O pedreiro ainda vira o visinho a safar-se da sua testada.
--Que fazia aqui o Luiz Meirinho?--perguntou elle carranqueando.
--Nada: conversavamos...
--Eu cá á minha porta não quero coversas com ladrões, ouviste?
--Ladrões!... O Luiz não me consta... que...
--Passa tu na Terra Negra com dinheiro de modo que elle t'o bispe, e lá
verás quem é o Meirinho. Hade haver tres annos que deixou o officio que
rendia pouco; e, desde que não tem officio, comprou casa, tem
cavalgadura, trata-se á regalona, come carne do açougue, e bebe do da
companhia. E eu, que trabalho ha bons quarenta annos, custa-me a amanhar
para uns feijões, e bebo agua da fonte.
--O sr. pai assim o quer...--atalhou Joaquim entre receoso e
risonho--Perca o amor ás peças...
--E tu a dar-lhe!...--volveu iracundo o pedreiro--Já te disse que as
procures!... Não herdei nada! não herdei nada!--e berrava convulsionado
freneticamente, sacudindo os braços.
--Não grite assim que não faz mingua barregar!--atalhou o filho--A gente
está conversando... ás boas... ein?
No aspecto do Faisca resumbravam sentimentos pouco filiaes. A ironia
franzia-lhe os cantos dos beiços, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava
a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando
as pernas em gingações de tarimba, denotava quebra de respeito, e
disposição a questionar faceiramente com o velho.
--Com que então...--proseguiu Joaquim--Vossemecê não herdou tres mil
peças?
--Não!--bradou o pai--Não! com mil diabos (Deus me perdôe), não!
--E se eu lhe mostrar a copia do testamento...--volveu Joaquim
esbolhando os olhos, abrindo a bocca, e pondo fóra a lingua em todo o
seu comprimento--Que me diz vossemecê, sr. pai? se eu lhe mostrasse a
copia do...
--Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim!--interrompeu
Bento, desentalando-se da sua afflicção por aquella estupida
replica--Amaldiçoado sejas tu!...--E, com os dentes cerrados, e as
mãos na cabeça, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o
mais desgraçado homem que Deus criara.
--Sr. pai!--continuou mansamente o filho--isto não vai a matar. Tome
fôlego, e escute o seu Joaquim. Lembre-se que não tem outro filho a quem
deixar os seus cincoenta e seis mil cruzados...
--Olha o diabo!--regougava o velho.
--O que eu lhe peço pouco monta. Livre-me de soldado, e dê-me alguma
coisa para eu casar com a Rosa de S. Martinho. O pai d'ella decerto m'a
dá, se eu levar mil crusados. Vou ser lavrador, terei saude e alegria, e
nunca mais lhe peço nada, sr. pai.
Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de S. Martinho, mudára de
tom e gestos. Os olhos imploravam, e a voz tinha as modulações do
respeito. O seu amor de dez annos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os
pulsos. Se o pai n'aquelle instante abrisse no rosto uma tenue claridade
de esperança, Joaquim acabaria a supplica de joelhos.
--Mil cruzados!--resmuneava o pedreiro--onde queres tu que eu os vá
roubar?
Esta interrogação varreu do semblante do Faisca os signaes da boa
reacção.
--Eu não quero que os vá roubar, valha-me Deus!--respondeu Joaquim--Mas,
a fallar verdade, quem tem tres mil peças de seu tambem pode ser ladrão
da felicidade de um filho que ainda lhe não custou seis vintens desde
que pode trabalhar... Olhe, sr. pai, repare bem no que vou dizer-lhe...
Eu para a Praça não torno. Sou desertor.
--Venho de casa de teu padrinho--acudiu o pai menos tôrvo--o sr. coronel
Lobo da Igreja dá-te uma carta para o commandante, e diz que tudo se
hade arranjar.
--Não torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de
vida.
--Que te leve a breca... Não quero saber de contos. Lá t'avem. Dinheiro
não tenho; só se queres que eu venda a casa, e me vá depois pedir um
eido nos palheiros dos lavradores á beira dos cães.
--Está bom--concluiu Joaquim erguendo-se e espreguiçando-se--vou ouvir a
opinião do Luiz Meirinho, que d'um modo ou d'outro prometteu livrar-me
da farda e da chibata...
--Vaes fallar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?
--Pois então? Aquelle é amigo do seu amigo, e, se me fôr necessario
dinheiro...
--Ensina-te a roubal-o...
--E elle que sabe onde o ha...--respondeu Joaquim bocejando, e fazendo
tres signaes da cruz na bocca escancarada.
--Eu te deito a minha maldição!--bradou o velho com solemnidade bastante
para a scena final d'um acto; porém insufficiente para abalar o 32 da
7.^a companhia do regimento de artilheria do Porto.
O Faisca sorriu, e murmurou:
--Vossemecê parece que tem mais maldições que pintos... Pois eu cá vou
com a sua maldição, e depois... veremos se ella nos impece a ambos.
Bento, ao pular-lhe o coração em saltos de ruim presagio, ainda deu tres
passos para chamar o filho, e avençar-se com elle mediante a quantia
necessaria ao livramento; mas a imagem de um pote de ferro cheio de
peças bateu-lhe rija no peito. Quedou-se como empedrado a olhar para a
soleira da janella de peitoril, cujas portadas quatro travessas de
castanho esfumado immobilisavam.
