-me ralado de ciumes... Mas o que a

menina diz de maus costumes é uma calumnia. Eu sempre fui um homem de

bem...

--O senhor padre Amaro é que o conhece! Faz favor de me deixar passar...

Ao nome do parocho, João Eduardo fez-se livido de raiva:

--Ah! é o senhor padre Amaro! É o maroto do padre! Pois veremos! Ouça...

--Faz favor de me deixar passar! disse ella irritada, tão alto, que um

sujeito gordo de chale-manta parou olhando.

João Eduardo recuou, tirando o chapéo; e ella, immediatamente,

refugiou-se na loja do Fernandes.

Então, n'um desespero, correu a casa do doutor Godinho. Já na vespera,

por entre os seus-accessos de chôro, sentindo-se tão abandonado, se

lembrára do doutor Godinho. Fôra outr'ora seu escrevente; e como por

pedido d'elle entrára no cartorio do Nunes Ferral, e por sua influencia

ia ser accommodado no governo civil, julgava-o uma Providencia prodiga e

inesgotavel! Demais, desde que escrevera o _Communicado_ considerava-se

da redacção da _Voz do Districto_, do grupo da Maia; agora, que era

atacado pelos padres, devia claramente ir acolher-se á forte protecção

do seu chefe, do doutor Godinho, do inimigo da reacção, o «Cavour de

Leiria», como dizia, arregalando os olhos, o bacharel Azevedo, auctor

dos _Ferrões_.--E João Eduardo, dirigindo-se ao casarão amarello, ao pé

do Terreiro onde o doutor vivia, ia n'um alvoroço d'esperanças, contente

com se refugiar, como um cão escorraçado, entre as pernas d'aquelle

colosso.

O doutor Godinho descera já ao escriptorio, e repoltreado na sua

poltrona abbacial de prégos amarellos, com os olhos no tecto de carvalho

escuro, acabava com beatitude o charuto do almoço. Recebeu com magestade

os «bons dias» de João Eduardo.

--Então que temos, amigo?

As altas estantes d'in-folios graves, as resmas d'autos, o apparatoso

painel representando o marquez de Pombal, de pé n'um terraço sobre o

Tejo, expulsando com o dedo a esquadra ingleza--acanharam como sempre

João Eduardo; e foi com voz embaraçada que disse vinha alli para que sua

excellencia lhe désse remedio n'uma desgraça que lhe succedia.

--Desordens, bordoada?

--Não, senhor, negocios de familia.

Contou então, prolixamente, a sua historia desde a publicação do

_Communicado_: leu muito commovido, a carta d'Amelia; descreveu a scena

ao pé do Arco... Alli estava agora, escorraçado da rua da Misericordia

por obras do senhor parocho! E parecia-lhe a elle, apesar de não ser

formado em Coimbra, que contra um padre que se introduzia n'uma familia,

desinquietava uma menina simples, a levava por intrigas a romper com o

noivo e ficava de portas a dentro senhor d'ella--devia haver leis!

--Eu não sei, senhor doutor, mas deve haver leis!

O doutor Godinho parecia contrariado.

--Leis!? exclamou traçando vivamente a perna. Que leis quer vossê que

haja? Quer querelar do parocho?... Porque? Elle bateu-lhe? roubou-lhe o

relogio? insultou-o pela imprensa? Não. Então?...

--Oh, senhor doutor! mas intrigou-me com as senhoras! Eu nunca fui homem

de maus costumes, senhor doutor! Calumniou-me!

--Tem testemunhas?

--Não, senhor.

--Então?

E o doutor Godinho, assentando os cotovêlos sobre a banca, declarou que

como advogado não tinha nada a fazer. Os tribunaes não tomavam

conhecimento d'essas questões, d'esses dramas moraes por assim dizer,

que se passavam nas alcovas domesticas... Como homem, como particular,

como Alipio de Vasconcellos Godinho tambem não podia intervir porque não

conhecia o senhor padre Amaro, nem essas senhoras da rua da

Misericordia... Lamentava o facto, porque emfim fôra novo, sentira a

poesia da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o que eram esses

transes do coração... E ahi está tudo o que elle podia fazer--lamentar!

