Os genovezes, vendo o recado do almirante, escreveram a el-rei que

perdesse d'elle sanha, e a carta de Gabriel Adorno, duque de Genova, e

dos anciãos do conselho d'essa cidade, dizia n'esta guisa:

«Principe e senhor mui claro, de grande e real magestade. Esguardada a

benignidade, muitas vezes se tempéra por mansidão o modo e rigor da

justiça, e a piedosa consideração trabalha sempre de renovar as boas

amisades antigas. E se boa cousa é tomar amisades e novas conhecenças,

muito melhor é, segundo diz o sabedor, renovar e conservar as velhas,

dizendo que o amigo novo não é egual nem semelhante ao de longo tempo.

As quaes razões nos fazem haver fiusa na vossa grande alteza, que

graciosamente haja de ouvir nossa humildosa supplicacão, a qual é esta,

que a nós foi notificado como o nobre cavalleiro Dom Lançarote Pessanho,

vosso almirante, filho em outro tempo do nobre barão Dom Manuel

Pessanho, digno de boa memoria, nosso amigo e cidadão, haja caido em

sanha da vossa real magestade, mais por inveja de alguns que d'elle bem

não disseram, que por outras graves maldades que n'elle sejam achadas,

segundo corre a commum fama que por razão bem parece; cá não é de querer

que saia de regra de bons feitos quem é gerado e descende de padres que

sempre foram ennobrecidos por virtuosos e bons costumes. E posto que

errasse em alguma cousa, muito deve vossa discreta mansidão temperar o

rigor da justiça, renovando por nobres beneficios a lealdade dos seus

antecessores: a qual cousa nós esperando da vossa grande alteza, a ella

humildosamente pedimos que, pelo que dito é, e nossos afincados rogos,

tenhaes por bem tornar o dito almirante á graça primeira de seu bom

estado. E por isto vossa real magestade haverá nós e nosso commum

apparelhados, de ledo coração, a todas as cousas que lhe forem

praziveis. Data, etc.»

Não embargando esta carta, não podiam com el-rei que perdesse sanha do

almirante; porém depois a alguns tempos, lhe perdoou el-rei, e foi

tornado a sua mercê.

*CAPITULO XI*

_Das moedas que el-rei Dom Pedro fez, e da valia do oiro e da prata

n'aquelle tempo_.

Não se podem tão temperadamente dizer os louvoures de alguma pessoa, que

aquelles, cujas linguas sempre têm costume de reprehender, não achem

lugares a elles dispostos, em que ameude bem possam prasmar: e nós,

porque dissemos d'este rei Dom Pedro que era grado e lêdo em dar, e não

dizemos de algumas grandezas que dignas sejam de tanto louvor, poderá

ser que nos prasmaram alguns, dizendo que não historiamos direitamente.

E isto não é por nós bem não vermos que para autoridade de tão grande

gabo não se acham ditos em sua igualdança; mas, por não desviar

d'aquelles louvores que os antigos em suas obras encommendaram,

contamol-o da guisa que o elles disseram.

Bem achamos que nunca se anojava por lhe pedirem, e que mandava lavrar

até cem marcos de prata, em taças e copas, para dar em janeiras, e

dava-as cada anno, com outras joias, a quem lhe prazia.

Accrescentou nas contias aos fidalgos e vassalos, como dissemos; cá o

vassallo não havia antes de sua contia mais de setenta e cinco libras, e

el-rei Dom Pedro lhe poz cento, que eram quinze dobras cruzadas, dobras

mouriscas. E por esta contia havia de ter o vassalo cavallo recebondo e

loriga com seu almofre, e á sua morte ficava o cavallo e loriga a

el-rei, de luctuosa, e dava-o el-rei a quem sua mercê era: em guisa que

com aquelle cavallo e armas, posta contia a outro vassalo, ficava sempre

o conto dos vassalos certo, e não minguado.