V
Poucos dias depois, o juiz de fóra de Barcellos incumbia ao ordinario do
julgado de Vermuim a prisão do desertor Joaquim da Costa Araujo,
d'alcunha o _Faisca_. A gente mais grada de Famalicão, convencida da
riqueza do avarento sem entranhas, advogou a favor do infeliz moço,
rodeando o pedreiro com rogos e até com insultos e ameaças. O pedreiro,
assustado, foi ter-se com seu compadre o coronel Lobo da Igreja Velha;
e, bem aconselhado pelo fidalgo, cujo credor era, deu o dinheiro
necessario para abafar o processo militar, comprar a baixa e substituir
a praça no regimento.
Em seguida, quando se viu esbulhado das economias que amealhara antes de
herdar as trez mil peças, entrou-se de tamanha paixão--espicassaram-no
tantas saudades do seu dinheiro, que morreria abafado, se não
desafogasse no odio ao filho. As vinte e quatro moedas de oiro que lhe
custara a liberdade de Joaquim, representavam fomes e sêdes,
desconfortos de frio em noites de inverno, muitos suores em dias de
estio no trabalho da serra a horas de sesta. E lembrava-se com bastante
remorso que sua mulher padecera sem cirurgião e morrera sem botica, e
fôra indigentemente enterrada, tudo isto assim desgraçado e infame,
porque elle não quizera bolir n'aquellas vinte e quatro moedas.
No entanto, Joaquim, bem que muito grato ao pai, não se mostrou tão
penhorado que prescindisse de o julgar obrigado a dar-lhe modo de vida.
O velho mostrou-lhe um ferro de monte, um pico, um camartello, e
disse-lhe:
--Se queres modo de vida, segue o meu. Anda d'ahi brocar uma fraga, e
saberás quanto me custaram a ganhar as minhas vinte e quatro...--E,
ficando entallado, esfregava os olhos debruados de rôxo com o encodeado
canhão da jaqueta.
O filho não se compadecia d'aquellas lagrimas; antes se sentia bravejar
de condição com remoques e até com odio á avareza do pai. Máo foi
convencer-se Joaquim da herança, e suppor que o velho podia morrer sem
testamento nem declaração do escondrijo do thesouro.
Debalde lhe espiava os movimentos, os olhares, as caminhadas no monte,
afim de farejar a lota das tres mil peças. Bento d'Araujo ia
frequentemente quebrar esteios de pedra nos penhascaes de Vermuim e
vendia-os aos lavradores para especar parreiras. As desconfianças do
filho seguiam o velho entre fragoedos, chamados o _Castello_; e o pai,
que se julgou espreitado, alegrava-se secretamente, e não se mostrava
offendido.
Entretanto, continuára Joaquim a sua velha affeição a Rosa de S.
Martinho; e, confiando que a fama da riqueza do pedreiro seria bastante
a que o abastado lavrador, esperançado na herança, lhe cedesse a filha,
pediu-a affoitamente; mas o pai de Rosa tinha mediana confiança em
_sapatos de defuncto_, e disse que só daria sua filha, se o noivo
trouxesse mil cruzados em dinheiro ou terras. O moço namorado abriu de
novo o seu peito ao pai, que parecia apertar os cordões da bolsa á
medida que o coração do rapaz se abria. Joaquim, bem aconselhado pelo
seu amor, soccorreu-se do padrinho, o coronel da Igreja Velha,
pedindo-lhe que movesse o velho a dotal-o.
Era o fidalgo a unica pessoa que exercia influencia em Bento de Araujo,
e tamanha que podera arrancar-lhe alguns mil crusados a juros, sob
juramento de não dizer a alguem que lh'os devia. Mandou-o chamar, e
aconselhou-o a que désse dote a Joaquim. Avultou lhe as funestas
consequencias da sua teimosia em querer passar por pobre, quando toda a
gente estava convencida do contrario; pintou-lhe os perigos em que elle
punha o filho sem officio que o salvasse da camaradagem de vadios
suspeitos com quem patuscava nas tavernas da Lagoncinha e outros logares
infamados. A final, como o velho insistisse desaforadamente em dizer que
não tinha senão o dinheiro que seu compadre lhe devia, o coronel rendeu
o com esta honrada deliberação:
--Pois bem: tudo se arranja, querendo Deus e tu. Devo-te tres mil
crusados; não t'os posso pagar, em quanto algum dos meus filhos não
trouxer esposa com dote; mas irei tirar quatrocentos mil réis a juro em
alguma Confraria, e esse dinheiro vaes tu dal-o a teu filho para casar
com a rapariga, que é de boa gente, e hade ter dobrado ou mais do que
elle tem.
As ultimas palavras de Bento, n'esta pendencia, definem cabalmente a sua
natureza. Quando o compadre lhe disse:
--Tu virás de hoje a oito dias receber os quatrocentos mil réis para os
dares ao teu Joaquim no acto da escriptura de casamento--Bento acudiu
impetuosamente:
--Eu não quero vêr o meu dinheiro! Arranje v. s.^a cá isso, de modo que
eu não veja o meu dinheiro!...
Elle sabia que, no acto da contagem dos mil crusados, seria capaz de
agarrar a sacca e fugir com ella do escriptorio do tabellião.
Assim mesmo, o pedreiro, se tinha muitas maldades de avarento, possuia
tambem algumas bellas qualidades de pae; e uma, digna de bastante
memoria, é que, tendo elle em casa arsenico para matar os ratos, não o
administrou ao filho.