Tambem para que tinha elle dado a sua affeição a uma beata?...

João Eduardo interrompeu-o:

--A culpa não é d'ella, senhor doutor! A culpa é do padre que a anda a

desencaminhar! A culpa é d'essa canalha do cabido!

O doutor Godinho estendeu com severidade a mão, e aconselhou o snr. João

Eduardo que tivesse cuidado com semelhantes asserções! Nada provava que

o senhor parocho possuisse n'essa casa outra influencia que não fosse a

d'um habil director espiritual... E recommendava ao snr. João Eduardo,

com a auctoridade que lhe davam os annos e a sua posição no paiz, que

não fosse espalhar, por despeito, accusações que só serviam para

destruir o prestigio do sacerdocio, indispensavel n'uma sociedade bem

constituida!--Sem elle, tudo seria anarchia e orgia!

E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava n'essa manhã com «o dom

da palavra».

Mas a face consternada do escrevente, que não se movia, de pé junto á

banca, impacientava-o; e disse com seccura, puxando para diante de si um

volume d'autos:

--Emfim, acabemos, que quer o amigo? Já vê, eu não lhe posso dar

remedio.

João Eduardo replicou, com um movimento de coragem desesperada:

--Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer alguma coisa por mim...

Porque emfim eu fui uma victima... Tudo isto vem de se saber que eu

escrevi o _Communicado_. E tinha-se combinado que havia de ser segredo.

O Agostinho não o disse, só o senhor doutor o sabia...

O doutor pulou de indignação na sua cadeira abbacial:

--Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a entender que fui eu que o

disse? Não disse... Isto é, disse; disse-o a minha mulher, porque n'uma

familia bem constituida não deve haver segredos entre esposo e esposa.

Ella perguntou-me, disse-lh'o... Mas supponhamos que fui eu que o

espalhei pelas ruas. De duas uma: ou o _Communicado_ era uma calumnia, e

então sou eu que devo accusal-o de ter polluido um jornal honrado com um

acervo de diffamaçães; ou era verdade, e então que homem é o senhor que

se envergonha das verdades que solta, e que não se atreve a manter á luz

do dia as opiniões que redigiu na escuridão da noite?

Duas lagrimas ennevoaram os olhos de João Eduardo. Então, diante

d'aquella expressão esmorecida, satisfeito de o ter esmagado com uma

argumentação tão logica e tão poderosa, o doutor Godinho abrandou:

--Bem, não nos zanguemos, disse. Não se falla mais era pontos d'honra...

O que póde acreditar é que lamento o seu desgosto.

Deu-lhe conselhos de uma solicitude paternal. Que não succumbisse; havia

mais meninas em Leiria e meninas de bons principios que não viviam sob a

direcção da sotaina. Que fosse forte, e que se consolasse pensando que

elle, doutor Godinho--e era elle!--tambem tivera em moço desgostos do

coração. Que evitasse o dominio das paixões que lhe seria prejudicial na

carreira publica. E que se o não fizesse por seu interesse proprio, o

fizesse ao menos em attenção a elle, doutor Godinho!

João Eduardo sahiu do escriptorio, indignado, julgando-se «trahido» pelo

doutor.

--Isto succede-me a mim, resmungava, porque sou um pobre diabo, não dou

votos nas eleições, não vou ás _soirées_ do Novaes, não subscrevo para o

club. Ah, que mundo! Se eu tivesse um par de contos de reis!...

Veio-lhe então um desejo furioso de se vingar dos padres, dos ricos, e

da religião que os justifica. Voltou muito decidido ao escriptorio, e

entreabrindo a porta:

--Vossa excellencia ao menos agora dá licença que eu desabafe no

jornal?... Queria contar esta maroteira, cascar n'essa canalha...

