Vinte annos volvem-se tão depressa, que eu, n'este salto que o leitor
vai dar, não me despenderei a encher-lhe de phrases o passadiço. O
melhor é fechar os olhos e saltar.
Vinte annos! Que são vinte annos?
Nós, ainda hontem eramos rapazes, ó velhos! Este _hontem_ gastou vinte
annos a resvalar para _hoje_. Que se passou n'este lapso fugitivo de
nossa vida entre a juventude e a velhice? Nada. Temos a nosso lado
filhos homens, e netos que ámanhã serão homens: e, todavia, parece que
ainda hontem com um raio de sol e com o perfume de uma roza compunhamos
o sorriso da loira mãe d'estes homens, que está hoje velha! Ainda hontem
eramos poetas pelo amor, affoitos pela aspiração, valentes pela
mocidade. Que grandes coisas devem ter-se passado n'esse instante de
vinte annos, em quanto esperavamos outras que nunca vieram! A scismar
sempre com o futuro não o viamos passar. A final parou; e deixou-se
conhecer porque marchava pesado, tardio e triste: era a velhice. Chegou
de repente; escureceu-se-nos tudo como se as alegrias nos fulgissem do
seio de um relampago. Esta treva foi instantanea, e gastou vinte annos a
condensar-se. Que são vinte annos?
* * * * *
Em 1872, hospedou-se no hotel de Famalicão um brazileiro a quem os seus
creados negros e brancos chamavam simplesmente o _sr. commendador_. Não
viera recommendado a algum dos barões da terra. Enviára adiante a
recommendação da parelha das orças, da caleche, dos lacaios.
Representava quarenta annos florentissimos. Basto bigode, suissa
ingleza, espesso cabello levantado em novêllos crespos que lhe
escantavam a fronte. Espaduas amplas, á proporção das pernas que se
moviam rijas e bazeadas em pés infalliveis como os alicerces das
pyramides dos pharaós. Trajava a primor, de preto, com um ar de pessoa
que passeava de tarde na estrada de Braga, com o intento de ir á noite a
_Covent-Gard_, ao _Royal Italian Opera_. Fumava sempre uns charutos que
vaporavam os aromas das recamaras das sultanas. Na meza, era de uma
elegancia frugal que desmentia a procedencia. Olhava para o bife com um
fastio tal e tamanha tristeza, que fazia lembrar Tertuliano, quando,
meditando na metempsycose, olhava para o boi cozido, e dizia: «Estarei
eu comendo meu avô?»
Com quanto nem elle nem creados declarassem os seus nomes e appellidos,
os jornaes do Porto haviam annunciado a chegada do maior capitalista de
Pellotas, o sr. Manoel José da Silva Guimarães.
Nada de bioquices com o leitor: ahi está Belchior Bernabé, o engeitado.
* * * * *
Ao terceiro dia de hospedagem em Famalicão, o commendador cavalgou,
acompanhou-se do lacaio, e seguiu na direcção de S. Thiago d'Antas.
--Vai vêr a igreja que fizeram os moiros... Calculou outro commendador
da terra, e assim o communicou a mais dois commendadores, attribuindo
aos moiros a egreja dos cavalleiros de Rhodes.
--Hade ser isso--confirmou o mais correcto.--Este homem é magico. O
Guimarães do hotel já lhe perguntou se era nascido cá no Minho, e elle
respondeu...
--Que não tinha a certeza--concluiu o outro--Tem grande têlha!
--Hontem, na feira, estava elle a vêr vender duas juntas de bois para
embarque. Quem nas vendia era o Silvestre Ruivo...
--Bem sei, o irmão d'aquelle padre João que morreu ha tres annos de
apoplexia.
--É isso. O telhudo, que não falla com ninguem, poz-se a conversar com o
Silvestre a respeito dos bois: depois levou-o á hospedaria, e deu-lhe de
jantar. O Silvestre esteve depois commigo, e vinha espantado de vêr dois
criados de casaca, bota de verniz, gravata branca e luvas, a servir á
meza.--E em que fallaram vossês?--perguntei-lhe eu. Disse-me que o
commendador lhe perguntára coisas e tal _et coetera_ cá da provincia, e
que ficára de ir a casa d'elle vêr a córte dos bois. Magico ou não?
