Produced by Pedro Saborano
XLVII
Colecção
Horas de Leitura
Enrique Perez Escrich
HISTORIA
DE UM
BEIJO
2.ª Edição
1912
GUIMARÃES & C.ª--Editores
68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70
LISBOA
Historia de um Beijo
COMPOSTO E IMPRESSO NA IMPRENSA DE MANUEL LUCAS TORRES RUA DIARIO DE
NOTICIAS, 93
Colecção Horas de Leitura
_Obras publicadas, a 200 réis o volume_
1 a 4--*Ivanhoé*, de W. Scott, (2.ª edição) 800
5--*O frade negro*, por Clemencia Robert, (2.ª edição) 200
6 e 7--*As Semi-Virgens*, de Marcello Prévost, (3.ª edição illustrada) 400
8--*Werther*, de Goethe, (3.ª edição illustrada) 400
9--*Madame Flirt*, de Jaques Yvel, (2.ª edição) 200
10 a 12--*A Taberna*, de Zola, (2.ª edição) 600
13--*O Vigario de Wakefield*, de Goldsmith, (2.ª edição) 200
14--*A vida aos vinte annos*, de Dumas, filho, (2.ª edição) 200
15--*A agua profunda*, de Bourget, (2.ª edição) 200
16--*O dominó amarello*, de Marcello Prévost, (2.ª edição) 200
17--*Cortezã*, de A Belot, (2.ª edição) 200
18--*O Rosquedo*, de Delfim Guimarães, (2.ª edição) 200
19--*Os Vagabundos*, de Maximo Gorki, (3.ª edição) 200
20--*A escravidão moderna*, de Tolstoi, (2.ª edição) 200
21--*Os degenerados*, de Maximo Gorki, (3.ª edição) 200
22--*A Dama das camelias*, de Dumas, filho, (3.ª edição illustrada) 200
23--*As Virgens*, de G. d'Annunzio, (2.ª edição) 200
24--*Na prisão*, de Maximo Gorki, (2.ª edição) 200
25 e 26--*A Dama das perolas*, de Dumas, filho, 400
27--*Varenka Olessova*, de Maximo Gorki, 200
28--*O jardim dos suplicios*, de Octavio Mirbeau, (2.ª edição) 200
29--*Saudades*, (Menina e Moça) de Bernardim Ribeiro, (2.ª edição) 200
30--*Na Esteppa*, de Maximo Gorki, 200
31--*Nami-ko*, Tokatomi, 200
32--*Um conchego de Solteirão*, Balzac, (2.ª edição) 200
33--*Sapho*, de Daudet, (a sahir 2.ª edição)
34--*Um começo de vida*, de Balzac, 200
35 e 36--*O Paraiso das Damas*, de Zola, (esgotado)
37--*Amor e liberdade*, de Tolstoi, (esgotado)
38--*Casamento de Amor*, de Theuriet, (esgotado)
39 e 40--*Illusões perdidas*, de Balzac, 400
41 e 42--*Esplendores e miserias das cortezãs*, de Balzac, 400
43--*A ultima incarnação de Vautrin*, de Balzac, 200
44--*Mater dolorosa*, de Ernesto Daudet, 200
45--*O Immortal*, de Affonso Daudet, 200
46--*Ares do Minho*, de Delfim Guimarães, 200
47--*Historia d'um beijo*, de E. Perez Escrich, 200
48--*O intruso*, de Gabriel d'Annunzio, (esgotado)
49--*A mulher de 30 annos*, de Balzac, 200
50 e 51--*Germinal*, de Zola, 400
52--*O crime de Silvestre Bonnard*, de Anatolio France, 200
53--*Miseraveis*, (Cañas y barro) de Blasco Ibañez, 200
54--*O Abade Constantino*, de L. Halévy, 200
55--*O Dr. Rameau*, de Jorge Ohnet, 200
56--*Agua corrente*, de Severo Portella, 200
57--*O luxo dos outros*, de Bourget, 200
58--*O tio Goriot*, de Balzac, 200
59 e 60--*A derrocada*, de Zola, 400
61--*O canto do Cysne*, de Tolstoi, 200
62--*Contos*, de G. de Maupassant, 200
63 e 64--*Náná*, de Zola, 400
65--*A Sonata de Kreutzer*, de Tolstoi, 200
66--*O Padre Maldito*, de Silva Pinto, 200
67--*Paulo e Virginia*, de Sain-Pierre, 200
68 e 69--*O Dinheiro*, de Zola, 400
70--*Confissão d'um Amante*, de Prévost, 200
71--*A sepultura de ferro*, de H. Conscience, 200
72--*A musa do departamento*, de Balzac, 200
73 e 74--*A Obra*, de Zola, 400
75--*Genoveva*, de A. de Lamartine, 200
76--*Um filho do povo*, de Escrich, 200
77 e 78--*O crime do padre Mouret*, de Zola, 400
79--*Casamentos fidalgos*, de Feuillet, 200
80--*Amor tragico*, de A. Hermant, 200
81--*A Religiosa*, de Diderot, 200
82 a 84--*Ana Karenine*, de Tolstoi, 600
COLECÇÃO HORAS DE LEITURA
Enrique Perez Escrich
Historia de um Beijo
TRADUCÇÃO DE
A. J. LIONE SOUTELLO
2.ª Edição
1912
GUIMARÃES & C.ª--Editores
68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70
LISBOA
CAPITULO I
Uma chavena de café
Um beijo é muitas vezes a esmola que faz uma mulher a uns labios
lisonjeiros; outras um pedaço d'alma que se escapa pela bôcca. No
primeiro caso o homem é a victima, no segundo é a mulher.
Existem na terra creaturas tão bem organisadas, corações tão generosos,
que não necessitam ser correspondidas para amar com toda a sua alma,
para terem gravada em seu coração uma imagem querida.
Estes entes soffrem com o rosto sereno e choram com o sorriso nos
labios, porque se chora de dois modos: umas vezes deixando correr as
lagrimas, outras recolhendo-se ao coração a queimarem essa bella flôr da
juventude chamada a esperança.
A vida n'estes casos é um desejo infinito que se afoga em pranto porque
se vê a felicidade que se deseja rodeada de uma muralha cheia de
impossiveis. Se pudesse conquistar-se a tiro, conhecer-se-hiam os nomes
de muitos heroes ignorados.
A incerteza, essa anciedade da alma que tem o poder de reduzir e
prolongar o tempo segundo o seu capricho, faz-se sempre sujeita á
poderosa magia de uma syllaba. Um _sim_, resoa docemente no ouvido do
namorado e tem a encantadora poesia do mez de Maio com os seus perfumes,
as suas flôres, e o harmonioso canto das aves; um _não_, tem a aridez do
deserto, a melancholia da desgraça, a solidão da morte.
Vou, pois, contar-lhes uma historia sentida, um gemido do coração.