Esta audacia do escrevente indignou o doutor. Endireitou-se com

severidade na poltrona, e cruzando terrivelmente os braços:

--O snr. João Eduardo está realmente a abusar! Pois o senhor vem-me

pedir que transforme um jornal d'idéas n'um jornal de diffamações!? Vá,

não se prenda! Peça-me que insulte os principios da religião, que

achincalhe o Redemptor, que repita as babuseiras de Renan, que ataque as

leis fundamentaes do Estado, que injurie o rei, que vitupere a

instituição da familia! O senhor está ebrio!

--Oh, senhor doutor!

--O senhor está ebrio! Cuidado, meu caro amigo, cuidado, olhe que vai

por um declive! É por esse caminho que se chega a perder o respeito da

auctoridade, da lei, das coisas santas e do lar. É por esse caminho que

se vai ao crime! Escusa d'arregalar os olhos... Ao crime, digo-lh'o eu!

Tenho a experiencia de vinte annos de fôro. Homem, detenha-se! refreie

essas paixões! Safa! Que idade tem o senhor?

--Vinte e seis annos.

--Pois não ha desculpa para um homem de vinte e seis annos ter essas

idéas subversivas. Adeus, feche a porta. E escute: escusa de pensar em

mandar outro _Communicado_ para outro qualquer jornal. Não lh'o

consinto, eu que o tenho protegido sempre! Havia de querer fazer

espalhafato... Escusa de negar, estou-lh'o a lêr nos olhos. Pois não

lh'o consinto! É para seu bem, para lhe poupar uma má acção social!

Tomou uma grande attitude na poltrona, repetiu com força:

--Uma pessima acção social! Aonde nos querem os senhores levar com os

seus materialismos, os seus atheismos?! Quando tiverem dado cabo da

religião de nossos paes, que têm os senhores para a substituir?! Que

têm?! Mostre lá!

A expressão embaraçada de João Eduardo (que não tinha alli, para a

mostrar, uma religião que substituisse a de nossos paes) fez triumphar o

doutor.

--Não têm nada! Têm lama, quando muito têm palavriado! Mas emquanto eu

fôr vivo, pelo menos em Leiria, ha de ser respeitada a Fé e o principio

da Ordem! Podem pôr a Europa a fogo e sangue, em Leiria não hão de

erguer cabeça. Em Leiria estou eu álerta, e juro que lhes hei de ser

funesto!

João Eduardo recebia d'hombros vergados estas ameaças, sem as

comprehender. Como podia o seu _Communicado_ e as intrigas da rua da

Misericordia produzirem assim catastrophes sociaes e revoluções

religiosas! Tanta severidade aniquilava-o. Ia perder decerto a amizade

do doutor, o emprego no governo civil... Quiz abrandal-o:

--Oh, senhor doutor, mas vossa excellencia bem vê...

O doutor interrompeu-o com um grande gesto:

--Eu vejo perfeitamente. Vejo que as paixões, a vingança o vão levando

por um caminho fatal... O que espero é que os meus conselhos o detenham.

Bem, adeus. Feche a porta. Feche a porta, homem!