Olhem vossês! Vae ver os bois!
--Se fosse aqui ha dez annos atraz--disse o commendador Nunes--valia-lhe
a pena de ir ver as bezerras... Vossê ainda conheceu as Ruivas, a
Antonia e a Chica, ó sôr Leite?
--Ora, se conheci! Que fatias!...
--Que diriam vossês--volveu o sr. Nunes--se conhecessem a Maria que eu
m'alembro de ver antes de ir em o Rio... Que pimpona! Apanhou a um
engeitado...
--Já ouvi contar esse caso.
--Vossê não sabe nada, perdôe. O engeitado entrava em a escola do Zé
Batata quando eu sahia já prompto. Depois, lá tive noticias no Rio que a
moça dera em droga. Elle foi prezo para soldado e desertou; e ella nunca
mais ninguem lhe poz o olho no lombo. Uns dizem que está n'um
recolhimento de convertidas, outros dizem que está fechada, desde que
isso foi... hade haver, João Nunes, hade haver, bons vinte annos...
--Isso é que é pai de fêbras!... fez muito bem!--applaudiu o mais
devasso.
* * * * *
Entretanto, chegava o commendador Guimarães á porta do ex-capitão de
ordenanças Silvestre Lopes, d'alcunha o _Ruivo_. Era esperado.
No patamal da escada que conduzia á vasta quadra chamada «a sala dos
padres» estava o lavrador, entre tres clerigos venerandos por sua idade:
devia contar qualquer d'elles bastantes annos sobre setenta.
O commendador deu as redeas do seu alazão ao lacaio, subiu
prazenteiramente, apertando a mão a Silvestre, e cortejando os padres.
--V. ex.^a não se perdeu nos atalhos?--perguntou o lavrador.
--Quem tem bôca vai a Roma--respondeu o commendador; e referindo-se aos
padres:
--São seus manos, sr. Lopes?
--Dois são; o outro é o sr. abbade.
O hospede encarou-o muito a fito, e perguntou:
--É abbade ha muitos annos n'esta freguezia?
--Vim para aqui parochiar em 1828, na idade de vinte e cinco annos;
tenho setenta e seis: conte lá v. ex.^a.
--Está aqui ha quarenta e quatro annos feitos--accrescentou o padre
Bento Lopes.
--Justamente,--confirmou o clerigo que baptisára Belchior, o engeitado
exposto na manhã de 6 de janeiro de 1833.
O commendador não via n'aquelle ancião um só traço do corpulento abbade.
Conversaram sobre a guerra do Paraguay, sobre a emigração dos minhotos,
sobre o estado florescente da industria e agricultura portugueza. O
lavrador, apoiando o commendador, encarecia a nossa prosperidade com
este conciso, pezado e até certo ponto bicornio argumento:
--Vejam o dinheirame que dão os bois!
Estava a meza posta no sobrado immediato, e á cabeceira da meza a
cadeira destinada ao hospede.
--V. ex.^a vem para aqui--disse o lavrador apontando lh'a com urbana
homenagem.--Ninguem mais se sentou n'essa cadeira desde que morreu nosso
irmão mais velho, padre João. Faz agora trez annos que morreu d'um
estupor...
--De apoplexia--emendou o padre Hippolito.
--Tanto faz--replicou Silvestre.--Estava a dizer missa, e cahiu redondo
no altar.
--É de crer que a sua alma estivesse preparada para esse
trance--observou o commendador em tom compungido.
--Era bom padre--disse o abbade, talhando á faca os canudos flexuosos da
sôpa de macarrão--isso era, coitado! Deus o tenha á sua vista!...
--Está aqui toda a sua familia, sr. Silvestre?--perguntou o hospede,--Se
bem me recordo, disse-me na feira de Villa Nova que tinha filhos...
--Filhos, não, meu senhor. Tenho duas filhas.
--Trez...--emendou o abbade.
