Reagiu ao desastre com peito de ferro. Menos rija alma ingolphara-se na
espessura da sua treva. Elle não. Pediu ao inferno luz emprestada para
entrar na vareda das suas victimas. Accendeu interiormente, no carcere
do seu espirito, a lampada do odio. A vingança leval-o-hia pela mão,
como Malvina ao cego de Macpherson. Perdoa-me a comparação, ó bardo
caledonio!--que eu já vi Marat comparado a Jesus Christo.
Quando lhe deram alta na barra da enfermaria, pediu o seu violão, sahiu
ás praças, preludiou e cantou umas trovas com arpejo triste, ás portas
dos argentarios e dos taverneiros. As trovas faziam saudades da patria,
e a musica gemia as toadas dos lunduns do Minho. Os ouvintes
contemplavam-no com dó e davam-lhe esmolas avultadas para regressar a
Portugal, ao ninho seu. Tinha elle um moço: era portuguez ilheu, alguns
annos mais novo. Levara-o a doença, a podridão do vicio á mesma
enfermaria; e a penuria e o instincto vincularam-no ao cego. Chamava-se
Amaro Fayal; mas os que lhe conheciam as prendas corrompiam-lhe o
appellido, e chamavam-lhe o Amaro _Faiante_. Pessoas escassas de
caridade indulgente diziam que a maldade do cego e os olhos do moço
completavam dois refinados maraus.
Pinto Monteiro trajava limpamente, banqueteava-se á proporção, e
dulcificava os confortos cazeiros com o amor de uma aventureira mal
prosperada como tantas que o archipelago açoriano exportava consignadas
aos Cressos da rua do Ouvidor, que pachalisavam nas chacaras da Tejuca.
Creara uma sociedade nova. Acercara de si toda a vadiagem suspeita, os
ratoneiros já marcados com o stigma da sentença, os mysteriosos,
famintos sem occupação, negros e brancos, não topados ao acaso, mas
inscriptos nos registros da policia, e afuroados pela sagacidade de
Amaro Fayal. Tinha lido as _Memorias de Vidocq_,--o celebrado chefe de
policia de Paris. Encantara-o a equidade do governo que elevara Vidocq,
o ladrão famoso, áquella magistratura: por que elle, por espaço de vinte
annos, exercitara o latrocinio e grangeara nas galés os amigos que
depois entregava á grilheta.
Pinto Monteiro organisou a bohemia que, até áquelle anno, roubando sem
methodo nem estatutos, exercitara a ladroeira d'um modo indigno de paiz
em via de civilisação. Fez-se eleger presidente por unanimidade e nomeou
seu secretario Amaro Fayal. Havia um proposito quasi heroico n'este
feito, como logo veremos. Investido d'esta presidencia incompativel com
as artes lyricas, depoz o violão, e, á semelhança do poeta latino,
immudeceu os cantares, _tacuit musa_. Sentia-se no congresso uma alma
nova, cheia de fomentos e apontada a rasgar horisontes dilatados.
Quem ouvisse discursar o presidente sociologicamente, ficaria em duvida
se furtar era sciencia ou arte. Pinto Monteiro enxertava nas suas
prelecções sobre a propriedade umas vergonteas que depois enverdeceram
com estylo melhor nas theorias de Cabet. Os malandrins mais
intelligentes, depois que o ouviram, desfizeram-se de escrupulos
incommodos, e entre si assentiram que não eram ladrões, mas simplesmente
desherdados pela sociedade madrasta, e victimas d'uma qualificação já
obsoleta. A terminologia do livro 5.^o das Ordenações em um paiz joven,
exhuberante, e que tem o sabiá e o côco, era uma anomalia.
D'esta arte organisada a quadrilha, sob a influencia auspiciosa de um
cerebro pensante, os cidadãos eram roubados mais artisticamente; na
empalmação dos relogios conhecia-se que havia ideas de physica, de
mechanica, de equilibrio, de dynamica e sciencias correlativas. Os
alumnos da reforma parecia collaborarem no _Manual do prestidigitador_
de Roret, e abandonavam como archaismo aos poderes publicos a _Arte de
furtar_ de quem quer que seja.
A sociedade prosperava a olhos vistos, posto que o prezidente não
tivesse olho nenhum:--N'esta independencia dos orgãos de relação prova a
alma a sua immortalidade. Foi então que Pinto Monteiro e o secretario,
munidos dos livros de registo e de toda a escripturação, se apresentaram
ao chefe da policia Fortunato de Brito.
Eis aqui a reputação de um homem sacrificada á extirpação do crime. Os
Codros e os Curcios, na restauração da moral publica, fazem isto.
O chefe da policia conveio nas propostas de Pinto Monteiro, que
estatuira conservar-se na confidencia dos ladrões e delatar a paragem
dos roubos quando no descobril-os redundassem á policia creditos e
interesses. O cego esclarecera Fortunato sobre a organisação do
funccionalismo policial em Paris, ensinara-lhe alvitres ignorados, e
promettia auxilial-o n'um ramo ainda mal cultivado no Brazil--a
espionagem politica.
Surtiu os previstos resultados a perfidia. Os larapios mais soezes eram
arrebanhados para a casa da correcção; mas os ladravazes mais ladinos
poupava-os o presidente para não perturbar de improviso o equililibrio
do cosmos. É necessario que haja escandalos, diz o Evangelho.
Como agente secreto de policia recebia do cofre do estado; como chefe da
«Associação dos desherdados», auferia o seu quinhão do peculio commum,
afora as forragens da presidencia, etc.