João Eduardo sahiu acabrunhado. Que havia de fazer agora? O doutor

Godinho, aquelle colosso, repellia-o com palavras tremendas! E que podia

elle, pobre escrevente de cartorio, contra o padre Amaro que tinha por

si o clero, o chantre, o cabido, os bispos, o Papa, classe solidaria e

compacta que lhe apparecia como uma medonha cidadella de bronze

erguendo-se até ao céo?! Eram elles que tinham causado a resolução

d'Amelia, a sua carta, a dureza das suas palavras. Era uma intriga de

parochos, conegos e beatas. Se elle pudesse arrancal-a áquella

influencia, ella tornaria a ser bem depressa a sua Ameliasinha que lhe

bordava chinelas, e que vinha toda córada vêl-o passar á janella! As

suspeitas que outr'ora tivera tinham-se desvanecido n'aquelles serões

felizes, depois de decidido o casamento, quando ella, costurando junto

do candieiro, fallava da mobilia que havia de comprar e dos arranjos da

sua casinha. Ella amava-o, decerto... Mas quê! tinham-lhe dito que elle

era o auctor do _Communicado_, que era hereje, que tinha costumes

devassos; o parocho, na sua voz pedante, ameaçára-a com o inferno; o

conego, furioso, e todo poderoso na rua da Misericordia porque dava para

a panella, fallára têso--e a pobre menina, assustada, dominada, com

aquelle bando tenebroso de padres e de beatas a cochicharem-lhe ao

ouvido, coitada, cedera! Estava talvez persuadida, de boa fé, que elle

era uma fera! E áquella hora, emquanto elle alli andava pelas ruas,

escorraçado e desgraçado, o padre Amaro, na saleta da rua da

Misericordia, enterrado na poltrona, senhor da casa e senhor da

rapariga, de perna traçada, palrava d'alto! Canalha! E não haver leis

que o vingassem! e não poder sequer «fazer escandalo», agora que a _Voz

do Districto_ se lhe tornava inaccessivel!

Vinham-lhe então desejos furiosos de demolir o parocho aos murros, com a

força do padre Brito. Mas o que o satisfaria mais seriam artigos

tremendos n'um jornal que revelassem as intrigas da rua da Misericordia,

amotinassem a opinião, cahissem sobre o padre como catastrophes, o

forçassem a elle, ao conego e aos outros a desapparecerem corridos da

casa da S. Joanneira! Ah! estava certo que a Ameliasinha, livre

d'aquelles galfarros, correria logo aos seus braços, com lagrimas de

reconciliação...

Procurava assim á força convencer-se que «a culpa não era d'ella»;

recordava os mezes de felicidade antes da chegada do parocho; arranjava

explicações naturaes para aquellas maneirinhas ternas que ella outr'ora

tinha para o padre Amaro, e que lhe tinham dado ciumes

desesperados:--era o desejo, coitada, de ser agradavel ao hospede, ao

amigo do senhor conego, de o reter para vantagem da mãi e da casa! E

além d'isso, como ella andava contente depois de resolvido o casamento!

A sua indignação contra o _Communicado_, estava certo, não era natural

d'ella--vinha-lhe soprada pelo parocho e pelas beatas. E achava uma

consolação n'esta idéa que não era repellido como namorado, como

marido--mas que era uma victima das intrigas do torpe padre Amaro, que

lhe desejava a noiva e que o odiava como liberal! Isto accumulava-lhe na

alma um rancor desordenado contra o padre; descendo a rua procurava

anciosamente uma vingança, atirando a imaginação aqui e além--mas

vinha-lhe sempre a mesma idéa, o artigo de jornal, a verrina, a

imprensa! A certeza da sua fraqueza desprotegida revoltava-o. Ah, se

tivesse por si um «figurão»!

Um homem do campo, amarello como uma cidra, que ia caminhando devagar,

com o braço ao peito, deteve-o a perguntar-lhe onde morava o doutor

Gouvêa.

--Na primeira rua, á esquerda, o portão verde ao pé do lampeão, disse

João Eduardo.

E uma esperança immensa alumiou-lhe bruscamente a alma: o doutor Gouvêa

é que o podia salvar! O doutor era seu amigo: tratava-o por _tu_ desde

que o curára havia tres annos da pneumonia; approvava muito o seu

casamento com Amelia; havia ainda semanas perguntára-lhe ao pé da

Praça:--«Então, quando se faz essa rapariga feliz?» E que respeitado,

que temido na rua da Misericordia! Era medico de todas as amigas da casa

que, apesar de se escandalisarem com a sua irreligião, dependiam

humildemente da sua sciencia para os achaques, os flatos, os xaropes.

Além d'isso, o doutor Gouvêa, inimigo decidido da «padraria», decerto se

ia indignar com aquella intriga beata: e João Eduardo via-se já entrando

na rua da Misericordia atraz do doutor Gouvêa, que reprehendia a S.