Vou dar-lhes a conhecer a protogonista do meu livro e supplico-lhes o
perdão para a fraqueza da sua alma: o coquettismo.
Chama-se Amparo, nome cujas seis letras encerram uma promessa de amor
nunca realisada.
Procurarei pintar com as côres da verdade o seu rosto, formoso como um
sonho da adolescencia; a sua fronte radiante como a luz do sol quando
apparece, ao romper do dia, do fundo do mar; os seus olhos claros e
expressivos através dos quaes se lêem todas as impressões da sua alma,
sensivel como as harpas das filhas de Sião que vibram ao menor sopro do
zephiro.
Se os impressionam as scenas terriveis, as grandes catastrophes, as
situações inverosimeis, fechem o meu livro, porque em suas paginas só
acharão a historia de um coração que se partiu em pedaços.
..........................................................................
Ernesto foi para Roma, pensionista do governo hespanhol. Era um rapaz de
25 annos, cheio de vida, de illusões, um genio; muitas vezes nos seus
sonhos de pintor julgava egualar-se a Velasquez, Murillo e todos esses
grandes homens que brilham em primeiro logar na historia da pintura
hespanhola.
Vivia n'uma pequena casa nas immediações da Cidade Eterna, a Deusa da
arte; pensando na gloria, trabalhando sempre, porque Ernesto era um
sonhador infatigavel, o mundo para elle resumia-se nos seus quadros, nos
seus pinceis, na sua paleta.
Nunca amara senão sua mãe, que já tinha morrido, e a gloria, que
desejava alcançar.
Coração impressionavel, mas adormecido, as mulheres eram para elle como
flôres formosas de um jardim.
N'uma palavra, Ernesto ainda não tinha encontrado o seu bello ideal, o
perfume da sua alma.
A mulher formosa, para elle, só era uma bella obra onde o grande
artista, que se chama a natureza, derramara os seus mais preciosos
dotes.
Vejam, pois, como a casualidade lhe proporcionou o meio de pagar de um
modo terrivel o tributo das almas sensiveis, que é o amor.
Como dissémos, Ernesto habitava uma casinha nas proximidades de Roma.
O _atelier_, situado na parte que dava para o jardim, recebia a luz de
duas grandes janellas por onde entravam os caprichos e interessantes
braços de algumas trepadeiras.
Era uma tarde do mez de Maio. Ernesto estava retocando uma figura quando
veiu o creado dizer-lhe que um cavalheiro e uma senhora desejavam
falar-lhe.
--São hespanhoes, disse o criado, e parece-me que o conhecem.
--Hespanhoes? exclamou Ernesto, largando a paleta. Que entrem
immediatamente!
Ernesto dirigiu-se para a porta seguindo o creado, quando ouviu uma voz
que lhe não era desconhecida, dizendo:
--Onde está este mau hespanhol, que é preciso vir a Roma, á Via Appia
para lhe dar um abraço?
--Oh! é o sr. D. Ventura! exclamou o pintor, vendo entrar um sujeito
d'uns 50 annos, dando o braço a uma menina tão formosa como elegante.
--Sim, sou eu, querido pintor, sou eu, o D. Ventura do café Suisso, o
amigo dos artistas, o enthusiasta pela divina arte de Apollo; eu que,
apezar do meu enthusiasmo pela pintura, nunca soube collocar n'um rosto
o nariz no seu verdadeiro lagar. Mas, senta-te, querida Amparo,
senta-te; os homens do talento são sem-cerimonia como aldeãos, e francos
como a verdade--e apoz pequena pausa, continuou:
--Começarei por pedir-lhe duas chavenas de café.
Ernesto deu ao creado as ordens necessarias.
A joven, que se sentara n'uma cadeira d'onde distrahidamente contemplava
os quadros do _atelier_, dispensou um sorriso de cumprimento ao pintor,
deixando vêr uns dentes pequenos como os de uma creança, e brancos como
o miolo do coco.
Tudo o que é bello attrae irresistivelmente os homens de talento.
Ernesto fitou a joven.
Amparo teria 20 annos. O seu rosto de uma graça attrahente, provocadora,
via-se quasi animado por um d'esses sorrisos em que ficamos em duvida se
são a manifestação do coquettismo ou a ternura da alma.
Os seus labios bastante vermelhos e humidos pelo constante roçar dos
dentes, ficavam ás vezes entreabertos como se fossem a exhalar um
suspiro ou a receber um beijo.
Os seus olhos eram grandes e negros como amoras maduras; mas tão
movimentados, tão inquietos, tão cheios de vida, tão promptos em
manifestar as impressões da alma, que tão depressa se viam enlanguescer
com a sombra embriagadora de um amor platonico, como brilhar com todo o
fogo da paixão que conduziu Ovidio a um calabouço e Sapho á morte.
Ernesto estudava dissimuladamente aquella joven que tão profunda
sensação causava na sua alma, virgem das terriveis tempestades do amor;
e, cousa rara, o seu genio de artista, tão depressa encontrava em Amparo
a belleza sensual e provocadora das mulheres de Rubens, como o pudor
candido das virgens de Murillo.
Emquanto a D. Ventura só diremos que era um homem de 50 annos, calvo,
com os poucos cabellos que possuia já grisalhos, um rosto cheio de saude
e alegria; n'uma palavra, uma d'estas physionomias que sorriem sempre,
até quando choram; o typo, emfim do honrado commerciante que conseguiu,
depois de muitos annos de trabalho, reunir um peculio que o livra de
necessidades na velhice.
Amparo era filha unica; fôra educada n'um dos melhores collegios de
Madrid, e possuia um dote de quatro milhões de pesetas para quando
achasse quem a merecesse.
D. Ventura era feliz, revendo-se na filha, nova, formosa, vivaz e
alegre; tocava piano com bastante correcção, cantava regularmente e
pintava quasi com tanta perfeição como o divino Raphael.
Amparo era, por assim dizer, rainha absoluta, e seu pae um ministro
bastante condescendente.
A mulher nova e livre, quando a riqueza lhe permitte emprehender viagens
de recreio durante a estação calmosa, precisa de alguma cousa mais do
que mudar de paiz para distrahir-se; a viagem torna-se fastidiosa se a
alma não toma parte e o coquettismo não esgrime as suas armas, tão
deliciosas como traidoras, para matar o tempo.
Fazer uma conquista sem graves compromissos, sem funestos resultados,
n'um commodo _wagon-lit_; trocar olhares expressivos com qualquer
mancebo pela praia de Biarritz ou no cume das montanhas da Suissa, tem
tantos attractivos para as jovens viajantes!... É tão agradavel ao
coração de uma mulher encontrar a duzentas leguas da patria um patricio
que se torne seu escravo, que esteja disposto a salval-a, a defendel-a e
juncar-lhe de flôres a terra que pisa, que não póde resistir á tentação
de pôr em jogo todas as suas seducções.