No tempo d'este rei, valia o marco da prata de liga dezenove libras, e a

dobra mourisca tres libras e quinze soldos, e o escudo tres libras e

dezesete soldos, e o moutão tres libras e dezenove soldos.

Este rei Dom Pedro não mudou moeda por cubiça de temporal ganho; mas

lavrou-se em seu tempo mui nobre moeda de oiro e prata sem outra

mistura, a saber, dobras de bom oiro fino, de tamanho peso como as

dobras cruzadas que faziam em Sevilha, que chamavam de Dona Branca. E

estas dobras que el-rei Dom Pedro mandava lavrar, cincoenta d'ellas

faziam um marco: e d'outras que lavravam, mais pequenas, levava o marco,

cento; e de uma parte tinham quinas e da outra figura de homem com

barbas nas faces e corôa na cabeça, assentado em uma cadeira, com uma

espada na mão direita, e havia letras ao redor, por latim, que em

linguagem diziam: _Pedro, rei de Portugal e do Algarve_, e da outra

parte: _Deus, ajuda-me e faze-me excellente vencedor sobre meus

inimigos_. E a maior dobra d'estas valia quatro libras e dois soldos, e

a mais pequena quarenta e um soldo.

Lavravam outra moeda de prata, que chamavam tornezes, que sessenta e

cinco faziam um marco, de liga e peso dos reaes d'el-rei Dom Pedro de

Castella, e outro tornez faziam, mais pequeno, de que o marco levava

cento e trinta, e de um cabo tinha quinas, e do outro cabeça de homem

com barbas grandes e corôa n'ella, e as letras, de ambas as partes, eram

taes como as das dobras, e valia o tornez grande sete soldos e o pequeno

tres soldos e meio, e chamavam a estas moedas dobra e meia dobra, e

tornez e meio tornez.

A outra moeda miuda eram dinheiros affonsins, da liga e valor que fizera

el-rei Dom Affonso seu padre.

E com estas moedas era o reino rico e abastado, e posto em grande

abundancia. E os reis faziam grandes thesouros do que lhes sobejava de

suas rendas, e, para os fazer e accrescentar n'elles, tinham esta

maneira.

*CAPITULO XII*

_Da maneira que os reis tinham para fazer thesouros, e accrescentar

n'elles_.

Já vós ouvistes bem quanto os réis antigos fizeram por encurtar nas

despezas suas e do reino, pondo ordenações em si e nos seus, por terem

thesouros e serem abastados. Porque sendo o povo rico, diziam elles que

o rei era rico, e o rei que thesouro tinha, sempre era prestes para

defender seu reino e fazer guerra quando lhe cumprisse, sem aggravo e

damno de seu povo, dizendo que nenhum era tão seguro de paz que pudesse

carecer de fortuna não esperada.

E para encaminharem de fazer thesouro, tinham todos esta maneira: em

cada um anno eram os reis certificados, pelos védores de sua fazenda,

das despezas todas que feitas haviam, assim em embaixadas como em todas

as outras coisas, que lhe necessariamente convinham fazer, e diziam-lhe

o que além d'isto sobejava de suas rendas e direitos, assim em dinheiros

como em quaesquer coisas, e logo era ordenado que se comprasse d'elles

certo oiro e prata para se pôr no castello de Lisboa, em uma torre, que

para isto fôra feita, que chamavam a torre albarrã.

Esta torre era mui forte, e não foi porém acabada. Estava em cima da

porta do castelo, e alli punham o mais do thesouro que os reis juntavam

em oiro e prata e moedas, e tinham as chaves d'ella, um guardião de São

Francisco, e outra o prior de São Domingos, e a terceira um beneficiado

da Sé d'essa cidade.

E para juntarem este oiro e prata, tinham este modo: em todas as cidades

e villas do reino que para isto eram azadas, tinham os reis seus

cambadores, que compravam prata e oiro áquelles que o vender queriam, o

qual não havia de comprar outrem senão elles, e acabado o anno, trazia

cada um quanto comprara áquelles lugares onde havia de ser posto em

thesouro: e haviam estes cambadores certa cousa de cada peça de oiro que

compravam, e o que sobejava em moeda punham-no isso mesmo em deposito.