Joanneira, arrasava o padre Amaro, convencia as velhas,--e a sua

felicidade recomeçava, inabalavel agora!

--O senhor doutor está? perguntou elle quasi alegre, á criada que no

pateo estendia a roupa ao sol.

--Está na consulta, snr. Joãosinho, faça favor d'entrar.

Em dias de mercado os doentes do campo affluiam sempre. Mas áquella

hora--quando os visinhos das freguezias se reunem nas tabernas--havia só

um velho, uma mulher com uma criança ao collo e o homem do braço ao

peito, esperando n'uma saleta baixa com bancos, dois manjaricões na

janella e uma grande gravura da Coroação da Rainha Victoria. Apesar do

sol claro que entrava do pateo, e de uma fresca folhagem de tilia que

roçava o peitoril da janella, a saleta dava tristeza, como se as

paredes, os bancos, os mesmos manjaricões estivessem saturados da

melancolia das doenças que alli tinham passado. João Eduardo entrou e

sentou-se a um canto.

Tinha batido meio dia, e a mulher estava-se queixando de ter esperado

tanto: era de uma freguezia distante, deixára no mercado a irmã, e havia

uma hora que o senhor doutor estava com duas senhoras! A cada momento a

criança rabujava, ella sacudia-a nos braços: calavam-se depois: o velho

arregaçava a calça, contemplava com satisfação uma chaga na canella

envolta em trapos: e o outro homem dava bocejos desconsolados que

tornavam mais lugubre a sua longa face amarella. Aquella demora

enervava, amollecia o escrevente; sentia perder gradualmente o animo de

occupar o doutor Gouvêa; preparava laboriosamente a sua historia, mas

ella parecia-lhe agora bem insufficiente para o interessar. Vinha-lhe

então um desalento, que as faces insipidas dos doentes tornavam ainda

mais intenso. Positivamente era uma coisa bem triste esta vida, cheia só

de miserias, de sentimentos trahidos, de afflicções, de doenças!

Erguia-se; e com as mãos atraz das costas ia olhar desconsoladamente a

Coroação da Rainha Victoria.

De vez em quando a mulher entreabria a porta, a espreitar se as duas

senhoras ainda lá estariam. Lá estavam; e através do batente de baeta

verde, que fechava o gabinete do doutor, sentia-se as suas vozes

pachorrentas palrarem.

--Em cahindo aqui é dia perdido! rosnava o velho.

Tambem elle deixára a cavalgadura á porta do Fumaça, e a rapariga na

praça... E o que teria a esperar na botica, depois! Com tres legoas

ainda a fazer para voltar á freguezia!... Ser doente é bom, mas para

quem é rico e tem vagares!

A idéa da doença, da solidão que ella traz, faziam agora parecer a João

Eduardo mais amarga a perda de Amelia. Se adoecesse teria de ir para o

hospital. O malvado do padre tirára-lhe tudo--mulher, felicidade,

confortos de familia, dôces companhias da vida!

Emfim sentiram no corredor as duas senhoras que sahiam. A mulher com a

criança apanhou o seu cabaz, precipitou-se. E o velho, apoderando-se

logo do banco junto da porta, disse com satisfação:

--Agora cá o patrão!

--Vossemecê tem muito que consultar? perguntou-lhe João Eduardo.

--Não senhor, é só receber a receita.

E immediatamente contou a historia da sua chaga: fôra uma trave que lhe

cahira em cima; não fizera caso; depois a ferida assanhára-se; e agora

alli estava, manco e cortidinho de dôres.

--E vossa senhoria, é coisa de cuidado? perguntou elle.

--Eu não estou doente, disse o escrevente. São negocios com o senhor

doutor.

Os dois homens olharam-n'o com inveja.

Emfim foi a vez do velho, depois a do homem amarello de braço ao peito.

