rapaz, o amor verdadeiro, que sinto agora, dissipou completamente esse
frivolo galanteio.
--Mas, minha senhora, v. ex.ª deve fazer a felicidade d'um Dyonisio.
Attenda, por amor de Deus, á influencia dos nomes nos destinos dos
individuos. O nome de Dyonisio dá logo a conhecer que o possuidor deve
ter um caracter patriarchal. Ora casem, casem, meus pombinhos, tenham
muitos filhos, e sejam muito felizes.
--Assim me despresa, sabendo que o amo!
--Não, minha senhora, não creia tal. Hei de ser sempre o maior dos seus
admiradores.
--E mais nada?
--E de v. ex.ª o mais attento venerador.
--Ingrato, perfido! Disse-lhe que o amava, menti-lhe, detesto-o!
E a romantica menina ia aproveitar a situação, e a proximidade d'uma
poltrona para desmaiar, quando felizmente entraram as duas manas.
Acabados os comprimentos preliminares:
--Que pena tenho, minhas senhoras, de as ter conhecido, disse Eduardo;
os momentos deliciosos, que aqui passei, servem apenas para tornar mais
pungente a saudade, que me vae atormentar.
--Porque, deixa-nos? bradaram em côro as tres provincianas.
--Sim, minhas senhoras, recebi hontem noticia de ter obtido passagem
para um regimento da capital, de forma que hoje mesmo tenciono partir
para o Porto.
--Partir, quem falla aqui em partir? bradou o sr. Bernardo que entrava
n'esse instante.
--Eu, sr. Guimarães, replicou Eduardo, que, depois de lhe agradecer
immenso o modo amabilissimo com que me recebeu, lhe peço agora as suas
ordens para o Porto e para Lisboa.
--Mas porque não se demora pelo menos alguns dias?
--Sou militar, sr. Guimarães, e devo cumprir á risca a ordem que recebi.
--Esta é que eu não esperava!
--Ingrato, e eu amava-o tanto, murmurou Emilia, recostando-se na poltrona.
--Então, minha senhora, cá fica Dyonisio para a consolar. É um bello
rapaz, d'um caracter excellente, e com alguma applicação póde-se tornar
um heroe de romance. Dê-lhe v. ex.ª vinagre todos os dias, e receite-lhe
uma dose forte de Visconde d'Arlincourt, e verá como faz do sr. de
Val-de-Camellos um rapaz ideial. Vou para Lisboa formar votos pela sua
felicidade.
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N'essa mesma tarde, Eduardo Teixeira empoleirado no seu fiel rocinante,
dizia adeus a Santo Thyrso, depois de ter aturado uma scena pathetica de
despedida, tal como a poderia imaginar o mais lamuriento auctor de
melodramas.
O sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, veiu com grato coração, e com
um jumento chibante, em que montava, acompanhar o nosso heroe á
Travage, onde se despediu de Eduardo, protestando-lhe eterno
agradecimento, e amisade constante.
Dyonisio Antunes continua serenamente o namoro com Emilia, sujeitando-se
comtudo a uma dieta rigorosa, a ver se abate um pouco a sua nutrição
anti-romantica.
O sr. Themudo cada vez embirra mais com o _D. Jayme_; e quando, em doces
colloquios amorosos com D. Belizaria Guimarães, interrompe a conversação
intima para fallar da depravação do seculo, cita o enredo do _D. Jayme_,
e véla o rosto pudicamente com uma toalha de mãos. Belizaria sorve com
indignação uma pitada de simonte.
Eduardo Teixeira, diz-nos pessoa fidedigna, que passa bem de saude,
sendo comtudo muito sujeito a ataques de nervos, que o assaltam sempre
que ouve... um piano!...
FIM