ROSA MUSGO.

O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus, mitigar o soffrimento

d'uma pobre noiva cujo bem amado morrera na guerra, defendendo o solo

sagrado da patria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam

a immensa legião que Deus commanda, e o favorito querido do Senhor.

Contente com o encargo que lhe fôra dado, Sible bateu as azitas da mais

fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde

morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a

solidão e o abandono em que ficava depois de têr architectado tantos e

tão risonhos projectos de felicidade.

Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga,

allucinada pela dôr, procurava pôr termo á existencia, e começou, para a

consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes côres a morte gloriosa do

noivo, o logar distincto que elle ia occupar no reino dos ceus,

esperando que ella se lhe fosse juntar para se realisar o eterno e

venturoso enlace patrocinado por Deus, que o desespero da rapariga

abrandou como por encanto, e um sorriso, raio de sol após temporal

desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto amargurado. Mas para que

Amel merecesse uma felicidade tão extraordinaria, felicidade não sonhada

por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que esquecesse a dôr

mitigando o soffrimento alheio, indo em santa romagem do bem para a

cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e de

familia, e para junto das creancinhas que a guerra fizera orphãs,

esperar que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem

amado.

Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noute começou

a estender o escuro veu sobre a terra, contente por se ter

satisfatoriamente desempenhado da tarefa que lhe era imposta,

despediu-se da donzella e quiz tomar o caminho do ceu. Mas com o cahir

da noute estendera-se sobre o bosque um espesso nevoeiro humido que

desnorteou Sible, e molhando-lhe as pennas das azas o impossibilitou de

voar. O anjo vendo que lhe era impossivel alcançar o ceu, tratou de

procurar um retiro agradavel e seguro onde podesse socegadamente esperar

a manhã.

Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantissima roseira

engrinaldada de formosissimas rosas brancas rescendendo os mais puros e

divinaes aromas. Mais encantador abrigo, melhor docel não era possivel

encontrar em todo o bosque.

Sible foi á parede apanhar um montão de fôfo musgo e com elle fez sob a

roseira um leito confortavel, onde, depois, envolvendo-se nas alvas azas

de arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a

madrugada.

Porém o aroma que as rosas emittiam era tão embriagador, e o vento

brandamente passando atravez a folhagem cantava melodias tão doces, que

o anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente.

Nunca no ceu Sible passara uma tão agradavel noite! Sonhou sonhos tão

deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do

sol, beijou reconhecido as rosas, e estas, córando de alegria e pejo,

ficaram para sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca

recompensa para quem tão agradavelmente o emballara toda a noite, e

queria, antes de regressar ao ceu, dar-lhe recompensa maior.

Porém como tornar mais bellas as rosas em que tudo, fórma, colorido e

perfume tão distinctamente brilhavam?

Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que

lhe servira de leito, resguardou cuidadosamente com elle os botões das

flores prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insectos

lhes não causassem damno algum.

E em seguida, batendo as azas, voou para o ceu a dar conta a Deus da

missão de que fôra encarregado.

E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo...

Lendas dos Vegetaes · 第 11 / 74 题