João Eduardo, só, passeava nervoso pela saleta. Parecia-lhe agora muito

difficil ir assim, sem ceremonia, pedir protecção ao doutor. Com que

direito?... Lembrou-se de se queixar primeiro de dôres do peito ou

desarranjos de estomago, e depois, incidentalmente, contar os seus

infortunios...

Mas a porta abriu-se. O doutor estava diante d'elle, com a sua longa

barba grisalha que lhe cahia sobre a quinzena de velludo preto, o largo

chapéo desabado na cabeça, calçando as luvas de fio d'Escocia.

--Ólá! és tu, rapaz! Ha novidade na rua da Misericordia?

João Eduardo córou.

--Não senhor, senhor doutor, queria-lhe fallar em particular.

Seguiu-o ao gabinete--o conhecido gabinete do doutor Gouvêa, que com o

seu cahos de livros, o seu tom poeirento, uma panoplia de flechas

selvagens e duas cegonhas empalhadas, tinha na cidade a reputação d'uma

«cella d'alchimista».

O doutor puxou o seu _cebolão_.

--Um quarto para as duas. Sê breve.

A face do escrevente exprimiu o embaraço de condensar uma narração tão

complicada.

--Está bom, disse o doutor, explica-te como puderes. Não ha nada mais

difficil que ser claro e breve; é necessario ter genio. Que é?

João Eduardo então tartamudeou a sua historia, insistindo sobretudo na

perfidia do padre, exagerando a innocencia de Amelia...

O doutor escutava-o, cofiando a barba.

--Vejo o que é. Tu e o padre, disse elle, quereis ambos a rapariga. Como

elle é o mais esperto e o mais decidido, apanhou-a elle. É lei natural:

o mais forte despoja, elimina o mais fraco; a femea e a prêsa

pertencem-lhe.

Aquillo pareceu a João Eduardo um gracejo. Disse com a voz perturbada:

--Vossa excellencia está a caçoar, senhor doutor, mas a mim

retalha-se-me o coração!

--Homem, acudiu o doutor com bondade, estou a philosophar, não estou a

caçoar... Mas emfim, que queres tu que eu te faça?

Era o que o doutor Godinho lhe tinha dito, tambem, com mais pompa!

--Eu tenho a certeza que se vossa excellencia lhe fallasse...

O doutor sorriu:

--Eu posso receitar á rapariga _este ou aquelle xarope_, mas não lhe

posso impôr _este ou aquelle homem_! Queres que lhe vá dizer: «A menina

ha de preferir aqui o snr. João Eduardo?» Queres que vá dizer ao padre,

um maganão que eu nunca vi: «O senhor faz favor de não seduzir esta

menina?»

--Mas calumniaram-me, senhor doutor, apresentaram-me como um homem de

maus costumes, um patife...

--Não, não te calumniaram. Sob o ponto de vista do padre e d'aquellas

senhoras que jogam á noite o quino na rua da Misericordia tu és um

patife: um christão que nos periodicos vitupera abbades, conegos, curas,

personagens tão importantes para se communicar com Deus e para se salvar

a alma, é um patife. Não te calumniaram, amigo!

--Mas, senhor doutor...

--Escuta. E a rapariga, descartando-se de ti em obediencia ás

instrucções do senhor padre fulano ou sicrano, comporta-se como uma boa

catholica. É o que te digo. Toda a vida do bom catholico, os seus

pensamentos, as suas idéas, os seus sentimentos, as suas palavras, o

emprego dos seus dias e das suas noites, as suas relações de familia e

de visinhança, os pratos do seu jantar, o seu vestuario e os seus

divertimentos--tudo isto é regulado pela auctoridade ecclesiastica

(abbade, bispo ou conego), approvado ou censurado pelo confessor,

aconselhado e ordenado pelo _director da consciencia_. O bom catholico,

como a tua pequena, não se pertence; não tem razão, nem vontade, nem

arbitrio, nem sentir proprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente

por ella. O seu unico trabalho n'este mundo, que é ao mesmo tempo o seu

unico direito e o seu unico dever, é aceitar esta direcção; aceital-a

sem a discutir; obedecer-lhe, dê por onde der; se ella contraria as suas

idéas, deve pensar que as suas idéas são falsas; se ella fere as suas

affeições, deve pensar que as suas affeições são culpadas. Dado isto, se

o padre disse á pequena que não devia nem casar, nem sequer fallar

comtigo, a creatura prova, obedecendo-lhe, que é uma boa catholica, uma

devota consequente, e que segue na vida, logicamente, a regra moral que

escolheu. Aqui está, e desculpa o sermão.