Outra torre havia no castello de Santarem, em que outrosim estava mui

gran thesouro de moeda e d'outras cousas, em tamanha quantidade, que

ante a pontavam fortemente por não cair com o muito haver que n'ella

punham.

E d'esta guisa estava no Porto, e em Coimbra, e n'outros lugares.

E posto alli, em cada um anno aquelle oiro, e prata, e moedas que assim

ficavam, e que os reis mandavam comprar, quando o rei vinha a morrer, e

prégavam d'elle e dos bens que fizera, dizendo como o reinara tantos

annos e mantivera em direito e justiça, contavam-lhe mais por grande

bondade, e louvando-o muito, diziam:--este rei, em tantos annos que

reinou, poz nas torres do thesouro tanto oiro, e prata, e moedas. E

quanto cada um rei n'ellas punha, tanto lh'o contavam por muito mór

bondade.

El-rei Dom Pedro, como reinou, pareceu a alguns que não tinha sentido de

ordenar que accrescentassem no thesouro, que os antigos com grande

cuidado começaram de guardar. E vendo isto um seu privado, que chamavam

João Esteves, houve-o por grande mal, e propoz de lh'o dizer, e fallando

el-rei com elle uma vez, em coisas de sabor, disse elle a el-rei em esta

guisa:--Senhor, a mim parece, se vossa mercê fosse, que seria bem de

proverdes vossa fazenda, e vêr o que se dispender póde, e, do que

sobejar, encaminhardes como accrescenteis alguma cousa nos thesouros que

vos ficaram de vosso padre e de vossos avós, para fazerdes o que os

outros reis fizeram, e para terdes que dispender mais abundosamente se

vos alguma necessidade viesse á mão, cá muito mais com vossa honra

dispendereis vós accrescentando no thesouro que tendes, que gastar o que

os outros reis deixaram, sem pôr n'elle nenhuma coisa.

A estas e outras razões respondeu el-rei que dizia bem, e que lhe

puzesse em escripto quanto era o que renderiam seus direitos, e a

despeza que se d'ello fazia. A poucos dias trouxe o privado, em

escripto, tudo aquillo que lhe el-rei dissera, e visto por ambos

apartadamente, acharam que tiradas as despezas que os reis em costume

tinham de fazer, que sómente no seu thesouro de Lisboa podia cada anno

pôr na torre do castello até quinze mil dobras.

E ordenou logo, como se puzesse cada anno, em oiro, e prata, e moedas,

tudo o que sobejasse de suas rendas, nos lugares acostumados onde os

reis punham seu haver; porém que dizia el-rei que não fazia pouco quem

guardava o thesouro que lhe ficava de outrem e se mantinha nos direitos

que havia de seu reino, sem fazendo aggravo ao povo, nem lhe tomando do

seu nenhuma coisa. E ficaram todos por sua morte a el-rei Dom Fernando,

seu filho, que os depois gastou como lhe prouve, segundo adiante

ouvireis.

*CAPITULO XIII*

_Por que guisa el-rei Dom Pedro de Castella começou de juntar thesouro_.

Por outra maneira juntou el-rei Dom Pedro de Castella mui grão thesouro,

sem mudar moeda, nem lançar peitas ao povo: e vêde de que guisa foi,

posto que fallemos dos feitos alheios.

Assim, adverti que el-rei Dom Pedro estando na aldeia de Morales, que é

uma legua de Toro, jogava um dia os dados com alguns de seus

cavalleiros, e tinha-lhe um seu reposteiro-mór, a cerca d'elle, uns

huchotes pequenos com alguma prata e dobras, que seria por todo até

vinte mil: el-rei disse que aquelle era todo seu thesouro, e que mais

não tinha.

