N'aquelle tempo, Famalicão, ás nove horas de uma noite de novembro,
negrejava silenciosa e rodeada de pinheiraes e carvalheiras. Aquelles
palacetes brazonados com seus titulares campeam hoje onde então
rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por
cabaneiros. A quadrilha de Luiz Meirinho podia manobrar sem temor e
desassombradamente no centro da villa como nas Rodas do Marão.
Em uma d'essas noites, o chefe, com uma duzia de escolhidos, entrou na
Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araujo. Elle, com mais dois,
acercaram-se da porta; os outros, postaram se de atalaias nas
extremidades da viella.
O pedreiro estava ainda sentado á lareira. Desde que lhe disseram que o
filho pernoitava ás vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro.
O receio de ser assaltado era tamanho que já tres vezes, em noites
tempestuosas, gritára á d'el-rei. Os visinhos, á primeira, acudiram
vozeando das janellas com invulneravel intrepidez, e viram d'essa feita
que um porco vadio, attrahido talvez pelo cheiro de possilga, foçava
contra a porta de Bento. Depois, ainda que elle gritasse, ninguem se
mexia, attribuindo a porco as aggressões incommodas ao avarento.
Foi o que aconteceu n'aquella noite de novembro. O pedreiro sentiu o
abeirar-se gente da sua porta, e deu tento do raspar de ferro entre a
hombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos
apertados. A lingua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois
possantes hombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas,
entraram de roldão, e só pararam filando-se á garganta do velho
empedrado. Por entre elles, e á luz do canhoto que flammejava, o
pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha, e ouviu, atravez dos lenços
com que os hospedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:
--Se grita, vossê morre aqui já. Se quer viver, entregue as tres mil
peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lerias, nem faça
lamurias. É decidir: o dinheiro ou a vida.
Bento erguera as mãos supplicantes, e pedira soluçante que o não
matassem.
--Onde estão as tres mil peças?--perguntou o Meirinho.
--As tres mil peças?!--gaguejou o velho como tolamente espantado de que
lhe perguntassem por tres mil peças não tendo elle de seu tres moedas de
seis vintens.
--Mate-se este diabo!--accrescentou o Meirinho--e vamos levantar o
soalho.
--Eu não tenho aqui o dinheiro, meus senhores...--acudiu o pedreiro
desfeito em lagrimas.
--Então, onde o tem vossê?
--Enterrei-o debaixo de uma fraga...
--Perto d'aqui? Avie-se.
--Não, senhor, muito perto não é. São tres quartos de legua... em
Vermuim.
--Bem--concluiu o capitão.--Salte para diante de nós, e venha
desenterrar o dinheiro. Mexa-se!
O homem sentiu certos alivios n'esta mudança de situação como se expor a
vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma consideravel melhoría de
fortuna.
A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o
outeiro que toca nas faldas da serra de Vermuim, e por S. Cosme do Valle
trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam o _castello_.
--Vossê não vá afflicto--dizia-lhe o Meirinho--por que hade ter o seu
quinhão com que pode viver regaladamente. O necessario não se lhe tira;
nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou não, seu
velhote?
E dava-lhe palmadas nos hombros.
--Sim, senhor--dizia o Bento, e recolhia-se a scismar na situação
perigosa em que se via, e no modo de a esconjurar.
--Ande depressinha--tornava o chefe empurrando-o brandamente.
--Será bom ajudal-o com alguns pontapés--alvitrava outro, receando que a
manhã lhes viesse tolher a empreza.
Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:
--Cá estamos. Onde é a fraga?
--Não enxergo bem... Só quando fôr dia é que eu conheço o
sitio--respondeu Bento.
--Temol-as arranjadas...--tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de
más coisas.--Ó Freiamunde, petisca lume, e faze ahi um archote de
codêços para este tio ver onde está o arame.
--Parece-me que o melhor seria alumial-o com a luz da
polvora...--observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de
uma cabaça que trazia a tiracollo.--Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou
dois goles ao velho como se faz aos perús...
--Tio Bento--insistiu Luiz Meirinho--vossê acha a pedra ou não acha? O
dinheiro ficará enterrado; mas vossê tambem fica de papo ao ar á espera
que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com
homens de palavra.
No entretanto, um da companhia petiscara fogo, e communicara o lume da
mecha á manada de fetos sêccos apanhados de baixo de uma rocha que
figurava um dolmen.
--Ali tem luz que farte--disse Luiz.--Veja lá agora qual é a pedra, tio
Bento.
--Parece-me que é aquella...--respondeu elle a tiritar, já convencido de
que estava chegado ás ultimas.
--Parece-lhe ou é?--insistiu raivoso o Meirinho.--Ande. Mostre lá o
sitio. Ó Zé Landim, se fôr preciso desenterrar o morto serve-te da tua
faca. Patrão, estamos ás suas ordens, diga onde quer que se cave; a cova
ha de fazer-se ou para sahir o dinheiro ou para entrar vossê.
Bento cahira sobre os joelhos como ferido de subita apoplexia, e começou
a gaguejar uns sons inintelligiveis.
--Este alma de dez diabos que está a mastigar?--disse Freiamunde.
N'este momento, o pai de Joaquim cahiu de borco, batendo com a face na
pedra; e, quando dois homens o levantaram de repellão e o viram á luz
dos fetos, estava morto.
Este incidente nem levemente impressionou aquelles homens fortes.
Ninguem fez a minima reflexão ácerca do lance em theatro tão lugubre. Os
mais preoccupados bebiam aguardente a froixo, dizendo que o homem
morrera de frio. Nem uma ideia philosophica, nem sequer um dito
elegiaco! Luiz Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o
morto os tirára de casa para os desviar do logar onde tinha o dinheiro.
Decidiu que se aproveitasse o restante da noite, indo a casa revolver a
terra quanto se podesse; e, no caso de lá não apparecer o dinheiro,
viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no castello.
Assim se fez. Bento de Araujo ficou deitado de costas sobre uma moita de
codeços, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados, e
os olhos envidraçados de lagrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem
pardacenta, que ondolava pela crista da serra, rasgou-se em saraivada
glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nú e descarnado.
Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o
rebanho áquellas cumiadas, sempre escondidas na negridão da nevoa, e
perigosas se o lobo uiva faminto.
Quando o tempo estiou, quem denunciára o cadaver já disforme no rosto
fôra uma revoada de corvos que crucitavam pairando sobre os restos do
seu banquete disputado ás feras.