Demais, a mulher tem a facilidade de comprehender a impressão que causa
e sabe aproveitar-se d'ella. Quando volta o inverno, quando as primeiras
nuvens do outomno as obriga a recolher aos seus lares, esses ternos
bandos de aves emigradoras, com saias de _piquet_, chapéu de palha e
botas brancas, recordam-se então já ao calor do fogão, de todas as
loucuras, de todas as innocentes concessões feitas ao ar livre e
poetisadas pelo vento da montanha ou pela brisa do mar; e como não ha
mulher que não saiba calcular, como o melhor mathematico, pensa se deve
acabar ou continuar com os amores do verão.
Amparo, pois, encontrou casualmente Ernesto em Roma. Tinha ouvido dizer
que possuia talento; agradaram-lhe alguns quadros que viu no _atelier_,
e não lhe parecendo má a figura do pintor, dirigiu-lhe alguns olhares e
sorrisos, d'esses que no coração de um homem sincero e apaixonado causam
uma terrivel tempestade.
Não pensava a joven que aquelle coquettismo era condemnado pelo
bom-senso. Empregou-o com a mais santa intenção, apezar de começar a
sentir-se aborrecida em Roma, onde andava só com seu pae por toda a
parte. Ernesto, então, foi olhado, como um recurso, como uma distracção.
Quando Amparo sahiu de casa do pintor, ia convicta de que o tinha
captivado.
--Pensará em mim, disse ella, virá vêr-me, falaremos de pintura, de
musica e d'esta fórma aborrecer-me-hei menos.
Amparo ignorava ainda as terriveis consequencias que os seus olhares e
sorriso deviam exercer na alma do artista. Se o soubesse,
indubitavelmente se teria abstido, porque o seu coração era bom,
generoso e tão impressionavel, que se commovia ante a mais ligeira
contrariedade, como a folha do trémulo alamo ante o mais ligeiro sopro
do zephiro.
CAPITULO II
Uma noite no Colyseu
Quando Ernesto ficou só, em vez de pegar na paleta e nos pinceis
approximou-se da janella e ficou pensando na joven hespanhola que
acabava de sahir.
Depois de uma hora de meditação, retirou-se da janella, dizendo para
comsigo:
--Se me encommendassem um quadro onde figurasse alguma das tres
encantadoras filhas de Jupiter e de Eurinome pediria a Amparo para me
servir de modelo.
E, tomado de uma subita inspiração, pegou na paleta e nos pinceis e
começou a pintar, n'um pedaço de tela, uma cabeça, mas com tanta rapidez
que, em vinte minutos, estava completamente esboçada.
Afastou-se um pouco do cavallete para examinar o seu trabalho, e disse:
--Sim, é ella. Tenho boa memoria.
E como não se contentasse com a sua opinião, chamou o creado e
perguntou-lhe:
--Com quem se parece esta cabeça?
--Bravo! Com quem se ha-de parecer? Com a senhora que esteve cá,
respondeu o creado sem vacillar. Não é preciso ser muito esperto para a
reconhecer.
Ernesto tornou a pegar nos pinceis e retocou o seu trabalho.
Duas horas depois tinha terminado um soberbo retrato de Amparo, que o
pintor mais escrupuloso não recearia pôr em exposição.
Tinha promettido a D. Ventura ir no dia seguinte almoçar com elle ao
hotel de Londres na praça de Hespanha, onde estavam hospedados.
Ernesto levantou-se cedo, fez a barba, vestiu-se com mais cuidado do que
de costume, admirando-se de ter gasto tanto tempo ao espelho.
Assim que terminou a sua _toilette_, satisfeito de si mesmo, enrolou a
tela com o retrato de Amparo, embrulhou-a n'um papel e sahiu de casa
dizendo ao creado que tinha o dia livre, visto não voltar senão á noite.
D. Ventura e a filha occupavam dois quartos no primeiro andar do hotel
de Londres.
Quando Ernesto subia a escada ouviu os accordes de um piano. Deteve-se:
tocavam a magnifica symphonia de _Guilherme Tell_.
--Será Amparo? pensou elle.
E vendo um creado no corredor, disse-lhe:
--Qual é o quarto do sr. D. Ventura d'Aguillar?
--O seis: ahi onde estão tocando.
Ernesto não se tinha enganado: era Amparo quem tão magnificamente
interpretava uma das mais bellas composições de Rossini.
Receoso de interromper aquella brilhante corrente de notas que tão
docemente resoavam no coração, esperou junto da porta que terminasse a
symphonia.
Logo que ella acabou bateu á porta.
--Entre, disse D. Ventura.
Entrou. Amparo estava ainda sentada ao piano. Por cima d'este estava um
grande espelho e no limpido crystal Ernesto viu retratado o
encantador rosto de Amparo, que sorria, enviando-lhe um olhar que o
perturbou por um momento.
--Bravo, é um homem de palavra, disse D. Ventura. Ahi está uma qualidade
que não é muito vulgar nos artistas.
--Então não me esperavam?
--Eu esperava, mas o meu pae, não, disse Amparo, fazendo girar o banco
do piano, até ficar voltada para o pintor.
Amparo tinha um vestido tão simples como elegante. O seu cabello negro e
frizado, estava atado com uma fita azul que fazia realçar a brancura do
seu rosto e o tom rosado das faces.
O pintor achou-a muito mais formosa do que no dia anterior.
De bôa-vontade ficaria contemplando o encantador modelo que tinha ante
si; mas isso álêm de inconveniente seria ridiculo.
A donzella, por seu lado, olhava o pintor com o mais seductor dos seus
olhares e enviava-lhe o mais bello dos seus sorrisos.
Comprehendera o que se passava na alma de Ernesto. Só D. Ventura não via
nada. É bem certo o dictado que diz que os paes são todos myopes.
--Que traz ahi, sr. Ernesto? É algum quadro? perguntou Amparo vendo o
rolo que o pintor tinha na mão.
--Como estava distrahido! respondeu Ernesto. Hontem de tarde fiz um
trabalho. É um atrevimento que espero me desculpem.
O pintor desenrolou a tela e apresentou-a, sorrindo-se.
A joven não poude conter um grito de assombro, e D. Ventura pronunciou
uma interjeição.
--Sou eu!
--É a minha filha!
--É um retrato d'esta senhora, e venho offerecel-o como uma recordação
da visita que tiveram a bondade de me fazer.
--São levados da breca estes pintores, exclamou D. Ventura. Como se póde
reter na memoria de uma fórma tão completa as feições de uma pessoa e
passal-as para a tela com tanta verdade?! Porque és tu! Sim, tão
parecida como duas gottas d'agua; muito mais parecida do que uma
photographia.
Ernesto sorriu-se das admirações de D. Ventura. Amparo parecia
agradecer-lhe com um olhar cheio de ternura aquella recordação tão
delicada.