--Duas!--retorquiu desabridamente o lavrador coruscando-lhe os olhos
irados.
--Ah! sim... duas... eu agora estava distrahido...--remediou o
indiscreto.
E o commendador não perdia a minima expressão das quatro physionomias.
--Tenho duas filhas,--repetiu o pai de Maria.--Uma está casada fóra com
um proprietario, já tem um filho em Braga para padre, e outro a
doutorar-se em Coimbra. A outra está em casa. Não quiz cazar, e já está
a caminhar para os trinte e sete annos. É a que governa a caza.
Este incidente passou. O commendador mostrava-se profundamente
abstrahido. Comeu pouquissimo, e quasi nada disse. Apenas, terminado o
supplicio da exposição do peru, do lombo de porco de vinho e alhos, da
perna de vitella e do leitão, pediu licença para retirar-se, pretextando
a precisão de estar cedo em Villa Nova.
O abbade acompanhou-o, porque o brazileiro mostrou desejo de ver umas
sepulturas notaveis de que certo romance dava noticia, no adro da egreja
de Santa Maria.[5]
Os outros padres quizeram ir tambem; mas o commendador dispensou-os com
delicada violencia, promettendo voltar a vêl-os mais de espaço.
O abbade, mostradas as duas campas vasias, convidou o ricasso a subir á
sua pobre rezidencia.
--Com muita satisfação, sr. abbade; sympathiso com v. s.^a, quero mesmo
grangear a sua amisade.
--Ó excellentissimo senhor! que valho eu, pobre velho, e pobre abbade da
mais pobre das abbadias!... Aqui gastei a vida, já agora quero que esta
terra, onde dormem tantos que baptisei, tantos que casei, me coma tambem
os ossos.
O padre estava lugubremente palavroso. Havia ali uma flôr de poesia
elegiaca a entreabrir-se um pouco borrifada de mau vinho do Porto.
Sentia-se expansivo.
Pensava o brazileiro em occasionar conversa ácerca do incidente,
acontecido ao jantar, sobre se eram duas ou tres as filhas do Silvestre.
Não foi preciso rodeios. O padre endireitou logo com o assumpto n'estes
termos:
--O Silvestre é bom sujeito, bom parochiano, amiguinho dos seus
interesses, isso sim; mas d'esse peccado, se o é, está o inferno cheio.
Porém, excellentissimo senhor, tem este homem um modo de pensar a
respeito da honra que se não conforma com a religião da caridade e do
perdão. V. ex.^a havia de notar a ira com que elle disse que as suas
filhas eram duas, quando eu, por descuido, disse que eram trez. Conheci
logo que andei mal, e emendei contra a minha consciencia; mas em fim, eu
estava a jantar em casa do homem, estava ali um cavalheiro respeitavel,
a civilidade mandou-me tapar a boca...
--Sim... eu notei que v. s.^a, cedendo ao numero das duas, fel-o
constrangidamente.
--Pois por isso mesmo que eu percebi que v. ex.^a notou, é que devo á
minha posição de padre esclarecer a verdade diante do sr. commendador.
Se quer ouvir a historia... mas v. ex.^a disse que tinha pressa...
--Não, senhor. Queira dizer. Tenho muito tempo...
O abbade sahiu á janella, e disse para fóra ao creado que fosse levar a
egua pela fresca ao mato. Depois, fechando o trinco da porta da saleta,
continuou, fazendo sentar o hospede em uma commoda cadeira de estôfo, e
occupando elle outra de pregaria com espaldar de moscovia.
