III

Reagiu ao desastre com peito de ferro. Menos rija alma ingolphara-se na

espessura da sua treva. Elle não. Pediu ao inferno luz emprestada para

entrar na vareda das suas victimas. Accendeu interiormente, no carcere

do seu espirito, a lampada do odio. A vingança leval-o-hia pela mão,

como Malvina ao cego de Macpherson. Perdoa-me a comparação, ó bardo

caledonio!--que eu já vi Marat comparado a Jesus Christo.

Quando lhe deram alta na barra da enfermaria, pediu o seu violão, sahiu

ás praças, preludiou e cantou umas trovas com arpejo triste, ás portas

dos argentarios e dos taverneiros. As trovas faziam saudades da patria,

e a musica gemia as toadas dos lunduns do Minho. Os ouvintes

contemplavam-no com dó e davam-lhe esmolas avultadas para regressar a

Portugal, ao ninho seu. Tinha elle um moço: era portuguez ilheu, alguns

annos mais novo. Levara-o a doença, a podridão do vicio á mesma

enfermaria; e a penuria e o instincto vincularam-no ao cego. Chamava-se

Amaro Fayal; mas os que lhe conheciam as prendas corrompiam-lhe o

appellido, e chamavam-lhe o Amaro _Faiante_. Pessoas escassas de

caridade indulgente diziam que a maldade do cego e os olhos do moço

completavam dois refinados maraus.

Pinto Monteiro trajava limpamente, banqueteava-se á proporção, e

dulcificava os confortos cazeiros com o amor de uma aventureira mal

prosperada como tantas que o archipelago açoriano exportava consignadas

aos Cressos da rua do Ouvidor, que pachalisavam nas chacaras da Tejuca.

Creara uma sociedade nova. Acercara de si toda a vadiagem suspeita, os

ratoneiros já marcados com o stigma da sentença, os mysteriosos,

famintos sem occupação, negros e brancos, não topados ao acaso, mas

inscriptos nos registros da policia, e afuroados pela sagacidade de

Amaro Fayal. Tinha lido as _Memorias de Vidocq_,--o celebrado chefe de

policia de Paris. Encantara-o a equidade do governo que elevara Vidocq,

o ladrão famoso, áquella magistratura: por que elle, por espaço de vinte

annos, exercitara o latrocinio e grangeara nas galés os amigos que

depois entregava á grilheta.

Pinto Monteiro organisou a bohemia que, até áquelle anno, roubando sem

methodo nem estatutos, exercitara a ladroeira d'um modo indigno de paiz

em via de civilisação. Fez-se eleger presidente por unanimidade e nomeou

seu secretario Amaro Fayal. Havia um proposito quasi heroico n'este

feito, como logo veremos. Investido d'esta presidencia incompativel com

as artes lyricas, depoz o violão, e, á semelhança do poeta latino,

immudeceu os cantares, _tacuit musa_. Sentia-se no congresso uma alma

nova, cheia de fomentos e apontada a rasgar horisontes dilatados.

Quem ouvisse discursar o presidente sociologicamente, ficaria em duvida

se furtar era sciencia ou arte. Pinto Monteiro enxertava nas suas

prelecções sobre a propriedade umas vergonteas que depois enverdeceram

com estylo melhor nas theorias de Cabet. Os malandrins mais

intelligentes, depois que o ouviram, desfizeram-se de escrupulos

incommodos, e entre si assentiram que não eram ladrões, mas simplesmente

desherdados pela sociedade madrasta, e victimas d'uma qualificação já

obsoleta. A terminologia do livro 5.^o das Ordenações em um paiz joven,

exhuberante, e que tem o sabiá e o côco, era uma anomalia.

D'esta arte organisada a quadrilha, sob a influencia auspiciosa de um

cerebro pensante, os cidadãos eram roubados mais artisticamente; na

empalmação dos relogios conhecia-se que havia ideas de physica, de

mechanica, de equilibrio, de dynamica e sciencias correlativas. Os

alumnos da reforma parecia collaborarem no _Manual do prestidigitador_

de Roret, e abandonavam como archaismo aos poderes publicos a _Arte de

furtar_ de quem quer que seja.

A sociedade prosperava a olhos vistos, posto que o prezidente não

tivesse olho nenhum:--N'esta independencia dos orgãos de relação prova a

alma a sua immortalidade. Foi então que Pinto Monteiro e o secretario,

munidos dos livros de registo e de toda a escripturação, se apresentaram

ao chefe da policia Fortunato de Brito.

Eis aqui a reputação de um homem sacrificada á extirpação do crime. Os

Codros e os Curcios, na restauração da moral publica, fazem isto.

O chefe da policia conveio nas propostas de Pinto Monteiro, que

estatuira conservar-se na confidencia dos ladrões e delatar a paragem

dos roubos quando no descobril-os redundassem á policia creditos e

interesses. O cego esclarecera Fortunato sobre a organisação do

funccionalismo policial em Paris, ensinara-lhe alvitres ignorados, e

promettia auxilial-o n'um ramo ainda mal cultivado no Brazil--a

espionagem politica.

Surtiu os previstos resultados a perfidia. Os larapios mais soezes eram

arrebanhados para a casa da correcção; mas os ladravazes mais ladinos

poupava-os o presidente para não perturbar de improviso o equililibrio

do cosmos. É necessario que haja escandalos, diz o Evangelho.

Como agente secreto de policia recebia do cofre do estado; como chefe da

«Associação dos desherdados», auferia o seu quinhão do peculio commum,

afora as forragens da presidencia, etc.