Aquelle dia, logo á noite, estando el-rei em sua camara, Dom Samuel

Levi, seu thesoureiro-mór, lhe disse:--Senhor, hoje foi vossa mercê

dizer, perante aquelles que aqui estavam, que vós não tinheis mais

thesouro que vinte mil dobras, de que jogaveis, e com que tomaveis

sabor. E isto, senhor, entendo que o dissestes contra mim, por me

avergonhar, pois que sou vosso thesoureiro-mór, e não ponho melhor

recado em vossa fazenda. Porém, senhor, vós sabeis bem que, posto que

fosse eu vosso thesoureiro depois que vós reinastes até ora, que póde

haver uns sete annos, sempre em vosso reino houve taes boliços por os

quaes os recadadores de vossas rendas se atreveram a fazer coisas que

não deviam, por guisa que eu não pude tomar d'ello conta socegadamente

como era razão; mas ora se vossa mercê fôr de me mandardes entregar dois

castellos, quaes eu disser, eu vos quero pôr n'elles, antes de muito

tempo, thesouro com que bem possaes dizer que mais tendes juntas de

vinte mil dobras.

A el-rei prouve muito d'isto, e foram lhe entregues o alcaçar de

Torjillo e o de Fita. Dom Samuel poz logo alli homens de que se fiava, e

mandou cartas por todo o reino, a todos os que foram e eram recadadores

das rendas de el-rei, des que elle começara de reinar até então, que

viessem logo dar conta; e tomava-lh'a d'esta guisa. Por el-rei eram

livrados a um cavalleiro, ou outro qualquer, certos mil maravedis de seu

poimento, ou d'outra maneira, e Dom Samuel fazia vir perante si todos

aquelles a que alguns dinheiros foram desembargados por aquelle a que

tomava conta, e dava a cada um juramento, aos Evangelhos, quantos

dinheiros receberam d'aquelle recadador por cada uma vez, e quantos lhe

deixara por haver d'elle desembargo e não ser detido, e aquelle a que

taes dinheiros foram livrados dizia que não houvera mais de tantos, e

que os outros lhe déra, de peita, pelo desembargar, porque lhe faziam

entender que d'outra guisa não poderia haver pagamento.

Então, se o recadador não mostrasse lugar certo onde lhe todo fôra

pagado, mandava Dom Samuel que a metade de quanto assim levara fosse

para o thesouro d'el-rei, e a metade para aquelle que recebera tal

engano.

E todos os que taes livramentos houveram, eram mui contentes de dizer a

verdade, por cobrar o que tinham perdido. E elle juntou, por esta guisa,

antes de um anno, n'aquelles castellos, tão grande thesouro, que era

estranha cousa de vêr.

E este foi o começo do mui grão thesouro que el-rei Dom Pedro depois

teve junto, segundo adiante contaremos.

*CAPITULO XIV*

_Como el-rei fez conde e armou cavalleiro João Affonso Tello, e da grão

festa que lhe fez_.

Em tres coisas assignadamente achamos, pela mór parte, que el-rei Dom

Pedro de Portugal gastava seu tempo, a saber: em fazer justiça e

desembargos do reino, e em monte e caça de que era mui querençoso, e em

danças e festas segundo aquelle tempo, em que tomava grande sabor, que

adur é agora para ser crido. E estas danças era a som de umas longas que

então usavam, sem curando de outro instrumento posto que o hi houvesse:

e se alguma vez lh'o queriam tanger, logo se enfadava d'elle e dizia que

o dessem ao démo, e que lhe chamassem os trombeiros.

Ora deixemos os jogos e festas que el-rei ordenava por desenfadamento,

nas quaes, de dia e de noite, andava dançando por mui grande espaço; mas

vêde se era bem saboroso jogo. Vinha el-rei em bateis de Almada para

Lisboa, e saiam-no a receber os cidadãos, e todos os dos misteres, com

danças e trebelhos, segundo então usavam, e elle saia dos bateis, e

mettia-se na dança com elles, e assim ia até ao paço.