--Pois é a cousa mais facil do mundo, disse o pintor olhando para
Amparo, comprometia-me a fazer outro d'aqui a tres annos sem me esquecer
do menor detalhe do vestido e do penteado que tem n'esta occasião.
--Pegue-lhe na palavra, papá, disse Amparo, e d'aqui a tres annos, se
nos encontrarmos em Madrid havemos de vel-o ficar mal.
--Fica encommendado o retrato. Mas agora parecia-me melhor que nos
servissem o almoço e que pensassemos em que devemos entreter o dia.
--Já visitaram as _vilas_ ou casas de campo dos arredores? perguntou
Ernesto.
--Já visitámos uma... Como se chama a que vimos hontem? perguntou D.
Ventura á filha.
--_Vila Aldobrandini_.
--É magnifica, mas está pouco menos do que abandonada. Deliciosa mansão
se se arranjassem os jardins em fórma de amphitheatro. O Dominiquino
deixou-nos n'essa casa sumptuosa uns quadros inegualaveis. Faz pena
ouvir, no meio de tanto abandono, o cadente murmurio das suas cascatas
que se assimilham á harmonia dos orgãos aquaticos da antiguidade como ao
mesmo tempo vêr as soberbas estatuas e outros objectos de esculptura de
grande merito.
--Com franqueza não a achei grande cousa... como disseste que se
chamava, Amparo?
--_Aldobrandini_, papá. Valha-o Deus, que cabeça a sua!
E Amparo trocou um sorriso com Ernesto.
--Podemos vêr outras que estão melhor conservadas, ajuntou o pintor. Por
exemplo, é digna de visitar-se a _Vila Borghése_ pelo seu grandioso
lago, pelo hypodromo, pelo templo, pelos jardins e, sobretudo, pelo rico
museu de numismatica, e se desejarem visitaremos a _Vila Albani_ e o seu
celebre museu. Os antigos romanos tiveram grande predilecção pelas casas
de campo. Os historiadores d'aquelle tempo contavam cousas fabulosas. Os
poetas, esses sonhadores de todas as epochas, esses pobres loucos que
não tendo um real de seu phantasiam palacios e cascatas brilhantes,
falam com grande entusiasmo das quintas que nos arredores de Roma
possuia Cesar, Lucullo, Marcello, Nero, Pompeu, Salustio e muitos outros
homens celebres; mas hoje não existem mais do que ruinas. A casa de
campo de Mecenas, onde iam Augusto, Virgilio, Horacio, Plocio, Tiscca e
Polion descançar das fadigas de Roma, converteram-se hoje em forja de um
pobre ferreiro. Que ode tão sentimental escreveria o pudico auctor da
_Eneida_ se ressuscitasse ao contemplar as ruinas de Roma.
D. Ventura ouvia Ernesto de bôcca aberta. Tudo isto para elle era grego.
Amparo não deixava de se sorrir. Entre elles começava a existir uma
grande intimidade, a intimidade que produz as sympathias.
--Sabe o que desejo vêr, sr. Ernesto? disse Amparo. É o Colyseu. Li, não
me recordo em que livro, que visto n'uma noite de luar é surprehendente.
--Os viajantes julgam segundo a impressão que os objectos produzem no
seu temperamento. Por isso emquanto uns ao percorrer a Palestina a
descrevem cheia de frondosidade e poesia que a adornava no tempo de
Salomão, outros a classificam de um arido areal, um deserto
insupportavel, pobre, povoado por tribus selvagens e ascorosas, mas o
Colyseu começado por Vespasiano e acabado por Tito, visto, quer á luz do
sol quer á da lua é verdadeiramente admiravel.
--Ainda assim prefiro vel-o de noite, disse Amparo.
--Então aproveitaremos o luar, e hoje mesmo se póde realisar o seu desejo.
--Que dizes a isso, papá?
--Que estou ao teu dispor.
--Fica, pois, combinado para esta noite.
Almoçaram como bons hespanhoes, depressa e sem lhe dar grande
importancia, pois não é a Hespanha a terra dos Lucullos.
Do meio-dia ás 5 horas da tarde visitaram algumas casas de campo dos
arredores de Roma.
D. Ventura estava encantado. Ernesto sabia tudo; era, como vulgarmente
se diz, um livro aberto.
Não encontraram uma pedra, uma columna, um sepulchro do qual o pintor
não soubesse a historia.
Amparo escutava-o com prazer. Encostando-se-lhe familiarmente ao braço
fazia-lhe perguntas, principalmente quando encontrava alguma inscripção
latina.
O dia passou-se agradavelmente para os tres; as horas foram curtas, e os
laços de amisade estreitaram-se duplamente com aquelle agradavel passeio.
Ás seis horas regressaram ao hotel. O jantar já os esperava. Depois
metteram-se n'um trem que os conduziu ao Colyseu.
A noite estava serena; a lua no seu auge, e a sua clara luz banhava as
colossaes ruinas onde em outros tempos oitenta e sete mil espectadores
iam gozar o barbaro espectaculo das luctas humanas.
Então, o povo romano pedia pão e circo, e os imperadores tinham o
cuidado de satisfazer os desejos da terrivel fera que dormia,
lambendo-lhe os pés.
Ernesto levava os dois amigos a um e outro lado, esplicando-lhe com o
mesmo conhecimento que poderia fazer-lhe um _cicerone_ do tempo do
imperador Claudio, descrevendo-lhe ao mesmo tempo aquellas terriveis
luctas, dos adestrados gladiadores, cujo sangue regou com abundancia a
arena do circo.
--Assistiram mulheres a esse barbaro espectaculo? perguntou Amparo.
--Ao principio era-lhes prohibida a entrada, respondeu Ernesto, mas
depois foi auctorisada, reservando-lhes Octavio Augusto as bancadas mais
altas do amphitheatro. Precisamente aqui onde estamos era a tribuna do
imperador, e alli a das vestaes, cujo docel era egual ao do imperador. A
este sitio chamava-se _Spoliarium_, para onde conduziam os cadaveres
dos gladiadores ou os que estavam mortalmente feridos, puxando-os com um
gancho de ferro. Esta obra colossal foi construida no curto espaço de
quatro annos. Tinha setenta portas, sem contar com as entradas
reservadas para o imperador e a sua côrte. As festas da inauguração no
tempo de Flavio Sabino Tito duraram cem dias consecutivos, e n'ella
perderam a vida dois mil gladiadores.
--Parece impossivel que tão sanguinolentos espectaculos agradassem a
mulheres, exclamou Amparo.