Este periodo da vida do cego durou cinco annos; as duas rendas

sobejavam-lhe á fartura do passadio; principiou Monteiro a engrossar o

peculio, quando a delator e agente ajuntou o estipendio de espião.

Voltando ás antigas camaradagens politicas, fallou nas sociedades

secretas com exacerbada virulencia; e, victima do dispotismo militar,

mostrava os olhos estoirados e baços com a dolente magestade do general

Belizario, vencedor dos hunos.

Constou ao governo que Pinto Monteiro ousára pedir um Cromwell de quem

elle cego fosse o Milton. A comparação seria modesta, se não fosse

sanguinaria. O governo brazileiro, com a subtileza propria dos cerebros

formados com tapioca e ananaz, intendeu que o pescoço do sr. D. Pedro II

era ameaçado pelo cego com a tragedia de Carlos Stuart.

A Fortunato de Brito foi ordenado que vigiasse e processasse o sedicioso

cego. Intalação! O chefe de policia foi explicar ao seu ministro que os

discursos de Pinto Monteiro eram boízes armadas a passaros bisnáos de

mais alta volateria. O conflicto remediou-se prescindindo o espião da

oratoria, e attendendo sómente a seguir o rastilho das revoluções

urdidas no Rio, para rebentarem nas provincias.

Como em meio de tanta lida ainda lhe sobrava tempo, Monteiro ensaiou por

sua conta, e sem auxilio da malta, uma reversão de propriedade, termos

adquados á sua qualidade de desherdado.

Havia morrido um carroceiro quando, avençado com o cego, experimentava a

sua fortuna em aventuras de moeda falsa, mandando abrir os cunhos no

Porto.

A cidade da Virgem tem tido filhos de raro engenho na gravura; mas os

seus concidadãos, desamoraveis com as graças do buril, crearam á volta

d'elles uma atmosphera fria de desalento, e no pedestal em que os

sonhadores, como Morghen e Bartolozzi, entreviram a gloria a

offerecer-lhes umas sopas de vaca, o menospreço publico poz-lhes a fome.

Seria bonito para o martyrologio da arte que os honrados alumnos da

Academia das bellas-artes se deixassem perecer de anemia; porém, as

poderosas reacções do estomago impulsaram-nos a acceitar o unico lavor

que se lhes offerecia: abrir cunhos de moeda. Este ramo das artes

imitativas floriu no Porto como planta indigena, a termos de haver ali

trabalhos excellentes e muito em conta. Já se conheciam os gravadores

portuenses como hoje se conhecem os capellistas da rua de Cedofeita:--_o

primeiro barateiro, o rei dos barateiros, o barateiro sem competidor_.

Faziam-se notas a 5% quando a arte estava no berço, ainda timorata;

depois, á medida que a prosperidade das emprezas internacionaes

augmentava o pedido, os bons artistas davam de mão aos brazões dos

sinetes, ás chapas dos portões e ás firmas dus anneis; e, rivalisando-se

no primor e na barateza da obra, já davam um conto de notas falsas por

dez mil reis sinceros.

Era este o preço da dezena de contos que o carroceiro mandara comprar

por intermedio de Pinto Monteiro, e não chegara a receber, atalhado pela

morte. Deixára, porém, segredado á viuva que se entendesse com o seu

amigo Monteiro, quando lhe entregassem a encommenda.

Não sei se estas notas eram parte de uns tresentos contos que por esse

tempo sahiram do Porto para o Brazil dentro da imagem do Senhor dos

Passos. Não averiguei as profanações que se deram n'essa remessa; o que

sei é que a viuva avisou o cego; e que, no mesmo dia do aviso, o chefe

da policia colhia de sobresalto a viuva, escondendo o rolo das notas

entre o guarda-infante e a parte subjacente que ella julgava intangivel

aos contactos brutos dos esbirros.

Levada a interrogatorios, foi pronunciada; mas, desde que ella entrou no

carcere, Pinto Monteiro, consternado até ás lagrimas, assistiu-lhe com a

mais desvelada bemquerença, constituindo-se seu procurador.

Esta mulher herdara a independencia. Gemeu em ferros seis annos

cumprindo a cummutação d'uma sentença que a condemnava a degredo para a

Ilha de Fernando. Essa commutação custara-lhe o restante dos seus

haveres, absorvidos pelo cego de Landim. Quando sahiu do carcere, e se

viu roubada pelo amigo de seu marido, e reduzida a mendigar, denunciou

ao chefe da policia a cumplicidade de Monteiro no negocio das notas.

Fortunato de Brito conveio que o seu agente era infame maior da marca:

mas fazia se mister que tivesse aquelle tamanho para dar pela barba á

corpolencia da corrupção. O cego de Landim gosava a inviolabilidade de

mal necessario.

A extorsão feita á viuva divulgou-se e acerbou os antigos odios contra

Pinto Monteiro. De mais a mais, elle tinha offendido o espirito dos

estatutos, que eram obra sua. Os consocios acharam irregular e menos

honesto que o seu presidente levasse o egoismo á extremidade de

reivindicar só para si direitos de propriedade commum. Toda a

propriedade alheia era d'elles todos, pelos modos. Alguns d'estes, mais

penetrantes, incutiram no phalansterio a suspeita de que o chefe tivesse

intelligencias com a policia. Um mulato de grandes brios, notavel

capoeira, e muito summario nos processos d'aquella especie, fez lampejar

o aço da sua faca e declarou que ia anavalhar o redenho do cego.

Quando esta scena tumultuaria se passava na taverna do João Valverde, na

rua do Catête, Pinto Monteiro e Amaro Fayal já estavam a bordo da galera

_Tentadora_, que velejava para o Porto.

Novelas do Minho · 第 30 / 56 题