--O Silvestre não tem duas filhas, mas tres. A mais velha, que eu
baptisei ha trinta e nove annos, chama-se Maria. Esta rapariga, aqui ha
vinte annos, andou de amores com um engeitado que por aqui se creou em
casa de uma santa creatura, que o encontrou no mato da egreja, pelo lado
de fóra das campas que v. ex.^a viu ha pouco. O diabo do rapaz desviou-a
do bom caminho e pôl-a na mais misera situação que em taes casos é
possivel. Emfim, a rapariga sentia-se mãe, quando um dos padres que já
lá está na presença de Deus, deu com elles em palestra de noite. D'ahi a
dias, o Belchior (chamava-se assim o engeitado), foi d'aqui preso para
Braga, e deitaram-lhe as correias ás costas. Passado pouco tempo, o
soldado desertou, e foi para onde estivesse seguro. Agora fallemos da
moça. O pai moêu-a bem moída de pancadaria, fechou-a no sobrado de uma
tulha, e mandava-lhe dar todos os dias duas tijellas de caldo, dois
pedaços de pão, e uma caneca d'agua. Dois ou tres mezes depois,
appareceu-me aqui um calafate de Villa do Conde, que vinha a ser cunhado
da tal Bernabé que creára o Belchior, e disse-me que sua cunhada morrera
de saudades do desertor que não podia mais voltar á patria; e que, antes
de expirar-lhe, pedira que viesse ter commigo, e me rogasse, pelo divino
amor de Deus, que fizesse eu todas as diligencias por haver á mão o
filho do seu Belchior, que elle calafate se encarregava de o levar para
Villa do Conde. A fallar a verdade, era empreitada de costa arriba
metter-me eu n'este delicado negocio com o Silvestre; mas pedi forças a
Deus e fui-me ter com elle. Contei-lhe o estado da filha, e offereci-me
para dar á creança, quando nascesse, o unico destino possivel em
harmonia com os interesses da terra e os da divina religião da caridade
de Jesus, que mandava chegarem-se a Elle as creancinhas. O homem ouviu,
praguejou, berrou que ia matar a filha; e eu então, resolvido a tudo,
disse-lhe sem temor que se elle matasse a filha iria eu accusal o de
matador de duas vidas. O homem teve medo, e concluiu afinal que a
creança me seria entregue; mas que a rapariga nunca mais veria sol nem
lua... Estou massando o sr. commendador...
--Pelo amor de Deus! estou interessadissimo n'essa triste historia...
--Tristissima, excellentissimo senhor! Eis que nasce um rapaz, e quem
assistiu ao nascimento e m'o trouxe foi uma viuva serva de Deus, minha
confessada, que vivia aqui na casa que comprára á tal Bernabé. Fui eu
que lhe pedi que merecesse a divina graça por esta obra de misericordia.
Já cá estava então em caza de uns parentes o calafate á espera do filho
de Belchior. Entreguei-lh'o, e lá foi o pequeno para Villa do Conde,
depois que o baptisei com o nome de seu pai.
--E esse menino...--atalhou o commendador arrancando a pergunta das
ancias que a debil vista do abbade não divisava.
--Eu lhe conto, meu senhor. Dois annos depois, morreu o calafate, e eis
que a creada d'elle m'o remette para aqui, dizendo que o patrão assim
lh'o ordenara, para que eu o entregasse ás irmãs e sobrinhas d'elle que
moram ahi n'uma freguezia ao pé. Chamei as taes mulheres, mostrei-lhes a
creancinha, dei-lhes o recado do calafate fallecido, e ellas responderam
que não queriam saber de historias; que tomasse o avô e a mãe conta
d'elle, que eram bem ricos. A serva de Deus que morava, como já disse a
v. ex.^a, na casa que fôra da tia Bernabé, tomou conta do engeitadinho.
Havia n'isto mysterio profundo! O pai fôra creado na mesma casa onde era
creado o filho, ambos sem pai nem mãe! Desgraçadamente, quando o pequeno
ia nos seis annos, morre a bemfeitora de morte repentina. Os parentes
sacudiram d'ali o mocinho, e o Silvestre comprou a casa, botou-a abaixo,
e fez uma córte de bois. Ali d'aquella janella póde v. ex.^a vêr a córte
onde foi a casa das duas santas mulheres. É aquella que branqueja por
entre aquelles dois carvalhos.
O commendador foi á janella, reconheceu os arredores da extincta casa da
sua infancia, enxugou as lagrimas, voltando as costas ao abbade, e
tornou a sentar-se em frente do ancião.