--A vida dos feridos, continuou Ernesto, quando caíam banhados de sangue
na arena, ficavam sempre á disposição dos espectadores. O vencedor
collocava a ponta da espada no peito do vencido e esperava que o publico
lhe dissesse; «Mata» ou «Perdôa». Outras vezes o ferido arremessava as
armas e caía ao pé das grades a implorar clemencia. Se os espectadores
levantavam o dedo pollegar, concedia-se-lhe a vida; mas se o viravam
para baixo, então o ferido apresentava o peito ao seu adversario para
que o acabasse de matar.
--Mas perdoavam sempre? disse D. Ventura.
--Algumas vezes. Durante o reinado do infame Caracalla nem uma só vez se
concedeu o indulto aos gladiadores vencidos. O povo romano de então, era
tão feroz como sanguinario, e só gozava com a agonia dos seus
similhantes, pois, como disse o grande poeta inglez Lord Byron, ácêrca
dos costumes do povo, assim apparecem singelas e naturaes as cousas mais
horriveis e sangrentas.
D. Ventura escutava em silencio o narrador, que lhe contava com a
precisão de um bom livro, todas as horriveis scenas que tiveram logar no
Colyseu.
Algumas vezes Amparo, para caminhar com mais segurança por aquellas
sumptuosas ruinas, dava a mão a Ernesto. Aquellas duas mãos apertavam-se
docemente, transmittindo um suave estremecimento.
D. Ventura era um homem de bem, mas um homem todo prosa; e aquillo tudo,
apezar do luar e das descripções historicas de Ernesto, parecia-lhe
um montão de ruinas, uma toca de lagartos.
Comtudo, para não ser _desmancha-prazeres_, dizia de quando em quando:
--Soberbo! Magnifico!
Á meia-noite regressaram ao hotel.
Quando Ernesto se despediu, Amparo disse-lhe, apertando-lhe a mão e
dirigindo-lhe um olhar cheio de doce esperança:
--Passei uma noite deliciosa. Estou certa de que sempre me lembrarei do
Colyseu de Roma.
Para Ernesto aquella despedida foi uma promessa irmã da esperança, essa
bella flôr que perfuma a alma.
CAPITULO III
Sonhos côr-de-rosa
Ernesto teve aquella noite um sonho côr-de-rosa, porque a bella Amparo
foi o anjo do seu sonho.
Os homens de genio e sobretudo os pintores, quando pensam no amor, antes
de amar, criam um typo perfeito como todas as sublimes creações da
imaginação; uma d'essas mulheres de extraordinaria belleza cheia de luz,
sem um _senão_ no moral, sem um defeito no physico, perfeita de corpo e
d'alma: mas quando chega o momento de, ou cançados do celibato, ou para
pagar esse tributo de que poucos se salvam, chamado matrimonio, se
decidem a casar, então já é outra cousa, pois muitas, mesmo muitissimas
vezes a poesia se incarna na prosa, e depois... Satanaz toma parte
activa na symphonia do matrimonio.
O amor é cego, e os homens e as mulheres devem resignar-se a não vêr
bem, precisamente quando deviam ter olhos de lynce.
Ernesto levantou-se alegre e cantando a symphonia de _Guilherme Tell_; e
pensando em Amparo pegou na paleta e poz-se a pintar no seu quadro.
A filha do D. Ventura tinha-se photographado d'uma maneira tão profunda
na sua imaginação, que o pintor achou sem saber como que uma das figuras
do seu quadro tinha grandes parecenças com Amparo. Admirou-se, mas
agradou-lhe ao mesmo tempo.
Ás dez horas largou a paleta, almoçou, e pegando n'uma folha de papel,
poz-se a pintar uma aguarella do Colyseu visto á luz do luar.
--Isto será uma recordação dedicada a Amparo, disse elle. Dir-lhe-hei
que a colloque no seu gabinete para que nunca se esqueça da noite que
representa.
Ernesto esmerou-se marcando com arte e delicadeza todos os detalhes da
aguarella. Collocou n'um ponto conveniente um pintor tirando o _croquis_
do Colyseu, e ao seu lado um cavalheiro e uma joven.
Apezar das figuras terem apenas duas pollegadas, o pintor tinha o maximo
empenho em que ficassem parecidas com os originaes que representavam. A
empreza era difficil; mas por fim, apoz algum trabalho, conseguiu o que
desejava.
Satisfeito com a sua obra e com a alegria do homem que sente na alma os
primeiros perfumes do amor e julga causar uma surpresa agradavel á
provocadora dos seus sonhos, ao cair da tarde dirigiu-se para Roma.
D. Ventura e a filha estavam tomando café. Tinham acabado de jantar.
--Chega a proposito, disse D. Ventura.
--Dou-me por feliz, respondeu Ernesto, cumprimentando a joven.
--Sente-se e tome café comnosco.
--Primeiro que tudo, desejo saber em que consiste a opportunidade da
minha chegada.
--Aborreciamo-nos, disse Amparo, Roma é uma cidade morta; nem sequer tem
theatros.
--Diz muito bem. Roma é um cadaver que todos os annos ressuscita pelo
Carnaval, e vive um mez commettendo as mais excentricas loucuras;
depois torna a cahir na soledade da tumba, até ao anno seguinte.
--Quer dizer que errámos a epocha da nossa viagem, disse D. Ventura.
--Justamente. Mas se a sr.ª D. Amparo quizer ir ao theatro, temos
actualmente um aberto.
--Qual?
--O do Tiano.
--Dizem que não é bonito.
--Sim, mas em compensação representam admiravelmente.
--Sabe, senhor Ernesto, que esta noite tive uma ideia? disse Amparo,
cerrando docemente as palpebras para conservar a luz dos seus formosos
olhos fixos no pintor.
--Estou crente, de que foi uma ideia sublime.
--Vaes ouvir, papá; o senhor Ernesto já disse que a minha ideia era
sublime; agora só necessito que o papá a ache tambem.
--Olha que os artistas são muito aduladores; não te fies n'elles. Mas
vamos, dize qual é a tua ideia.
--Resume-se em deixarmos Roma e irmos passar um mez em Florença; mas com
uma condição: que o senhor Ernesto nos acompanhe como nosso _cicerone_.
--Essa exigencia é uma loucura, filha da pouca experiencia propria da
tua edade, disse D. Ventura. Ernesto está pintando um quadro que tem de
mandar para a proxima exposição de Madrid, em setembro.
--Sim, o senhor Ernesto tem o quadro muito adeantado e d'aqui até
setembro vão ainda quatro mezes, disse rapidamente Amparo, dirigindo ao
pintor um olhar supplicante para que elle annuisse.
--Acceito sem vacillar, disse Ernesto, e dou as minhas razões. Preciso
só de um mez para concluir o meu quadro. E antes de voltar a Hespanha
tinha necessidade de ir a Florença para tirar uns croquis da _Venus de
Médicis_, do _Grupo de Niobe_ e de alguns quadros da escola flammenga
que existem no celebre palacio de Pitti. Quero tambem tirar alguns
_croquis_ da _cathedral de Santa Maria de Fiore_, d'essa memoravel
architectura da qual Miguel Angelo, disse ser impossivel fazer outra
mais bella, pois era digna de servir de frontespicio ao Paraiso, e que o
imperador Carlos V devia pôl-a n'um estojo para melhor a conservar.