João Eduardo ouvia com respeito, com espanto estas phrases, a que a face

placida, a bella barba grisalha do doutor davam uma auctoridade maior.

Parecia-lhe agora quasi impossivel recuperar Amelia, se ella pertencia

assim tão absolutamente, alma e sentidos, ao padre que a confessava. Mas

emfim, porque era elle considerado um marido prejudicial?

--Eu comprehenderia, disse, se fosse um homem de maus costumes, senhor

doutor. Mas eu porto-me bem; eu não faço senão trabalhar; eu não

frequento tabernas nem troças; eu não bebo, eu não jógo; as minhas

noites passo-as na rua da Misericordia, ou em casa a fazer serão para o

cartorio...

--Meu rapaz, tu pódes ter socialmente todas as virtudes; mas, segundo a

religião de nossos paes, todas as virtudes que não são catholicas são

inuteis e perniciosas. Ser trabalhador, casto, honrado, justo,

verdadeiro, são grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja não

contam. Se tu fôres um modelo de bondade mas não fôres á missa, não

jejuares, não te confessares, não te desbarretares para o senhor

cura--és simplesmente um maroto. Outros personagens maiores que tu, cuja

alma foi perfeita e cuja regra de vida foi impeccavel, têm sido julgados

verdadeiros canalhas porque não foram baptisados antes de ter sido

perfeitos. Has de ter ouvido fallar de Socrates, d'um outro chamado

Platão, de Catão, etc... Foram sujeitos famosos pelas suas virtudes.

Pois um certo Bossuet, que é o grande chavão da doutrina, disse que das

virtudes d'esses homens estava cheio o inferno... Isto prova que a moral

catholica é differente da moral natural e da moral social... Mas são

coisas que tu comprehendes mal... Queres tu um exemplo? Eu sou, segundo

a doutrina catholica, um dos grandes desavergonhados que passeiam as

ruas da cidade; e o meu visinho Peixoto, que matou a mulher com pancadas

e que vai dando cabo pelo mesmo processo de uma filhita de dez annos, é

entre o clero um homem excellente porque cumpre os seus deveres de

devoto e toca figle nas missas cantadas. Emfim, amigo, estas coisas são

assim. E parece que são boas, porque ha milhares de pessoas respeitaveis

que as consideram boas, o Estado mantem-as, gasta até um dinheirão para

as manter, obriga-nos mesmo a respeital-as--e eu, que estou aqui a

fallar, pago todos os annos um quartinho para que ellas continuem a ser

assim. Tu naturalmente pagas menos...

--Pago sete vintens, senhor doutor.

--Mas emfim vaes ás festas, ouves musica, sermão, desforras-te dos teus

sete vintens. Eu, o meu quartinho perco-o; consolo-me apenas com a idéa

de que vai ajudar a manter o esplendor da Igreja--da Igreja que em vida

me considera um bandido, e que para depois de morto me tem preparado um

inferno de primeira classe. Emfim, parece-me que temos cavaqueando

bastante... Que queres mais?

João Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava o doutor,

parecia-lhe, mais que nunca, que se um homem de palavras tão sabias, de

tantas idéas, se interessasse por elle, toda a intriga seria facilmente

desfeita e a sua felicidade, o seu logar na rua da Misericordia

recobrados para sempre.

--Então vossa excellencia não póde fazer nada por mim? disse muito

desconsolado.