--Que havia eu de fazer-lhe?--proseguiu o abbade--trouxe para aqui o
pequeno, e mandei-o á escola.
--Muito bem! muito bem!--exclamou arrebatado o brazileiro--muito bem,
honrado homem!--e apertou-lhe a mão, levando-a aos labios.
O abbade retirando a mão humida de lagrimas, disse commovido:
--Fiz o meu dever, senhor! Oxalá que esta boa acção me seja descontada
nas muitas ruins que tenho na minha vida...
--E depois, o pequeno...--atalhou pressurosamente o hospede.
--O pequeno, eu lhe digo... Agora tornemos a fallar da mãe... Trez annos
e meio esteve fechada no tal carcere. Via apenas uma irmã que lhe levava
o alimento. Depois, esteve em perigo de vida, e pediu um confessor. Fui
eu o chamado á falta de outro. No acto da confissão, disse-lhe que o seu
filho estava em minha casa, e que passava por ser meu parente. Outros,
sr. commendador, diziam que elle era meu filho e da mulher que o
amparára. Perdoei aos calumniadores, para que Deus me perdôe os
escandalos que dei: era justo que me diffamassem porque eu dei azo a
isso com os desatinos da minha mocidade. Maria, quando soube que tinha
seu filho vivo, ganhou forças, quiz viver, e venceu a doença. Dizia-me
ella: «se eu viver, hei de ter alguma coisa d'esta caza, e o que eu
tiver será do meu filho; e, se eu morrer, ficará pobresinho de pedir.»
De pedir não--disse eu--porque vou mandar-lhe ansinar um officio logo
que elle chegue á idade de poder trabalhar. Perguntou-me então se eu
sabia alguma coisa do Belchior. Fóra da confissão, respondi-lhe que o
calafate muito em segredo me dissera que elle fôra para o Brazil. No
primeiro anno, o calafate recebia a miudo cartas do Belchior, que o
rapaz escrevia á mãe adoptiva, cuidando que ella estava viva. O calafate
escrevia para lá que a Bernabé tinha morrido; e o rapaz a escrever
sempre á Bernabé. A opinião do calafate era que o Belchior lá andasse
pelos sertões onde nunca lhe chegavam as cartas idas de Portugal.
Depois, o calafate morreu. O que se passou d'ahi em diante não sei. Foi
isto o que eu contei a Maria. Por fim, espalhou-se por ahi que o
Belchior tinha morrido; e eu aproveitei a noticia, quer fosse verdade
quer não, a fim de vêr se o pai da pobre moça lhe dava alguma liberdade.
Fallei n'isto ao Silvestre, e, em nome de Deus o fiz responsavel pela
privação em que a tinha da missa e dos sacramentos. Tanto lhe bati á
porta da consciencia dura, que consegui deixal-a confessar-se e ouvir
missa uma vez de trez em trez mezes. Pouco e pouco, obtive que ella
viesse á egreja de quatro em quatro semanas, e n'essas occasiões já ella
sabia que o seu filho era o menino que me ajudava á missa. Uma vez
entrou na sachristia, não estando mais ninguem na igreja; abraçou-se no
filho e desfez-se em lagrimas. Deixei-a, coitadinha! mas depois pedi-lhe
que não tornasse a fazer tal imprudencia, por que, se alguem a visse,
não tornaria a sahir do seu carcere. O rapaz, quando fez quatorze annos,
lia e escrevia correntemente. Mandei-lhe ensinar o officio que
escolhesse: quiz ser carpinteiro, para o que tinha muita habilidade.
Essa cadeira em que v. ex.^a está sentado fez-m'a elle. Veja que bonita
peça! pois ainda não tinha dado um anno ao officio quando fabricou essa
obra que parece feita no Porto!
--E está aqui n'esta freguezia o tal Belchior?--perguntou o brazileiro.
--Não, meu senhor, está trabalhando em Braga; mas vem aqui todos os
mezes ver a mãe no dia em que ella se confessa.
--Todos os mezes?
--Sim, sr., na primeira segunda feira de cada mez. D'hoje a oito dias,
se eu viver, hei de ouvil-a de confissão, e dou de jantar ao meu
Belchior.