Paraementes se foi bom sabor. Jazia el-rei em Lisboa uma noite na cama,

e não lhe vinha somno para dormir, e fez levantar os mocos e quantos

dormiam no paço, e mandou chamar João Matheus e Lourenço Palos, que

trouxessem as trombas de prata, e fez accender tochas, e metteu-se pela

villa em dança com os outros. As gentes que dormiam, saiam ás janellas,

a vêr que festa era aquella, ou por que se fazia, e quando viram

d'aquella guisa el-rei, tomaram prazer de o vêr assim lêdo. E andou

el-rei assim grão parte da noite, e tornou-se ao paço em dança, e pediu

vinho e fructa, e lancou-se a dormir.

E não curando mais falar de taes jogos: ordenou el-rei de fazer conde e

armar cavalleiro João Affonso Tello, irmão de Martim Affonso Tello, e

fez-lhe a mór honra, em sua festa, que até áquelle tempo fora visto que

rei nenhum fizesse a semelhante pessoa; cá el-rei mandou lavrar

seiscentas arrobas de cêra, de que fizeram cinco mil cirios e tochas, e

vieram de termo de Lisboa, onde el-rei então estava, cinco mil homens

das vintenas para terem os ditos cirios. E quando o conde houve de velar

suas armas, no mosteiro de São Domingos d'essa cidade, ordenou el-rei

que dês aquelle mosteiro até aos seus paços, que é assaz grande espaço,

estivessem quedos aquelles homens todos, cada um com seu cirio accesso,

que davam todos mui grande lume, e el-rei, com muitos fidalgos e

cavalleiros, andavam por entre elles dançando e tomando sabor, e assim

dispenderam grão parte da noite.

Em outro dia, estavam mui grandes tendas armadas no rocio, a cerca

d'aquelle mosteiro, em que havia grandes montes de pão cosido, e, assáz

de tinas cheias de vinho, e logo prestes por que bebessem, e fòra

estavam ao fogo vaccas inteiras em espetos a assar, e quantos comer

queriam d'aquella vianda, tinham-na muito prestes, e a nenhum não era

vedada. E assim estiveram sempre em quanto durou a festa, na qual foram

armados outros cavalleiros, cujos nomes não curamos dizer.

*CAPITULO XV*

_Das avenças que el-rei de Castella e el-rei Dom Pedro de Portugal

firmaram entre si, e como lhe el-rei de Portugal prometteu de fazer

ajuda contra Aragão_.

Escrevem alguns louvando este rei Dom Pedro, dizendo que reinou em paz

em quanto viveu, e fortuna não fez sem-razão de encaminhar o começo, e

meio, e fim de seu mando, de viver em socego e folgada paz; cá elle, por

morte de el-rei seu padre, achou o reino sem nenhuma briga por que

houvesse de haver contenda com nenhum rei da Espanha, nem de outra

provincia mais alongada.

Dês ahi, como elle reinou, mandou logo Ayres Gomes da Silva e Gonçalo

Annes de Beja, a el-rei de Castella, seu sobrinho, com recado, e de

Castella veiu a elle, da parte de el-rei Dom Pedro, um cavalleiro, que

chamavam Fernão Lopez de Estuñega. E tratou-se então, entre os reis, que

fossem ambos verdadeiros e leaes amigos, e firmaram d'aquella vez suas

amisades.

