José Hipolito creára protectores esperançados no bom exito da tentativa.
Os inimigos politicos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tiral a
judicialmente.
O juiz prestou se a interrogar a morgada, visto que ella não podia
requerer por seu pulso. Suppridas legalmente as formalidades, Felizarda
foi depositada em Barcellos, no seio da familia Alvaraens.
Trava-se então a lucta nos tribunaes. O pretensor, mal dirigido pelo seu
advogado, responde com retaliações pungentissimas a insultos que o
argentario lhe dirige ao seu nascimento obscuro e á sua pobreza. A pugna
passara a ser um assanhado pugilato dos dois causidicos.
Um dos membros da familia Alvarães era moço, chamava-se Jose Francisco,
e estudava o quinto anno de latim a ver se aprendia o necessario para
conego da collegiada barcellense. Tinha quatro reprovações
conscienciosas em Braga; mas ao quinto anno já distinguia o verbo do
complemento objectivo, e traduzia com poucos erros a Ladainha.
A familia Alvarães era antiga e abastada; contava muitos frades
bernardos na prosapia, e um governador em uma praça da Azia, d'onde
trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa
tinha pedra d'armas, e uma liteira brazonada que antigamente ia a
Alcobaça buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cavado, e a encher
as roscas da caluga balofas pela inercia do claustro.
José Francisco, o estudante, era sanguineo, nedio, com as maçãs do rosto
vermelhas, e os olhos enfronhados nas palpebras somnolentas. Felizarda,
a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da camara
lhe era um antipathico bandalho, desde que em plena praça o enxovalhára
perguntando-lhe, no terceiro anno de latim, o accusativo de _Asinus_.
Oppozera-se José Francisco á recepção da morgada para haver de casar com
José Hypolito, filho do Manuel Colchoeiro; mas força maior obrigara os
Alvarães a protegerem o amanuense.
Ás vezes, o futuro conego pasmava-se a contemplar Felizarda, e sentia em
si as suaves dôres da natureza em parto do primeiro amor. Se ella, a
morgada, olhava para elle a fito, produzia-lhe no rosto o effeito do sol
que aponta em dia de calma--avermelhava-o até aos globulos das orelhas;
e José cossava-se a disfarçar, ou esbofeteava as moscas que lhe
passeavam sobre a epiderme oleosa, e faziam titilações incommodas nas
fossas nazaes.
A morgada achava-o bonito, e dizia ás irmãs que era pena fazerem-no
padre. José, quando soube isto, creou umas esperanças que o
tresnoitavam, e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin, e d'um
ou outro clerigo de Barcellos que deixava vingar-se a natureza.
Procuràva José Francisco Alvarães modos de conversar com Silvestre de
Romariz, e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hypolito.
Levava á depositada cartas do pai, e lia-lh'as ás escondidas da familia.
O amanuense suspeitara-o, e tratava de remover o deposito, allegando
subornos que a lei não facultava.
Ora, n'aquellas confidentes leituras, estabelecera se intimidade
bastante entre a morgada e o interprete das lastimas de seu pai. D'uma
vez que Felizarda enxugava as lagrimas, ouvindo ler o adeus que o pai
enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado n'um rapto
inconsciente de enthusiasmo, pegou-lhe da mão e disse com ternissima
meiguice:
--Não case contra vontade de seu pai... Tenha pena d'elle, que está tão
acabadinho...
A morgada poz-se a torcer e a destorcer o seu lenço branco, e a lamber
uma lagrima que lhe pruía no beiço superior; mas não respondeu.
Alvarães foi contar isto ao velho. Silvestre pegou do processo que o seu
advogado lhe enviara, e disse-lhe:
--Faça-me o sr. Josésinho o favor de levar estes autos, e ler a minha
filha o que o tal patife, que quer ser seu marido, aqui diz de seu pai;
leia-lhe isto, e veja o que ella diz.
O leitor já sabe, por eu lh'o haver dito nas primeiras paginas d'este
livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o
pai de Silvestre fôra salteador de estradas, e que o pai de Felizarda
exercitara o baixo mester de fogueteiro em Famalicão.
Tudo isto era expendido na tréplica de José Hypolito com grande lardo de
zombarias e sarcasmos em estylo piccaresco. A morgada ouviu ler as
injurias entoadas com vehemencia por Jose Francisco, que as declamou
como se estivesse traduzindo um periodo de Eutropio.
Concluida a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os
olhos, exclamou:
--Quero ir para casa de meu pai, e hade ser já. O Josésinho vai commigo.
Mande dizer a meu pai que me mande a burra.
José foi dar parte á familia da subita resolução da morgada; o
depositario foi dar parte ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não
podia empecer á vontade da depositada. Quando estas altercações chegaram
á noticia de José Hypolito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa,
acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.
O pai e a mãe receberam-na nos braços, offegantes de jubilo, a
pedir-lhes perdão da sua doudice. Silvestre abraçava José Francisco
Alvarães, chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa
mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso, e
dizia:
--Não queira ser padre, sr. Josésinho... Olhe que o meu homem já disse
que se vossa senhoria quizesse a nossa rapariga, que lh'a dava, e eu
tambem.
José olhou estupefacto para o velho; Silvestre intendeu o espanto, e
disse-lhe:
--Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha,
e veja o que ella diz. Felizarda, queres casar com o sr. José Francisco?
--Se o pai quizer... tambem eu.--E escondeu o rosto no seio da mãe com
umas visagens que pareciam de entremez; mas que eram da maior
naturalidade.
As irmãs de José Francisco rodearam-na e beijaram-na soffregamente, em
quanto o noivo, alumiado por aquelle improviso e inesperado lampejo de
felicidade, achou no coração estas phrazes que balbuciou, abeirando-se
da morgada:
--Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paixão, e mais
nunca lh'o disse.