--D'hoje a oito dias? Que prazer v. s.^a me dava, sr. abbade, meu
honrado e querido amigo, se me consentisse que eu contemplasse na sua
igreja essa martyr a rever-se no seu pobre filho! Seria possivel?
--Pois não é?! appareça v. ex.^a na segunda feira ahi pelas seis horas
da manhã, que é quando eu a confesso e lhe dou a communhão. Vê a a ella,
e vê o rapaz que é ainda quem me ajuda á missa, e ministra o jarro da
agua á mãe, depois que ella communga.
Eriçaram-se os cabellos ao commendador por uma especie de etherisação,
mescla de enthusiasmo, de arroubamento e de tristeza. Apertou ao seio as
cans do ancião, e beijou-o na fronte. O padre encarava-o com assombro, e
elle murmurava:
--A sua historia arrebatou me!... Eu sou um homem que tenho a loucura da
admiração pelas acções grandes. Se até hoje eu não acreditasse em Deus,
cahiria de joelhos a seus pés, confessando-o!
--Quem é que não acredita em Deus, meu amigo?!--perguntou o velho
enxugando as lagrimas.
* * * * *
A segunda feira aprazada raiou com todas as pompas e musicas e perfumes
de uma aurora de julho. O commendador Guimarães chegara de Braga, por
volta da meia noite, e ordenara ao escudeiro que o chamasse ás quatro
horas da manhã. Superflua recommendação. Não dormira. Antes do alvorecer
da manhã, chamara elle os creados, e mandara apparelhar os cavallos.
Ás cinco e meia da manhã estava elle encostado a uma das campas do adro
de Sancta Maria de Abbade. A distancia, escarvavam os cavallos
insoffridos na terra barrenta de um montado calvo. O sol verberava em
uma das frestas da igreja. Os pardaes pipilavam na oliveira, n'aquella
mesma que, trinta e nove annos antes, déra, nas suas raizes recurvas á
flôr da terra, um berço empapado de chuva, áquelle homem que ali se
sentia feliz até ao extremo em que as palpitações de jubilo laceram o
coração como as farpas da agonia. As andorinhas chilreavam em redor da
cornija da igreja, e, esvoaçando-se por longos circulos, cortavam de
notas embaladas pelas ondas da luz o grande hymno, que na terra se
completa com as lagrimas dos que podem choral-as de gratidão á divina
providencia.
Elle, Belchior Bernabé, chorava essas lagrimas bemditas, contemplando a
terra onde a tecedeira pobre se ajoelhára para o levantar regelado até
ao peito, e resuscital-o com um milagre da caridade.
Ás cinco horas e trez quartos ouviu passos que soavam na trempe de ferro
que forma o limiar do adro. Correu pressuroso ao cunhal da igreja, e viu
uma mulher com um capote aconchegado da face, encaminhando-se para a
porta transversal. Simultaneamente chegava, transpondo de salto a
parêde, um rapaz de boa presença, vestido de azul, com o seu chapeo de
felpo branco na mão. O commendador parou, encostado ao cunhal. A mãe e o
filho abraçavam-se, quando deram tento d'aquelle homem estranho.
--Quem é?--perguntou Maria.
--É figurão!--disse elle--Eu vi aquelle homem em Braga com o sr. deão e
entraram no paço do sr. arcebispo. Alli abaixo na bouça estão dois
cavallos, e um creado de libré. Hão de ser d'elle...
--Queres tu ver que é um commendador que esteve em caza de teu avô faz
hoje oito dias? Tua tia viu-o, e disse-me que elle era assim de bigode e
suissas...
--Que estará elle a fazer aqui?
--Elle olha para nós?! perguntou a mãe olhando-o de travez por entre a
fresta formada pelo capote em que se encapuzava.
--Não tira os olhos da gente... e parece que está assim a modo de quem
quer perder os sentidos!
--Estará doente!... Ainda bem que ahi está o sr. abbade...
--E lá vai fallar com elle, minha mãe...
