O diabo queixou-se um dia a Christo de que tendo ajudado Deus a crear o
mundo nada recebera em paga dos seus trabalhos.
A queixa sendo achada justa, Christo deu-lhe em paga o milho e a aveia.
O diabo partiu saltando de contente, porém no caminho, com a alegria,
esqueceu-se do nome das plantas que lhe tinham sido dadas.
S. Pedro e S. Paulo a saberem da liberalidade de Christo lastimaram que
tivesse feito ao diabo uma tão importante dadiva.
--Agora o que dei, está dado, não o posso tornar a tirar, disse Christo.
--Pois bem, replicou S. Paulo, vou fazer com que o diabo fique sem os
bons vegetaes em troca de outros maus.
E partindo a toda a pressa sahiu ao encontro do diabo. Este ia triste e
cabisbaixo procurando lembrar-se das plantas que Christo lhe déra.
--Que tendes, perguntou S. Paulo?
--Christo deu-me dous vegetaes e eu não me lembro quaes são.
--Eu sei, replicou S. Paulo, um é a canna...
--É verdade, é a canna, atalhou o diabo esfregando as mãs de contente,
mas o outro?
--O outro é a serralha.
--A serralha, a serralha, uivou o diabo, que fugiu sem dar os
agradecimentos a S. Paulo, que d'esta fórma conseguiu livrar do poder do
diabo dous dos mais uteis vegetaes dando-lhe em troca outros de
insignificante valor.