Assim pois, tudo se resume em adeantar dois mezes a minha viagem a
Florença. Quando partirem para Hespanha, eu regressarei a Roma para
terminar o meu quadro, e prometto que o verão collocado n'um dos salões
da Exposição no dia 20 de setembro.
Amparo applaudiu, como uma creança que manifesta sem reserva a sua
alegria. A viagem projectada por ella era encantadora. Grande foi o seu
contentamento vendo que era acceite o seu plano, porque nada é tão grato
ao coração de uma mulher joven, como realisar um dos seus sonhos
côr-de-rosa que de vez em quando lhe acariciam a alma.
Na noite anterior deitara-se, pensando no seu poetico passeio ao
Colyseu. Como o somno se mostrasse rebelde, recapitulou na memoria até
as mais pequeninas cousas acontecidas nas celebres ruinas.
Os olhares de Ernesto, os suaves apertos de mão, a lua que banhava,
poetisando, as pardas e as derrubadas galerias do Colyseu, as
descripções historicas que com doce e carinhoso accento narrava Ernesto,
tudo isto formava um conjuncto agradavel ao coração de Amparo.
Amava Ernesto? Nem ella mesmo sabia que responder a esta pergunta que
fez pelo silencio da noite.
O pintor era novo, elegante, bem parecido, com uma educação pouco
vulgar, e pelo menos era-lhe sympathico.
Como ha sempre algum egoismo no coração da mulher, Amparo pensou que
continuar a sua viagem pela Italia acompanhada de Ernesto tinha muito
mais encanto, era mais divertido do que viajar sósinha com o pae.
Amparo não pensou senão em si. Com algum conhecimento mais profundo da
vida material dos artistas, isto é, a prosa do talento, teria pensado
que talvez Ernesto não se encontrasse em condições de emprehender
uma viagem em carruagem de primeira classe, e installar-se n'um hotel de
luxo.
É bem certo que Amparo ignorava o valor do dinheiro: gastava o do pae,
que era rico, sem se preoccupar com o valor que tem um duro[1]
para quem não possue vinte reales.
Por outro lado Ernesto, um verdadeiro artista, sonhava que era um
principe e julgava os seus sonhos uma realidade... Era mais ambicioso de
gloria do que de ouro.
Quando acceitou a projectada viagem por Amparo, sem pensar se o dinheiro
que possuia por sua unica fortuna chegaria para occorrer a todas as
despezas, só pensou na felicidade de viajar com aquella mulher formosa,
por uma terra encantadora, cujo céu azul e o perfume das brisas são o
orgulho das filhas de Toscana, a admiração dos estrangeiros.
Combinada a partida para quatro dias depois, Ernesto apresentou a
aguarella do Colyseu, que arrancou um grito de admiração e muitos
olhares de agradecimento a Amparo.
O pintor regressou a casa já bastante tarde, tão alegre, tão feliz, que
não teria trocado a sua existencia por cousa alguma d'este mundo.
A felicidade está ás vezes em tão pequenas cousas!... O pobre artista
julgava-se amado, e começava a amar com toda a sua alma virgem e
apaixonada.
Quando chegou a casa, pegou n'uma folha de papel para fazer o orçamento
das suas despezas.
--Necessito, disse elle, de quatro mil reales para a viagem. Vejamos
como estou a respeito de fundos.
Ernesto só tinha seiscentos. Era-lhe preciso arranjar dinheiro.
Procurou na memoria os nomes de alguns amigos pintores que como elle
viviam em Roma, mas um sorriso lhe assomou aos labios.
--Todos elles, disse, são tão pobres ou mais do que eu; não devo
expôr-me a uma negativa forçada, que é tão desagradavel a quem a dá como
a quem a recebe. Melhor será sacrificar alguns dos meus quadros. O
senhor Daniel é um judeu, menos judeu que os dez mil que pelo interesse
do commercio o papá consente em Roma. Escrever-lhe-hei.
E pegando na penna escreveu:
_Senhor Daniel Raithany_
«Meu bom amigo
«Vou emprehender uma viagem a Florença e preciso vender alguns
quadros. Tenha, pois, a bondade de vir hoje ao meu _atelier_,
onde o espero até ás quatro horas da tarde.
Seu amigo,
_Ernesto Alvarez_.»
O pintor chamou o creado e disse-lhe:
--Amanha, quando te levantares, vaes a Roma entregar esta carta ao sr.
Daniel, negociante de quadros. Mora no bairro dos judeus; já o conheces.
Depois deitou-se para sonhar com Florença e Amparo.
Ernesto achava-se na ditosa edade dos sonhos côr-de-rosa, e viu durante
algumas horas passar pelos olhos da sua illusão um panorama encantador
onde a flôr mais perfumada, mais bella, mais resplandecente, era Amparo
que, olhando-o com languidez, lhe dizia uma e mil vezes mais: «amo-te!
amo-te! amo-te!»
E para que desperta um homem d'estes sonhos encantadores?
CAPITULO IV
O pintor e o judeu
Daniel Raithany era um dos maiores negociantes do bairro judaico. Tinha
em toda a Europa fama de intelligente e honrado, apezar de ninguem
ignorar que vendia caro e comprava barato. Esta qualidade era
descupavel, tratando-se de um negociante judeu; mas, em compensação,
tinha uma grande qualidade, que era que quando um admirador de pintura,
ainda que de Londres, Paris, Vienna, S. Petersburgo, Madrid ou de
qualquer das grandes capitaes da Europa necessitava para a sua galeria
um quadro d'este ou d'aquelle auctor celebre, escrevia-lhe uma carta, e
não olhando a preço tinha o que desejava.
Nunca enganava ninguem, dando uma copia por original. Daniel era
intelligente, e apezar de não saber pintura, tão conhecedor era das
escolas que mais de uma vez, em casos duvidosos, o chamavam como períto.
Todos os pintores eram amigos de Daniel e era tão difficil enganal-o
vendendo-lhe gato por lebre, como vulgarmente se diz, que ninguem
tentava fazel-o.
Dizia-se que o negociante conseguira juntar muitos milhões. Comtudo a
sua loja apresentava sempre o mesmo aspecto modesto, e a sua pessoa
conservava a mesma linha; isto é, usava constantemente uma sobrecasaca
verde com grandes abas, calças e collete preto, uma gravata de velludo,
um chapéu usado, um chapéu de chuva velho debaixo do braço e uma cadeia
d'aço, em cuja extremidade estava preso um modesto relogio de prata.