--Então é o mesmo que eu te dizia.
--Belchior!--chamou o abbade--pega lá a chave, e entrem que eu já vou.
O moço foi buscar a chave, beijou a mão ao padre, e abaixou a cabeça ao
senhor desconhecido. O commendador, com os olhos cravados n'elle,
movia-se n'um balanceado arfar de peito: era o esforço que punha em
resistir aos impetos que o impulsionavam para o filho. O carpinteiro
abriu a porta e entrou com a mãe na igreja, dizendo-lhe:
--Aquelle sujeito estava a olhar para mim de um modo que parecia querer
fallar-me...
O brazileiro, depois que respondeu ao comprimento do abbade,
perguntou-lhe:
--V. s.^a terá duvida em me ouvir de confissão...
--Com muito contentamento, sr. commendador. Quando quer v. ex.^a?
--Agora. Desejo receber a communhão juntamente com a sua confessada.
--Pois seja agora.
E dizia entre si o padre: «Este homem foi alumiado pela graça divina, e
Deus nosso Senhor escolheu o mais peccador dos seus servos para
instrumento da sua misericordia com outro peccador!»
Entravam no arco da egreja de passagem para a sacristia. O abbade
curvou-se ao ouvido de Maria que fazia oração no altar do Sanctissimo, e
disse-lhe:
--Demora te um pouquinho que eu vou confessar uma pessoa:--E, chamando
Belchior:--Vae a caza, abre o segundo gavetão da commoda, e traze a
toalha grande de rendas que está engomada, para ministrar a communhão
áquelle senhor que vou confessar.
* * * * *
O Commendador sahiu da sacristia meia hora depois, e foi ajoelhar no
primeiro degráo do altar-mór. Maria, como visse sahir o abbade e
acenar-lhe para o confessionario, ergueu-se, passou rente do
desconhecido, com os olhos no chão, e a gola do capote apanhada nas
faces.
Belchior tinha vindo com a toalha de folhos encanudados que desdobrava e
ageitava para o sagrado ministerio. Depois, entrou na sacristia com o
galheteiro, renovou a agua e o vinho, dobrou e sacudiu a toalhinha de
modo que a porção ainda não maculada servisse ao lavatorio. De vez em
quando, sahia ao limiar da sacristia, e quedava-se a olhar para o
commendador, que se conservava de joelhos, com a cabeça abaixada,
amparando a fronte nas mãos erguidas.
O abbade sahiu do confessionario a manquejar trôpego, amparando-se á
teia gradeada de um altar. O filho de Maria Ruiva foi dar-lhe o braço, e
o ancião queixava-se de dores rheumaticas nos joelhos e nos rins. A
confessada subiu até á capella-mór, e ajoelhou atraz do brazileiro,
lendo actos de contricção e a ladainha.
O abbade começára a revestir-se para ir celebrar, quando o commendador
se levantou, e de passagem para a sacristia, relançando os olhos a
Maria, pôde ver-lhe o rosto alumiado pela restea refracta do sol que
lampejava palpitante atravez da fresta, na superficie metalica de uns
tocheiros doirados. Não a conheceria, se a encontrasse. Aquelle rosto
havia sido purpurino, assetinado como as petalas das rosas humidas pelo
rosciar das formosas madrugadas. Tivera as curvas boleadas e lizas da
saude, da força, dos atritos do ar forte e do sol que enrubesce a
epiderme e colóra o sangue.
Estava magra, angulosa e livida como as santas esculpturadas sob a
inspiração do martyrio; mas esta maceração era a formosura divinal da
alma, era a sanctificação da mulher aos olhos d'aquelle homem.
Entrou na sacristia, e com tremula voz disse ao padre:
--Sr. abbade, peço-lhe que antes de subir ao altar, chame aqui a sua
confessada.
--Aqui?!--perguntou o abbade com espanto--Ella é muito acanhada...
Presumia que o commendador desejava simplesmente vêr de perto a mulher
cuja desgraçada historia o commovêra.
--Não importa--volveu o brazileiro--é urgente que ella aqui venha antes
que o sr. abbade nos dê a communhão.
