Vejamos a philosophia que elles tem.
Melhor que uma estirada narrativa, desfigurada talvez pela imaginação do
informador, li um processo que o sujeito me emprestou. Correra o pleito
entre partes que litigavam em materia de casamento. Figurava uma
donzella depositada judicialmente. O pai da nubente impugna, e allega
que o pretendente a sua filha é um birbante de vilissima relé. O noivo,
contrariando, expõe que o pai da sua futura e de origem tão canalha que,
apezar de ser fidalgo da casa real, é filho de um salteador de estradas,
_como é publico e notorio_, dizia o noivo, e accrescentava: «que não
havia ainda vinte annos que o seu contendor exercitára o officio de
fogueteiro em Villa Nova de Famalicão.» N'este conflicto, a depositada
trancára o pleito vergonhoso acceitando outro marido que o pai lhe
inculcou. A menina questionada era aquella morgada de Romariz, e o
marido o commendador Alvarães.
Quanto a philosophia, este acontecimento pareceu-me assaz chôcho; eu
pelo menos não lh'a encontrei, por mais que virasse do carnaz os
personagens do processo. Louvei o procedimento da moça injuriada na
pessoa do seu progenitor; mas o fermento de tal philosophia não me dava
para levedar massa de cincoenta paginas. Abri mão do assumpto, e
larguei-o ás imaginações florentissimas da minha patria. Porém,
transcorridos dois annos, em um livro impresso em 1815, li uns nomes que
tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e
trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro,
deram esta novella em que, por felicidade do leitor e minha, não ha
philosophia nenhuma, que eu saiba.