Daniel era um homem alto, magro e pallido, nariz arqueado, cabello
grisalho, olhos verdes, pequenos o encovados; um d'esses typos vulgares,
mas em quem, olhados com attenção, se encontra bondade e doçura no
semblante.
Ernesto estava pintando. Eram dez horas da manhã quando viu entrar no
_atelier_ o judeu.
Daniel entrou como sempre, sorrindo-se, com o chapéu de chuva debaixo do
braço, e a caixa do rapé que nunca abandonava, na mão esquerda.
--Bons dias, millionario, disse Ernesto, extendendo-lhe a mão. Muito
agradecido pela sua pontualidade.
--Em questão de dinheiro, respondeu Daniel, é preciso sermos pontuaes, e
aproveitarmos o tempo. Por um minuto se póde perder um bom negocio.
--Pelo que se vê o senhor é negociante até á medulla dos ossos. Mas
vamos falar do nosso.
O pintor deixou a paleta e os pinceis, indicou-lhe uma cadeira e
sentou-se n'outra.
--Preciso dinheiro.
--Já o suppunha.
--Por isso lhe pedi que me viesse visitar.
--E eu, conhecendo a impaciencia dos artistas, apressei-me em vir.
--Agradecendo-lhe pela segunda vez, começarei por lhe dizer que dentro
de tres dias parto para Florença.
--Uma viagem de recreio.
--De recreio e estudo. Tenciono tirar alguns _croquis_ da celebre
galeria do palacio de Pitti.
--Bello pensamento!
--E como para ir a Florença é preciso dinheiro e como eu não o tenho, ou
melhor, tenho pouco, quero que me compre alguns quadros. Póde escolher,
exceptuando o que está no cavallete, pois esse é, como sabe, para a
Exposição de Madrid, e póde dizer-se que me não pertence.
Daniel guardou silencio, levantou-se, poz os oculos e começou a passar
revista aos quadros, e estudos que estavam nas paredes.
Ernesto entretanto accendeu um charuto e recostou preguiçosamente a
cabeça no espaldar da cadeira.
Mais de tres quartos de hora durou a revista passada ás telas por
Daniel. Quando estava perfeitamente inteirado, tirou os oculos, com todo
o seu vagar, guardou-os no bolso, e, sentando-se, disse:
--Tem seis quadros de comestiveis, quatro pequenos de costumes
hespanhoes, e dois de flôres. Fico com os doze, pois tenho probabilidade
de os vender a um inglez que me encarregou de comprar alguma cousa
n'este genero, e dou por elles quatrocentos duros.
--É pouco dinheiro.
Daniel encolheu os hombros.
--Não dou mais, respondeu; é impossivel.
--Dou-lh'os por doze mil reales e creia que ainda ganhará uns duzentos
por cento.
--N'estes tempos não é possivel. Desde que a photographia póde offerecer
o _fac-simile_ de uma obra-prima por um franco, a pintura perdeu muito.
--Senhor Daniel, concedo-lhe o direito de regatear o preço de um quadro,
de dizer que é mau sendo bom, mas não lhe consinto que ponha a
photographia a par da pintura. Poderá ter-se uma copia do Ticiano
estampada em um boccado de papel por dois reales, mas não se terá
Ticiano, nem pela photographia se poderá nunca formar uma ideia, ainda
que vaga, do que vale o citado auctor.
Daniel fez um gesto de indifferença, o ajuntou:
--Sabe que tenho em muita consideração os seus trabalhos, e que se não
estivesse tão occupado, o encarregaria de algumas copias, e isso deve
inspirar-lhe confiança para crer que não procuro exploral-o. Quem sabe
se terei quatro ou mais annos armazenados na loja esses doze quadros que
pretendo comprar. E se assim succeder, o senhor bem sabe que dinheiro
vale dinheiro, e isso representa uma grande perda.
Ernesto comprehendeu que o judeu não lhe daria mais, visto conhecer a
necessidade que elle tinha do dinheiro.
Calculou que com a importancia offerecida e o que possuia podia fazer
desafogadamente e até com luxo a viagem e resolveu acceitar o negocio.
--Está fechada a transacção, disse o pintor. Mando-lh'os ainda hoje mesmo.
Daniel tirou a carteira, e d'ella a importancia offerecida em notas do
Banco Romano, e entregou-a ao pintor, dizendo:
--Muito dinheiro podia ganhar!
--Não desejo outra cousa, respondeu Ernesto, pondo o dinheiro sobre a mesa.
--Seriamente?
--O dinheiro é a primeira necessidade do homem n'este valle de lagrimas.
--Então posso offerecer-lhe á volta de Florença algumas notas mais, se
me trouxer algumas copias da escola flammenga e franceza dos originaes
que existem no palacio Pitti.
--Isso depende do tempo.
--A actividade augmenta as horas.
--Não me comprometo, mas farei todo o possivel porque receio que me faça
falta o dinheiro para ir a Hespanha expor o meu quadro.
--Pois já sabe o meio de o obter.
Daniel começou a despendurar os quadros que comprara e ia-os collocando
todos juntos, para que Ernesto ao mandal-os se não esquecesse de algum.
Depois despediu-se do pintor, tornando-lhe a recommendar que trabalhasse
muito.
--O trabalho, senhor Ernesto, é a maior fortuna do homem. Não se esqueça
de que as formigas e as abelhas são muito mais ricas do que as cigarras.
Ha conselhos que só produzem um ligeiro murmurio nos ouvidos de quem os
ouve.
Daniel sahiu. Ernesto chamou o creado.
--Logo levas esses doze quadros a casa do senhor Daniel Raithany,
disse-lhe. Vou fazer uma viagem a Florença. Demoro-me um mez. Podes
dispor de ti como te aprouver, n'esses trinta dias, mas nem uma só noite
deixarás de dormir em casa.
Entregou o dinheiro que julgou sufficiente para o sustento do creado,
mandou que lhe servissem o almoço, e depois sahiu.
Uma vez em Roma comprou alguma roupa para a viagem.
Á tarde foi visitar os seus amigos e jantar com elles.
D. Ventura começava a olhar Ernesto como da familia; é verdade que
quando se encontra um compatriota a algumas centenas de leguas distantes
da mãe patria, sente-se uma alegria tão grande no coração que o tratamos
como se fosse um parente.
A D. Ventura parecia o mais natural do mundo que um rapaz tão bem
educado, tão fino, tão illustrado como Ernesto o acompanhasse na sua
viagem a Florença.
Emquanto a Amparo, não pensou senão em realisar o seu desejo; viajando
com Ernesto, tinha mais encanto a excursão, porque o pintor lhe era
sympathico.
Os olhares, os sorrisos, os apertos de mão, as palavras carinhosas são
impulsos muitas vezes naturaes do coração feminino, e é sem duvida por
isso que não lhes dão nenhuma importancia.