Depois d'isto, a cabo de um anno, estando el-rei Dom Pedro em Evora,

chegaram mensageiros de el-rei de Castella, a saber, Dom Samuel Levi,

seu thesoureiro-mór, e Garcia Guterrez Tello, alguazil mór de Sevilha, e

Gomes Fernandez de Soria, seu alcaide, e trataram, entre os reis ambos,

muito mais perfeitas amisades que antes. E foi mais ordenado, entre

elles, que o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, e herdeiro em

Portugal, casasse com Dona Beatriz, filha do dito rei de Castella, e que

se fizessem os desposorios, por seus procuradores, dês fevereiro meiado

seguinte até ao primeiro dia de março que vinha, e as bodas logo no

postumeiro dia de abril, e que el-rei de Castella desse á dita sua

filha, em casamento, outro tanto haver quanto el-rei Dom Affonso de

Portugal dera, com sua filha Dona Maria, a el-rei Dom Affonso seu padre,

e que el-rei de Portugal desse á dita Dona Beatriz, em arrhas e doação,

outro tanto quanto seu padre, el-rei Dom Affonso, déra a Dona Constança,

quando com elle casára, e mais, que casasse Dona Constança, filha do

dito rei Dom Pedro de Castella, com o infante Dom João, e a outra filha,

que chamavam Dona Izabel, casasse com o infante Dom Diniz, e que os

desposorios e casamentos d'estes fossem acabados d'ahi a seis annos, e

que el-rei de Castella desse taes lugares a cada uma d'ellas, de que

houvessem de renda noventa mil maravedis, e el-rei de Portugal, a cada

um dos infantes, lugares que lhe rendessem cada anno dez mil libras de

portuguezes; e que el-rei de Castella fosse seu amigo, e imigo de imigo,

e que se ajudassem um ao outro por mar e por terra, cada vez que

requerido fosse, e que el-rei de Castella não fizesse paz com el-rei de

Aragão, contra quem lhe elle então requeria ajuda, sem lh'o fazer saber

primeiro, nem com outro nenhum rei e senhor.

Onde sabei, que esta ajuda, que el rei de Castella então pediu a el-rei

Dom Pedro de Portugal, fôra já antes pedida por elle a el-rei Dom

Affonso, seu padre, quando este rei Dom Pedro de Castella começou a

guerra contra el-rei Dom Pedro de Aragão, que foi no postumeiro anno do

reinado do dito rei Dom Affonso, segundo adiante vereis; a qual ajuda

havia de ser gentes de cavallo por terra, e certas galés pelo mar.

El-rei Dom Affonso respondeu a seu neto, que elle sabia bem e era certo

das posturas e firmidões que foram feitas entre el-rei Dom Diniz, seu

padre, e el-rei Dom Fernando, seu avó, e el-rei Dom Jayme de Aragão, as

quaes todos tres firmaram por si e por todos seus successores, e havido

accordo com todos os bons da casa de Portugal, que para ello foram

juntos em conselho, achou el-rei Dom Affonso que lhe não podia fazer a

dita ajuda, com aguisada razão: e vista tal resposta por el rei de

Castella, cessou de lh'a mais requerer.

Morto el-rei Dom Affonso de Portugal, e começando de reinar este rei Dom

Pedro, seu filho, enviou-lhe o dito rei de Castella rogar que lhe

quizesse fazer ajuda por mar e por terra em aquella guerra que então

havia contra el-rei de Aragão; cá isso mesmo tinha elle em vontade de

fazer a elle quando lhe cumpridoiro fosse.

