_BOAS NOVAS_
Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro
ao porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno
do costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e
fazendo parecer, que o mar se transformára em um grande lago azul e
tranquillo. Ao cabo de uma feliz derrota o navio deu fundo em frente da
velha cidade egypcia, uma das mais bellas e graciosas cidades do mundo
antigo, e laço de união da Europa com o Oriente.
Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua
bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus
monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade
gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no VII seculo.
De todas essas preciosidades historicas restavam unicamente: a
columna de Pompeu, denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois
obeliscos, impropriamente chamados _Agulhas de Cleopatra_, e as catacumbas.
A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo _Serapeion_,
ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos centros do
saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de
Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu,
testemunha sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte
genuinamente grega mandou um prefeito romano erigir em honra do
governador Diocleciano, _genio tutelar da cidade_, para lhe demonstrar a
sua gratidão pelo trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era
lavrada em syenito, com o sócco quadrado, em que assentava, e o capitel
corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.
As _Agulhas_ consistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em
parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois
monumentos: um, o _Sebasteion_, em honra de Tiberio; o outro, á gloria
de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor,
e, por consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno,
em que assentava a velha aldeia de Rakotis.
No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome
d'aquelle Pharaó.
Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus
do Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis
mais especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os
removeram para Rakotis.
Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á
terra firme por meio de um mólhe de cantaria, denominado _Heptastadion_,
campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das
maravilhas do mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do
Egypto grego.
Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de
Cheops, e que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a
revestir de marmore branco por Sostrato de Knido. Este architecto
celebre gravou o proprio nome sobre o marmore, cobrindo a inscripção de
encaustica brilhante, em que traçou o do soberano. O tempo
encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a descoberto o nome
do vaidoso e desleal artista.
Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra
igual Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da
dynastia dos Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas
a morte surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.
Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes, e pouco mais,
pois que uma fébre maligna os prostou.
Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por
haver successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e
fazendo a ultima parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta
região por entre alegres povoações mui visinhas umas das outras, e
corria a pequena distancia da capital do Egypto, a qual demorava na
margem direita.
Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio,
encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden.
Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de
Tór. D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda
do golpho de Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco
para Suaquem, riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar
Vermelho, e d'ahi para Aden.
Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído
de Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada
vez mais conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo
consciencioso do commercio das especiarias.
Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que
a sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis
mais lhe arraigava no coração as suas crenças. O seu melhor
companheiro, e confidente unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os
passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir audacioso e firme.
Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma exclamação nem um
gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de que não
fosse mercador ismaelita.
Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da
Arabia produziu-lhe viva impressão, que passou completamente
despercebida aos olhos dos tripulantes e mercadores que o cercavam.
Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias
quebradas e picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la
assim recortada, lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui
similhante. Parte d'ella mettia pelo mar, formando uma comprida
peninsula, que talhava duas formosas e largas enseadas, e na de léste
espelhava-se a muralha da cidade.
Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a
banda do mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos
por meio de cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha
cortada a pique, do outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte
rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um
ilhéo com o preamar, e até ao seu cume, onde estava um castello, subia
do baluarte um muro, que torneava o môrro. Por duas portas, ambas
juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do
lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres
portas consecutivas, protegida cada uma por sua fortificação.
Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo
do clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes
detraz da serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva
em enormes tanques abertos na rocha.
O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que
sempre estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os
productos de seus paizes, e d'ella levavam a varios mercados as
exportações da India, para as caravanas de Damasco e de toda a Asia
menor as passarem á Europa pelo Mediterraneo. Por tal motivo a maior
parte das náus contentava-se com chegar a Aden, e não curava de entrar
as portas do mar Vermelho.
Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um
grande rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias,
convencionou com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no
da India, aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar
ambos em determinada época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das
novas, que alcançassem.
Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na
costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu
mourisca a cidade de Calicut.
Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o
Oceano Indico.
A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só
mastro sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da
véla, que os ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas
governava com gualdrópes para a borda, alados por um e outro bordo.
Ligeiramente construida, de poucas cavernas, e forrada apenas
exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual modo fixo ao
cavername, marcava a differença que ella fazia das pregadiças, nas quaes
em vez de quilha havia fundo largo.
A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho
da amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á
náu navegar em melhor linha de bolina.
Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear
para cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma
especie de rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.
Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito
estanque, betumando as costuras do taboado com _quil_, e untando-as com
azeite de peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim vedavam
tambem os tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes
cubos de madeira com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as
paredes escoradas interna e externamente.
O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam
da India para o mar Vermelho.
Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras
particularidades de construcção, esta náu differia muito das
portuguezas. Sem coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis,
levava a carga arrumada em compartimentos separados, e resguardada da
chuva por folhas sêccas de palmeira, postas em fórma de telhado de duas
aguas.
Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e
passageiros abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo
quando o vento soprava muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes
casos recolhiam-se em uma especie de choupana de óla, encostada ao
mastro, ou armada a ré, por cima das esteiras de rotas, com que cobriam
a carga.
O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de
madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que
serviam de trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os
principaes manjares da quotidiana alimentação.
E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia
a navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo
depois varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.
Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que,
sem um movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta
travessia em similhantes condições, e nem um momento sentisse
desfallecer-lhe o animo!
Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua
peregrinação arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a
Thereza, por quem tudo soffria resignado!
A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que
permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados,
corriam por elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que
sulcavam o mar cinco ou seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com
cordilheiras de collinas, separadas umas das outras por largos e
profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos de todas essas
collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que refulgiam aqui
e além as brilhantes côres do Iris, e levantava igualmente redemoinhos,
como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel era, que os tôpos
d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre si,
formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes
iracundas. A náu, sem governo, vogava de capa, e não era senão
joguete do vento e das ondas. Subia essas serranias inclinada sobre um
dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, equilibrava-se, e descia
depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em quanto se
escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo lençól
de espuma.
Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca,
mas horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.
Salvou-se!
Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a
Cananor, para fazer aguada e tomar lenha.
A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e,
por ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de
terra o seu rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.
Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido
no seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a
opulencia e a belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia,
que lhe pintára com as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India,
não o illudira, pois o maravilhoso painel, que estava contemplando, era
superior ainda ao que a sua imaginação havia sonhado.
Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos
arbitrariamente traçados, estava disseminada a casaria da cidade,
sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras odoriferas
dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos. Junto
da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as
dos pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que
resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações
nobres, e a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a
grandissima distancia da praia.
A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas
espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos
e frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a
fugir, quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de
serem suas victimas.
Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes
traziam a tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos
quatorze annos, consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma
especie de jumento silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de
linha dobrada de tres fios, com a largura de dois dedos, como a correia.
Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho,
dois ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado
ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e resguardando-o do
sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares
chamavam _boi_.
Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se
approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o
trabalhador encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas
ordens a uma certa distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar
de fato, purificar-se. E mantinha-se tanto esta differença de castas,
que um poleá nunca podia remir o peccado original do nascimento. Nascia
villão, havia de morrer villão.
Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de
Pero da Covilhan.
O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações
eram por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.
Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia
fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias
tirando d'ellas todo o proveito.
Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio;
Ormuz, o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da
Africa meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro
das minas de Monomotapa.
Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava,
que lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia
com o cuidado de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia
aprazado com o seu companheiro, soube alli, que este fallecera.
Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com
os vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do
Préste, não se animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não
saciaria com tão pouco os vehementes desejos de D. João II, n'aquelle
ponto.
--De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me
incumbira...--pensava Pero da Covilhan.
Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais
conviria ao serviço de seu real amo.
N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus
portuguezes, que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de
Amron, na opulenta rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso
d'essa Babel, em tão embaraçosas situações se viram, que tiveram por
vezes perdida a esperança de encontra-lo.
Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o
outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.
--Á procura de vós andavamos!--exclamou o rabbi, ao dar casualmente com
Pero da Covilhan.
Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo,
experimentou um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:
--Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com
portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...
Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia,
de D. João II, disse-lhe:
--Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por
essas cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.
--E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...--perguntou
Pero da Covilhan.
--Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão
esquerda...--respondeu Abraham, apontando para ella.
--Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei
meu senhor!...--replicou Pero da Covilhan, sorrindo.
--Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa
physionomia, que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo
crescida.
Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que
fosse mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda
bem instruido de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do
que sabia, não devendo voltar ao reino sem ter visto o Préste João.
Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá
fallar muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da
India ás cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram,
fizera depois a narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra
protecção, para emprehender esta nova viagem, que concertára com o rabbi.
--De tudo estou inteirado--disse Pero da Covilhan.--A vós, Joseph, vou
immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor;
e--voltando-se para Abraham--comvosco tornarei a vêr Ormuz.
N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego,
fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes
portos, que serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára,
que a corrente d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em
Alexandria, seu principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza
a pósse, garantida por tratado com o sultão do Egypto.
A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as
especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico,
attrahido áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e
opulentos mouros do Malabar.
Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel
valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.
A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas
de Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de
Pegu, as espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.
Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande,
assombroso, parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar
eternamente um reflexo brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da
Covilhan uma das suas cartas com a seguinte informação: «Navegando-se
pela costa da Guiné adeante, chega-se ao termo do continente:
persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa no Occeano
indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os
mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E
addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que
dos máres da Guiné se póde navegar para a India».
Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva,
communicava tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor
ouvira fallar no Préste João, affirmando os mouros, «que este rei
christão estava tão longe mettido nas suas terras, que não sabia, que
cousa era gente do mundo, e que para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E,
posto que os mouros não déssem a esse rei o nome de Préste, como já no
Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da Covilhan muitas
cousas do rei abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem
seus estados alguns mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que
não tinha para que passar adeante, a buscar o que não sabia que
houvesse, tendo tão pérto o que lhe diziam que na Ethiopia havia».
Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi
Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.
Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as
cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e
d'este porto sahiram para Ormuz.
Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de
conversar largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da
côrte portugueza!...
O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...
Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a
esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria
realisados, era o melhor lenitivo da sua saudade.
--Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a
el-rei qual é o caminho da India pelo mar!...--repetiam os echos da sua
alma radiante e apaixonada.
E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar
d'Oman.