Este periodo da vida do cego durou cinco annos; as duas rendas
sobejavam-lhe á fartura do passadio; principiou Monteiro a engrossar o
peculio, quando a delator e agente ajuntou o estipendio de espião.
Voltando ás antigas camaradagens politicas, fallou nas sociedades
secretas com exacerbada virulencia; e, victima do dispotismo militar,
mostrava os olhos estoirados e baços com a dolente magestade do general
Belizario, vencedor dos hunos.
Constou ao governo que Pinto Monteiro ousára pedir um Cromwell de quem
elle cego fosse o Milton. A comparação seria modesta, se não fosse
sanguinaria. O governo brazileiro, com a subtileza propria dos cerebros
formados com tapioca e ananaz, intendeu que o pescoço do sr. D. Pedro II
era ameaçado pelo cego com a tragedia de Carlos Stuart.
A Fortunato de Brito foi ordenado que vigiasse e processasse o sedicioso
cego. Intalação! O chefe de policia foi explicar ao seu ministro que os
discursos de Pinto Monteiro eram boízes armadas a passaros bisnáos de
mais alta volateria. O conflicto remediou-se prescindindo o espião da
oratoria, e attendendo sómente a seguir o rastilho das revoluções
urdidas no Rio, para rebentarem nas provincias.
Como em meio de tanta lida ainda lhe sobrava tempo, Monteiro ensaiou por
sua conta, e sem auxilio da malta, uma reversão de propriedade, termos
adquados á sua qualidade de desherdado.
Havia morrido um carroceiro quando, avençado com o cego, experimentava a
sua fortuna em aventuras de moeda falsa, mandando abrir os cunhos no
Porto.
A cidade da Virgem tem tido filhos de raro engenho na gravura; mas os
seus concidadãos, desamoraveis com as graças do buril, crearam á volta
d'elles uma atmosphera fria de desalento, e no pedestal em que os
sonhadores, como Morghen e Bartolozzi, entreviram a gloria a
offerecer-lhes umas sopas de vaca, o menospreço publico poz-lhes a fome.
Seria bonito para o martyrologio da arte que os honrados alumnos da
Academia das bellas-artes se deixassem perecer de anemia; porém, as
poderosas reacções do estomago impulsaram-nos a acceitar o unico lavor
que se lhes offerecia: abrir cunhos de moeda. Este ramo das artes
imitativas floriu no Porto como planta indigena, a termos de haver ali
trabalhos excellentes e muito em conta. Já se conheciam os gravadores
portuenses como hoje se conhecem os capellistas da rua de Cedofeita:--_o
primeiro barateiro, o rei dos barateiros, o barateiro sem competidor_.
Faziam-se notas a 5% quando a arte estava no berço, ainda timorata;
depois, á medida que a prosperidade das emprezas internacionaes
augmentava o pedido, os bons artistas davam de mão aos brazões dos
sinetes, ás chapas dos portões e ás firmas dus anneis; e, rivalisando-se
no primor e na barateza da obra, já davam um conto de notas falsas por
dez mil reis sinceros.
Era este o preço da dezena de contos que o carroceiro mandara comprar
por intermedio de Pinto Monteiro, e não chegara a receber, atalhado pela
morte. Deixára, porém, segredado á viuva que se entendesse com o seu
amigo Monteiro, quando lhe entregassem a encommenda.
Não sei se estas notas eram parte de uns tresentos contos que por esse
tempo sahiram do Porto para o Brazil dentro da imagem do Senhor dos
Passos. Não averiguei as profanações que se deram n'essa remessa; o que
sei é que a viuva avisou o cego; e que, no mesmo dia do aviso, o chefe
da policia colhia de sobresalto a viuva, escondendo o rolo das notas
entre o guarda-infante e a parte subjacente que ella julgava intangivel
aos contactos brutos dos esbirros.
Levada a interrogatorios, foi pronunciada; mas, desde que ella entrou no
carcere, Pinto Monteiro, consternado até ás lagrimas, assistiu-lhe com a
mais desvelada bemquerença, constituindo-se seu procurador.
Esta mulher herdara a independencia. Gemeu em ferros seis annos
cumprindo a cummutação d'uma sentença que a condemnava a degredo para a
Ilha de Fernando. Essa commutação custara-lhe o restante dos seus
haveres, absorvidos pelo cego de Landim. Quando sahiu do carcere, e se
viu roubada pelo amigo de seu marido, e reduzida a mendigar, denunciou
ao chefe da policia a cumplicidade de Monteiro no negocio das notas.
Fortunato de Brito conveio que o seu agente era infame maior da marca:
mas fazia se mister que tivesse aquelle tamanho para dar pela barba á
corpolencia da corrupção. O cego de Landim gosava a inviolabilidade de
mal necessario.
A extorsão feita á viuva divulgou-se e acerbou os antigos odios contra
Pinto Monteiro. De mais a mais, elle tinha offendido o espirito dos
estatutos, que eram obra sua. Os consocios acharam irregular e menos
honesto que o seu presidente levasse o egoismo á extremidade de
reivindicar só para si direitos de propriedade commum. Toda a
propriedade alheia era d'elles todos, pelos modos. Alguns d'estes, mais
penetrantes, incutiram no phalansterio a suspeita de que o chefe tivesse
intelligencias com a policia. Um mulato de grandes brios, notavel
capoeira, e muito summario nos processos d'aquella especie, fez lampejar
o aço da sua faca e declarou que ia anavalhar o redenho do cego.
Quando esta scena tumultuaria se passava na taverna do João Valverde, na
rua do Catête, Pinto Monteiro e Amaro Fayal já estavam a bordo da galera
_Tentadora_, que velejava para o Porto.