A morte de Francisco Theodoro fez sensação.
Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia.
Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a
baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de
madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro
seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade.
Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma
fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como
se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente.
Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de
duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por
encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida,
sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua
felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só
viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse
adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não
tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?
O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa.
Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma
hora antes! Um minuto antes!
E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos
annos? Que fariam todos alli, sem elle?
Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.
No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal
acreditavam na sua sinceridade.
As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e
dever de apparencia cumprimentavam a viuva.
As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e
tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo,
ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia.
D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho.
Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha
tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não!
Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da
visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella
casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo,
cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de
passos e de vozes abafadas...
D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a
encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos
inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno
na fé ardente e pura da sua prece.
Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus ... tão digno do Paraizo!
E toda se debulhava em prantos por aquella alma perdida.
Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda
russa do seu vestido preto, D. Itelvina considerava na fragilidade
humana. Porque morrera aquelle homem? Por não ter sabido guardar.
O instincto da vida é o egoismo. Julgara-o mais precavido e mais forte;
afinal era um bôbo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado,
acontecer-lhe-ia aquillo? não. Morreria de velho, deixando testamento.
Sempre pensara que elle havia de deixar testamento; seria então uma
cerimonia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestigio a
tudo.
Empobrecer ... suicidar-se, quem diria? Um portuguez, um homem
conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em
suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a familia na miseria.
Na sociedade ha só uma coisa ridicula: a pobreza. Vejam se os jornaes
inscrevem o nome dos miseraveis que vão para a valla.
Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão noticia dos
mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão...
D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com
asco. A seu lado cahiam as dobras fartas de um reposteiro de velludo
lavrado; ella apalpou-o, sentindo com um arrepio o pello do setim do
forro agarrar-se-lhe á pelle aspera dos dedos.
--Foi por estas e por outras! murmurou ella de si para si.
Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo...
Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus
lhes deu cinco dedos em cada mão.
No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á
lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella
dar entrada a alguem!
Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo:
--Coitadinha...
E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos
soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela
violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas,
faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar
ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e
emfim chegou.
Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o
Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso
fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina
acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da
face do morto, beijou-o tres vezes.
De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz
da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a
um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas
adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror
das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar.
Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto
das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa.
Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a
friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a,
com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso.
Gervasio considerava na dolorosa delicadeza d'aquella situação, que o
obrigara a elle a trazer do cemiterio a chave da prisão perpetua do
outro. Apoquentou-o a ideia de o terem escolhido por ironia, e, olhando
para a Milla, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios
aquella bocca, que tão repetidos beijos dera num cadaver...
A unica voz na sala era a do relogio; mal se ouvia a respiração das
creanças bem accommodadas.
Gervasio quiz fallar, dar alguns conselhos a Camilla; sabia-a muito
inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tractal-a. A lingua
negava-lhe o tu, a que o seu amor o acostumara. Ella suspirava baixinho,
de queixo cahido para o peito.
Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça.
Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços.
--Como está Ruth? perguntou Milla.
--Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para
o medico:
--Vá vel-a ... sim?
Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.