Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de
neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança
do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, os casaes d'aquelles
arredores!
Era outra a expressão de physionomia da paizagem, mas as queridas
feições eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.
Emfim o meu _stage_ parou á entrada do parque, e eu tomei apé pela longa
avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o
tempo macio, não estava _cru_, segundo a expressiva phrase do paiz.
Por entre a nevoa que me incubria a antiga mansão e involvia as árvores
circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando,
quasi pelo tacto, até meia alameda talvez.
Parei a reflectir na minha posição e no que eu ia ser n'aquella casa que
de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina
brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim
de entre as árvores do parque.
O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma apparição phantastica em
meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.
Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia não era nem podia
ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e
graciosas teem trazido varinha de condão. Laura... ai! Laura tam longe
estava d'alli... Quem sería pois? So se fosse!.. Quem?
Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, aquelle ar gentil
não podia ser senão d'ella...
D'ella, quem?
Ainda te não fallei, quasi, da última das tres bellas irmans que me
incantavam, não t'a descrevi, não t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me
fazê-lo. Mas é preciso: custa-me, não ha remedio.
Era Georgina...
Georgina que tu conheces, Georgina que... era Georgina a que vinha a mim
n'aquella--fatal ou feliz?--manhan; Georgina que de todas tres era a que
menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia.
Este meu coração, á fôrça de ferido e de mal curado que tem sido,
pressente e adivinha as mudanças de tempo com uma dor chronica que me
dá. Pressenti não sei quê ao ver approximar-se Georgina...
--'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobre
Julia, que alegria que vai ter, hade curá-la de todo.'
--'Pois quê! Julia está doente?'
--'Não o sabía!... Ai! não, bem sei que não: ella não lh'o quiz dizer.
Julia está doente; mas não é de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes
que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui
esperá-lo.'
Éstas palavras eram simples, não tinham nada que me devesse impressionar
extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me
sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava
de a ver tam bella, tam interessante.
É uma situação d'alma ésta que não sei que a descrevessem ainda poetas
nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou não a conhecem. Está recebido
que as subitas impressões causadas por um primeiro incôntro sejam as
mais interessantes, as mais poeticas.
Eu não nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensações;
mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha
impressão que nos faz um objecto ja conhecido, que víramos com
indifferença atéalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que
sempre o tinhamos considerado...
Mas ésta mulher é bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles
olhos são divinos! Onde tinha eu os meus atégora? Mas este ar, mas ésta
graça onde os tinha ella escondidos? etc. etc.
Vão-se gradualmente, vão-se pouco a pouco descobrindo perfeições,
incantos; e o sentimento que resulta é mil vezes mais profundo, mais
fundado, sôbretudo, que o das taes primeiras impressões tam cantadas e
decantadas.
Que mais te direi depois d'isto? Entrámos em casa, vi Julia, fallámos de
Laura muito e muito. Mas eu ja o não fiz com o enthusiasmo, com a
admiração exclusiva com que d'antes o fazia...
Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito.
Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversações
íntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas
suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade.
Georgina, que atéalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela
irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graça, em
espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doçura de
maneiras, de voz, de expressão, de tudo.
Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sôbre
mim! mas é a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me
querer-lhe mais... que tanto vale.
Eu sei?.. Não, não lhe queria tanto. Mas amei-a.
Amei, sim, e fui amado!
Tres mezes durou a minha felicidade. É o mais longo periodo de ventura
que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.
A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para
os Açores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para
aquella expedição. A historia fallará de muitos serviços, de muitas
dedicações. Quem saberá nunca d'esta?
A historia é uma tola.
Eu não posso abrir um livro de historia que me não ria. Sôbretudo as
ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um comico
irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e
importancia de quasi todos os factos que recontam?
Ainda não sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da
minha estada n'aquelle escôlho no meio do mar, chamado a ilha Terceira,
onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional.
Habituei-me porfim. A que se não affaz o homem?
Levaram-me uma tarde á grade de um convento de freiras que ahi havia. O
meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas
monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de
me consolar. Não o conseguiu, coitada! O meu coração estava em ----shire
em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem,
Pelo mundo em pedaços repartido;
estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia
estar.
Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou.
Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram
como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre.
Eu não amei a Soledade.
E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia... Se eu sou feito
assim, meu Deus, e assim heide morrer!
Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu.
Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te
vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal que te vi entre
aquellas árvores, á luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu
tinha amado sempre, que para ti nascêra, que teu so devia ser, se eu
ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse
digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita.
Não é, Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.
Eu sim tinha nascido para gosar as doçuras da paz e da felicidade
doméstica; fui creado, estou certo, para a glória tranquilla, para as
delicias modestas de um bom pae de familias.
Mas não o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha
imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar hade
ser infeliz por fôrça, a que me intregar o seu destino, hade vê-lo
perdido.
Não quero, não posso, não devo amar a ninguem mais.
A desolação e o oppróbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio
para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso
querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não
me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me
persegue não é obra minha.
Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu
accompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o auctor da sua e
das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraçadamente ésta
guerra no unico momento em que a podia abençoar, em que ella podia
felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao coração,
eu que farei?
Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me
não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus
serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim
em agiota, que é a unica vida de emoções para quem ja não póde ter
outras.
Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela última vez, adeus!