Mas Ernesto pensava de outro modo, e ia reunindo na sua alma simples e
apaixonada, um sem numero de esperanças encantadoras, que eram o seu
maior thesouro, e que deviam tornar-se a sua maior desgraça, porque o
amor quasi sempre é um jogo em que um dos jogadores perde.
Os preparativos de uma viagem em que esperamos gozar e divertirmo-nos
são muito encantadores. Ernesto offereceu a D. Ventura um _Guia do
forasteiro em Florença_, preciosamente illustrado, e a Amparo um
elegante album para desenhos.
--Temos que trabalhar muito, dizia o pintor, e não podemos consentir que
nos importune com perguntas.
--Sim, sim, o senhor Ernesto tem razão; temos que fazer muitos desenhos,
e para que se não aborreça, emquanto trabalhamos, lerá o seu _Guia_
deante das obras d'arte que vamos visitar.
D. Ventura para quem não havia maior felicidade do que a alegria de
Amparo, vendo-a contente e feliz, ria-se com a expansão de um pae que
ama com loucura a filha.
Só uma vez se poz serio vendo crescer aquella sympathia entre Amparo e o
pintor, e disse:
--E a rapariga acaba por se enamorar de Ernesto. Fez algumas reflexões
mentaes e ajuntou:
--Diabo, Ernesto é pobre; minha filha tem quatro milhões de dote no dia
do casamento e mais oito quando eu morrer.
Aqui tornou a deter-se; mordeu o labio inferior como o negociante que
pensa n'um negocio importante, mas rapidamente se lhe alegrou o rosto e
exclamou:
--Se ella o ama e quizer casar com elle, que se case; vale mais ter por
genro um homem como Ernesto, pobre, do que um parvo rico.
Desde aquelle momento, Ernesto podia contar com a protecção do pae.
Chegou o dia da partida. A viagem podia fazer-se de dois modos: em
pequenas jornadas, parando-se para vêr as povoações de alguma
importancia artistica, ou em caminho de ferro.
D. Ventura optou pela ligeireza da locomotiva, e os nossos tres
viajantes, alegres como estudantes em ferias, installaram-se n'um
compartimento de primeira classe. A fortuna favorecia-os: iam sós.
Emquanto foi dia, Amparo e Ernesto passaram a maior parte do tempo á
janella da carruagem, admirando o panorama que se ia desenrolando a seus
olhos.
Os jovens só trocaram algumas palavras em voz baixa; mas os olhos têem
uma linguagem tão expressiva, que dizem tudo, quando se movem
impulsionados por uma alma apaixonada.
D. Ventura lia o livro offerecido pelo pintor, ou dormitava. Quando
chegou a noite, Ernesto bastante timido, apoderou-se de uma das mãos de
Amparo, não menos linda do que a da Laura que inspirou a Petrarcha
quatro sonetos, e disse-lhe:
--Que feliz eu sou!...
Amparo sorriu-se e retirou a mão.
Depois, reclinando a cabeça em um dos cantos da carruagem, cerrou os
olhos, fingindo que dormia.
Assim collocara certa distancia entre si e Ernesto. Amparo, apezar de
nova, tinha mais conhecimento do coração humano do que o seu companheiro
de viagem, e temeu que prolongando a conversação á tenue luz do vagon e
quasi tocando-se os joelhos, fizesse alguma d'essas concessões de que
mais tarde se arrepende a mulher.
Ernesto procurou tambem posição commoda e tentou dormir, mas foi em vão.
Nasceu o dia, e com elle a animação entre os viajantes.
A linha seguia n'aquelle momento o curso do rio Arno. A conversação
renovava-se a cada paragem do comboio. D. Ventura lia o nome das
estações e procurava no _Guia_ a parte interessante da terra.
Em Signa atravessaram o Arno e não demorou muito vêr-se ao longe as
torres elevadas de Florença, os quatro pontos e os quatros bairros.
Ernesto exclamou:
--Alli está Florença, berço do renascimento das artes, patria de Dante,
de Petrarcha, e de Galiléu!
CAPITULO V
O grupo de Niobe
A Florença dos nossos dias é muito differente da que engrandeceram os
Médicis; mas por toda a parte se encontram as pégadas de Cosme o
Virtuoso, chamado o pae da patria, talvez pelo excessivo rigor com que
tratava os filhos.
Indubitavelmente os Médicis foram grandes negociantes. A sua fortuna
fabulosa e a sua honradez ao mesmo tempo, elevou-os á primeira
dignidade da republica florentina.
Mas como em todas as familias ha sempre um judas que vende a sua raça,
succedeu que emquanto Cosme o Virtuoso, chamado pae da patria, mandava
emissarios por todo o mundo em busca de manuscriptos para enriquecer as
bibliothecas, pensionando com luxo artistas, e Lourenço Magnifico sahia
em segredo de Florença e apresentando-se ante Fernando de Napoles, com
quem estava em guerra, dizia-lhe: «_Aqui me tens só e desarmado. Se é a
mim a quem odeias satisfaz a tua vingança com a minha morte, pois ditoso
me julgarei libertando com a minha vida a de tantos valentes, dispostos
a despedaçarem-se pelas nossas rivalidades_», outros Médicis deshonraram
o illustre appellido que tinham herdado de seus nobres antepassados.
Sublime foi o rasgo de abnegação levado a cabo por Lourenço de Médicis,
evitando a corrente de sangue que ameaçava inundar Napoles e Toscana,
apezar de dizer a historia que o papá Sixto IV preferia a guerra,
esquecendo-se de que era um representante de Christo, do Deus da
bondade, do perdão e da tolerancia.
Mas a natureza é variada, e depois dos grandes Médicis da republica
vieram os pequenos ladrões do despotismo.
Chegou Alexandre, verdugo do povo, morto ás mãos do sobrinho, que com
incrivel cynismo lhe perguntou ao enterrar-lhe a espada no peito:
«_Senhor, estaes dormindo?_» Veiu depois Fernando, que morreu d'uma
indigestão de fructa verde, e por ultimo o estupido Cosme III, cuja
esposa Margarida de Orléans, não podendo supportar a repugnancia que lhe
causava o marido, o abandonou, envergonhada de lhe ter pertencido. Para
que a estupidez de Cosme chegasse ao cumulo, dedicou-se em procurar a
mulher pelas côrtes da Europa: mas em toda a parte se riram d'elle,
despedindo-o vergonhosamente como a um ente repugnante.
Deixemos os Médicis á historia, e continuemos a narração interrompida ao
avistar as altas muralhas de Florença.
Na estação, entre os muitos corretores d'hoteis que disputam os
estrangeiros, D. Ventura encontrou-se com um hespanhol que tinha casa de
hospedes, entrou em ajuste com elle, e conduziu-os n'um trem para casa.
D. Ventura alugou todo o rez-do-chão, com o direito de lhe pertencer o
jardim plantado de laranjeiras, limoeiros e grandes acacias.