Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem
magreza. Os olhos de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado,
grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura
quando se abrandavam, que é difficil dizer quando eram mais bellos. O
cabello quasi da mesma côr tinha, demais, um reflexo dourado,
vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,--mas a
espaços, não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:--cabeça
pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sôbre um
collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeição das linhas dos
hombros.
A cintura breve e estreita, mas sem exaggeração, via-se que o era assim
por natureza e sem a menor contrafeição d'arte. O pé não tinha as
exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da
Venus de Medicis.
Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam
fascinante.
Fascinante é a palavra para ella.
O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beiços eram
vermelhos como a rosa de côr mais viva.
A expressão de toda ésta figura é que se não descreve. A bôcca breve e
fina surria pouco; mas quando surria, oh!..
Ve-la n'um baile, vestida e calçada de branco, cingida com um cinto de
vidrilhos pretos--toilete inalteravel para ella desde certa epocha--sem
mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas
derramando-se-lhe pelo collo--era ver alguma coisa de superior, de mais
sublime que uma simples mulher.
Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e sabía amar. Era pouco,
sei-o agora; entao parecia-me infinito.
Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos sós, e depois de
andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu
n'ella, ella não sei em quê.
Sería em mim?
Sería mas não m'o confessou.
E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir
com a mão que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e
humida nas minhas que escaldavam.
Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta disse-me: 'Não entre'; e
vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que
me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e
melancholico para a minha pobre habitação, onde passei a noite.
Quando era madrugada quiz-me deitar. Não dormi.
No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais
velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.
O bilhete parecia indifferente; não continha senão palavras usuaes,
pedia-me que fosse almoçar com ella... não fallava nas irmans.
Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso
d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma
lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes
caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnação.
Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no _parlour_ elegante de seu
exclusivo uso.
Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas _etagères_ com
livros e musicas, uma harpa e um cavallete.
Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, na estante da harpa
uma romança franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas...
A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o cha e não parecia attender a
mais nada.
É preciso que eu te descreva a piquena Julia--Julietta como nós lhe
chamavamos--nós, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia
de querer mais...
Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordações
de fraternal intimidade!
Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na
figura, na expressão e no hábito de toda a sua incantadora e diminutiva
pessoa.
Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve pé e _ancle_ mais
delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos
elegantes cuidados de um interior britannico--gentil quadro 'de genero'
como não ha outro.
Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que
eu creio que tenha existido.
Vista á lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros
exoticos que no curto verão inglez se expoem ao ar livre, facilmente se
tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa visão
de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.'
Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos
de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis á roda da cabeça
e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida
contínua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bôcca de beijar,
os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mão piquena estreita, e de
cera--tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de
innocencia angelica.
E era um anjo... oh se era!
Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez
em quando, mas não fallava. Emfim almoçámos, levaram o trem.
Ella disse á sua aia:
--'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para
ninguem.'
--'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo.
E ficámos sos completamente.