VII

N'aquelle tempo, Famalicão, ás nove horas de uma noite de novembro,

negrejava silenciosa e rodeada de pinheiraes e carvalheiras. Aquelles

palacetes brazonados com seus titulares campeam hoje onde então

rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por

cabaneiros. A quadrilha de Luiz Meirinho podia manobrar sem temor e

desassombradamente no centro da villa como nas Rodas do Marão.

Em uma d'essas noites, o chefe, com uma duzia de escolhidos, entrou na

Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araujo. Elle, com mais dois,

acercaram-se da porta; os outros, postaram se de atalaias nas

extremidades da viella.

O pedreiro estava ainda sentado á lareira. Desde que lhe disseram que o

filho pernoitava ás vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro.

O receio de ser assaltado era tamanho que já tres vezes, em noites

tempestuosas, gritára á d'el-rei. Os visinhos, á primeira, acudiram

vozeando das janellas com invulneravel intrepidez, e viram d'essa feita

que um porco vadio, attrahido talvez pelo cheiro de possilga, foçava

contra a porta de Bento. Depois, ainda que elle gritasse, ninguem se

mexia, attribuindo a porco as aggressões incommodas ao avarento.

Foi o que aconteceu n'aquella noite de novembro. O pedreiro sentiu o

abeirar-se gente da sua porta, e deu tento do raspar de ferro entre a

hombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos

apertados. A lingua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois

possantes hombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas,

entraram de roldão, e só pararam filando-se á garganta do velho

empedrado. Por entre elles, e á luz do canhoto que flammejava, o

pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha, e ouviu, atravez dos lenços

com que os hospedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:

--Se grita, vossê morre aqui já. Se quer viver, entregue as tres mil

peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lerias, nem faça

lamurias. É decidir: o dinheiro ou a vida.

Bento erguera as mãos supplicantes, e pedira soluçante que o não

matassem.

--Onde estão as tres mil peças?--perguntou o Meirinho.

--As tres mil peças?!--gaguejou o velho como tolamente espantado de que

lhe perguntassem por tres mil peças não tendo elle de seu tres moedas de

seis vintens.

--Mate-se este diabo!--accrescentou o Meirinho--e vamos levantar o

soalho.

--Eu não tenho aqui o dinheiro, meus senhores...--acudiu o pedreiro

desfeito em lagrimas.

--Então, onde o tem vossê?

--Enterrei-o debaixo de uma fraga...

--Perto d'aqui? Avie-se.

--Não, senhor, muito perto não é. São tres quartos de legua... em

Vermuim.

--Bem--concluiu o capitão.--Salte para diante de nós, e venha

desenterrar o dinheiro. Mexa-se!

O homem sentiu certos alivios n'esta mudança de situação como se expor a

vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma consideravel melhoría de

fortuna.

A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o

outeiro que toca nas faldas da serra de Vermuim, e por S. Cosme do Valle

trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam o _castello_.

--Vossê não vá afflicto--dizia-lhe o Meirinho--por que hade ter o seu

quinhão com que pode viver regaladamente. O necessario não se lhe tira;

nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou não, seu

velhote?

E dava-lhe palmadas nos hombros.

--Sim, senhor--dizia o Bento, e recolhia-se a scismar na situação

perigosa em que se via, e no modo de a esconjurar.

--Ande depressinha--tornava o chefe empurrando-o brandamente.

--Será bom ajudal-o com alguns pontapés--alvitrava outro, receando que a

manhã lhes viesse tolher a empreza.

Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:

--Cá estamos. Onde é a fraga?

--Não enxergo bem... Só quando fôr dia é que eu conheço o

sitio--respondeu Bento.

--Temol-as arranjadas...--tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de

más coisas.--Ó Freiamunde, petisca lume, e faze ahi um archote de

codêços para este tio ver onde está o arame.

--Parece-me que o melhor seria alumial-o com a luz da

polvora...--observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de

uma cabaça que trazia a tiracollo.--Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou

dois goles ao velho como se faz aos perús...

--Tio Bento--insistiu Luiz Meirinho--vossê acha a pedra ou não acha? O

dinheiro ficará enterrado; mas vossê tambem fica de papo ao ar á espera

que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com

homens de palavra.

No entretanto, um da companhia petiscara fogo, e communicara o lume da

mecha á manada de fetos sêccos apanhados de baixo de uma rocha que

figurava um dolmen.

--Ali tem luz que farte--disse Luiz.--Veja lá agora qual é a pedra, tio

Bento.

--Parece-me que é aquella...--respondeu elle a tiritar, já convencido de

que estava chegado ás ultimas.

--Parece-lhe ou é?--insistiu raivoso o Meirinho.--Ande. Mostre lá o

sitio. Ó Zé Landim, se fôr preciso desenterrar o morto serve-te da tua

faca. Patrão, estamos ás suas ordens, diga onde quer que se cave; a cova

ha de fazer-se ou para sahir o dinheiro ou para entrar vossê.

Bento cahira sobre os joelhos como ferido de subita apoplexia, e começou

a gaguejar uns sons inintelligiveis.

--Este alma de dez diabos que está a mastigar?--disse Freiamunde.

N'este momento, o pai de Joaquim cahiu de borco, batendo com a face na

pedra; e, quando dois homens o levantaram de repellão e o viram á luz

dos fetos, estava morto.

Este incidente nem levemente impressionou aquelles homens fortes.

Ninguem fez a minima reflexão ácerca do lance em theatro tão lugubre. Os

mais preoccupados bebiam aguardente a froixo, dizendo que o homem

morrera de frio. Nem uma ideia philosophica, nem sequer um dito

elegiaco! Luiz Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o

morto os tirára de casa para os desviar do logar onde tinha o dinheiro.

Decidiu que se aproveitasse o restante da noite, indo a casa revolver a

terra quanto se podesse; e, no caso de lá não apparecer o dinheiro,

viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no castello.

Assim se fez. Bento de Araujo ficou deitado de costas sobre uma moita de

codeços, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados, e

os olhos envidraçados de lagrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem

pardacenta, que ondolava pela crista da serra, rasgou-se em saraivada

glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nú e descarnado.

Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o

rebanho áquellas cumiadas, sempre escondidas na negridão da nevoa, e

perigosas se o lobo uiva faminto.

Quando o tempo estiou, quem denunciára o cadaver já disforme no rosto

fôra uma revoada de corvos que crucitavam pairando sobre os restos do

seu banquete disputado ás feras.

Novelas do Minho · 第 50 / 56 题