--Sim?!--volveu o padre--Pois bem...
E, sahindo ao umbral da sacristia, chamou a filha de Silvestre.
Ella entrou com timidez e assombro. O filho, que suspendia ainda nas
mãos as dobras da alva que o padre estava vestindo, largou-as, deixou
pender os braços, e empedrou na expressão immovel da curiosidade.
N'este lance, o commendador apresentou ao abbade meia folha de papel
sellado, e pediu-lhe que a lesse. O padre pediu a Belchior que lhe
chegasse os oculos, pôl-os tremulamente, acercou-se de uma fresta, e,
lendo primeiro a assignatura, disse:
--É a assignatura de sua eminencia o sr. arcebispo de Braga?...
Conheço-a...
Ergueu a vista ao alto da folha, e leu:
_Concedemos ao abbade de Santa Maria d'esta nossa diocese, no concelho
de Villa Nova de Famalicão, que possa, sem previa leitura de banhos,
celebrar o sacramento do matrimonio entre os contrahentes de maior
idade_...
Aqui, o abbade estacou, abriu demasiadamente os olhos, acertou os oculos
na baze do nariz, premiu as palpebras com o dedo pollegar, repôz de novo
os oculos, e disse ao filho de Maria:
--Ó rapaz, que nomes são estes que estão n'este papel?
O carpinteiro leu: _entre os contrahentes de maior idade Belchior
Bernabé, filho de pais incognitos, e Maria Lopes, filha legitima de
Silvestre Lopes e_...
--Que é isto?--exclamou o abbade--Santo Deus! que é isto?
--Belchior Bernabé--disse o rapaz com o mais candido assombro--sou
eu!...
--Belchior Bernabé é teu pai, meu filho!--exclamou o commendador,
abraçando-o; e, ao mesmo tempo, encurvando o braço pelo collo de Maria,
puxou-a para o peito, tocou-lhe com os labios ardentes como as lagrimas
na face, e murmurou-lhe soluçante:--Aqui me tens, minha desgraçada
Maria! aqui está o pobre engeitado!...
Ella expediu um grito estridente como o da alegria dos encarcerados, dos
condemnados á eterna deshonra que viram inopinadamente golphar-lhes na
treva a luz do ceo e a rehabilitação da honra. Queria reconhecel-o,
tateando-lhe as faces; mas faltou-lhe a claridade dos olhos e a lucidez
da rasão. Ella pedia luz, pedia a Deus que a não deixasse morrer, e
desfallecia pendente do pescoço de Belchior.
* * * * *
A felicidade de Maria era santa: custára vinte annos de affrontas
soffridas com paciencia, sem revolta contra a implacavel barbaridade do
pai, nem contra a immobilidade das forças divinas. Esperara em Deus,
esperara sempre. Dizia ella que sonhara aquillo mesmo--a vinda de
Belchior, e a restauração da sua honra.
Contava-o ella ao abbade, e ao esposo, e ao filho, á porta do templo: e
elle, o ancião, com as rugas da face luzentes de lagrimas, dizia:
--Fui eu quem vos baptisou, e quem vos casou, meus filhos. Agora,
enterrai-me vós que eu não tenho ninguem.
* * * * *
Belchior Bernabé exigiu como dote de sua mulher o estabulo dos bois
edificado sobre os alicerces da caza onde fôra recolhido e aquecido ao
seio da tecedeira. Ali, onde foi cabana de candura e oração, está hoje
um palacete com as mesmas coisas divinas, accrescentadas pela felicidade
do amor. Vê-se de longe o palacio do commendador Belchior; e lá ao pé,
no interior do palacio, as pompas da architectura e das decorações
desapparecem deslumbradas pelo que ha de immortal nas obras humanas: a
virtude. Lá está o abbade resignatario de Santa Maria entrevado: mas
todas as manhãs é transferido da cama para a cadeira que lhe fez o seu
Belchior Junior, aquelle rapaz, que não resiste á vocação de
carpintejar, e está fabricando uma nova cadeira de rodas e molas para o
seu velhinho.