El-rei de Portugal respondeu a isto, que bem certo devia elle de ser dos

bons e grandes dividos que sempre houvera entre os reis de Portugal e de

Aragão, pelos quaes elle com razão aguisada poderia ser bem escusado de

fazer nem dizer cousa que a elle e a sua terra fosse prejuizo, mórmente,

que entre el-rei Dom Affonso, seu padre, e el-rei Dom Pedro de Aragão,

que então era, foram firmadas posturas e amisades para se amarem e

ajudarem, especialmente contra el-rei Dom Affonso, padre d'elle rei de

Castella, e que isso mesmo fôra já a elle tratado, por vezes, depois que

entre elles recrescera aquella discordia; mas, que não embargando estas

rasões todas, que entendia que entre elles ambos havia tantos e tão bons

dividos, e assim aguisadas rasões, por que cada um d'elles devia fazer,

por honra e prol do outro, toda coisa que pudesse, e que elle assim o

entendia de fazer, tambem em aquelle mister que então havia, como em

todos os outros. E que para accrescentar na amisade e dividos que ambos

haviam, que lhe prazia de o ajudar n'aquella guerra, que começada tinha,

mas porquanto, a Deus graças, elle era abastante de muitas gentes, muito

mais que el-rei de Aragão, e parte de suas galés eram perdidas, que

melhor podia escusar a ajuda por terra que a do mar: e como quer que lhe

esta mais custosa fosse, que lhe prazia de o ajudar com dez galés

grossas, pagas por trez mezes, as quaes lhe faria bem prestes quando

lh'as mandasse requerer.

E foi assim de feito, que lhe fez ajuda por mar duas vezes, e duas por

terra, de bons cavalleiros e bem corregidos, durando por longos tempos

grande guerra, e muito crua, entre el-rei Dom Pedro de Castella e el-rei

Dom Pedro de Aragão.

Mas porque alguns, ouvindo aquisto, desejarão saber que guerra foi esta,

ou porque se começou e durou tanto tempo, e nós falar d'isto podiamos

bem escusar, por taes coisas serem feitos de Castella e não de Portugal,

pero, não embargando isto, por satisfazer ao desejo d'estes, dês ahi

porque nos parece que não havendo alguma noticia das crueldades e obras

d'este rei Dom Pedro de Castella não podem bem vir em conhecimento, qual

foi a razão porque elle depois fugiu de seu reino e se vinha a Portugal

buscar ajuda e accorro, e como depois de sua morte muitos lugares de

Castella se deram a el-rei Dom Fernando, e tomaram voz por elle: porém

faremos de tudo um breve falamento, começando primeiro nas cousas que

advieram em começo de seu reinado, vivendo ainda el-rei Dom Affonso de

Portugal, seu avô, com as outras que se seguiram depois que reinou

el-rei Dom Pedro, seu tio, das quaes nos parece que se em outro lugar

melhor contar não podem que todas aqui juntamente, entremettendo seus

feitos com a guerra, e primeiro, das cousas que fez antes que a

começasse, por saberdes tudo, em certo, de que guisa foi.

*CAPITULO XVI*

_De algumas pessoas que el-rei D. Pedro de Castella mandou matar, e como

casou com a rainha Dona Branca e a deixou_.

Segundo testemunho de alguns, que seus feitos d'este rei de Castella

escreveram, elle foi muito cumpridor de toda cousa que lhe sua natural e

desordenada vontade requeria: em tanto que dizendo nós, pelo miudo, tudo

o que feiamente se poderia ouvir de seus feitos, caíriamos em

reprehensão, que não eramos escasso de contar os males alheios, mormente

taes que são pregoeiros de má e vergonhosa fama, porém muito menos

d'aquelles que achamos escriptos, dos principaes diremos, e mais não.

Este rei foi muito arredado das manhas e condições que aos bons reis

cumpre de haver, cá elle dizem que foi mui luxurioso, de guisa que

quaesquer mulheres que lhe bem pareciam, posto que filhas-d'algo e

mulheres de cavalleiros fossem, e isso mesmo donas de ordem ou de outro

estado que não guardava mais umas que outras. Era muito cubiçoso do

alheio por má e desordenada maneira, e não queria homem em seu conselho,

salvo que lhe louvasse sua razão e quanto fazia. Matou muitas honradas

pessoas, d'ellas sem razão por lhe darem bom conselho, e outras sem

porque, e por ligeiras suspeitas, em tanto que muitos bons se afastavam

d'elle muito anojados, por temor da morte: cá nenhum não era com elle

seguro, posto que o bem servisse, e lhe elle muita mercê e honra

fizesse. E deixados os achaques que a cada um punha por os matar,

sómente, em breve, das mortes digamos, e mais não.

Chronica de el-rei D. Pedro I · 第 2 / 8 段