--Eu posso talvez curar-te d'outra pneumonia. Tens outra pneumonia a

curar? Não? Então...

João Eduardo suspirou:

--Sou uma victima, senhor doutor!

--Fazes mal. Não deve haver victimas, quando não seja senão para impedir

que haja tyrannos--disse o doutor, pondo o seu largo chapéo desabado.

--Porque no fim de tudo, exclamou ainda João Eduardo que se prendia ao

doutor com uma sofreguidão d'afogado, no fim de tudo o que o patife do

parocho quer, com todos os seus pretextos, é a rapariga! Se ella fosse

um camafeu, bem se importava o maroto que eu fosse um impio ou não! O

que elle quer é a rapariga!

O doutor encolheu os hombros.

--É natural, coitado--disse, já com a mão no fecho da porta. Que queres

tu? Elle tem para as mulheres, como homem, paixões e orgãos; como

confessor, a importancia d'um Deus. É evidente que ha de utilisar essa

importancia para satisfazer essas paixões; e que ha de cobrir essa

satisfação natural com as apparencias e com os pretextos do serviço

divino... É natural.

João Eduardo então, vendo-o abrir a porta, desvanecer-se a esperança que

o trouxera alli, disse, furioso, vergastando o ar com o chapéo:

--Canalha de padres! Foi raça que sempre detestei! Queria-a vêr varrida

da face da terra, senhor doutor!

--Isso é outra tolice, disse o doutor, resignando-se a escutal-o ainda,

e parando á porta do quarto. Ouve lá. Tu crês em Deus? no Deus do céo,

no Deus que lá está no alto do céo, e que é lá de cima o principio de

toda a justiça e de toda a verdade?

João Eduardo, surprehendido, disse:

--Eu creio, sim senhor.

--E no peccado original?

--Tambem...

--Na vida futura, na redempção, etc?

--Fui educado n'essas crenças...

--Então para que queres varrer os padres da face da terra? Deves pelo

contrario ainda achar que são poucos. És um liberal racionalista nos

limites da Carta, ao que vejo... Mas se crês no Deus do céo, que nos

dirige lá de cima, e no peccado original, e na vida futura, precisas

d'uma classe de sacerdotes que te expliquem a doutrina e a moral

revelada de Deus, que te ajudem a purificar da macula original e te

preparem o teu logar no paraiso! Tu necessitas dos padres. E parece-me

mesmo uma terrivel falta de logica que os desacredites pela imprensa...

João Eduardo, attonito, balbuciou:

--Mas vossa excellencia, senhor doutor... Desculpe-me vossa excellencia,

mas...

--Dize, homem. Eu quê?

--Vossa excellencia não precisa dos padres n'este mundo...

--Nem no outro. Eu não preciso dos padres no mundo, porque não preciso

do Deus do céo. Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro

em mim, isto é, o principio que dirige as minhas acções e os meus

juizos. Vulgo Consciencia... Talvez não comprehendas bem... O facto é

que estou aqui a expôr doutrinas subversivas... E realmente são tres

horas...

E mostrou-lhe o _cebolão_.

Á porta do pateo, João Eduardo disse-lhe ainda:

--Vossa excellencia então desculpe, senhor doutor...

--Não ha de quê... Manda a rua da Misericordia ao diabo!

João Eduardo interrompeu com calor:

--Isso é bom de dizer, senhor doutor, mas quando a paixão está a roer cá

por dentro!...

--Ah! fez o doutor, é uma bella e grande coisa a paixão! O amor é uma

das grandes forças da civilisação. Bem dirigida levanta um mundo e

bastava para nos fazer a revolução moral...--E mudando de tom:--Mas

escuta. Olha que isso ás vezes não é paixão, não está no coração... O

coração é ordinariamente um termo de que nos servimos, por decencia,

para designar outro orgão. É precisamente esse orgão o unico que está

interessado, a maior parte das vezes, em questões de sentimento. E

n'esses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo que seja isso!

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 31 / 45 题